Uma janela pra si: a experiência revisitada dos ensaios

[Experiências de leitura #6]

Leio ensaios compulsivamente. Acredito, inclusive, que leio mais ensaios do que qualquer outro gênero literário, talvez pelo interesse, mas também pela disponibilidade de artigos desse tipo internet afora. Particularmente esse tipo de texto me atrai porque fico tentando entender de que jeito a gente decide contar sobre nossos pensamentos, ideias e acontecimentos pra compor uma narrativa própria. Neles há uma possibilidade muito singular de entrar em contato com as experiências, pois o que é oferecido não são somente as histórias, mas as diferentes formas que alguém pode escolher para revisitar suas experiências. Enquanto alguém pode escolher contar os detalhes mais vergonhosos ou enfadonhos, outro pode usar de subterfúgios, de outras histórias para falar da sua de um jeito contido.

No teatro, ensaiar é subir ao palco antes do dia da estreia pra garantir que sabemos bem nosso papel. Os ensaios literários também têm qualquer coisa assim: um repassar das cenas que estavam no roteiro, observando o encadeamento, o ritmo e a relevância de cada pequeno pedaço nosso que escolhemos iluminar. É um exercício de composição, de construção, de se colocar em relação a sua própria história pra poder oferecer ao outro o seu melhor espetáculo. Ensaiar é um exercício de abrir uma janela que dá pra dentro de si.

Mas até que ponto quem escreve dá conta de se expor sem com isso se sentir profundamente ameaçado, com medo de ser rejeitado naquilo que oferece acreditando ser precioso? Penso muito sobre esses limites da exposição a cada mês, quando escrevo estas experiências de leitura ou as minhas newsletters, e essa é sempre uma das questões mais delicadas pra mim. Por isso adoro quando aparece algum livro particularmente entusiasmante, que me permite melhorar meu entendimento sobre as diferentes composições que o vivido narrado toma nas mãos de outras pessoas. Foi o que fiquei observando quando li The Lonely City: adventures on the art of being alone, da inglesa Olivia Laing [*Atualização: A Cidade Solitária, tradução do livro para o português, foi lançado pela editora Rocco em julho de 2017]. A relação que estabelecemos com o outro através dos vários tipos de linguagem é o coração desse livro. A proposta é falar sobre se sentir sozinho, mas ironicamente, a jeito que a autora escolhe fazer isso é acompanhada. O retrato da solidão vai sendo tecido no livro a partir do olhar da autora sobre diferentes obras de arte, de modo que parece que Olivia Laing nunca está sozinha enquanto conversa conosco sobre o assunto.

A escolha das obras é bastante subjetiva, mas há um fio que liga essas escolhas: todos os artistas, em algum momento, haviam se mudado para Nova York, e experimentaram a solidão que só quem se muda para uma grande metrópole é capaz de relatar. Na verdade, minha nem tão recente mudança pro interior me faz acreditar que qualquer mudança de cidade é capaz de provocar esse sentimento de inadequação e isolamento, pois a vida nas cidades tem qualquer coisa de paradoxalmente solitária per si. Minha experiência migratória foi, aliás, um dos motivos que me levaram a querer ler esse livro. Além de mim e dos artistas sobre o qual A cidade solitária fala, a autora também vivenciou esse tipo de troca, e é quando fala do tempo sozinha na cidade nova que aparecem as pistas mais íntimas sobre sua história e sua relação pessoal com a temática da solidão.

Ao apontar a solidão como uma interpretação possível numa fotografia, num livro ou numa pintura, Olivia Laing fala de si mesma, e das coisas que ela entende como sendo parte do seu próprio isolamento. Laing sem querer se revela, sem precisar construir um ensaio em primeira pessoa, nem recorrer tanto à memórias, embora elas estejam em alguns lugares.

O fato de que seu ensaio é pessoal sem precisar ser escrito em primeira pessoa é uma das coisas que mais me fez entender a concepção que Laing tem sobre a solidão. Sentir-se sozinho não tem muita relação com estar fisicamente sozinho, sem ninguém por perto. Sentir-se sozinho é sentir-se privado de afeto, de relacionamentos íntimos, de pessoas com quem dividir profundamente seu cotidiano. É o oposto de sentir-se acolhido, entendido, escutado nas suas angústias e acompanhado nas suas dificuldades. Por isso, para se sentir acompanhada, Laing também não precisa se fazer presente em primeira pessoa, pois em cada leitura que ela faz de uma obra artística, ela divide um pedaço menos óbvio de si que seu corpo, suas vivências, ou os acontecimentos que fizeram parte da sua história. Estar sozinho ou acompanhado é um estado que se reconhece nas sutilezas, muito mais do que naquilo que é possível ver.

É por isso que a solidão na cidade é um tema que reaparece no livro e nas minhas reflexões o tempo todo. A vida urbana nos faz ficar reservados porque apesar da quantidade de pessoas, ou justamente por conta da quantidade enorme de pessoas, a gente precisa criar uma proteção contra essa avalanche de estímulos que pode ser a convivência urbana. Numa cidade, a gente não se relaciona com todo mundo a nossa volta porque isso é impossível. Nos filiamos a pessoas escolhidas a dedo, que têm alguma coisa em comum pra dividir com a gente; e quase sempre esse comum precisa ser algo menos óbvio que o fato de morarmos no mesmo lugar.

Talvez justamente por estarmos tão acostumados com a vida nas cidades, cheia de solidão na sua gênese, a gente nem se dê conta do quanto o sentimento é pervasivo e dolorido. O sentimento de solidão diz do nosso desejo de intimidade, mas se tornar íntimo de alguém não é simples. Dá um bocado de medo. É preciso se revelar um pouquinho, e contar daquilo que gostamos, acreditamos ou fazemos. Porém, falar de si mesmo é arriscado: a gente se submete ao escrutínio do outro, e pode ser que não gostem do que vêem (ouvem, sentem), e a gente seja rejeitado. A vontade de ficar sozinho tem um pouco desse gosto, de querer se preservar pra não se ver sozinho de fato, de um jeito irremediável. É uma pergunta que todos nós nos fazemos, mesmo quando não a anunciamos em voz alta: Prefiro correr o risco de ser rejeitada ou de me sentir isolada? As duas opções são difíceis.


Nas interpretações que cria para as obras artísticas em A cidade solitária, Olivia Laing tenta não separar os objetos artísticos da interpretação sobre a história de quem a criou. Seu movimento é o de deixar indistinto sujeito e objeto, autor e obra, e por isso se torna possível uma escrita de si que não acontece em primeira pessoa. É como se a escritora se dissolvesse nas obras, nas histórias alheias dos artistas que ama, no cenário que ela sente com eles partilhar.

Quando fala de Andy Warhol e de seus quadros — como a série de latas de sopa Campbell — que ilustram a repetição de objetos ordinários e cotidianos do mundo do consumo de massa, ela sente a necessidade de voltar no tempo e entender a vida que Warhol levou: o fato de que ele vinha de uma família de imigrantes, que tinha um sotaque que o envergonhava quando criança, e que ele era uma criança naturalmente tímida. Exaltar a beleza de se sentir igual é um antídoto contra a dor de se sentir singular e consequentemente sozinho. Sentir-se diferente abre a possibilidade de se fazer ferido; já a semelhança protege contra a rejeição e o abandono. E é ali que ela também não se deixa ficar sozinha. É só ali, cercada por essa companhia, que Laing pode falar também da sua história, de se irritar tentando disfarçar seu sotaque ou de se sentir desconfortável em conversas cotidianas, de também se reconhecer imigrante em Nova York. Para Laing, Warhol enfatizava a repetição para falar da beleza de se reconhecer como um igual, de ser o mesmo, de não se destacar na multidão. Como ele mesmo destacou em sua autobiografia ao falar sobre sua atração pelo mundo do consumo de massa, 'todas as cocas-colas são idênticas, e todas as coca-colas são boas'. Um sentimento que Laing parece também desejar.

A série de quadros com a lata de sopa Campbell serigrafadas por Warhol, atualmente parte do acervo do MoMA, em Nova York.

As experiências que elegemos compartilhar, seja através da palavra pra recontar a nossa história ou usando qualquer outra linguagem, são como pequenos pedaços nossos. O problema é tentar distinguir o que torna nosso material particular e universal ao mesmo tempo, para que o outro possa se ver naquela mesma história. Há tanta coisa a ser partilhada por tanta gente. Como a gente escolhe sobre o que devemos falar, pra ser respeitoso com quem se dispõe a nos ouvir?

Na newsletter Femrecs, a jornalista Leticia Arcoverde escreveu uma edição em que reflete sobre os ensaios confessionais e pontua algumas pistas interessantes pra responder essa pergunta. Apesar dos ensaios pessoais existirem aos montes internet afora, é uma ilusão achar que isso é suficiente pra nos fazer entrar em contato com experiências mais diversas pois é impossível lidar/ler sobre todo tipo de experiência. Do mesmo jeito que precisamos escolher com quem vamos nos relacionar no espaço urbano, fazemos uso de filtros pra escolher que tipos de relatos pessoais nos interessam entrar em contato. E no momento, temos cada vez menos controle sobre os filtros que as redes sociais nos impõe. Ler ou escrever ensaios pessoais é uma forma de multiplicar os olhares com os quais é possível se relacionar, mas sempre será de uma forma capenga, insuficiente, porque estamos quase sempre falando com pessoas que tem algo em comum conosco — nem que seja a língua — pois a experiência só é comunicável nesse nível.

É imprescindível que a gente reconheça que o mundo só pode ser visto a partir das lentes que usamos nos olhos. Precisamos saber lidar com os filtros se queremos também filtrar aquilo que queremos compartilhar com os outros.

Penso que Laing assume um filtro muito consciente nesse livro. Seu ensaio pessoal é um exercício de muitas vozes, pois este é o jeito que ela encontrou de tornar seu pessoal universal ou político. Esta proposta polifônica me fez lembrar dos livros da escritora e jornalista bielorussa Svetlana Alexievitch, como A guerra não tem rosto de mulher, que eu já havia comentando em outra ocasião. A partir de centenas de relatos colhidos durante 30 anos, Alexievitch constrói um relato pessoal povoado de vozes, mas deixa transparecer em muitas passagens que definitivamente aquela também é um pouco a sua história.

A leitura de A cidade solitária me levou a exercitar na minha newsletter um relato em que misturei reflexões do livro com pequenos pedaços falando sobre o meu imenso incômodo de comer sozinha. Ao contar com a companhia da Olivia, pude me sentir menos desconfortável em falar de mim mesma, e consegui amarrar minhas experiências como parte de um contexto maior, do modo como nos organizamos nessa sociedade e nas nossas cidades, e até mesmo como parte da nossa existência. Se fui bem sucedida não tenho certeza — e não acho que a certeza seja possível — , mas gosto de poder experimentar, de exercitar, de tentar incorporar as coisas que admiro.

Ainda que narrativas marcadas pela pessoalidade sejam irremediavelmente particulares, o trabalho da escrita é o de tentar pinçar, escolher e compor retratos específicos com cores comuns. O ensaio pessoal não precisa ser um exercício solitário de se contar sua história, pois nossa história é também os diálogos que travamos com os outros. Os diálogos verdadeiros fazem que nossas histórias ganhem sentido pois nos obrigam a nos colocar em relação a outras histórias. Precisamos, afinal, de companhia pra repassar e revisitar nossas cenas. E por isso é indispensável seguir ensaiando a construção dessas janelas.


Dois outros ensaios que equilibram o pessoal e o universal

Não há respostas certas sobre como estabelecer um equilíbrio entre ser pessoal ou universal, apenas exercícios. A cidade solitária é um livro delicioso, no qual a autora não se permite ficar sozinha e se coloca em relação a muitas vozes, formando um bonito espetáculo sobre solidão, companhia, arte, e a vida urbana. Outros livros também nos permitem entender o exercício polifônico do ensaio, e é o que gostaria de sugerir por hoje:

A doença como metáfora/AIDS como metáfora (Susan Sontag) — Nesse ensaio, Sontag usa suas experiências como paciente de câncer mesclada a experiência de vários amigos que adoeceram e morreram de AIDS logo no início da epidemia, quando pouco se entendia sobre a doença. A reflexão de Sontag nos faz pensar sobre nossas dificuldades em lidar com a doença, o doente, e em última instância com o outro. Essa leitura foi um dos exercícios mais marcantes que já fiz de perceber a ponte entre o pessoal e o político. ë um livro tocante, pessoal, mas irremediavelmente coletivo.

A guerra não tem rosto de mulher (Svetlana Alexievich) —Mencionei esse livro no texto, e não poderia deixar de recomendar. A guerra… é todo construído fazendo uso de aspas: as histórias contadas por várias mulheres que lutaram na segunda guerra mundial aparecem na voz delas mesmas, intermediadas pelo trabalho de escuta e registro da autora. Você percebe o trabalho de construção ao longo das narrativas, mas ainda assim você sente a presença e a potência de todas as vozes. É um livro cheio de sofrimento, e precisei de um intervalo grande pra ler porque as narrativas são assombrosas. A gente sai dele com a sensação de que acessou alguma coisa muito íntima e delicada, também dolorosa, mas muito humanizadora.