A Vida que Pulsa — Segundo Ato

21/08/2015 — Pronto-Socorro da Obstetrícia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP


Aquele plantão tinha tudo para ser o melhor dos últimos meses. Escrevi previamente que, quando estudamos Medicina, gostamos de ver casos graves e doenças raras no dia-a-dia. E esse foi um daqueles dias. Talvez tenha mudado um pouco em quase dois anos de internato, pois já não gosto tanto de vê-los, apesar de ainda ter fascínio pelas doenças difíceis.

Ano passado, durante meu outro estágio de Obstetrícia no HU, víamos casos simples de gestantes saudáveis. Os partos eram simples e o hospital tem uma política de humanização muito interessante. Raramente víamos gestantes com doenças graves ou com alguma intercorrência, sendo que uma delas eu narrei aqui. Saí de lá com muito aprendizado e a sensação de que todas as gestações correm bem e têm final feliz.

Pois aquele plantão tinha tudo para ser o melhor dos últimos meses, repito. Meu primeiro plantão diurno no PS da Obstetrícia. Após ter passado em outros estágios muito exaustivos, esse plantão chegou em boa hora para descansar um pouco a cabeça e aquecer um pouco alma: como não sorrir vendo uma vida nova chegando ao mundo?

7h no Centro Obstétrico, a R3 (residente do 3º ano) de Ginecologia e Obstetrícia (GO) me dá uma prévia do plantão, já dizendo que eu "sou sortudo": um parto normal de gêmeos em posição pélvica e córmica (de cabeça pra cima e o outro de lado), uma jovem com doença cardíaca em trabalho de parto, uma gestante idosa de 44 anos (sim, na GO, gestantes são consideradas idosas após os 35) com incompetência istmo-cervical (traduzindo: colo do útero frouxo) e, por fim, duas gestações com gemelidade imperfeita (antigamente conhecido como "gêmeos siameses"). Ou seja, caos. O que, no caso, seria um plantão interessante para o "eu do ano passado".

Os fetos das duas gestações com gemelidade imperfeita apresentavam mal-formações incompatíveis com a vida extra-uterina, e, portanto, teriam poucas horas de vida assim que nascessem. Uma das gestantes conseguiu, judicialmente, interromper a gestação pois os fetos apresentavam união no crânio e uma mal-formação do sistema nervoso central muito grande. A outra decidiu prosseguir com a gestação, sendo indicada cesárea eletiva com 32 semanas.

Decido, primeiramente, conhecer e examinar a segunda gestante. Entro no quarto, me apresento para ela, sua mãe e seu marido e converso um pouco com os três. Visivelmente, o marido estava muito mais nervoso que a gestante. Notei um certo esforço, por parte dela, de tentar manter o clima mais calmo e tranquilo, possivelmente às custas de muito treinamento nos últimos meses. Ao fundo, uma música vinha de um aparelho de som da enfermagem.

Após revermos o Plano de Parto que ela havia preenchido previamente no pré-natal, ela manteve as mesmas condições: queria ver as crianças, queria segurá-las no colo se possível, queria a presença de sua mãe na sala de parto e queria a presença de um padre na sala. Parecia muito calma e convicta de que aquele momento seria exatamente como ela planejara. Ela mesmo disse que a gravidez tinha sido tranquila, na medida do possível, porque foi tudo muito bem conversado e definido durante o pré-natal.

Chegada a hora do parto, vou me escovar e preparar as coisas para a cesárea. Nós, internos, participamos do procedimento instrumentando e observando. E, definitivamente, não queria fazer nada além disso em um parto tão delicado como aquele. A equipe toda estava preparada para o momento: obstetras, anestesistas, enfermagem, pediatras, mãe, avó, pai, padre e eu.

Durante a anestesia, ela permitiu-se rir. Riu da piada que os anestesistas fizeram, pediu para os obstetras aproveitarem e fazer uma cirurgia plástica na barriga, disse que tinha medo de agulhas e que tinha visto na internet vídeos de raquianestesia para estar preparada para aquele momento. Quando voltou a deitar, uma enfermeira beijou sua testa e diz: "boa sorte, estamos todos juntos".

E a cirurgia começa. Pele, subcutâneo, músculo, útero. Chega a hora de tirar os fetos de seu refúgio de paz, tornando-os bebês naquele plantão caótico. Em geral, cesáreas são muito rápidas com o objetivo de evitar qualquer tipo de complicação para a mãe e recém-nascido. Aquela foi cronometrada, literalmente. A pediatra que estava atrás de mim contou os segundos, um a um, desde que o útero foi aberto até a saída dos dois bebês: 54 segundos.

2 segundos e perninhas, 5 segundos e um tronco, 9 segundos e bracinhos, 12 segundos e um pescoço enrolado com duas voltas de cordão umbilical. Lá pelos 18 segundos, que para mim pareceram 3 horas, não sai mais nada. O chefe obstetra manteve a calma e disse para a R3: “vamos mudar a tática, puxa pra baixo”. 32 segundos e mais duas perninhas, 37, outro tronco, 42, outros bracinhos, 48 outro pescoço, também enrolado. A tensão do momento era palpável, cadenciada pela contagem da pediatra e o som do monitor cardíaco. Nada se movia, nem o ar, além dos braços da residente puxando de um lado para outro dois corpinhos arroxeados. E então eles saem, assim como o ar que todos na sala estavam prendendo. 54 segundos.

O silêncio continuou. Eu ainda não sabia se haveria choro. A enfermeira pega os bebês, enrola-os no pano cirúrgico, cortamos o cordão umbilical, a pediatra limpa-os delicadamente.

E, enfim, um choro cortou o ar. Um choro doído, de meses de sofrimento. Um choro que ninguém queria ouvir. O choro da mãe ao ver seus dois filhos ali, pacificamente enrolados num pano estéril. Confesso que nunca imaginei presenciar algo daquele tipo. Dizem que somos preparados para lidar e diminuir o sofrimento humano. Mas não. É impossível lidar com isso. Naquele momento pudemos apenas compartilhar deste sofrimento.

Mas a surpresa aconteceu. Ao ouvirem o lamento de sua mãe, os bebês reagiram, na tentativa de diminuir o tal do sofrimento. Na realidade choraram. E choraram forte! Querendo dizer que ainda estavam ali e que não iriam desistir. Afirmando para a mãe que lutariam até o fim de suas curtas vidas se ela também estivesse disposta a isso.

Aqueles choros trouxeram todos de volta à realidade. Um útero aberto, uma placenta saindo, uma pressão arterial caindo. Além de tudo, estávamos todos ali: obstetras, anestesistas, enfermagem, pediatras, mãe, avó, pai, padre e eu.

O padre, que até então estava no canto, calado, aproximou-se e batizou as duas crianças. Disse palavras bonitas de conforto para a mãe e a avó. Convidou todos a orarem juntos. Pararam todos os choros dos bebês, da mãe, da pediatra e da enfermeira. E permanecemos ali, após a oração, em silêncio, observando a vida pulsando naquele coração único, insistindo em viver.

E as crianças viviam. Foram levadas a um berço enquanto terminávamos a cirurgia e a mãe se recuperava. Não deram oxigênio, não colocaram aparelhos para monitorizar a oxigenação do sangue. A vida passava ali, sem interferências.

Duas horas após, o coração pára, cansado de bater por dois. Ou por cinco: a mãe, a avó e o pai. Na realidade, por vários: obstetras, anestesistas, enfermagem, pediatras, mãe, avó, pai, padre e eu.

Saio do Centro Obstétrico para tomar um ar. Não consigo descrever, exatamente, como foi o plantão. Só pude agradecer pela Medicina, e, sobretudo, à vida, por trazer momentos tão poderosos e impactantes como aquele, que nos deixam confusos sobre sentimentos e pensamentos.