Amigos, livros, cafés [Gravura do livro The Well Read Cat, de Michele Sacquin. Fotografias: Carla Soares]

Os livros que escolhemos ler

Experiências de leitura de fevereiro

Muitos anos atrás, andando por alguma livraria, perguntei ao meu namorado como é que ele escolhia os livros que ele queria ler.

Andar por uma livraria me deixava um pouco perdida. Eu me sentia como se houvessem escolhas certas e erradas a serem feitas quando se tratava de um livro. Achava que existiam dois tipos de livros: os livros bons, e os livros ruins. Como eu saberia — sem ter lido — quais eram os bons, os que eu deveria ler, os livros certos pra se conhecer?

Meu raciocínio deixava evidente o quanto a leitura parecia pra mim mais com um dever do que propriamente com uma escolha. Não parecia haver tanto espaço pro divertimento, entusiasmo, ou percursos, e por isso, eu não tinha a menor ideia de como eu poderia fazer escolhas.

Cair nessa armadilha dicotômica do certo e errado, do deveria ao invés do poderia é assustadoramente fácil. Nas conversas com os amigos, nas mídias sociais, no trabalho, nos deparamos com julgamentos, opiniões, e até com referências supostamente imperdíveis, mas que até então a gente nunca nem tinha ouvido falar. Se sentir amedrontado e esquecer de se perguntar o que você procura ao ler um livro é diminuir as possibilidades que a leitura possa ser fonte de alegria e entusiasmo. Como gostar de ler sem poder dizer o que ler significa pra si?

Sempre tive um pouco de medo de fazer escolhas (literárias, e também em outros espaços da vida), e ando sempre tentando cultivar antídotos pra isso. Em 2016, comecei a falar sobre os livros que leio, mudando a forma do que geralmente vejo por aí. Todos os meses escrevi e publiquei na Cabine Literária uma série em que falava sobre minhas experiências de leitura. Uma mudança sutil na escrita, mas consistente: não julgar, não avaliar, apenas dizer como a leitura se encaixa no meu percurso. Contar, por exemplo, como chego até os livros que leio, e como esses livros, e outras leituras, vivências e interesses vão me levando a outros, em um percurso que nem sempre é fácil de seguir e entender de maneira consciente.

O modo como falamos dos livros importa. Ao invés de competirmos por quem leu mais, quais os livros mais importantes e indispensáveis, ou mesmo quais são os melhores livros (como se isso existisse de fato), podemos essencialmente partilhar nossas pequenas descobertas, sem julgamentos. Nem livros, nem leitores são bons ou ruins: são apenas possibilidades, vontades e momentos.

Costurar, por exemplo, uma resposta pra pergunta do porquê escolhemos os livros que escolhemos pode exigir que a gente revele pequenos detalhes que podem parecer banais demais pra dar importância. Nem por isso, são menos reais: escolhi pela capa; por uma atração pela foto de quem escreveu; pelo nome de um dos capítulos que pareceu irresistível demais pra deixar de lado; porque outra pessoa me falou; porque já ouvi falar de quem o escreveu; porque parece ser importante ler esse livro mesmo que eu não tenha o menor interesse.

Esses detalhes, contudo, não dão conta de explicar completamente as nossas escolhas. Para cada uma das pequenas razões ocasionais, existe um conjunto de momentos, ideias, imagens, e atividades que nos fazem, naquela circunstância, prestar atenção nisto ou naquilo. E tudo isso tem muito pouco a ver efetivamente com gostar ou não gostar de algo, e muito mais a ver com nossas histórias, as coisas que tivemos oportunidade de viver, e aquilo que nunca pudemos apreciar. Então, por que julgar tanto o que fazemos e o que os outros fazem?


Foi escrevendo sobre livros em 2016 que eu finalmente comecei a perder o medo de fazer escolhas. Ao ter oportunidade de conversar abertamente sobre esse medo, entendi de fato o quanto os percursos podem ser diferentes, mas nunca exatamente certos ou errados.

Escolher um livro não tem a ver com conhecer de antemão muita coisa pra antecipar o que vale ou não a pena. Tem a ver com sentir-se bem na própria pele. E foi conversando sobre o que eu lia que consegui me sentir um pouco mais à vontade.

Animada pela experiência de escrever e publicar meus relatos sobre as leituras, ampliei essa socialização e passei a experimentar também participar de clubes de livros. Não só de um, mas dois. E essas experiências foram fundamentais para também aumentar minha percepção sobre como o modo que falamos dos livros pode nos levar a um entendimento de que livros são momentos.

Montei, em conjunto com uma amiga, um clube LeiaMulheres na minha cidade. Em cada encontro, percebo como consigo ir costurando as diferentes perspectivas que cada um encontra nas leituras, mas especialmente, o que mais me toca, é o quanto aprendo do quanto são múltiplas e diferentes as experiências de cada uma que participa do clube. Enquanto uma participante, por exemplo, pôde achar o livro Olhos D'água da Conceição Evaristo de um desemparo assombroso, outras conseguiram enxergar esperança, futuro e possibilidades. E ninguém estava errado.

O segundo clube encontrei ao ser avisada por e-mail de uma combinação pelo Twitter. O título escolhido por elas era Mrs. Dalloway, da Virginia Woolf. Não seria um título que eu naturalmente escolheria. Mas eu amei isso: fui tirada da minha "zona de conforto de leituras", e tomei a brincadeira como uma oportunidade de ser chacoalhada — e eu estou sempre disposta a ver aonde o vento me leva.

Lendo Virginia Woolf — não vou mentir — tive bastante dificuldade. A escrita dela em fluxo de pensamentos me confundia e era difícil de acompanhar. É interessante, e muitíssimo cinematográfica, mas custosa de entender.

Falei das minhas dificuldades abertamente, e do quanto não consegui de fato me encontrar no livro ou nos personagens. Pra minha surpresa, depois da conversa, uma das participantes publicou um texto falando sobre seu percurso e ganhos lendo Virginia Woolf: pra ela, isso envolvia idas e vindas que já somavam próximo de 10 anos. Woolf se entrelaçava a suas memórias, ao seu trabalho em editoras, nas coisas que ela já ouviu falar sobre a autora (e que precisou esquecer pra finalmente conseguir enxergá-la). Existiam inúmeras tentativas frustradas, leituras de ensaios, e outras observações recentes que a faziam pensar em Woolf. No mapa de experiências dela, Virginia Woolf fazia muito mais sentido. Pra mim, o que ficou claro é o quanto fazia sentido revelar nossos mapas.

Dividir a experiência da leitura com outras pessoas é interessante porque a multiplica: enxergamos as inúmeras possibilidades de caminho que existem, e percebemos o quanto os julgamentos precisam ser relativizados e entendidos dentro de um contexto.

O que nos faz entusiasmar por um livro é, afinal, uma soma: são as nossas experiências, que acontecem num fluxo contínuo, num turbilhão que não tem paradas ou rumo definido. O conjunto dessas experiências é único e marca o nosso recorte de mundo: é o mapa que usamos para navegar na vida.

Ter a oportunidade de conversar com outras pessoas sobre nossas leituras é ampliar os nossos mapas. Compartilhando as experiências, vamos encontrando portos comuns, tesouros, e também as quinquilharias que a gente foi juntando ao longo da travessia.

Desarmar-se, parar de competir e de se apegar a dar opiniões, é entender que não há um percurso de leitura certo. A beleza de ouvir sobre as escolhas e leituras alheias é perceber o percurso único que é cada jornada. Cabe a cada um navegar, desenhar e dar cor ao seu mapa. Sem medo de que existam caminhos errados. E com coragem pra rir de quem ainda acredita que exista um caminho certo.


Conversas sobre livros em que vale a pena se meter

Em 2017, estarei todo início de mês por aqui na Mulheres que Escrevem pra falar de livros e das experiências que temos com eles. Você pode me seguir, e seguir a Mulheres que Escrevem pra gente continuar a conversa. Vai ser muito legal ter você por aqui!

Por hoje, fecho deixando esses 5 projetos deliciosos de mulheres que adoram falar sobre livros e valem a pena acompanhar de perto:

LeiaMulheres (clube de leitura) — Ler também é um ato político. O projeto #LeiaMulheres nasce em 2014, propondo que cada um olhe suas estantes e leia mais mulheres. O mercado editorial ainda é restrito e as mulheres não possuem tanta visibilidade, por isso a importância desse projeto. Mais de 30 cidades brasileiras têm reuniões de clubes de leitura #LeiaMulheres, em que a gente pode trocar impressões sobre a leitura (e claro, também sobre nossas próprias experiências). Arrisque-se, procure se tem um na sua cidade e participe (e se não tiver, monte um, como eu fiz!).

Cartinha de banalidades — A Stephanie Borges fala de literatura (mas não só) de um jeito despretensioso: informal mas bem informado, com cara daquelas conversas que poderiam se estender por horas no sofá. Na sua newsletter a gente encontra pequenas pistas instigantes sobre percursos, perguntas e descobertas. Assine, e não deixe de bater um papo com ela.

Nerdices e afins— Literatura (e afins, como diz o nome) e muitos gifs divertidos, pra não deixar nenhuma dúvida de que no assunto também cabe leveza e bom humor. Juju Gomes deixa semanalmente nessa newsletter seu percurso, e tem sempre algumas boas sugestões.

Virgínia — Quando recebo as newsletters da Fabiane Secches sempre me preparo para um mergulho. Pra quem se interessa em conversar sobre livros e também gosta de um quê mais analítico, a companhia da Fabiane é de uma gentileza ímpar.

BrainPickings— Toda semana, no seu email uma newsletter bem recheada de obras, citações e indicações que vão te fazer ter vontade de ler mais do que é possível numa vida. Produzido por Maria Popova (em inglês)