O que eu aprendi sobre internet em
Santa Catarina

Lições sobre como os governos locais se conectam com os cidadãos das principais cidades catarinenses


Depois de mergulhar pelos sites e redes sociais das principais cidades de Santa Catarina para fazer a pesquisa Medialogue Cidades Conectadas tenho a sensação de que os municípios visitados são muito parecidos com outros do Brasil e até do mundo. Se eu tivesse ido realmente a cada uma das cidades, falado com seus governantes e gestores ou com os colegas nas redações locais com certeza a sensação seria outra. Talvez teria algo a destacar de cada uma, tarefa dificultada simplesmente analisando os canais digitais. O verdadeiro aprendizado que eu tiro após ter embarcado em mais uma pesquisa da Medialogue está justamente nessa diferença entre os resultados que se obtêm na pesquisa através da análise do que está na internet e o mundo real das características e potenciais de cada cidade. Não foi possível por exemplo diferenciar um polo turístico da sede de um porto extremamente importante, ou identificar o protagonismo industrial de uma região, sem contar a ausência de sinais de um reconhecido centro de pesquisas acadêmicas na área digital.

O que noto nessa primeira etapa da pesquisa Cidades Conectadas pelos principais municípios catarinenses é que há uma preocupação tanto de governos como da mídia dessas cidades de estar presentes na internet e nas redes sociais e cumprir seu papel de informar e oferecer serviços básicos do município. Este seria um ponto positivo sem contestação se eu já não tivesse visto algo parecido há 18 anos. Em 1997, eu e o CEO da Medialogue, Alexandre Secco, defendíamos junto às prefeituras da Grande São Paulo a necessidade de esses governos entrarem na internet, lançando um site e adotando um e-mail. Na época isso significava o maior avanço possível. A resistência dos governantes sempre foi grande, assim como a de jornais e muitos jornalistas para enxergarem a internet como a ferramenta que deveriam se dedicar.

Naquele momento, fazia apenas dois anos que a web tinha estreado no país e as prefeituras disputavam qual seria a primeira da sua região a montar um site. Não importava o layout ou conteúdo, o principal era ter um domínio www para divulgar na propaganda impressa. Ao mesmo tempo resistiam em adotar um e-mail com o medo de criar a possibilidade de um protocolo sem controle para as reclamações dos cidadãos.

Cadê a ousadia?

O que eu vi ao fazer esta etapa da pesquisa Cidades Conectadas é uma presença na web muito parecida entre os governos locais, com serviços básicos atendidos, a preocupação de ser bem visto nos smartphones, de atualizar as notícias e manter perfis nas principais redes sociais como Facebook e Twitter. Dessa forma está todo mundo ligado na internet, mas as prefeituras continuam com um grau de ousadia beirando o zero absoluto. O receio dos governos locais não é mais com o e-mail e sim com o comentário na fanpage da prefeitura. Poucas respondem e tem aquelas que até não permitem essa participação.

A comunicação digital das cidades pesquisadas alcançou a um patamar satisfatório mas pode ser ainda muito desenvolvida. Basta levar em conta o poder de um governo local de mexer com a vida das pessoas e o quanto isso não está acontecendo pela internet. O que se vê é a ousadia represada em canais oficiais e situações como a de Joinville em que o prefeito Udo Döhler é mais influente na internet e nas redes sociais do que o seu governo.

Audiência

O reflexo disso é que os governos acabam cumprindo o papel de estar presentes na internet e nas redes sociais mas o alcance das ações de comunicação digital é muito baixo. A pesquisa mostra que apenas nas cidades de Blumenau e São José mais da metade da população dá audiência para os sites do governo local. Tem cidade que o alcance não chega a 10% dos moradores.

Esta falta de ousadia não é uma particularidade das cidades pesquisadas. Os mesmos sites dos governos locais mais importantes do mundo estão mais perto do burocrático, como os de Toronto, Londres, Tóquio e Madrid, do que de algo inovador. Nesse campo, um bom exemplo é como sempre Nova York que em uma homepage bem organizada apresenta os serviços, informa, oferece aplicativos e coloca o morador da cidade em contato com gestores de diversas áreas. Para estimular a participação da população, o governo da cidade patrocina o desenvolvimento de novos aplicativos voltados para melhorar a vida do cidadão. Um deles, o Embark sobre transporte público, até acabou comprado pela Apple.

Jornal se digitaliza só até a versão PDF

Outra lição da pesquisa feita em Santa Catarina se refere a como a mídia impressa regional insiste em permanecer presa à era do papel. Fora as grandes redes de jornais e seus portais, o que se vê é a falta de canais digitais, ou uma digitalização que chega apenas ao fornecimento de uma versão em PDF do jornal impresso. Essa presença tímida é agravada ainda pela falta de cultura de interatividade que impera na maioria dos veículos do país. Os comentários em reportagens e artigos praticamente não existem e fica difícil até encontrar um meio de se comunicar com a redação. A informação na velha mídia ainda funciona em mão única.

A boa notícia é que os blogs ganham espaço e prestígio. Um exemplo disso foi notícia sobre a pesquisa publicada em pelo colunista Francisco Fresard, do Jornal de Santa Catarina, em seu Blog do Pancho foi a principal fonte para que outros veículos citassem o estudo.

Assim como fizemos com a pesquisa Político 2.0, eu junto com Alexandre Secco e Gabriel Attuy começamos esse estudo a partir do zero, elaboramos uma metodologia específica e mergulhamos na coleta e análise de informações das cidades. Também falamos com pessoas e tomamos conhecimento sobre como é feita a comunicação digital nos maiores centros urbanos de um Estado reconhecido pelo seu alto padrão social e suas iniciativas na área digital, tanto no campo empresarial como acadêmico. Aprendi muito nessa empreitada e espero que esse trabalho venha contribuir também para um aprendizado ainda maior das cidades no desenvolvimento de ações digitais voltadas ao cidadão.