Histórias de Pronto-Socorro — II

Dia 17 de agosto de 2010, durante um “plantão” na Liga de Neurocirurgia no meu 2º ano de faculdade, encontrei três pessoas (reais), e, ali, descrevi as suas histórias.

Dia 29 de julho de 2015, durante um plantão (sem aspas) do estágio de Emergências Clínica no meu 6º ano de faculdade, reencontrei três pessoas (em minha memória), e aqui descrevo as suas histórias:

Seu João. Moça sem nome. Dr. Alberto.


Seu João, 65 anos, fumante de longa data, obeso grau I, hipertenso e diabético, dislipidêmico (colesterol alto) e pouco aderente ao tratamento, chega à Sala de Emergência encaminhado do SAMU. Tinha sido encontrado em frente à banca de jornais do seu bairro com fortes dores no peito. O dono da banca o acompanhou na ambulância e nos conta que Seu João já vinha tendo umas dores no peito há algum tempo, mas se negava a procurar atendimento porque "eram coisas da idade". Vou conversar com Seu João, visivelmente aterrorizado com a situação, mas ele não consegue falar devido à falta de ar. Faço o atendimento inicial e monitorizo-o com o oxímetro de pulso, aparelho de pressão e sensores cardíacos. Mal tenho tempo de me virar e já vejo algo estranho no monitor, aquele apitinho típico e Seu João inconsciente do meu lado.

A Moça sem nome chegou do Instituto de Psiquiatria (IPq). Ela tinha sido levada para lá porque era paciente do ambulatório de Esquizofrenia. Apesar de não ter crises psicóticas há bastante tempo, segundo relato do socorrista que a trouxe, ela gritava na rua com as mãos pressionando o crânio para levá-la ao IPq porque tinha algo errado com a sua cabeça. Chegou muito apreensiva e confusa na Sala de Emergência, e, quanto eu fui até ela para me apresentar, percebi o pânico nos seus olhos porque ela não conseguia falar. Novamente, faço o atendimento inicial e monitorizo-a com os aparelhos, mas na hora que vou colocar os eletrodos do monitor cardíaco, percebo que ela sente uma dor desproporcional quando encostava os cabos em seu tórax. Foi então que ela fechou os olhos e começou a tremer o corpo todo.

Dr. Alberto chegou de helicóptero e foi direto para a Sala de Emergências Cirúrgicas. A história era um pouco estranha, pois envolvia um acidente de trânsito, uma queda batendo a cabeça no chão e perda de consciência quando chegou no hospital. Segundo os cirurgiões que o encaminharam para a nossa Sala de Emergências Clínicas, o Dr. Alberto não tinha sido atropelado e a tomografia não evidenciava nenhum sangramento no crânio. No entanto, havia uma alteração no restante do exame: artéria Aorta dissecada desde sua porção descendente até a região infra-renal. Vou até ele e vejo que ele estava muito sonolento e, como rege o protocolo, monitorizo-o. Quando sai na tela o valor da pressão arterial, percebo que a situação não estava muito boa: 240 x 170.


Seu João apresentava fibrilação ventricular. Em outras palavras, seu coração não estava mais funcionando. Imediatamente inicia-se a massagem cardíaca. 30 compressões, afundando o tórax em 5cm, permitindo total retorno entre as compressões numa frequência de 100 por minuto. O Residente me diz que tenho apenas uma chance para intubá-lo: Ele tem DPOC, tá com hipoxemia grave. Apesar de ainda não ser muito experiente, consigo passar o tubo em sua traquéia e ligar no ventilador. Nesse momento chega o desfibrilador e o Residente, formado dois anos antes de mim, diz para eu desfibrilar, porque segundo ele existe sorte de principiante no pronto-socorro. Posiciono-me, peço para colocar gel nas pás, observo se todos estão afastados, peço para colocarem a carga máximo e pressiono com força as pás no tórax de Seu João torcendo para que a sorte realmente esteja a meu favor.

A Moça sem nome estava convulsionando. Instintivamente, olho no relógio e marco o horário que iniciou a crise. Peço para a enfermeira preparar o diazepam e chamo o Residente. Nessas horas não tem muito o que fazer além de aguardar. A crise dura pouco tempo, mas poucos minutos depois A Moça sem nome apresenta mais convulsões. Aquele diazepam que eu pedi é administrado e vou calcular a dose de fenitoína para a hidantalização. Sugiro fazermos uma tomografia de crânio para ver se não há nada de errado causando as convulsões. Chamo A Moça sem nome várias vezes, mas ela não me responde. Estava no período pós-ictal, perdida na confusão dos seus pensamentos.

Dr. Alberto estava muito quieto enquanto eu passava o catéter venoso central em sua veia jugular. Em geral, os pacientes conscientes que são submetidos a esse procedimento reclamam bastante porque precisamos colocar panos estéreis cobrindo seus rostos, tórax e braços, já que vamos enfiar uma agulha de uns 10cm, um fio de metal que vai até o coração e o catéter em uma veia profunda. O nosso objetivo é diminuir a pressão para níveis seguros enquanto esperamos a avaliação da Cirurgia Vascular sobre o caso. Termino o procedimento e, ao retirar os panos, vejo que Dr. Alberto estava chorando profusamente. Já vi gente reclamar, se mexer ou gritar. Fico um pouco frustrado por ter feito alguém chorar num procedimento com anestesia local. Decido, então, perguntar o porquê das lágrimas.


Seu João balançou o corpo todo ao receber o choque. Diferentemente das séries médicas, nós não ficamos olhando para ver se deu certo. Volto imediatamente à massagem cardíaca. Dois minutos depois, paramos para checar o ritmo cardíaco e, aliviado, constato que ele estava normal e ele tinha pulso nas artérias carótidas. Gastei a minha sorte, já que não era mais principiante, mas senti o gosto bom de "ressuscitar" alguém. O Residente me chama para ir conversar com a esposa do Seu João que acabara de chegar. Depois de explicar a situação para ela, ela pede para vê-lo. Ele ainda estava sedado e intubado, mas mesmo assim ela diz que está esperando por ele para o café-da-manhã e se despede com um beijo na testa.

A Moça sem nome volta da tomografia um pouco melhor. Perguntou onde está e o que está acontecendo. Digo que ela apresentou uma doença chamada Trombose Venosa Central, ou seja, havia sangue coagulado dentro da sua cabeça. Ela pareceu não compreender o que eu disse porque, aparentemente, estava focada em lembrar o número do celular do seu namorado. Ele chega minutos depois, já que coincidentemente trabalha perto do hospital, pedindo desculpar por não ter ligado para ela pela manhã. Deixo os dois conversando mais a vontade enquanto procuro o neurologista para avaliá-la.

Dr. Alberto me disse que a última vez que chorou foi quando seu filho nasceu há 17 anos. Não soube me explicar o porquê de estar chorando ali, mas me disse que precisava ficar bom logo para poder viajar. Nesse momento sua ex-mulher e seu filho chegam ao hospital com mil perguntas sobre o caso do Dr. Alberto. Respondo que estamos aguardando a posição da Cirurgia Vascular e levo-os à Sala de Emergência. Dr. Alberto, sem os panos estéreis cobrindo o rosto, chora novamente ao reencontrar sua família. Decido ir preencher o prontuário dele porque o plantãp iria acabar daqui poucos minutos.


Acho que foi uma das coisas mais interessantes que passei até hoje na faculdade. Foi a única coisa que me deixou sem o que pensar… e acho que vai ser difícil esquecer do dia 17 de agosto de 2010, dia que três pessoas que nunca vi na vida morreram na minha frente, deixando pra trás aquela sensação estranha que a gente tem quando alguma coisa devia ter sido feita, mas você não sabia o quê, nem como.

Escrevi isso há tanto tempo... Hoje, 5 anos depois, após ver tantas pessoas vivendo, sobrevivendo e morrendo, continuo tendo essa sensação estranha de que alguma coisa devia ter sido feita. Hoje tenho muito mais calma e um pouco mais de experiência para lidar com essas situações.

Depois de todo esse tempo, ainda imagino o que eu teria feito por aquelas pessoas que chegaram naquele "plantão". Mas, hoje, deixo aqui registrado minha homenagem a três pessoas que eu encontrei uma noite, inventando três histórias de pronto-socorro.

A morte e a vida não são contrárias. São irmãs. A “reverência pela vida” exige que sejamos sábios para permitir que a morte chegue quando a vida deseja ir.

Rubem Alves

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.