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        <title><![CDATA[Ninguém morre sem ser anunciado - Medium]]></title>
        <description><![CDATA[um livro de quarentena - Medium]]></description>
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            <title>Ninguém morre sem ser anunciado - Medium</title>
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            <title><![CDATA[capítulos 60 e 61(final)]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Ceci]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 11 Jun 2020 16:31:55 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-06-11T19:09:12.116Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>[capítulos 55–59 <a href="https://medium.com/umlivro/cap%C3%ADtulos-55-59-ac66b669e9dc">aqui</a>]</p><h4>60- galvanizado</h4><p>eu fui para o atacama. eu fui para chapada diamantina. eu fui ver a aurora boreal. aprendi a soldar. olhei um urso de longe. tive uma discussão importante com especialistas sobre canhotos serem grupo de risco pra acidentes domésticos. tomei um coca e meu olho começou a lacrimejar. aproveitando, chorei. desisti de frases enquanto estava falando elas.</p><p>eu posso ter imaginado tudo na minha cabeça, que é uma jeito de fazer as coisas acontecerem mais rápido e melhor. só que também é importante por a mão nas coisas. sei que a gente não está morrendo quando põe a mão na testa de alguém pra ver se tá com febre. ou quando estrala algum osso, não o seu, o do outro. a gente só morre mesmo quando sai do banho e lembra que é sólido. excessivamente sólido. tem muita água, dizem, mas só dá pra ver quando ela vai embora de você.</p><p>sabe quando você acabou de transar e quer que a pessoa desapareça por um segundo, pra curtir aquilo que tá correndo no seu sangue? ou quando você está triste e quer trocar de sangue com alguém. qualquer um serve? eu sei.</p><p>a concretização da fantasia é sempre um risco. se eu fosse uma pessoa organizada, eu colocava todas elas em uma planilha, criava uma escala pra medir mais ou menos o nível do risco. pouco, moderado, grande, estupidez. mas eu só vou experimentar todas elas e não aprender nada com isso porque tem uma avareza em aprender as coisas. é um jeito de querer segurar tudo e não soltar.</p><p>estou escrevendo de uma casa. eu não vou escrever mais, porque eu fui na estréia de uma peça de teatro ontem. escrever é só ensaio. a estréia não é bem uma estréia, porque já tá tudo pronto. não tem mais como errar. só tem como encontrar erros.</p><p>no fim tem o endereço, porque existe só um tanto que você pode se manter em casa até perceber que costumava ser mais feliz, sem saber se isso realmente é possível. você pode vir me visitar. mas dependendo do dia eu não vou deixar entrar.</p><h4>61- o fim em maiúsculas agora.</h4><p>Bom, essa livro foi certamente um desafio pra mim. A relação atribulada com uma narradora que não se comunica de forma objetiva, a constante desconfiança de que informações importantes me foram ocultadas -prejudicando, em muito, meu trabalho - personagens que não evoluem de forma alguma, só ficam parados lá, obstruindo qualquer possibilidade de narrativa, são apenas algumas das dificuldades pelas quais passei ao longo desses meses.</p><p>De todo modo, estou com a consciência tranquila de que fiz tudo que estava dentro de minhas capacidades profissionais. Mas não posso deixar de lamentar que saio desse trabalho pior do que entrei. Tentei ao máximo não especular, hipotetizar demais e, em algumas passagens, pode-se até argumentar que “inventei” algum fato ou diálogo de menor importância. Julgo, entretanto, essa palavra grave demais para descrever uma atitude pragmática de minha parte diante de obstáculos que, muitas vezes, me parecerem incontornáveis. Correndo o risco de soar um pouco dramático aqui, digo, com total franqueza, que só quem já passou pela experiência de estar escrevendo um livro que parece que não vai terminar nunca, de modo que você ficará preso nele pra sempre, pode julgar alguns de meus atos. E, para esses, peço que façam o julgamento por escrito, para que eu possa prazerosamente ignorá-lo.</p><p>ps: escrever essa história foi uma distração nessa quarentena. eu imaginava que a pandemia estaria minimamente controlada antes de eu terminar o livro. hoje olho para a paula do passado com candura, pois é uma versão feliz de mim mesma, que poderia jurar que essa situação não duraria por um longo tempo e traria consequências tão pesadas e duras. a sensação de impotência é grande e a gente tenta aliviá-la como pode. esse foi o meu jeito. obrigada por ter acompanhado até aqui. ❤</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=e8bd2c42192c" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/umlivro/cap%C3%ADtulos-60-e-61-final-e8bd2c42192c">capítulos 60 e 61(final)</a> was originally published in <a href="https://medium.com/umlivro">Ninguém morre sem ser anunciado</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[capítulos 55–59]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Ceci]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 11 Jun 2020 16:30:10 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-06-11T16:30:10.407Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>.</p><h4>55- maciço</h4><p>Seu Fernando subitamente ficou muito ocupado. Muito ocupado para resolver o problema de Gisele. Ela, então, decidiu que resolveria a situação do único jeito que passou pela sua cabeça: derrubar a porta à machadadas. Seria eficaz. Seria dramático. Ela não teria uma porta depois, mas não estava pensando tão adiante assim. E se lhe ocorresse essa iluminação, em um súbito de planejamento estratégico, diria a si mesma “um problema de cada vez”.</p><p>Outra coisa que passava ao largo da mente de Gisele era a percepção do esforço necessário para derrubar uma porta à machadas. O primeiro golpe produziu um pequeno lascado na tinta branca da porta e uma pontada aguda em alguma parte das costas de Gisele, que o porteiro prontamente diagnosticou como só podendo ser o ciático. O segundo golpe não ocorreu. É possível que uma ambulância tenha sido chamada nas imediações do prédio naquele dia, mas, segundo as anotações do livro de registro do condomínio, nada do que foi descrito nesse capítulo, de fato, aconteceu.</p><h4>56- pintar barcos de azul</h4><p>[Davi]Quando a Gisele finalmente conseguir abrir aquela porta, acabou a Ceci Schrödinger. A gente vai ter a certeza que ela está viva ou morta.</p><p>[Ana]Assumindo que ela ainda está lá dentro. Pra mim, ela fez aquela merda lá com a super bonder e foi embora.</p><p>[Davi] E aí a gente tá manufaturando essa carta à toa então? Pra passar debaixo da porta e a Gisele pegar quando abrir?</p><p>[Ana] Você sabia que é perfeitamente possível odiar alguém sem ficar obcecando com o que ela pensa de você, né?</p><p>[Davi] Não é assim que começa a dobrar. É ao contrário.</p><p>[Ana] Qual ao contrário?</p><p>[Davi] Como assim qual ao contrário?</p><p>[Ana] O contrário nesse mesmo lado do papel ou o contrário no avesso do papel?</p><p>[Davi] Assim ó,</p><p>[Ana] Não precisa tirar da minha mão. É só apontar. Ou falar.</p><p>[Davi] Quando a gente era criança, entrava em um <em>flow</em> fazendo esses barquinhos de papel. Depois pintava. E depois não se importava nem um pouco que aquilo não ia ter utilidade nenhuma. Dá saudade dessa sensação. Ceci dava todos os dela pra mim. Eu me apegava ainda por uns dias, depois jogava fora. Se não jogasse, não tinha porque fazer mais.</p><p>[Ana] A gente vai precisar deixar ele dobrado para passar debaixo da porta. Será que vai ter o mesmo impacto?</p><p>[Davi] Vai.</p><p>[Ana] Se bem que depois que passar pela porta não está mais em nossas mãos. É igual um bom documentário. Você joga umas pistas lá e torce para o espectador decodificar do jeito certo. Mas muito raro. Geralmente ele entende tudo errado mesmo.</p><p>[Davi] Tranquilizador.</p><h4>57-plástico é poroso porque não era pra existir</h4><p>Se Gisele um dia conseguir entrar no seu próprio apartamento, ela vai encontrar muito macarrão. Latas de tomate pelado, azeitonas pretas e verdes, parmesão em barra. Pipoca. Latas de cerveja no chão, ao lado do sofá, o último do Mutarelli. Na bancada da cozinha, um montinho com todas as contas e <em>flyers</em> de propaganda que foram passados por baixo da porta, sem uma ordenação específica.</p><p>E uma carta no formato de um barquinho de papel pintado de azul com lápis de cor. Se tinha sido ou não lido por Ceci, nunca ocorreria a Gisele se perguntar. Mas ela leria antes de jogar fora no cesto de lixo, junto com os <em>flyers</em>, o último do Mutarelli, a pipoca e as latas que, ao caírem na cesta, espalhariam uma mistura de água com cinzas de cigarro que molharia tudo, atravessaria o saco e de lixo e sujaria o cesto, fazendo com que Ceci fosse lembrada ainda essa última vez por Gisele. Pressupondo que ela não encontrasse a própria ainda morando lá.</p><h4>58 -uma carta que se desdobra em uma barco que se desdobra em um papel com vincos</h4><p>Uma vez você disse assim pra mim: “meu amigo, isso não é uma conversa. Se eu quisesse te ouvir eu falava ‘conte-me sobre você’.” Mas a verdade é que, mesmo falando, você não fala. Fica dando voltas e o assunto de verdade nunca sai do seu corpo. Outro dia, eu estava andando na pracinha e vi aqueles troncos que parecem que estão enferrujados, sabe?! Eu vi aquilo e imediatamente já sabia como você ia reagir. Ia ficar alisando o tronco, inconformada que a textura não harmonizava com o visual, e a amizade é isso. Um conhecimento do outro que se acumula em você. Um inventário. O meu de você teria meia dúzia de coisas só e o resto estaria com uma lona preta em cima, protegido por umas faixas de mantenha distância. Fico tentando adivinhar o que está lá embaixo pelo relevo que faz na lona e já nem quero mais saber o que tem embaixo, eu só quero queimar essa bosta dessa lona igual a gente tacava foco em qualquer folhinha seca no chão e eu via o fogo espelhado no seu olho bem aberto - Davi</p><p>Quando eu choro, você fica me fazendo rir e desregula todo ritmo do choro. Você nunca chorou na minha frente, mas uma vez realmente parecia que ia acontecer. Sua boca tremeu um pouco e você foi beber água. Quando voltou, me perguntou se eu também achava que água fervida na chaleira elétrica mata a água. Acho que aquele copo matou seu choro. Eu já filmei muita gente chorando. Já dei água quando queria que parasse. Quando eu te conheci, eu não sabia se ia gostar, mas fui deixando rolar. Como se fosse uma bola, e não uma cadeira. -Ana</p><h4>59 — uma versão mais realista da carta</h4><p><strong>(Escrever coisas difíceis à mão molha pontualmente o papel. Se você não está acostumado, assusta mesmo)</strong></p><p>Tá todo mundo sem comer de tristeza. Sua tia achou uma terapeuta legal pra você, uma de verdade, que pode receitar remédios e tem muita amostra grátis. Eu não queria tomar remédio também, mas já aceitei que vou tomar para o resto da vida e depois que você começa não parece mais grandes coisas -Davi</p><p>Sai daí, passa em casa a gente aluga um carro e passa esses seus últimos seis meses viajando. Sentido norte/nordeste. Eu não vou te perguntar nada e você não precisa explicar. Já falei com aquele amigo em Caraíva. Tá tudo certo. -Ana</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=ac66b669e9dc" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/umlivro/cap%C3%ADtulos-55-59-ac66b669e9dc">capítulos 55–59</a> was originally published in <a href="https://medium.com/umlivro">Ninguém morre sem ser anunciado</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[capítulos 50–54]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Ceci]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 09 Jun 2020 23:05:36 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-06-09T23:05:36.083Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>.</p><h4>50- O som chega antes da chuva se você não está embaixo dela</h4><p>-Só trocar a fechadura mesmo, seu Fernando. Esse problema da pia a gente vê depois.</p><p>-Por que a dona Gisele quer trocar? Tá com problema?</p><p>-Ah, bandidagem, né, seu Fernando.</p><p>-Dentro aqui do condomínio?</p><p>-Isso. grupo armado paracondominial. Pessoal da maçonaria…</p><p>-Doidera…</p><p>-Mais café?</p><p>- Quero pra tirar o gosto do primeiro da boca. Levei um susto. Você não avisou que tava sem açúcar.</p><p>-Porque não é pra por mesmo.</p><p>-Convida as pessoas pra entrar e faz maldade com elas, nunca vi.</p><h4>51- pessoas sem perguntas</h4><p>Os pais de Ceci entendiam uma porta trancada. Comunicar emoções usando objetos e partes do mobiliário faz sentido. Remonta ao homem pré-histórico abanando gravetos para o colega para dizer que está morrendo de frio e foda-se que é pra economizar lenha, ele vai fazer uma fogueira.</p><p>Pode-se afirmar que essa é uma forma de comunicação absolutamente ineficaz, e a utilização do índice de indeterminação do sujeito junto ao verbo é cortesia de minha parte, porque sim, <em>eu</em> <em>posso</em> afirmar que essa é uma forma de comunicação absolutamente ineficaz. Impressionante como não há nada no mundo ineficaz o bastante a ponto de nenhum ser humano achar que pode ser uma boa ideia.</p><p>Para o limitado cérebro não-onisciente, estratégias ineficazes tem um brilho só delas. Ligar o forno na cozinha em um dia particularmente frio pra ver se aquece um pouco a sala, que fica do lado da cozinha; usar uma folha mole para se abanar no calor, fazendo movimentos tão vigorosos para tentar alavancar o ar que aumenta ainda mais a temperatura corporal; pensar positivo…são ideias vaga-lume que quando apagam você percebe que não faz sentido estar acampando em um lugar com tantos insetos.</p><p>A porta fechada, para Ceci, queria dizer “ignore minha existência no mundo”, para seu pai, um convite para entrar e para sua mãe, motivo suficiente para fazer um sopinha e aproveitar a porta aberta pelo pai, enfiar a cabeça dentro do quarto, a mão direita no batente da porta e colocar uma empolgação um pouco desmedida no anúncio “fiz sopinha”.</p><p>Quando Davi contou que Ceci se trancou para dentro do apartamento de Gisele e ninguém sabia por que, bom, eles pensaram em alguns motivos. Se algum deles estava certo, impossível dizer, porque não falaram em voz alta. Eu poderia tentar interpretar os gestos e relatar aqui pra vocês com um tom seguro, frases curtas na voz ativa, ou simplesmente inventar que eles disseram alguma coisa, já que não tem como saber se eu estou falando a verdade ou não, mas não é meu estilo.</p><h4>52 — Pessoas perguntas</h4><p>[Gisele-Ceci] 15 ligações perdidas.</p><p>[Ana-Ceci] O porteiro disse que você pegou a sopa que a sua mãe fez. Foi você mesmo, porque ele viu na câmera. É antiético comer a sopa dela e não responder as mensagens.</p><p>[Davi-Ceci] Você sabe que a Gisele vai Trocar a fechadura amanhã, né? Ela me ligou hoje. Foi horrível.</p><p>[Seu Fernando-Ceci] Dona Gisele nunca vi tão brava! Ficou ruim pra mim.</p><p>[Ana-Davi] Alguma resposta?</p><p>[Davi-Ana] Uma foto do pé dela de plano de fundo e um joinha em primeiro plano</p><p>[Ana-Davi] Acabou de mandar uma foto. Só o pé. Foi você que deu meu telefone para Gisele?</p><p>[Bruno-Ceci] Pela foto posso ver que seu pé ainda está conectado ao seu corpo, então se você está em uma situação de sequestro, deu sorte, pegou pessoas boas.</p><p>[Mãe-Ceci] Filha, seja lá o que você tenha feito, a gente está aqui por você. A Gisele ligou aqui hoje. Foi horrível</p><h4>53–um número quebrado de escrúpulos</h4><p>Ana não gostava de Bruno que não gostava de Davi que não aguentava nem ouvir a voz de Gisele. O que é absolutamente natural. Não gostar de alguém. Pra gostar é preciso que algo raro aconteça: aquela molécula fantasma que habita a região entre ombro direito e mais ou menos a altura do olho, e serve pra guardar tudo que você gosta e, principalmente, o que não gosta, precisa ter formato, tamanho e coloração parecidos com o da molécula fantasma de outra pessoa. Mas só um pouco. Como se as circunstâncias já não fossem desfavoráveis o bastante, as duas moléculas fantasma precisam perceber, de comum acordo, que existe uma vaga semelhança ali. E, como todos sabem, acordos não são o forte desse Universo.</p><p>O que mais acontece é uma delas: “eu to dizendo que vai dar certo” e a outra: “não sei não, tá esquisito isso”. Nesse cenário, a primeira pessoa, a que quer muito encontrar uma semelhança, geralmente é mau caráter. O mau caráter costuma ser uma pessoa ótima, só tem essa coisinha errada.</p><p>Ninguém é mau caráter nessa história, foi só pra exemplificar que se você gosta muito de alguém, grandes chances de ela não ter escrúpulos. Nenhum deles. Bom, se quisermos ser detalhistas, talvez Gisele seja um pouco desonesta com o caixa do condomínio, Bruno com a declaração do imposto de renda da hamburgueria, Davi, quando deu a entender que o porteiro do condomínio teria aumento só pra fazer ele trabalhar mais, Ana quando se mostra muito simpática com seus entrevistados para depois transformá-los em uma piada quando está editando o documentário. Ceci não sei bem o que está fazendo dentro daquele apartamento (ou da vida), mas não pode ser bom.</p><h4>54- Âmbar</h4><p>-Dona Gisele? Então, não tem como trocar a fechadura, não. Como eu vou te explicar…Tem uma bola de super bonder em volta da fechadura. Ela tá parecendo aquele mosquito do filme parque dos dinossauros, sabe? Dentro de uma gosma empedrada… Não vai ter jeito, vou ter que quebrar tudo. Só que eu não to com as minhas ferramentes aqui comigo, não achei que ia precisar. Vou ter que voltar outro dia.</p><p>-[Inaudível porque seu Fernando afastou o telefone do ouvido enquanto acariciava as folhas de uma violetinha esquecida no parapeito da janela do corredor].</p><p>-Acho que quarta eu consigo dar uma passadinha aqui (já desligando o telefone, colocando o vasinho embaixo do braço e pensando no solzinho só luz que bate no beiral da janela da cozinha de manhã.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=bb759f15b4f0" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/umlivro/cap%C3%ADtulos-50-54-bb759f15b4f0">capítulos 50–54</a> was originally published in <a href="https://medium.com/umlivro">Ninguém morre sem ser anunciado</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[capítulos 44–49]]></title>
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            <category><![CDATA[mulheres-que-escrevem]]></category>
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            <category><![CDATA[ficção]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Ceci]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 30 May 2020 20:44:36 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-06-13T20:30:03.765Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>.</p><h4>44- indócil</h4><p>Ceci não tinha nenhum grande motivo para deixar Alfredo na casa dos pais — pelo menos nenhum que ela tenha compartilhado em voz alta com alguém, ou comigo, telepaticamente.</p><p>Alfredo, desde os primeiros meses de vida, tinha concluído que sua salvação estava na rotina. fazer uma coisa depois da outra o impediria de ficar prostrado na frente do portão da casa, contemplando a intangibilidade de uma crise existencial. Levou até a troca de sua dentição para formatar uma rotina diária que harmonizasse perfeitamente com a rotina da casa. Se algo o impedisse de cumpri-la, sua semana inteira estava arruinado. Passaria os dias observando Geraldo, da casa da frente, mandando áudios pelo celular, em uma ladainha falso-revoltada que fascinava Alfredo.Tinha algo ali que lhe dava aquela rara sensação de prazer misturado com desgosto. Podia ser o tédio pela vida, que costuma acometer Geraldo quando não tem nada acontecendo dentro deles. Podia ser outra coisa. Intangível.</p><p>Acordava todos os dias às sete, junto com o carro do vizinho. Se o carro não acordasse, em caso de feriados e fins de semana ou doença na família, Alfredo acordava às sete mesmo assim. O carro era só um sinal de confirmação, mas, se não viesse, tudo bem. Usava então seu latido do tipo dócil — curto, mais uma empurrada de ar do que uma vocalização, para acordar Ceci. Isso poderia demorar um tempo, mas, a palavra <em>cachorro</em>, na língua de várias civilizações extraterrestres quer dizer “animal que não desiste. Nunca. Em hipótese alguma.” Só teve um caso reportado de desistência em toda a história da caninidade, mas envolvia um violão, um cantor gaúcho e uma carninha que caiu no chão.</p><p>Depois que Ceci saia da cama, era um biscoitinho, um solzinho matinal, a dona Teresa e seu filho — uma criança insuportável que gostava muito muito muito de andar de bicicleta — , cozinha, sala, bolinha, bolinha,bolinha, acordar assustado com um barulho da televisão, acordar às sete.</p><p>Alfredo tinha acabado de se adaptar à sua nova rotina no apartamento de Gisele, menos corrida, mais frugal. um sol desmaiado na sala de manhã, sem biscoitos, porque Ceci esqueceu de pegar da casa de seus pais e depois esqueceu de comprar, e com biscoitos um tempo depois, trazidos por Ana, mas de marca diferente. Ele comia, por gentileza, mas mais devagar, para deixar claro sua aversão ao novo. E uma bolinha que quicava em 6 cantos &amp; quinas diferentes antes de rolar pra baixo do rack e ficar 2 dias lá. Tinha feito inimizade com um cachorro de algum andar de baixo, e gritava “mestiço”, quando ele começava a latir às cinco da tarde- provavelmente o horário que seu dono estacionava o carro no estacionamento do prédio. Alfredo mesmo era um mestiço, mas o outro cachorro nunca saberia disso, pois os horários de passeio não coincidiam.</p><p>Alfredo estava só começando a se acostumar com tudo isso quando foi passado do colo de Ceci para o de sua mãe, sem nenhum grande motivo.</p><h4>45- Intranquilo</h4><p>Davi estava trabalhando quando recebeu a mensagem de Ceci. Não leu na hora porque estava no meio de um treinamento com os funcionários do condomínio. Era sua segunda semana como sindico, portanto, muito cedo pra dizer, mas parou de sentir aquele medo de ir dormir à noite. Não pediria por mais nada durante alguns meses. Lembrou de como quase não conseguiram fazer o curso porque Ceci acreditava que fazer as coisas com antecedência era o vício e a virtude do apavorado.</p><p>-Que horas a gente vai la se matricular no curso?</p><p>-A hora que eu sentir que é a hora certa da gente ir.</p><p>A hora certa foi um dia depois do fim das inscrições. Eles precisaram mandar um email implorando para conseguir fazer inscrição depois do prazo. 10 minutos depois, Davi recebeu uma notificação de email. “São eles”, pensou. Era Ceci: “vai dar certo, Davi. acredita em mim, não em você.”</p><h4>46- Incompactável</h4><p>Ana estava editando o documentário enquanto ouvia música. Uma playlist aleatória, que se misturava com os depoimentos do documentário, e a colocavam em um estado de semi-focalização, oscilando entre a música e os diálogos. Isso atrasava -em muito- o trabalho, mas ela só sabia fazer assim. Ana só sabia fazer de um jeito muitas coisas, como filmar de grande angular, não avisar as pessoas que já estava filmando e só filmar gente que a atraía. Para o espectador distraído, os filmes de Ana preenchiam todos os requisitos de um filme normal. Mas eles também funcionavam muito bem como prateleiras, nas quais Ana enfileirava todas suas relações, uma do lado da outra. Isso não quer dizer que ela tenha se relacionado com todas as pessoas que apareceram em seus documentários. Com algumas delas a atração se resolvia na hora da gravação, porque às vezes sexo é conversa. Com outras, se resolvia depois, porque às vezes sexo é sexo. Usar qualquer tipo de expressão artística para prolongar o sexo ou o amor -o que vier primeiro- é a unica característica humana que causa inveja aos outros animais. E aos executivos. Ana não estava pensando em nada disso quando recebeu a mensagem de Ceci.</p><h4>47-Incorrigível</h4><p>Gisele estava lendo um livro de auto-ajuda quando o celular vibrou. Ela lia com um caderninho do lado, fazendo anotações que, se você tentasse comparar com o que estava escrito no livro, ia parecer que ela estava lendo outro livro. E, se você estivesse atravessando um dia sem nada particularmente urgente pra fazer e resolvesse folhear o caderninho de Gisele inteiro, ia ficar com a impressão de que ela não estava lendo livros de auto-ajuda, e sim Schopenhauer. Mas sem entender muito bem:</p><p><em>Todo mundo é sensível a alguma coisa. O que te comove provavelmente não comove mais ninguém. PORQUE NÃO É REAL.</em></p><p><em>As pessoas não melhoram. Elas só param de piorar por um tempo e depois volta tudo ao normal. Estamos aqui para nos repetir.</em></p><p><em>Não faça nada para o outro sem antes deixar claro que vai cobrar isso depois. Se preferir, diga: </em><strong><em>estou te ajudando agora e espero que você me ajude depois.</em></strong></p><p><em>Tem que parar com isso de achar que gente boa é burra. ela não é burra. Só tem uma compreensão limitada da realidade porque ainda não teve seu coração vandalizado por terceiros.</em></p><h4>48-Inspecionado</h4><p>Enquanto lia a mensagem de Ceci, Bruno fazia testes para um novo lanche, sem pão. Ter a vida tão ganha a ponto de poder se ocupar exclusivamente com temas microscópicos é a atitude humana que provocou, no passado, a grande cisão entre humanos e animais. Poucos sabem, mas o elo que os humanos consideram perdido, mas que na verdade foi muito bem escondido pelos animais em uma caverna na Nova Zelândia é um pão doce. A iguaria culinária foi a gota d’água que levou os animais a perderem o respeito pelos humanos enquanto espécie. Se macacos indonésios encontrassem Bruno no meio da estrada um dia, sozinho, indefeso, passariam o dia brincando de “bobinho” com seus pertences.</p><h4>49- Flautim</h4><p>Seu Fernando estava tomando café e colocando água no bebedouro de passarinhos quando recebeu a mensagem de Ceci, a qual ele não viu, porque seu celular na verdade é o celular de seu filho, que passa as mensagens pra ele. Ele acreditava que, assim, ia se aborrecer menos com as mensagens do celular. De fato, dava certo. As mensagens continuavam inoportunas, mandonas e “quando você pode vir?”, mas agora eram transmitidas pela voz adolescente de seu filho. Ele gostava de ouvir qualquer coisa na voz do filho. E gostava do tom impaciente, sem dúvidas, o mais apropriado para ler aquelas mensagens.</p><p>-Pai, uma pessoa aqui que você marcou como “sindicagiseleaoutra” te mandou uma mensagem: “Seu fernando, preciso que você venha aqui trocar a fechadura do apartamento da Gisele amanhã. ela que pediu. Quando você pode vir?”</p><p>-Responde que entre hoje e amanhã.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=b28f88ad10f7" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/umlivro/cap%C3%ADtulos-44-49-b28f88ad10f7">capítulos 44–49</a> was originally published in <a href="https://medium.com/umlivro">Ninguém morre sem ser anunciado</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[capítulos 41, 42 e 43]]></title>
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            <category><![CDATA[medium-brasil]]></category>
            <category><![CDATA[mulheres-que-escrevem]]></category>
            <category><![CDATA[ficção]]></category>
            <category><![CDATA[mulheres-na-literatura]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Ceci]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 27 May 2020 00:02:30 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-06-01T23:57:27.178Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>.</p><h4>41- livre às quartas</h4><p>Ceci se deu alta das sessões com sua tia Carol. Não foi uma conversa difícil. Assumindo, claro, que 4 áudios de 2 minutos cada, dois dela, dois da tia, podem ser incluídos no termo guarda-chuva “conversa”. Os áudios começavam com um tom alto, agudo, frases curtas . Depois iam virando hesitações, reticências, até morrer em nada, num súbito de desapertar o botão e ir fazer qualquer outra coisa.</p><p>No caso de Carol, o qualquer outra coisa era ligar para a sua irmã, sem saber de antemão o que ia falar. A necessidade de comunicar algo específico, que geralmente precede o ato de ligar para alguém, não era a mola propulsora de nenhum dos telefonemas de Carol, que ligava só pra conversar mesmo.</p><p>Para Ceci, era sentar no sofá e ficar olhando para o nada, tentando fazer sentido de tudo por um ângulo que a favorecesse. Um ângulo que não era exatamente um ângulo e sim um punhado de linhas tortas convergindo em um fio elétrico, usado para iluminar um grande letreiro em neon escrito “Ceci tem sempre razão”.</p><p>Carol passaria 40 minutos sem quebrar a corrente de um assunto-puxa-outro da ligação com a sua irmã. Ceci faria mais um furo na colcha-protetora de sofá de Gisele, logo ao lado de uma mancha de cor café fraco que não chega bem a destruir o tecido mas não tem como tirar porque não foi café que caiu ali, e queimou mesmo.</p><p>a televisão não está no mudo. está no volume 4, que é insuficiente para ouvir frases completas, mas se você imprimir um esforço cognitivo relevante, consegue associar movimento labial à ruído, formando palavras semi-inteiras. só acompanho novela assim. é impressionante como não dá pra entender nada da intenção da cena se você tira o som. não tem braços auxiliando na pontuação das frases, não tem perambulação confusa pelo cômodo, não tem interação maníaca com os móveis e objetos do cenário.tem mesa de escritório, mesa de jantar, só que com café da manhã, e uma vendinha. é o resumo de qualquer história mal contada.</p><h4>42: e foi</h4><p>-são as pequenas promessas, sabe. pactos que você faz com você, com os outros e com os cachorros com bolinhas na boca. vão tomando seu lugar no mundo e só te deixam um pé. pra mim, é o esquerdo, que passa o tempo todo pressionando um pedal imaginário, a versão pé daqueles loucos de filme norte-americano que ficam andando pra lá e pra cá em uma sala branca.</p><p>eu já automatizei tudo. as coisas que eu falo quando estou feliz, os dois dias fazendo tudo certinho pra o resto da semana acordando meio zonza, com a boca seca e te ligando pra falar que você deveria criar um lanche novo, sem pão. ficar sentada equilibrando a cadeira pra frente, com as duas pernas de trás no ar. meu pai ficava horrorizado. minha mãe tentava argumentar. eu fazia escondido. agora é vicio, mania. coisa que eu não consigo mais não-fazer,</p><p>-mas outro dia você quis transar comendo um pão com manteiga e eu falei <em>ok.</em></p><p>mas também estoco memórias boas pra usar quando escurece.</p><h4>43: tá ouvindo? são os intervalos</h4><p>-se de repente você tá lá, filmando um documentário sobre música, entrevistando um músico, e ele te desafia a compor uma música de improviso e você não pode falar não porque já negou uma outra coisa que ele pediu antes, se fizer de novo fica chato, então você não tem escapatória. é compor a música ou morrer afogada em um dilúvio de constrangimento social. qual música você faria?</p><p>-tema?</p><p>-extorsão. mas não pode usar a palavra extorsão. e tem que parecer que é sobre amor, senão não é vendável. vai vai vai!</p><p><em>-você manda eu faço</em></p><p><em>você manda eu faço</em></p><p><em>iô</em></p><p>-é um <em>rap</em>?</p><p><em>-você manda eu faço/ me puxa pelo braço/ mas não é bem um abraço.</em></p><p>-não tem necessariamente que rimar, mesmo que seja de fato um<em> rap</em>… isso aí que você está fazendo com boca e abanando a mão.</p><p><em>-me leva para casa/ me mostra onde eu moro/ fala que é sério/ mas meio sorrindo/ me empurra para perto /e solta no ar/ tudo que eu não quero/ eu posso te dar …</em> repete essa frase 3 vezes, cada vez mais baixinho. agora você</p><p><em>-eu lembrei agora/você disse que não dava tanto medo assim/ eu fingi que eu fingi que não entendi / já fui e voltei de você e é claro que eu me perdi /foi olhando pra cima que eu vi/dependendo do dia você sempre esteve ali.</em></p><p>e aí vem o refrão:</p><p><em>eu não sei te tratar diferente e se eu tento é pior você me olha esquisito e eu desisto da frase no meio…</em>entra<em> </em>uns gemidos sem sentido. por dois minutos e meio. no improviso)</p><p>-eu acho que você fugiu do tema um pouquinho. por “pouquinho”, quero dizer “completamente”.</p><p>-é da perspectiva do extorsor. ele se apaixonou pelo extorquido. se musicar vira <em>hit</em>.</p><p>-nossa, mas é bem ruinzinho. estou te falando de um lugar de carinho.</p><p>Não conseguir fazer as coisas na frente de outra pessoa é sempre a pior coisa que poderia te acontecer. Ceci tinha outros medos também.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=f0e1e57121dc" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/umlivro/cap%C3%ADtulos-41-42-e-43-f0e1e57121dc">capítulos 41, 42 e 43</a> was originally published in <a href="https://medium.com/umlivro">Ninguém morre sem ser anunciado</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[capítulos 37, 38, 39 e 40]]></title>
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            <category><![CDATA[mulheres-na-literatura]]></category>
            <category><![CDATA[mulheres-que-escrevem]]></category>
            <category><![CDATA[medium-brasil]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Ceci]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 22 May 2020 22:07:28 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-05-22T22:07:45.153Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>.</p><h4><strong>37: viga</strong></h4><p>apartamento é só um jeito a mais de ser chato. gisele mora em um apartamento. bruno mora em um apartamento. ana mora em um apartamento. davi mora em um apartamento. eu sempre estou entrando e saindo do mesmo lugar. não dá pra fazer uma pergunta difícil dentro de um apartamento e esperar uma resposta honesta. aquela que faz o mundo parecer um lugar perigoso, mesmo você estando sentado no sofá com a tv ligada. mas eu tento mesmo assim.</p><p>-gisele, você acha que uma pessoa que vai morrer cedo precisa honrar seus compromissos com pessoas que não vão morrer tão cedo assim?</p><p>-bruno, o tempo passa mais rápido pra quem tem pressa ou pra quem não tem?</p><p>-ana, aquele monte de zero que tem no meio dos códigos dos boletos, você acha que não quer dizer nada? tipo um relacionamento de livro, que só importa o começo e o final, e não o meio?</p><p>-davi, você acha que os animais também desanimam da vida às vezes? e como eles não tem essa necessidade de comunicação, vem e passa, toda hora?</p><p>uma pessoa dentro de um apartamento nunca está do avesso. nem responde diferente de uma parede branca. você tem que pegar a pessoa desarmada. virando a esquina, desviando do quebrado na calçada, emocionado com a criança no portão. mas você também tem que fechar a mão no punho e apertar bem forte, pra reposta não te derrubar, bem ali, no meio de todo mundo.</p><h4><strong>38: de costas para a tarde</strong></h4><p>-sabe, seu fernando, a ana aqui acha que quase todo problema de casa dá pra resolver com super bonder.</p><p>-ela tem razão.</p><p>-seu fernando! era pra você ficar do meu lado.</p><p>-eu fico do lado da razão.</p><p>-e o passarinho, lá? teve que quebrar mesmo?</p><p>-só metade.</p><p>-seu fernando, seu nome em inglês seria mister fernândez e seria espanhol.</p><p>-chique.</p><h4>39: pronação</h4><p>quando o olho para de tremer eu saio correndo. até uma plantação de cana e fico andando por lá. depois corro de novo. depois ando. sento. deito. tem uma pedra grande que eu subo em cima só porque consigo. vou passando e ouvindo os lagartos fugindo para dentro da plantação, estralando os pés de cana. se o barulho é tão pequeno que parece longe, é passarinho.</p><p>eu sinto que a qualquer instante agora, eu vou me conciliar com tudo. mas então eu me distraio.corto umas pedaços de cana vou cortando em pedaços menores e antes de acabar eu já terminei. deito e fico pensando se algum animalzinho está me observando, intrigado. ela morreu? tá dormindo? é seguro passar perto? engraçado que as formigas parecem que não tem esses conflitos. será que elas não distinguem coisas vivas de coisas mortas? pensando se alguma vez vi uma formiga carregando um pedaço de plástico e inclinada a achar que sim, mas eu só uso a memória a meu favor, então não dá pra confiar.</p><p>o que é preciso pra fazerem uma estátua de você? algo que fique. que dure mais. não dá pra contar com a memória das pessoas.patrimônio imaterial nenhum sobrevive. vai virando outra coisa, é pior que morrer.</p><p>uma tarde, almoçando, vão ver uma criança separando a comida que sobrou no prato em montinhos distantes um do outro para dar a impressão de que não deixou muito, e vão lembrar de mim. do mesmo jeito que não pediram pra lembrar de nada, eu vou embora sozinha. vive-se em microsegundos na mente das pessoas. depois elas morrem também e você morre pra sempre. esse lagarto que corre desesperado, não é possível que ele seja mais bem resolvido do que eu.</p><p>a gente nasce com muita água e depois vai reduzindo. eu já sou repetição. puxo ar para falar e saem as mesmas 12 palavras.</p><p>ainda bem que a gente dorme. todo dia.</p><h4>40: Patchouli</h4><p>-eu quero saber como eu vou morrer</p><p>-mas seu nome não está no sistema dos ETs, lá?</p><p>-tá, mas eu quero uma abordagem mais artística.</p><p>-eu não sou artista, sou vidente.</p><p>-isso.</p><p>-ok, vou pedir para você não me interromper porque eu perco a conexão astrológica. e não fica concordando excessivamente com a cabeça ou arregalando os olhos, porque me desconcentra. tenta ficar sóbria. como se eu tivesse pintando um quadro de você e se ficar se mexendo o quadro vai ficar horroroso e eu não vou devolver seu dinheiro.</p><p>-…</p><p>-eu vejo pessoas na sua vida. pessoas amadas. elas estão chorando. mas nem todas. tem um sujeito com um capacete de bicicleta na cabeça — mas sem fechar a travinha do pescoço — que só está existindo ali. tem uma mulher gritando. não, duas. não, três. você vai fazer uma passagem tumultuada. vai errar o caminho. ficar errando. vai ficar nesse plano por um tempo.</p><p>-assombrando as pessoas?</p><p>-sim. assombrando as pessoas. passando rápido de um cômodo para outro, batendo porta, essas coisas. porque não é tanto que vão sentir sua falta. é você que vai sentir falta dessas pessoas. menos do menino com o capacete, esse eu não sei porque apareceu aqui.</p><p>-ele aparece nos lugares mesmo.</p><p>-você precisa concluir essas relações ainda em vida.</p><p>-dar um fim nelas?</p><p>-isso. e morrer sozinha.</p><p>-mas eu <em>vou</em> morrer sozinha ou eu <em>devo</em> morrer sozinha? porque tem diferença. metafisicamente falando. em outras palavras: é o meu destino ou é uma escolha?</p><p>-já me explicaram isso uma vez, mas eu não lembro agora.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=6776aa1cf959" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/umlivro/cap%C3%ADtulos-37-38-39-e-40-6776aa1cf959">capítulos 37, 38, 39 e 40</a> was originally published in <a href="https://medium.com/umlivro">Ninguém morre sem ser anunciado</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[capítulos 34, 35 e 36]]></title>
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            <category><![CDATA[ficção]]></category>
            <category><![CDATA[mulheres-na-literatura]]></category>
            <category><![CDATA[mulheres-que-escrevem]]></category>
            <category><![CDATA[medium-brasil]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Ceci]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 18 May 2020 16:26:48 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-06-02T00:17:10.550Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>.</p><h4><strong>34- não tente fazer absolutamente nada em casa</strong></h4><p>Gisele estava certa. A confusão envolvendo um encanador de nome Fernando e os apartamentos 34 e 44 existia mesmo. Ceci rapidamente foi tragada pelo vórtice de antigos rancores, notificações judiciais e um potencialmente senil, porém simpático, auto-proclamado encanador. Ela já tinha tentado entender a situação 3 vezes e concluiu que pelo menos duas versões do problema corriam paralelamente. A do seu Fernando e a do apartamento 44. Na verdade, existia uma terceira versão, do apartamento 34, mas ela optou por descartá-la, porque 3 parecia um número excessivo de versões.</p><p><strong>A versão do apartamento 44: </strong>Não existe vazamento. Caso exista, não é originado no módulo residencial de número 44, segundo F&amp;M&amp;H&amp;FMH Advogados.</p><p><strong>A versão do seu Fernando: </strong>Pode ser que haja um vazamento. É preciso quebrar no mínimo quatro apartamentos para descobrir se existe. E mais cinco para descobrir a fonte.</p><p>“Seu” Fernando não parecia ser uma pessoa nem remotamente razoável. Sua percepção de clima era toda descompassada — camisas de manga longa em dias quentes, de manda curta em dias de massa de ar polar. Mais da metade de suas frases não eram completadas apenas com palavras, e sim com um “porque tá vendo ó” e uma marretada na parede mais próxima.</p><p>-Tá vendo essa mancha aqui? Tem que começar a quebrar e ir seguindo o vazamento até a fonte.</p><p>[Dono do apartamento 34] Mas não tem um método mais moderno para acompanhar vazamentos? menos destrutivo?</p><p>[Seu Fernando com um sorriso completo] Não.</p><p>eu entendo a aflição do morador. o rastro de demolição do seu fernando provavelmente vai vitimar o passarinho feio em estilo aquarela que toma toda a parede principal da sala. me surpreende a disposição que o ser humano tem de criar coisas feias. se dar ao trabalho de criar uma coisa feia. o estoque inesgotável de desenho feio contida na mente humana…</p><p>[dono do apartamento 34] pássaro desenhado me acalma.</p><p>[eu] o de verdade, não?</p><p>[dono do apartamento 34 acariciando a parede] eu gosto desse efeito aquarela também .</p><p>[seu fernando, impassível] quer tirar uma foto antes de eu quebrar?</p><p>[dono do apartamento] você não é muito nova pra ser síndica?</p><p>[eu] vou morrer cedo então eu conto a minha idade em anos de cachorro.</p><h4>35- podendo, confunda.</h4><p>“sua mãe quando vem com essas histórias de sofrimento infantil aí, pura ficção. ela tinha até piscina em casa. naquela época só os ricos tinham piscina”. “acho que ainda hoje, pai. a gente, por exemplo, não tem piscina”. “é, enfim, era ricona, sua mãe”.</p><p>“o alfredo já se adaptou ao apartamento da gisele? porque ele adora uma rotina, acho uma crueldade isso que você fez, arrancar ele assim da rotininha dele aqui de casa. pega sol lá de manhã?”. “nossa, lembra da georgina, que odiava rotina? eu tentava instaurar um horário de brincar e ela sabotava. toda vez”. “não deixava de ser uma rotina”.</p><p>“seu pai voltou com os remédios, mas ele não quer que você saiba, então não fala que eu contei”. “mas por que você contou, então?”. “porque você sabe como é seu pai”. “como?”. “na fala as coisas…olha o alfredo que bonitinho no sol. tá com saudades do sol, alfredinho?”.</p><h4>36: hipoteticamente, claro.</h4><p>Felicidade é método. E ceci nunca teve um horário certo de acordar. Pegar a vida no susto, rimando de improviso, às vezes funcionava muito bem. Às vezes não. Mas tudo bem, porque…</p><p>eu não sou de reclamar. tenho profundo respeito pelas limitações da experiência humana na terra. gosto dos pequenos gestos do universo. a galinha que da um mini-voo e aterrissa com precisão em um toco de árvore, o meu braço que se eu esticar ao máximo alcança o copo que está na cômoda e o cigarro acabando que eu te passo sobrando certinho o último trago.</p><p>-Se você tivesse que escolher entre eu e esse outro cara, se tivesse que escolher, não, olha pra mim, se não tivesse saída…</p><p>-Sabe, Ana, quando você abre mão de ser uma pessoa competitiva, todo um leque emocional se abre em sua vida.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=5c77ba8dcc6a" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/umlivro/cap%C3%ADtulos-34-35-e-36-5c77ba8dcc6a">capítulos 34, 35 e 36</a> was originally published in <a href="https://medium.com/umlivro">Ninguém morre sem ser anunciado</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[capítulos 31,32 e 33]]></title>
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            <category><![CDATA[literatura-brasileira]]></category>
            <category><![CDATA[ficção]]></category>
            <category><![CDATA[mulheres-que-escrevem]]></category>
            <category><![CDATA[mulheres-na-literatura]]></category>
            <category><![CDATA[medium-brasil]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Ceci]]></dc:creator>
            <pubDate>Sun, 17 May 2020 15:58:05 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-06-01T23:49:56.247Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>.</p><h4>31- acordou pra ir ao banheiro e matou a pessoa amada</h4><p>a insônia das quatro da manhã é o mais próximo que se pode chegar do fundo do oceano. sem cilindro. é também o melhor horário para escrever listas urgentes.</p><p><strong>legumes no seu melhor:</strong></p><p>mandioquinha e cará — purê</p><p>berinjela e abobrinha — empanada</p><p>chuchu — assado</p><p>quiabo — grelhado</p><p>batata doce — chips</p><p><strong>piores maneiras de falar eu te amo:</strong></p><p>corrigindo uma palavra ou pronúncia</p><p>dando um soquinho no braço</p><p>discordando de tudo que ela fala</p><p>falando “eu te amo” às 4 manhã enquanto ela dorme profundamente.</p><p>-…o que?</p><p>-tá chovendo.</p><h4>32: crianças e cachorros não acreditam em deus</h4><p>Ceci gostava de dizer que seu livro favorito de criança era <em>Barcos de papel</em>, da Coleção Vagalume.</p><p>-meu livro favorito de criança é <em>barcos de papel</em>…</p><p>Mas na verdade era a coleção do Cachorrinho Samba.</p><p>-porque as crianças perdidas encontram uma maneira elegante de serem encontradas. que não tem nada a ver comigo.</p><p>Porque o cachorrinho Samba tinha de uma maneira elegante de se perder. E isso também não tinha absolutamente nada a ver com ela.</p><h4>33: variações de tensão</h4><p>o plug do liquidificador da gisele é incompatível com a tomada da cozinha. ela colocou um adaptador que, por motivos de design de produto que me escapam, não fica firme na tomada. davi tem o mesmo problema.</p><p>quando ele perdia o contato, passava as tardes tentando completar listas que inventava só para ter alguma coisa pra pesquisar na internet. a de hoje é de <em>tours </em>virtuais em igrejas históricas.</p><p>davi selecionou as igrejas, ordenou elas seguindo algum critério que não lembro se foi cronológico ou geográfico, mesmo eu implorando para ser do melhor para o pior em qualidade técnica, e foi me guiando pela lista o dia inteiro.</p><p>capela sistina, igreja de são francisco, basílica do santo sepulcro, nossa senhora do carmo, catedral de santo basílico, catedral de cantuária, chega uma hora que borra tudo e parece que você está vendo cômodos diferentes de uma mesma mansão de celebridade excêntrica.</p><p>mas tinha uma coisa que quebrava a ilusão pra mim, e não era a resolução da imagem, nem a telinha pequena do notebook, nem o fato de ser um <em>tour </em>virtual. eram as caixas de som precariamente instaladas nos pilares.</p><p>-olha a caixa ali no canto. caixa de som em igreja velha é o simbolo maior do fracasso da civilização. nem um silêncio razoável existe mais.</p><p>um dos <em>tours </em>tinha uma faixa bônus: um batizado de um bebê que foi realizado na igreja. é claro que davi clicou na faixa bônus.</p><p>-davi, sejamos razoáveis, passa pra frente isso aí. enquanto o bebê ainda tá sorrindo. daqui pra frente é só tragédia, vai começar a chorar, uma coisa terrível.</p><p>-ele não tá sorrindo, é só um espasmo.</p><p>-em forma de sorriso.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=1e80ea8d8877" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/umlivro/cap%C3%ADtulos-31-32-e-33-1e80ea8d8877">capítulos 31,32 e 33</a> was originally published in <a href="https://medium.com/umlivro">Ninguém morre sem ser anunciado</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[capítulos 28, 29 e 30]]></title>
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            <category><![CDATA[ficção]]></category>
            <category><![CDATA[mulheres-na-literatura]]></category>
            <category><![CDATA[literatura-brasileira]]></category>
            <category><![CDATA[mulheres-que-escrevem]]></category>
            <category><![CDATA[medium-brasil]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Ceci]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 13 May 2020 14:43:57 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-06-01T23:46:39.021Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>.</p><h4>28- cenário-proscênio-coxia</h4><p>Ceci aceitou a proposta de Gisele. Os termos da negociação não estão claros para mim até agora. Nem para elas. Gisele estocou a geladeira e deixou uma lista com nomes, ramais de interfones e instruções enigmáticas para Ceci. Ao lado dos nomes “Paulo e Marília” estava escrito “não atender! problemas conjugais”. Avançando na lista, as instruções ficavam cada vez mais telegráficas: “seu fernando — encanador — aptos 34 e 44 — precisa acompanhar -confusão”.</p><p>A sala do apartamento estava do mesmo jeito de sempre, para manter as impressões, mas o resto da casa tinha sido esvaziado quase por completo. No quarto, a cama, um troca lençóis e um cobertor quente demais para dias quentes e frio demais para dias frios. Na cozinha, um copo, uma caneca, um garfo, uma faca, uma colher de sopa, uma de açúcar, um prato e uma panela. “Entendi o recado”, disse Ceci para uma Gisele incorpórea no teto da cozinha: “Não é pra trazer ninguém aqui”. Se reparasse bem, isso estava escrito em todo canto da casa. Na almofada solitária do sofá, no móvel de gavetinha de um lado só da cama, no detergente da pia com a embalagem sem rótulo e meio amarelada, mas ainda pela metade.</p><p>Gisele tinha se controlado, porque na certa, a vontade era ter cortado o lençol de casal pela metade, para ficar claro que era pra usar só um dos lados da cama. Bruno e Ana revezavam a ocupação do outro lado, mas nem ele, nem ela, nem Gisele precisavam saber disso.</p><h4>29: pode subir</h4><p>-ceci, voce está levando gente aí?</p><p>-não.</p><p>-o porteiro disse que tem gente vindo.</p><p>-não foi aqui. ele é confuso. você sabe.</p><p>-tudo certo por ai?</p><p>-tudo. e aí?</p><p>-certo também.</p><p>-ceci, o porteiro disse que teve barulho aí a noite. os vizinhos reclamaram.</p><p>-sim, mas não era aqui. eu expliquei pra ele.</p><p>-falou que, pela experiência dele, era aí sim.</p><p>-não sabia que o seu augusto tinha ouvido absoluto.</p><p>-ouvido o quê?</p><p>-não era aqui.</p><h4>30: que sou eu?</h4><p>Ceci gostava de andar pela sala imitando a Gisele.</p><p>-Sou a a Gisele, olha.</p><p>-Eu não conheço a Gisele, não sei se a imitação está boa.</p><p>-Está igualzinha, acredita em mim, Ana!</p><p>-Você sabe que mudar a voz para me pedir coisas absurdas só deixa claro pra mim que você está me pedindo uma coisa absurda, né?!</p><p>…</p><p>eu gosto de andar pela casa imitando a gisele.</p><p>-sou a gisele, olha.</p><p>ana não gostava de imitações minimalistas. achava que não bastava a voz e o gestual. tinha que usar roupas, acessórios, toda uma parafernália que sugava toda vida da brincadeira. porque a imitação, se parecer que demandou esforço, ela não funciona.</p><p>-olha, você vai precisar conversar de novo com o seu cachorro, daqui a pouco o porteiro interfona aqui que os vizinhos tão reclamando.</p><p>-alfredo, chega! você nem tá vendo o cachorro. tá latindo para uma hipótese. pode ser um cachorro latindo/pode ser alguém imitando um cachorro latindo.</p><p>-você precisa pensar melhor antes de começar a falar com o alfredo. não pode sair falando qualquer coisa. olha a cara dele de decepcionado com a sua argumentação.</p><p>-ele sabe do que eu estou falando. é uma coisa nossa. eu imitei um gato uma vez pra ele, pra testar o nível cognitivo, e uma vizinha veio perguntar se eu tinha ouvido um miado também, porque ela ouviu e tava procurando a gatinha desaparecida. acontece. pessoas imitam animais no conforto de suas casas.</p><p>-quando você imitou o gato, você se escondeu ou ficou na frente do cachorro e falou “miau”?</p><p>-o que você acha?</p><p>-alfredo, vem aqui pegar um biscoitinho, vem. o biscoitinho da reparação histórica.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=8f8c19c5806a" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/umlivro/cap%C3%ADtulos-28-29-e-30-8f8c19c5806a">capítulos 28, 29 e 30</a> was originally published in <a href="https://medium.com/umlivro">Ninguém morre sem ser anunciado</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[capítulos 26 e 27]]></title>
            <link>https://medium.com/umlivro/cap%C3%ADtulos-26-e-27-ab7404dae09f?source=rss----1e701855714b---4</link>
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            <category><![CDATA[literatura-brasileira]]></category>
            <category><![CDATA[medium-brasil]]></category>
            <category><![CDATA[mulheres-na-literatura]]></category>
            <category><![CDATA[ficção]]></category>
            <category><![CDATA[mulheres-que-escrevem]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Ceci]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 11 May 2020 15:13:57 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-06-01T23:44:42.009Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>.</p><p><strong>26: um dia desses eu te entendo</strong></p><p>ana não me lembra ninguém. talvez a nola de <em>ela quer tudo</em>. a nola do filme e a nola do série. ou a queen latifah bebendo um destilado indecifrável na primeira cena de U.N.I.T.Y. mas eu incorri no erro de falar isso pra ela e lá se foram longas horas do filme, da série e do clipe. o botão de espaço do teclado deve ter afundado alguns milímetros aquela tarde de tanto que ele apertou para pausar as cenas, só pra frisar que não havia semelhança alguma entre ela e aquelas pessoas e que eu não deveria ficar comparando pessoas com artistas porque claramente não tinha esse talento.</p><p>uma tarde com ela é equivalente a ver 3 filmes antigos. as regras audiovisuais, narrativas e o equipamento é diferente, então você se sente entrando em outra dimensão. uma tarde com ela é <em>o salário do medo</em>, <em>anjo exterminador</em> e <em>vestida para matar</em>. às vezes ela fica com um olhar parado que eu tenho certeza que não tá pensando em nada. enquanto eu estou pensando que não é possível que ela não esteja pensando em nada. ela rompe meu silêncio indignado com um “eu queria te controlar igual aqueles fungos que guiam insetos para morte. só que ao contrário.”</p><p>ela me mostra diferentes cortes do documentário na ilusão de que eu vou notar a diferença entre eles. e depois dizer qual ficou melhor. eu desenvolvi uma método para opinar sem ter que passar pelo exaustivo processo mental de opinar sobre alguma coisa: falo “nossa, ficou bem melhor desse jeito” uma vez, e “acho que do outro jeito estava melhor” duas vezes. e assim sucessivamente. metade das vezes o meu chute bate com o que ela queria ouvir, o que eu considero uma média boa. às vezes eu caio no sono na cama dela, enquanto ela edita. naquele estado entre a vigília e o sono eu ouço a voz dela de fundo “eu não sei o que vou fazer com você. é o pior depoimento de todos…”</p><p>…</p><p>Ana não é fácil de descrever. Hoje, por exemplo, está vestindo uma camiseta dessas que você ganha quando participa de corridas de rua e uma calça preta. por cima de tudo, um roupão roubado de hotel, fazendo as vezes de um casaco. Os cabelos estão presos e, no pé, um chinelinho de dedo. Ontem estava com um vestido estampado. tamanduás dançando. e semana passada usou a mesma calça, o mesmo top e trancinhas todos os dias.</p><h4><strong>27: gisele faz uma proposta irrecusável</strong></h4><p>o apartamento de gisele era difícil de tirar pó. e de passar aspirador. o ar era impregnado com pelo menos 4 aromas diferentes. lavanda, limão siciliano, fritura e cheiro de guardado. sinto meu nariz, meus olhos e garganta coçarem, então olho pela janela e fixo um ponto no horizonte, tentando retardar a crise de alergia. <em>espirrar na casa dos outros é falta de educação</em>, dizia minha mãe sempre que íamos na casa dos outros, <em>então se controle</em>. quando, apesar de meus esforços, eu espirrava, ela pedia desculpas para os donos da casa.</p><p>-ainda bem que acabou o curso, né! eu não tava dando conta de conciliar, sabe, ceci…</p><p>gisele chegava atrasada toda aula. uma vez pediu meu caderno para ver o que tinha perdido, e eu mostrei um desenho do professor segurando um microfone e umas notas musicais saindo da boca dele. era pra ser ele com o canetão da lousa, mas ficou muito grande e uma coisa foi levando à outra… depois ela passou a pedir as anotações para o davi e para o caio.</p><p>um dia ela pediu meu caderno, eu avisei que não tinha nada escrito, mas ela deu um sorriso condescendente e disse que queria mesmo assim. eu entreguei, vi ela escrevendo alguma coisa e achei que era uma mensagem engraçadinha, um comentário mordaz sobre a camisa verde limão berrante do professor, mas não. ela me entregou o caderno com um olhar arregalado e no papel, um “eu não vou aguentar” escrito em letras maiúsculas, com uma carinha chorando.</p><p>-…o importante é que acabou.</p><p>-caio chorou no último dia.</p><p>-mas aquele menino chora pra tudo, também.</p><p>caio era tão dramático quanto gisele. naturalmente, gisele não tinha a mínima paciência com ele.</p><p>-mas enfim, te chamei aqui hoje, ceci, porque tenho uma proposta de emprego pra você. não é bem um emprego-emprego, mas tem compensação pelos seus serviços. você tem interesse?</p><p>-se eu tenho interesse em uma oferta enigmática e abstrata? claro.</p><p>-que bom! o negócio é o seguinte: eu fui chamada para ser sindica de outro condomínio, 4 vezes maior que esse, imagina?! mas é muito longe daqui. então eles me ofereceram um apartamento desocupado lá para eu ficar durante o período de experiência, de 2 meses. mas eu não quero trocar o certo pelo duvidoso, então queria manter esse emprego de sindica aqui também, por esses 2 meses. só que não quero ter que explicar tudo isso para os moradores daqui, porque vai gerar confusão, bate-boca, já viu, né?! então pensei em deixar você morando aqui por 2 meses, pra não aparecer que o apartamento tá desocupado. vou falar que você é uma sobrinha distante, que sonha em ser síndica, então está acompanhando meu trabalho. você recebe as pessoas e as reclamações, normal, e depois passa pra mim. topa?</p><p>-a compensação seria o que mesmo?</p><p>-60% do meu salário aqui.</p><p>-80</p><p>-70</p><p>-85</p><p>-75</p><p>-90</p><p>-55</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=ab7404dae09f" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/umlivro/cap%C3%ADtulos-26-e-27-ab7404dae09f">capítulos 26 e 27</a> was originally published in <a href="https://medium.com/umlivro">Ninguém morre sem ser anunciado</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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