Porquê algo? (Parte 2)

Estes artigos da autoria do matemático Henrique Guerreiro acompanham o episódio “Porque existe algo em vez de nada” do podcast RazoávelMente, que pode ser ouvido no YouTube e no SoundCloud. Lê a primeira parte aqui.

Este artigo é o segundo na série dedicada à questão: “porque existe algo em vez de nada”. Após terem sidos definidos os termos da questão, estamos preparados para começar a elencar uma resposta. Como foi visto, o primeiro passo consiste em saber se existe uma resposta. Isto é, se existe uma explicação para o facto de existir algo em vez de nada. O foco deste artigo será precisamente oferecer um conjunto de razões para achar que existe de facto uma explicação para haver algo em vez de nada. Em concreto, a proposição que estamos a defender é a seguinte (que vou denominar princípio de Leibnitz ou PL):

“Todo o ser que existe possui uma explicação para a sua existência, ou da sua própria natureza ou de uma entidade externa” (PL)

Existe um certo conjunto de verdades ou princípios em que cremos sem um argumento, ainda que de forma racional. Exemplos são: a fiabilidade das nossas faculdades intelectuais, a existência de outras consciências para além da nossa, os axiomas da lógica ou princípios como “entre várias explicações equivalentes, deve preferir-se a mais simples” (conhecido como “a navalha de Occam”). A razão pela qual cremos nestas proposições sem um argumento é porque um argumento para as mesmas pode ser impossível de formular e/ou porque são armas sem as quais a batalha pela verdade não pode ser travada. Para além disso, são postulados de alguma forma “auto-evidentes”, tal como 1+1=2. Por exemplo, será impossível formular um argumento para a fiabilidade das minhas capacidades racionais e basear a minha crença nesse argumento, já que para formular um argumento e basear crenças nele tenho de supor que as minhas faculdades racionais são fiáveis, sendo portanto um raciocínio circular. Eu gostaria de propor que o PL pertence a esta categoria de verdades e princípios: caso neguemos este princípio, a possibilidade de explicar o que quer que seja fica seriamente comprometida, porque nunca teremos uma forma de provar que existe sem alguma e qualquer razão.

Uma das bases do desenvolvimento da humanidade e da ciência tem sido a procura de respostas. As civilizações que não se contentaram com a ignorância foram as conseguiram prosperar e através desse processo atingir o nível de desenvolvimento que temos hoje. Um dos pressupostos latentes a esta procura pelo conhecimento é que efetivamente existem explicações para os factos. É isso que faz com que os nossos cientistas trabalhem apaixonadamente. Foi a esperança de saber “porquê” que me encantou a mim pessoalmente, na minha juventude, para me interessar e estudar ciência. E esta esperança de encontrar uma explicação faz sentido apenas se existir uma explicação para encontrar.

Podemos ainda dizer que se o PL fosse falso, deveríamos ter experienciado alguma violação do mesmo. Mas de acordo com todas as nossas observações, nunca na história da humanidade se observou uma entidade a existir sem nenhuma e qualquer razão. Mesmo partículas quânticas que aparecem e desaparecem indeterministicamente, fazem-no de acordo com leis da natureza compreendidas e estudadas. E embora possa haver indeterminismo na sua existência, não estamos perante um caso em que existem “por nenhuma e qualquer razão”.

Uma outra razão, um pouco mais técnica, mas talvez também mais fascinante, pode ser compreendida ao observar que a explicação da existência de seres está intimamente relacionada com causalidade. Torna-se talvez impossível explicar causalidade admitindo que seres podem existir sem qualquer explicação. Mais uma vez, antes de falarmos de um conceito, devemos defini-lo. Definir um conceito como causalidade é, claramente, um projeto demasiado ambicioso para este artigo. No entanto, podemos descrever algumas das suas propriedades essenciais. De acordo com algumas teorias da causalidade[1], uma das propriedades essenciais à mesma é que, de alguma forma, se a causa não tivesse existido, o efeito também não aconteceria. Podemos dizer que a causa é uma peça chave na ocorrência do evento. É claro que temos de definir bem este princípio, considerando uma causa maximal, de forma a que não falhe para eventos com várias causas. Imaginemos um homem que é alvejado por dois atiradores diferentes: embora ambos os atiradores tenham causado a morte do homem, caso um deles não tivesse atirado o evento aconteceria de qualquer forma. No entanto, se nenhum deles tivesse atirado (sendo a causa maximal o alvejamento por parte dos dois atiradores), a morte do homem não teria ocorrido. Se este princípio se confirmar, é possível provar que uma forma do PL tem de ser verdadeira[2]. A ideia por detrás desta inferência é que, se existirem eventos sem qualquer explicação, a causa do evento pode ser removida e este ainda assim acontecer sem nenhuma e qualquer explicação (e portanto sem nenhuma e qualquer causa).

Finalmente, é de realçar uma propriedade interessante de factos que parece exigir para eles uma explicação. Os eventos para os quais procuramos explicação são normalmente aqueles que não são determinados pelas leis da natureza e/ou da lógica conhecidas. É por isso que não nos surpreendemos quando um vírus como HIV devasta o sistema imunitário de alguém, mas procuramos explicação para a cura do paciente de Berlim[3]. O normal seria que Timothy Ray Brown permanecesse infetado pelo vírus, mas isso não aconteceu. Timothy poderia ter ficado infetado pelo vírus mas não ficou, e os cientistas procuram uma explicação para o facto de ter sido curado ao invés de ter permanecido infetado. A este tipo de eventos, eventos que aconteceram de uma forma mas que poderiam ter acontecido de outra, dá-se o nome de eventos contingentes. Às verdades não contingentes, ou seja, que têm sempre de se verificar, dá-se o nome de necessárias. Por exemplo, o facto de que 1+1=2 é necessário, porque não importa como o mundo fosse, seria sempre verdade que 1+1=2. As verdades contingentes parecem requerer uma explicação de uma forma particular: nomeadamente, podemos perguntar porque é que são verdade ao invés de não serem (já que poderiam não ter sido verdade). A verdade de que o paciente se curou é uma dessas verdades contingentes a ser explicada. Se verdades contingentes em geral exigem explicação, muito mais exigem as verdades que consistem na existência de um ser/objeto como o Universo. De facto, não parece haver nada no nosso Universo que o faça existir necessariamente da mesma forma que 1+1=2 é necessariamente verdade. Desta forma, o Universo, sendo um ser contingente, exige uma explicação.

Podemos assim concluir que, plausivelmente, por todas as razões acima descritas, o Universo tem uma explicação para a sua existência. O próximo artigo desta série será dedicado a explorar as impressionantes e interessantes consequências deste facto.

  1. Lewis, Daniel — “Causation” (1973), Journal of Philosophy, 70: 556–67.
  2. Pruss, Alexander et al. — “The Blackwell Companion to Natural Theology” (2012), The Leibnitzian Cosmologial Argument, Wiley Blackwell, pp.63–67.
  3. O paciente de Berlim é considerada a primeira pessoa a ter sido curada do HIV/SIDA.