Com o que você escolhe se comprometer?

Você realmente faz tudo o que diz que vai fazer?

O Círculo do Ninho de Escritores se reúne todas as semanas no mesmo dia da semana e no mesmo horário. Essa informação está claramente apresentada na página do Ninho onde qualquer pessoa interessada deve preencher o formulário de inscrição. Ainda assim, menos da metade das pessoas que se inscrevem para participar do Círculo efetivamente o fazem.

Há casos diversos que explicam isso e tantos outros que semeiam o silêncio. Por exemplo, existem os imprevistos que se interpõem entre a pessoa e as datas marcadas. Considero esses casos mais fáceis de compreender. Há pessoas que se inscrevem e, quando entro em contato, me informam que não podem têm as quintas-feiras disponíveis. Há também quem nunca responda aos meus contatos após a inscrição — em parte, culpo a tecnologia por isso.

Desde os primeiros encontros do Ninho, venho refletindo sobre o que leva as pessoas a informarem que estarão presentes em algo e depois não estarem. Sei que é um problema muito maior que o meu projeto, porque vejo-o acontecer também no CreativeMornings — cujas vagas limitadas são ocupadas por pessoas que não aparecem, potencialmente dificultando o acesso de outras pessoas que iriam ao encontro — e em praticamente qualquer evento publicado no Facebook. O que explica isso?

O problema é o tempo?

Podemos começar pelos fatos.

Todo ser humano tem à sua disposição a mesma quantidade de tempo com o qual pode viver. Dizer isso é diferente de afirmar que todos podemos usar o tempo que temos da mesma forma. De modo geral, as 24 horas — ou seja qual for o modelo de divisão de tempo que usarmos — pertencem a todos. Portanto, não se trata de um problema de tempo.

muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. É verdade, em qualquer dia e horário haverá variadas experiências previstas e infindáveis situações imprevistas que podem ser vividas. Embora tenhamos mais opções programadas, a abundância de experiências que a vida nos oferece sempre foi esmagadora.

Nenhum ser humano é capaz de viver tudo o que a vida oferece porque viver uma experiência significa necessariamente, pelo menos naquele instante, deixar de viver todas as outras. Se refletirmos sobre isso, é bem provável que percebamos nossa pequenez diante do que existe. A limitação pertence ao ser humano por destino.

O oceano de opções seria uma explicação para as pessoas que dizem que vão e faltam apenas se ninguém de fato fosse. Ocorre que muitas pessoas dizem que vão e cumprem o que dizem. O problema, me parece, é que não queremos nos comprometer.

Queremos a possibilidade, mas não o compromisso

Vivemos à espera da melhor experiência possível e, por isso, estamos abertos a mudar os planos mesmo que no último minuto. Essa é a maior prova do exercício da nossa liberdade, não é mesmo?

Talvez seja, mas de que forma esse exercício de liberdade cuida do sentido que damos às nossas vidas e para as nossas relações?

Quando me inscrevo para participar de um evento e não o faço, o que exatamente estou dizendo? Em primeiro lugar, que alguma outra experiência me foi mais importante naquele momento. Não haveria nada de problemático nisso se esse não fosse um sintoma recorrente em nossas relações. Marcar para não ir é como dizer “se nada melhor aparecer, eu vou” ou “conte comigo, mas não tanto”.

Hoje, recebo inscrições para o Círculo do Ninho de Escritores e já espero que menos da metade dos inscritos apareçam. Acho isso triste. Gostaria de confiar quando alguém me diz “eu vou”. O que leio atualmente nas inscrições é “eu gosto da possibilidade, mas não me comprometo”.

Queremos a superfície, mas não a profundidade

Nós somos livres para não irmos a fundo em uma experiência e para deixarmos de cumprir nossas afirmações de envolvimento. O que me preocupa, enquanto treinador de escritores e ser humano desejoso de relações profundas com outras pessoas, é que a qualidade de experiências que procuro não se encontra na superfície.

Fazer boa literatura — uma pretensão de tantos que se inscrevem e não vão — exige compromisso consigo mesmo e com a própria arte. Alcançar a maestria em qualquer coisa demanda prática e entrega. Seja escrever, seja se relacionar, a maestria acontece na profundidade, na repetição.

Mas e o tédio?

“Na verdade, a essência do tédio está na busca obsessiva da novidade. A satisfação está na repetição consciente, na descoberta de riquezas intermináveis nas sutis variações de temas familiares”. (George Leornard, no livro Maestria)

Se digo que vou e não apareço porque outras coisas se sobrepõem ao que eu havia planejado (ou indicado interesse), estou me permitindo fazer escolhas diferentes daquelas com as quais supostamente havia me comprometido. O valor do meu compromisso diminui, bem como a profundidade da minha relação com a arte, com outras pessoas, com o que for.

Isso não quer dizer que não podemos mudar de ideia ou que devemos escolher algo e ficarmos com essa decisão para sempre. Somos seres livres inclusive para não nos comprometermos.

Contudo, também somos responsáveis por todas as nossas escolhas e, em última instância, pela nossa própria falta de compromisso.

Somos autônomos, livres e responsáveis, mas também podemos ser cuidadosos

Qualquer que seja nossa escolha, ajuda se a fizermos com clareza e de modo consciente. Qualquer que seja a sua escolha, me ajudaria receber uma mensagem dizendo “eu havia me inscrito, mas escolhi me comprometer com outra coisa, por favor não conte comigo nos seus planos”.

Essa escolha consciente e cuidadosa ajuda também a nós mesmos, porque dá sentido à nossa ação.

Com frequência, me perguntam como eu sobrevivo sem o feed do Facebook, se não tenho medo de perder alguma informação bacana, novidade incrível ou atualização na vida dos amigos. Eu não tenho esse medo porque minha escolha de perder essas coisas é consciente. Faço essa escolha porque me comprometo com outras coisas que são mais importantes para mim: organizar projetos, fazer minha arte e manter conversas individuais.

É o melhor? Não sei, mas é o meu compromisso e sou responsável por ele.


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