Roteiro conceitual do M&B de 2014 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

Roteiro de Mochilão: Guia Definitivo

O que considerar, quais ferramentas usar e como gerenciar o roteiro da sua viagem pelo mundo

Planejando | por Aldo Lammel


Você pode acreditar que sair de casa sem destino é uma boa ideia, mas não é. Ao não ter um roteiro definido para sua viagem de um ano ou mais, você perderá de conhecer lugares fascinantes que certamente encheriam seus olhos, porém, por não ter um roteiro em mãos, você simplesmente passaria do lado e não perceberia ou até mesmo esqueceria. Eu trabalhei durante 17 meses no meu roteiro e ainda assim não fui capaz de perceber um erro de rota imperdoável quando cruzei pela Argentina em uma linha reta de Buenos Aires a Mendoza, deixando para trás o espetacular norte argentino por não ter feito uma pesquisa básica sobre o país. Um mapa que lhe mostre uma ideia de rota a ser seguida te salvará em momentos de indecisão para onde ir quando a ideia inicial já não funciona mais. Quando eu estava no Panamá, tive de inverter 75% do meu roteiro por não conseguir encontrar uma forma viável de chegar na Nova Zelândia, eu, sozinho em um país sem saber o que fazer foi desesperador, não, na verdade eu sabia sim, olhei para meu roteiro e vi que a alternativa era inverter o roteiro e sabia exatamente para qual país e cidade ir justamente porque já tinha tudo traçado.

Existem duas situações ao ter de montar seu roteiro. A primeira é você já saber para onde viajará ou, pelo menos, tem uma ideia de regiões a passar. A outra situação é aquela onde tu tens o impulso de viajar, porém não sabe bem para onde. Com os dois casos em mente, vou nivelar por baixo, assumindo que você não está certo para onde vai e que sua ideia é uma viagem internacional, passando por vários países e evitando gastar com hospedagem. De qualquer modo, as informações abaixo são aplicáveis em qualquer situação e você conseguirá se virar.

A primeira coisa que você fará é ter um mapa digital. Esqueça mapas de papel agora, você pode os ter, mas não deve ser seu mapa de rota principal pelo simples fato de não poder receber a carga de informação personalizadas à você e por não ser possível compartilhar com outras pessoas por segurança (falaremos disto mais pra frente). Com um mapa digital, manipular informações é mais prático, será possível também consultá-lo de qualquer lugar com internet (falaremos desta limitação mais à frente também). Experimente o Google Maps que tem um ferramenta gratuita específica para a criação de roteiros: o Google My Maps. Lá, você pode criar seu mapa tranquilamente e não perder as informações ao fechar seu navegador ou aplicativo já que cada alteração que você (e as pessoas que você determinar com este poder) são salvas automaticamente.

Se você for viajar por países em um único continente, crie um roteiro único com a ajuda do Google My Maps, entretanto deixo um conselho especial à quem for viajar por mais de um continente, como numa volta ao mundo por exemplo: crie um mapa no Google My Maps por continente. Esta segmentação do seu roteiro em arquivos separados fará consultas futuras serem muito mais rápidas já que seus dispositivos não terão de carregar todo o roteiro por inúmeros países quando você somente quiser consultar um endereço. Depois que meu mapa já tinha anotações em mais de 13 países, abrir meu roteiro e navegar nele era uma tortura tanto para meus dispositivos quanto para mim mesmo tendo de esperar o carregamento de cada seção do mapa.

Exemplo:

Roteiro América do M&B
Roteiro Europa do M&B

Pinando seus interesses no mapa

Agora vem uma parte bem trabalhosa para quem fará uma volta ao mundo: marcar no mapa tudo que lhe agrada. Se você gosta, por exemplo, da França, mesmo que ainda não saiba se irá passar por lá, abra o Google e pesquise “frança pontos turísticos” e veja o que lhe chama a atenção, entretanto não limite-se a isto, busque o porquê você gosta da França; é por causa do cinema ou da música? Ou ainda porque a França foi um palco importantíssimo da Segunda Guerra Mundial? Seria você um entusiasta da Segunda Guerra? Se for o caso, irá adorar conhecer a cidade de Lyon, berço da Resistência Francesa ou, quem sabe, ir conhecer pessoalmente a Praia de Omaha, palco do Dia-D. O ponto aqui não é eu influenciar o que você deve ou não visitar, mas sim como encontrar seus interesses em uma cultura. Viajar vai muito além dos pontos turísticos e saiba você que pontos muito turísticos são caros e estamos focando em uma rota alternativa onde você não gaste e ainda tenha uma experiência de imersão cultural muito maior de quem limita-se a conhecer Paris ao invés das cidadezinhas charmosíssimas e intocadas do sul francês. Para me ajudar nesta etapa, abri todos os livros que eu tinha sobre lugares misteriosos e diário de outros viajantes.

Roteiro do Mochila & Bike em execução — abril/2016 (Google My Maps).

Exemplos de como uma boa pesquisa pode abrir um leque de destinos a conhecer se você a adaptar aos seus interesses:

Patrimônios culturais da UNESCO
Vulcões na América do Sul
Castelos pelo mundo
Lugares Onde Filmaram o Senhor dos Anéis
Praias paradisíacas na Ásia
Qual cidade nasceu o Iron Maiden

Viu? Para descobrir onde ir, basta jogar-se para dentro de ti mesmo e se precisar de mais uma força, assista aos episódios do Mochila & Bike no Youtube e deslumbre-se com o álbum de fotografias da minha viagem.

Uma prática que adotei em minha viagem após cansar de perder anotações e convites para ficar na casa de alguém, passei a usar meu roteiro como mural de anotações relacionada a destinos.

Alguns convites que recebi do CouchSurfing (ícones amarelos).

Por exemplo, eu criava as Public Trips no CouchSurfing e as pessoas começavam a me convidar para dormir em suas casas, porém eram tantos convites que se torna impossível lembrar de cada contato em cada cidade. Para resolver isto, cada vez que eu recebia um convite, mesmo que eu não pense em aceitar, eu adicionava um pino (ícone de uma "cama amarela") no mapa sobre a cidade, escrevendo no detalhe o link da mensagem de convite. Se você ver meu roteiro, vai encontrar centenas destes ícones.

Leia também: Hospedagens Gratuitas para saber sobre as Public Trips do Couchsurfing.

Posso te pedir uma coisa? Curta as páginas que você está lendo e, por favor, as compartilhe. Criar tudo isto para ajudar você a fazer sua viagem me toma muitas horas de trabalho continuo e semanas atrás de semanas anotando uma série de observações para que, no final, você seja beneficiado. Por favor, curta e compartilhe. Sigamos…

Evite armadilhas financeiras no roteiro

A pior armadilha para quem viaja sem dinheiro ou com pouco é entrar em uma zona turística com frequência, principalmente quando as cidades são cosmopolitas (gente do mundo todo). É paradoxal esta situação porque você viaja para conhecer muitas coisas, dentre elas, lugares badalados. Nestes pontos tudo é mais caro, desde a comida até mesmo para encontrar hospedagens gratuitas se torna uma disputa realmente grande. Em meu roteiro pela Espanha, com tantas cidades turísticas na rota que escolhi, eu sacrifiquei Barcelona do mapa porque lá ninguém me respondera via Couchsurfing os riscos que eu corria de chegar na cidade e me ver em uma situação onde o dinheiro seria realmente necessário, era grande. O legal de você evitar uma cidade tão badalada quanto Barcelona é que você toma uma rota incomum e que te fará descobrir o exótico que sem dúvida terá seus benefícios.

Uma dica interessante é pesquisar quais são os países mais baratos e caros em um continente específico. Isto lhe ajudará a decidir melhor sua rota junto com as informação que mostro em Fronteiras & Migração, porém não torne isto uma regra inquebrável. Arrisque o outro lado da moeda também porque, no final das contas, se um lugar te atrai tanto, é porque você deve ir lá e são estas situações de riscos que te darão experiência.

Um alerta especial para os cicloviajantes é nos voos onde a bicicleta estará com o mochileiro. Quanto menos necessidade de voos no roteiro, melhor, evitando pagar todo o tempo o excesso de bagagem e, com cálculo, evitando o excesso de peso. Então, lembre-se: evite voos desnecessários e mantenha-se em terra, aproveitando as surpresas do caminho.

Tempo em cada país

De praxe, você terá o visto de turismo e isto significa em quase todos os casos uma permanência máxima de 90 dias. Falo sobre alguns pontos importantes disso em Fronteiras e Migração. Na minha viagem, para facilitar as coisas, estimei que ficaria um mês em cada país. Foi uma meta de não cumpri a risca. Teve país que fiquei 15 dias e outros acima dos três meses. É importante você sincronizar o roteiro com seu cronograma como já conversamos nesta parte do manual também. O que quero que você considere é que viajar para fazer números parece divertido no início, mas depois você olhará para trás e verá que ou perdeu muito tempo ou está indo rápido demais. Eu cruzei o Uruguai e a Argentina tão rápido que menos de 50 dias depois eu já estava no Chile, onde permaneci por 90 dias. Conheço a essência do Chile, mas do Uruguai e da lindíssima Argentina, conheci bem menos do que estes países realmente mereceriam.

Mantenha o mapa disponível à outras pessoas

Vi alguns casos de viajantes desaparecidos rolarem por minhas redes sociais durante a viagem de volta ao mundo, geralmente desaparecidos por semanas e, em alguns casos, meses, onde a família e amigos não faziam a menor ideia de onde o mochileiro estava. Alguns comentavam que o procurado apenas não queria ser encontrado, mas também havia a dúvida se estaria preso em algum lugar necessitando de ajuda.

Alguns dos meus Check-ins ao longo de um ano (Swarmapp.com)

Para você viajante empolgado com sua trip, este aspecto pode passar desapercebido, entretanto acreditar que desaparecer no mundo é uma ideia inteligente saiba que não é e na iminência de um problema realmente grave, você mudará de ideia e também achará o Alexander Supertramp do livro e filme homônimo Into The Wild um completo egoísta e irresponsável. Você já tem um mapa digital, agora certifique-se que ele está liberado para ser visível as pessoas que você deseja e que elas tenham o link do mapa. Por segurança adicional, na página do meu projeto na internet, criei o link “Roteiro” (http://mochilaebike.org/roteiro) onde qualquer pessoa que o acessasse, veria o meu mapa em tempo-real além da lista de check-ins que eu fazia ao longo da viagem, mostrando automaticamente na página os lugares e horários onde eu havia estado. Com a ajuda do site IFTTT.com, criei uma regra onde todos os check-ins que eu dava, deveriam ir automaticamente para minha conta do Twitter. Ou seja, a informação era amplamente difundida aos seguidores do meu projeto onde, na possibilidade de um desaparecimento, todos as pessoas que se preocupavam comigo saberiam qual região foi feita meu último contato para que pudessem acionar as autoridades e por fim alguém ir me ajudar.

Mapa digital e sua limitação

Há opções mais práticas onde você poderia fazer download do mapa do Google My Maps para o celular e acompanhar seu roteiro até mesmo quando não há internet, porém eu optei por fazer prints-screen do meu roteiro nas regiões onde eu passaria. Deste modo eu pude consultar o mapa sem precisar de internet e ainda liberar um espaço considerável na escassa memória do celular. De fato, sua única limitação com um mapa digital é a necessidade de bateria e a ausência prolongada de internet, mas isto você não terá problemas em resolver porque o mundo está cheio de tomadas e hotspots gratuitos (exceto Oriente Médio, alguns países africanos e países muito pobres da Ásia) e nada como uma postura de racionamento do uso do dispositivo para deixar sua viagem com mais cara de aventura, só não opte por papel porque, neste caso, não será nada prático e pode lhe deixar em sérios problemas de segurança.

Antes de seguir

O cronograma e o roteiro será a base da nossa conversação neste manual junto do conceito “sem dinheiro” e “muitos países”. Se você não começar a moldá-lo desde agora, muita informação se perderá e você não irá extrair deste manual tudo que ele pode te oferecer. Dê forma ao planos e cruze desertos e outros lugares que estão te aguardando.

Quando eu estava cruzando o deserto do Atacama, Chile — 2015 (Aldo Lammel, CC BY-NC)

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Índice do manual

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