Tudo à nossa volta é irremediavelmente pessoal. [As almofadas que aparecem nas fotografias que ilustram esse texto são minhas, mas foram produzidas pela artista plástica austríaca Rosina Wachtmeister, e contam a história das coisas que a cercam. Para conhecer mais: https://www.rwlicensing.com/] Fotografias: Carla Soares

Falar de si mesmo: a experiência narrada também é literatura?

[Experiências de leitura #3]

Há cerca de um ano comecei a escrever newsletters, que eu acreditava serem sobre comida. Ao longo do processo de escrita e elaboração, porém, percebi o quanto de fato comida era apenas o mote que me levava a reflexões muito pessoais, com potencial de serem pensamentos comuns, cercado apenas de fundo por essa tarefa tão cotidiana de cozinhar e comer.

Foram muitas as vezes em que me senti intimidada e diminuída com o fato de que eu estava interessada em construir narrativas do ponto de vista pessoal, da experiência. Eu me perguntava se fazia algum sentido o que escrevia, se aquilo ali tinha algum valor pros outros além de mim mesma, ou se eu não estava apenas sendo autoindulgente comigo mesma.

Não é um tema exatamente novo pra mim; claramente a experiência é um tema recorrente, sobre o qual eu sempre estive interessada. Experiência foi um conceito com o qual me atraquei no meu mestrado, uns bons anos atrás. É sobre isso que falo por aqui todos os meses quando falo de livros, e é isso também o que exploro em ensaios na minha newsletter. Por isso, entender melhor o valor estético da experiência através de leituras de narrativas pessoais parecia ser um passo importante e necessário pra ficar mais feliz comigo mesma. E, por isso, comecei a investigar em algumas leituras desse tipo o que elas tinham de mais significativo.


Tenho um clube de leitura por skype com algumas amigas, e em nosso último encontro discutimos o livro A guerra não tem rosto de mulher, da escritora e jornalista bielorussa Svetlana Alexievich. Ela foi a ganhadora do prêmio Nobel de 2015 e, à época do anúncio da premiação, formou-se toda uma controvérsia em torno da indicação da autora. As pessoas apontavam que havia uma similaridade desses livros com o trabalho jornalístico, e se perguntavam se aquilo ali de fato era ‘literatura’.

Seus livros, de um modo geral, tentam dar vozes a pessoas comuns que via de regra têm pouco espaço para se fazerem ouvidas. A guerra… é todo construído fazendo uso de aspas: as histórias contadas por essas mulheres aparecem na voz delas mesmas, intermediadas pelo trabalho de escuta e registro da autora. Dá pra notar em cada um dos livros da Svetlana um trabalho extenso de pesquisa, de escuta, de trabalho em cima desse material que, de forma bruta são o vivido narrado, mas que Svetlana trabalha de forma muito perspicaz. Cada um dos livros dela levou décadas para ser construído. Fazer alguém falar em uma entrevista é um processo custoso, ainda mais quando o assunto é envolto em silêncio, como os assuntos com os quais ela trabalha em seus livros.

Em A guerra não tem rosto de mulher, são contadas as experiências de mulheres que participaram da Segunda Guerra mundial no lado soviético, em postos que não são exatamente nos quais esperaríamos encontrá-las. Além das cozinheiras, enfermeiras, lavadeiras, há também médicas, francoatiradoras, motoristas de tanques, sapadoras (são as que cavam trincheiras) e engenheiras. Ao contrário dos homens, essas mulheres não voltaram pra casa como heroínas, mas estigmatizadas como mulheres ‘da guerra’, que ocupavam espaços que não eram delas. Elas contam das acusações, do medo de nunca conseguirem se casar ou ter um espaço social digno, e do silêncio que foi imposto sobre a experiência delas.

Apesar da assustadora vontade que essas mulheres tinham de estar na linha de frente, que nos faz ficar intrigados com o espírito patriótico e coletivo que as moldavam, a história da guerra que elas contam não é sobre os grandes feitos. É sobre sutilezas. É sobre cenas assustadoras de mutilação. É sobre a ausência de roupas e sapatos em tamanhos menores, e os pés completamente destroçados por esses objetos, pois a guerra não tinha sido pensada pra elas. É sobre roupas duras e cortantes por causa do sangue seco derramado sobre elas. É sobre perder a humanidade e desejar muito matar, mas reencontrá-la quando vê seu colega ferido mortalmente, e se põe em risco pra salvá-lo mesmo sabendo que provavelmente não vai valer de muito.

Seus maridos e outros familiares, quando ficam sabendo da entrevista para o livro, pedem que elas não falem “dessas bobagens”; que se fale da vitória, da coragem, do heroísmo dos tempos de combate.

A historiografia é toda marcada por esse viés: falamos dos grandes acontecimentos das civilizações e da história da humanidade (quase sempre, ocidental-europeu); falamos das grandes vitórias, dos grandes declínios, das grandes invenções, das grandes descobertas, das grandes escolas de pensamento. E no entanto, saber desses eventos não nos dá uma boa dimensão de como as pessoas, em cada época, de fato viveram.

A vida social nunca aparece nessas narrativas porque ela é feita de miudezas: de pequenos saberes, de pequenos fazeres e acontecimentos. A vida é feita de cotidiano, banalidades, repetições e experiências.

Quando insistimos em desvalorizar essas miudezas que realmente vivenciamos, construímos e valorizamos narrativas que não correspondem àquilo que se passa conosco. A vida é roupa sendo estendida no varal; é a leitura depois de um dia puxado em que a gente dá conta de ler só 3 páginas antes de cair no sono; é correr atrás do ônibus que está passando no ponto; é a conversa sobre o tempo dentro do elevador; ou a panela de pressão cozinhando milho e soltando vapor, velha, sobre o fogão. Acredito que não falar disso é o que torna ainda maior nosso sentimento de discrepância entre como achamos que a vida deveria ser e como a vida é de fato. Falar das miudezas cotidianas é colocar o mundo numa escala mais do nosso tamanho. É essencialmente reconhecer nossa humanidade, e abrir a porta para nos tornarmos mais humanos.

Uma das reflexões inesquecíveis de 'A guerra não tem rosto de mulher'.

Na nossa conversa do clube de leituras, percebemos que ao ler narrativas pessoais estamos cultivando narrativas humanizadoras dentro de nós mesmos. Ainda que elas sejam irremediavelmente particulares, ler sobre experiências é pinçar, escolher e compor retratos específicos com cores comuns. Nelas, podemos conhecer o outro e reconhecer a nós mesmos.

Esse tipo de escrita, no entanto, sempre esbarra em lugares delicados, como a controvérsia sobre o Nobel da Svetlana deixa a gente perceber. Falta reconhecimento do valor de se narrar experiências, tanto do ponto de vista historiográfico, quanto artístico. Narrativas pessoais não estão "prontas"; são trabalhos minuciosos de composição: é preciso escolher o ângulo, as palavras, os melhores enredos, o ritmo mais adequado pra que de fato ela seja capaz de se conectar com o outro. Se a arte pressupõe que exista um trabalho de transformação, humanizador e crítico, não consigo encontrar uma justificativa que me diga que essas narrativas não possam ser chamadas como tal.

Porém, amo mais ainda dizer que não faz diferença que isso seja ou não chamado de arte ou literatura, pois o que importa é o quanto entrar em contato com esse tipo de história pode ser transformador. A leitura do livro dA Guerra…, e a conversa que tive sobre esse a importância do narrado vivido espalhado pela obra me fez reviver a relevância das coisas pequenas. Não é só nesse livro, no entanto, que encontrei esse tipo de beleza. São vários os livros com narrativas pessoais que me encantam, mas muitas vezes eles são subestimados simplesmente porque não estão alinhados com os valores dominantes de grandeza, protagonismo, e força que a nossa cultura acredita serem os melhores, ou os que importam. No entanto, a cada novo livro que leio sobre experiências pessoais saio tocada, e penso que se é verdade que o valor deles ainda é subestimado, eu não preciso repetir esse gesto. Isto, sem dúvida, é o que eu procuro na literatura, aquela com letra maiúscula ao menos no meu coração. Pra mim importa que esse tipo de narrativa me faça sentir capaz de reconhecer a nossa pequeneza pois minha intuição me diz que é justamente nela que reside a nossa maior imensidão.


Três livros para se ver a pequena grandeza das narrativas pessoais

Perceber o quanto as narrativas pessoais são singulares e relevantes é um exercício que tenho feito para me sentir mais à vontade com minha própria produção. E acho que tem funcionado. Compartilho por aqui três livros — escritos por mulheres — que me deixaram emocionada, e me deram uma boa sacudida sobre o valor de contar nossas próprias histórias:

Sexografias (Gabriela Wiener) — A autora é uma jornalista peruana que atualmente vive em Madrid, e escreve o que chamamos de “jornalismo gonzo”: nele, o jornalista se coloca em primeira pessoa naquilo que se propõe a investigar e narrar. A distância e (suposta) isenção do texto jornalístico, neste caso, são substituídas pelo tom da experiência. A grande sacada é que Wiener faz reportagens sobre sexo. Nos ensaios-reportagens que fazem parte do livro, a autora vai a uma casa de swing, participa de um show de spanking com uma dominadora, conhece um guru de ejaculação feminina, vai viver uns dias na casa de uma controversa família formada por um homem e suas 6 esposas. Ela parece tão à vontade para falar dessas vivências, que o livro resulta em algo absolutamente ousado, e com um quê underground muito gostoso.

Exames de Empatia (Leslie Jamie) — Exames de Empatia é uma coletânea de ensaios, uns com potencial de agradar mais que outros. Jamie explora em sucessivas histórias indagações sobre como se colocar no lugar dos outros, sempre narrando a partir da sua perspectiva. O efeito dessa estratégia é percebermos a discreta movimentação dialógica que existe no exercício empático. Durante todo o livro, me perguntei se eu, de fato, sou a boa ouvinte que julgo ser. Foi só no final, no entanto, que me dei conta de que parte do processo de empatia não se resume a saber ouvir, mas também saber falar. É preciso se expor de maneira aberta, desarmada pra poder se oferecer a sério em qualquer relação. Se ficou curiosa, você pode ler o posfácio desse livro, em que a autora fala sobre escritos confessionais e como eles incitam que outros também falem de si (link em inglês).

A guerra não tem rosto de mulher (Svetlana Alexievich) — Falei ao longo do texto, e não posso deixar de recomendar. A Svetlana dá voz aos personagens de um jeito muito ímpar (e ela fala dessa capacidade de escuta nessa entrevista do Literary Hub, em inglês). Você percebe o trabalho de construção ao longo das narrativas: há uma uniformidade de linguagem, que a gente não encontra nas falas cotidianas, mas ainda assim você sente a presença e a potência daquelas vozes. É um livro cheio de sofrimento, e precisei de um intervalo grande pra ler porque as narrativas são assombrosas. A gente sai dele com a sensação de que acessou alguma coisa muito íntima e delicada, também dolorosa, mas muito humanizadora. Não se esqueça de separar uns lenços.


Este ensaio faz parte da série Experiências de leitura, publicada mensalmente no projeto Mulheres que Escrevem. Leia também:

#1: O que falamos dos livros que lemos
#2: O embaraço em aceitar livros como ajuda