A riqueza de Moana

Apesar de não ter gostado muito do filme, reconheço: fugir um pouco do eixo cultural ocidente/norte-americano/europeu é necessário

Moana — Um Mar de Aventuras (2017) conta a história de Moana Waialiki, uma menina intrépida que, com 16 anos, decide se aventurar pelas águas do Oceano Pacífico em busca de Maui, um semideus capaz de ajudá-la a devolver o coração — uma pequena pedra pounamu — à deusa Te Fiti.

A história de Moana é baseada em lendas e mitos de culturas das ilhas do Pacífico. Maui, por exemplo, é um herói da mitologia maori que vagava entre os mundos dos homens e dos deuses. Era inteligente e extremamente atrevido: pescou as terras que deram origem às ilhas do povo maori, laçou o sol e roubou o fogo a fim de que a técnica fosse dominada pelos humanos.

É mérito do filme apresentar aos [pequenos] espectadores esses detalhes, bem como reforçar junto ao público a ideia de que uma protagonista mulher não depende de absolutamente ninguém e é tão corajosa quanto (ou até mais) um semideus grande e fortão.

As músicas do filme também são impecáveis. Se, em outro texto, eu reclamei da falta de originalidade nesse quesito, Moana deu uma sacudida na falta de trilhas sonoras originais e apresentou canções verdadeiramente dignas de uma produção da Disney atenta aos componentes culturais de suas histórias. Hulas (nome dado a danças tipicamente havaianas e suas variáveis) e ritmos regados a ukuleles e tambores permeiam a animação. Preciso dizer, no entanto, que os agudos de Moana na versão dublada do filme são irritantes.

Também é a primeira vez que eu vejo um personagem de animação inteiramente tatuado. Maui, o semideus que ajuda Moana a desbravar os mares, tem o tronco coberto de tattoos, retratos de suas aventuras e conquistas. As tatuagens chegam a dialogar com o personagem em inúmeras passagens do filme.

Maui e Moana

Representatividade

Apesar de ter sido alvo de polêmicas (veja aqui) antes mesmo de ser lançado, Moana invariavelmente confere identificação a uma boa parcela de meninas e culturas nunca antes representadas em filmes infantis. A pele escura, o cabelo crespo e armado, a relação que a comunidade de Moana cultiva com o mar e a terra, a importância dada à ancestralidade e a narrativas mitológicas são alguns traços físicos e culturais apresentados no filme que já diferem do lugar-comum das princesas brancas, de olhos claros, habitantes de grandes reinos ou cidades, com sustento assegurado (dinheiro e/ou garantia de teto sobre a cabeça e comida na mesa nunca são realmente questões para princesas) e observância de regras e tradições x.

A Princesa e o Sapo (último filme 2D feito pela Walt Disney) também apresenta uma realidade paralela à das “princesas” comuns. Negra, pobre e extremamente trabalhadora, Tiana, a protagonista do filme, alimenta o sonho de abrir um enorme restaurante em Nova Orleans — cidade ao sul dos Estados Unidos, onde os conflitos étnicos eram acirrados. A questão do racismo é obviamente apagada na narrativa, mas é perspicaz o ritmo destoante de vida que levam Tiana e sua melhor amiga, Charlotte, uma moça branca, riquíssima e absolutamente mimada.

A Princesa e o Sapo — Tiana e o Príncipe Naveen, um cara folgado que vive de mesada e aparece em Nova Orleans, onde encontra a moça batalhadora e focada que mudará a sua percepção de mundo

Além disso, por retratar uma cidade sulista, dominada por traços de culturas africanas, o filme apresenta um voodoo man, Dr. Facilier, personagem que, em parceria com “os seus amigos do lado de lá” (os espíritos e entidades do vodu), pretende dominar a cidade de Nova Orleans. O desenho é muito bom e a trilha sonora primorosa: cheia de blues, jazz e outros ritmos das comunidades negras de Luisiana.

O chato é notar que, entre Moana (2017) e A Princesa e o Sapo (2009), existe um gap de quase 8 anos… Maior ainda é o gap entre estes filmes e Mulan, lançado em 1998.

Em 2002, Lilo & Stitch apareceu para mostrar duas irmãs havaianas às voltas com a assistência social, mas a real é que o foco do desenho migra da menina Lilo para Stitch, o ET esquisitinho e explosivo. O filme é fofinho (eu amo!), mas nem Lilo, tampouco a irmã mais velha dela podem ser consideradas personagens fortes.

Enfim, representatividade é importante. Espero ver cada vez mais animações com protagonistas e contextos sociais e culturais diferentes. Como diria minha avó, é preciso botar mais tutano na cabeça das crianças (e dos pais, às vezes, também).

Ficha técnica

Moana: Um Mar de Aventuras — 2017
Disney
Avaliação: ****

Lembrando que: 
***** ótimo, assistam!
**** bom. assistam e tirem suas próprias conclusões!
*** ok. 
** ruim, não recomendo.
* aff, passem longe.

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