Ódio na Internet

As manifestações de revolta e desrespeito por meio das mídias sociais

Com o passar dos anos a internet foi evoluindo e se disseminando pelo Brasil. Hoje a maioria da população tem acesso a internet. Com o tempo nos tornamos dependentes, necessitamos dela para se comunicar, trabalhar, estudar e como forma de entretenimento. A internet pode transmitir a segurança de uma plataforma onde podemos falar o que pensamos, mas também pode ser usado para espalhar ofensas e atos de desrespeito. Mas quando essas atitudes ultrapassam a barreira do virtual? Levando o internauta agredido se sentir coagido ou até mesmo procurar uma delegacia.

Segundo o site Safernet, o maior número de casos de ódio na internet registrado no Brasil são referentes ao racismo, com 680 páginas registradas com manifestações sobre o assunto. O segundo caso mais comum é apologia e incitação a crimes contra a vida com 352 páginas. E o menor índice é relacionado a neonazismo com 36 páginas mencionadas. A Safernet é uma associação fundada por cientistas da computação. A iniciativa surgiu após uma pesquisa referente a pornografia infantil na internet brasileira. Eles receberam e processaram, em 2015, cerca de cem mil trezentos e sessenta e um casos referente a ódio na internet.

Segundo o advogado Roberto Silva, se caracteriza crime cibernético quando mais de uma pessoa além da vítima, ou um grupo de pessoas veem o xingamento, fazendo a vítima sentir-se constrangida com o tal. Já casos de ameaças de morte ou incitação a violência são crimes, e não precisa de mais ninguém além da vítima visualizar o acontecido para fazer a denúncia. “A vítima deve procurar ajuda, quando as ameaças se tornarem frequentes. Quando for algo que vá pôr a mesma em risco “ conta.

Silva diz que em 2012 a nova Lei dos Crimes Cibernéticos incluí a violação de perseguição obsessiva. Esse tipo penal enquadra o ato de perseguir alguém, de forma continuada e reiterada, ameaçando sua integridade física e psicológica, com restrição à liberdade de locomoção ou invasão a liberdade ou privacidade de outra pessoa. Para o delito foi sugerida a prisão de dois a seis anos. Também iria ser aplicado uma punição por bullying, mas foi excluído ainda na comissão especial de senadores.

A internet pode servir como meio de vingança e de ameaças. *Ana começou a namorar na faculdade, por causa do ciúmes do namorado tentava terminar com ele, mas não conseguia. “Eu perdi as contas de quantas vezes tentei terminar e ele não deixava. Com o tempo, comecei a conhecer outras pessoas e querer algo a mais e ele sempre atrapalhava a minha vida. Sim, atrapalhava, pois chegou um ponto onde ele era um peso. Ele era sempre chato, e estava sempre incomodando, me estressava muito e me enlouquecia. Então, passei a conhecer outras pessoas mesmo estando com ele, já que ele fazia tanta questão em manter um relacionamento onde não éramos mais felizes. Não sei com quantos caras saí, enquanto ele fingia ser meu namorado. Eu também não me importava em esconder. Sinceramente, eu não dava a mínima. Ficamos nisso por cerca de um ano. As coisas começaram a ficar mais sérias quando ele começou a me perseguir” conta.

Um dia ela recebeu uma mensagem de um rapaz querendo conversar por meio de uma rede social. Ela não estava interessada e passou o contato deste rapaz para seu atual namorado, para que ele tomasse uma providência sobre o assunto. *João, o namorado de Ana, adicionou o homem e recebeu uma mensagem dele, “a mensagem dizia que eu era uma vagabunda e que esta pessoa iria destruir com a minha vida. Eu não dei importância para aquilo. Uns dias depois, meu pai recebeu no Whatsapp uma foto minha nua. Ali eu comecei a desmoronar,” conta Ana.

Com o tempo o rapaz começou a ameaçá-la, sempre enviado fotos dela sem roupa para seus familiares. *Ana descobriu que este rapaz que ameaçava e mandava mensagens era o seu próprio namorado, escondido em um perfil falso.

*nome fictício

Além do perfil falso *Ana também era ameaçada pelo perfil do ex namorado.

A psicóloga Zuleika Kohler Gonzáles explica o porquê à internet proporciona uma sensação de impunidade, “O fato de não mostrar o rosto, faz o indivíduo não ter a responsabilidade ética. No mundo real temos a consciência do que pode e o que não pode, existem normas e as pessoas se sentem pressionadas por elas. Nas redes sociais é mais livre, é como se fosse terra de ninguém.”

Zuleika metaforicamente explica que a demonstração de ódio é gerada, pois cada pessoa tem os seus interesses e se alguém mencionar algo diferente da sua verdade, aqueles que mencionaram são fuziladas ou até eliminados. “A desigualdade social influencia nessa questão, novas pessoas estão acessando serviços que até pouco tempo atrás não tinham acesso. Isso pode causar revolta e ódio pelos que já possuíam este acesso, pois pode causar a sensação de perda do lugar e insegurança.”

Ela cita um acontecimento que viu nas redes sociais relativo às ocupações nas escolas ocorridas nos últimos tempos. “Na postagem havia internautas criticando as ocupações e sugerindo camaçadas de pau nos ocupantes”, conta a psicóloga.

Perfil deu um “print’ em conversa de rede social e expôs em sua página.

Geração Mimimi

Tendo como lar às redes sociais esta geração se manifesta em forma de reclamações. Uma simples foto ou vídeo pode gerar diversas interpretações e estas compreensões viram uma oportunidade para uma construção de revoltas de opiniões contrarias.

“Isso é machismo, isso é contra os direitos animais, isso faz apologia a violência, é prejudicial ao meio ambiente”…. essas entre outras reivindicações são frequentes na internet. Segundo o filosofo Luiz Rohden, é inegável e irreversível o avanço e a importância da internet em nossas vidas. “Entre outras contribuições, destaco o acesso e a disseminação de informações e conhecimentos em nível regional, nacional e mundial. O mundo virou, de fato, uma ‘pequena aldeia’ e, com isso, nos tornamos cosmopolitas em termos informativos. Destaco que, graças à internet, nossas atividades foram otimizadas em diversos níveis e que não podemos mais prescindir dos inúmeros benefícios que ela carrega consigo. Mas isso não deduz, necessariamente, que nosso relacionamento humano tenha melhorado por causa da internet.”

Rohden conta que por outro lado, assim como é a vida, além dos incontáveis benefícios, a utilização da internet para expressão e comunicação do que pensamos e sentimos carrega perigos e problemas que lhe são inerentes. Partindo do ponto de que a dita atual geração Mimimi se usa da internet para descarregar seu ódio contra manifestações veiculadas nela, precisamos fazer algumas considerações. “Em primeiro lugar, todos temos direito à expressão dos nossos sentimentos e das nossas opiniões; em segundo lugar, é na exposição do que pensamos e do sentimos que podemos crescer e construir um mundo melhor; enfim, penso que o caminho do diálogo, onde alguém expressa sua opinião, mas também houve a argumentação do outro, é que possibilita a construção de uma terceira margem na qual nossas expressões [argumentos, opiniões, sentimentos] é posta em questão pela realidade. Graças à internet que hoje podemos reclamar com mais força dos direitos humanos lesados, que nos possibilita protestar contra injustiças e exigir mais ética em termos pessoais, nacionais e mundiais.”

Post relativo a reclamação de uma reportagem de jornal.

“Pois bem, o problema não está na internet propriamente dita, como se vê, mas no seu uso irresponsável e inconsequente. Protestar sem saber o porquê do protesto, reclamar apenas para fazer parte do grupo que reclama e manifestar ódio contra pessoas escondido na tela de um computador é algo fácil, simples e inconsequente” Rodhen.

“Se a geração Mimimi protesta e destila ódio contra posições que lhe são contrárias ou lhes desagrada e não responde por isso, incorre em uma postura que não contribui para efetivar a justiça, a liberdade. Atacar ou destruir pessoas ou instituições por meio de manifestações inconsequentes, não contribui para o melhoramento humano nem da sociedade. Sugiro que a cura dessas posturas está na apropriação da história, da literatura e no exercício da reflexão crítica na qual importa não apenas a emissão catártica dos nossos sentimentos, mas igualmente a ponderação e o discernimento dos mesmos sob o crivo da justiça, da ética e da liberdade” conta.

A internet pode ser um meio de desabafo, onde as indignações são expostas diariamente. O poste da rua que não funciona, o buraco aberto na calçada, entre outras situações. Em desentendimento com colega de trabalho, Graziela Oliveira, foi chamada de macaca por uma mensagem telefônica e decidiu tornar público o seu desentendimento. Por meio de uma rede social ela manifestou sua indignação e repúdio pela atitude. Graziela conta que fez isso para dar visibilidade e publicidade ao ocorrido, pois infelizmente a muitos que acreditam que o racismo não existe e não acontece mais.

Como agir em casos de crimes?

Segundo o site crimespelainternet.com.br, o primeiro passo é coletar as evidências do crime eletrônico. Salvar os arquivos, e-mails, capturas de telas (Print Screen), e qualquer outro material que comprove o crime. Mas é preciso ser rápido, pois no mundo virtual as evidências podem ser deletadas.

Logo em seguida, o agredido deve procurar um cartório para registrar uma Ata Notarial das evidências, este documento pode ser usado como prova na justiça. Depois é só fazer um boletim de ocorrência em uma delegacia especializada, caso não haja em sua cidade registre a ocorrência na delegacia mais próxima da sua casa.

Veja também: Eu, monstro por (Alessandro Garcia)