Para ler como quem escreve

Ler com pressa é desperdício da potência de um texto.

Ontem foi o penúltimo encontro do curso de escrita narrativa com temática queer, que ofereço gratuitamente no Ninho de Escritores em parceria com a representação do Ministério da Cultura em São Paulo. Em todos os encontros, fazemos exercícios de leitura crítica em grupo e observamos pelo menos três aspectos de cada texto.

Neste artigo, vou te mostrar como fazemos essa leitura crítica, que aspectos são esses e um método de leitura crítica ainda mais atento e profundo.

Vem comigo :)

Um exercício de leitura crítica

Em todos os encontros, lemos e criticamos os exercícios feitos pelos participantes. Em geral, a leitura crítica acontece na seguinte sequência:

  • fazemos uma leitura individual em silêncio;
  • fazemos uma leitura coletiva em voz alta (quem escreveu não lê o próprio texto);
  • compartilhamos comentários, críticas e dúvidas sobre o texto, enquanto a pessoa que escreveu apenas ouve e anota, sem responder.

O silêncio de quem escreveu tem uma razão pedagógica: o texto deve falar por si próprio. Quando vemos que nosso texto está sendo incompreendido, é usual saltarmos em sua defesa. “O que eu queria dizer é que…” — não importa. Se o que queria dizer não é o que está dito, a relação entre autoria, texto e leitura está prejudicada.

A única pessoa que não pode se candidatar para ler um texto é quem o escreveu. O motivo disso também é pedagógico. Quando ouvimos alguém ler nosso texto, o percebemos a partir de outro ponto de vista (de ouvido, no caso). Por outro lado, quando lemos nosso próprio texto, preenchemos suas falhas com entonações e ritmos que não estão determinados pelas palavras e pontuações. Se sou apenas leitor, não sei qual é a entonação e ritmo desejados senão a partir do que foi impresso no papel.

Todos os comentários e críticas são feitos a partir da posição específica de quem está lendo. Evitamos dizer coisas como “o texto não está claro” e “essa frase ficou ruim”. Em lugar dessas expressões, trabalhamos com nossa autoconsciência frente ao que estamos lendo: “não entendi esta passagem” ou “eu gostaria mais dessa frase se ela fosse deste jeito”.

O motivo para isso é que não existe jeito certo de escrever. Regras gramaticais, lógica de narrativa, tudo isso responde à intenção de quem escreve. Já vi gente optando por estruturas de frase que enervam os leitores. Se for intencional, então tudo bem. Se for acidente, a leitura crítica apontará o que precisa ser repensado sem a presunção de que existam “jeitos melhores” de escrever.

Três níveis de leitura

Durante a leitura, há três instâncias que gosto de considerar:

  • o uso da linguagem;
  • a construção narrativa;
  • o contexto sociocultural.

Em termos de linguagem, a preocupação é com a parte fina da escrita: as palavras escolhidas, a sonoridade, a pontuação, as metáforas. A aliteração de o rato roeu a roupa do rei de roma e de raiva a rainha roeu o resto. A diferença entre “Na minha frente, o idiota.” e “Na minha frente, o idiota!”.

A construção narrativa diz respeito à montanha russa emocional para a qual convidamos quem lê nosso texto. O que prende durante a leitura, qual é o melhor veículo para a empatia, como produzir curiosidade, ansiedade e liberação em um texto.

Essa é a minha parte favorita porque os seres humanos são programados para responderem a histórias. Entender como narrativas funcionam significa entender como nós pensamos e criamos sentido para a vida. Manipular esses sentidos em ficções coerentes é o absoluto da magia.

O contexto sociocultural é a instância em que pensamos sobre onde esse texto se encaixa fora da literatura. As palavras e histórias dialogam com o repertório de quem lê e ajudam a criar novos repertórios.

Ao oferecer um curso de escrita com temática queer, preciso estar atento às histórias estereotípicas e recheadas de lugares comuns — o gay afetado engraçado e malvado, a lésbica masculina que odeia homens, trans que sofre com disforia de gênero, o negro submisso, a latina sexualizada, o deficiente que se acha quebrado etc.

Como a literatura se baseia em conflitos, escolher quais conflitos cada personagem pode viver também diz de como entendemos o mundo. Minorias podem enfrentar os mesmos dilemas que homens brancos de classe média têm enfrentado há séculos. Minorias não precisam ter uma história única.

Atentar para o contexto sociocultural também nos leva a lembrar que, sem referências, preenchemos com o “normal”. Sem gênero, é homem. Sem etnia, é branco. Sem orientação sexual, é heterossexual. Sem tempo, é hoje. Sem lugar, é aqui.

Deixar de escrever algo é uma escolha e precisamos entender o que vem com as nossas escolhas.

Para ler como quem escreve

Francine Prose tem um livro fantástico para quem escreve: Para ler como um escritor. Ela esmiúça os meandros da leitura atenta, um processo que envolve degustar cada palavra de cada frase de cada parágrafo, entendendo suas inter-relações e construções de sentido.

O livro é um convite a uma leitura lenta, sem pressa, muito diferente do que estamos acostumados. É comum querermos ler mais rápido para lermos mais livros. Admiramos quem lê vários títulos por ano porque achamos que serão escritores melhores. Essa é uma das maiores mentiras que nos contam sobre escrever.

No encontro de ontem do curso de escrita narrativa com temática queer fizemos algo próximo do que Francine Prose sugere. Em grupo, lemos um parágrafo de cada vez do texto que estávamos analisando. A cada parágrafo, paramos e discutimos o que estava acontecendo, como estava escrito e quais referenciais socioculturais eram acionados por aquelas frases.

Em termos práticos, expandimos e intensificamos o tempo dedicado à leitura. Nossa qualidade como leitores ampliou porque separamos tempo para saborear cada elemento. Perda de tempo? Pelo contrário. Em um texto, nenhuma palavra deve estar sobrando. Esse método nos permite perceber o que está encaixando e o que está ficando fora de lugar. Vamos descobrindo o texto como um leitor o faria, mas com um detimento que possibilita um olhar direcionado sobre cada trecho.

Quando lemos ficção, ficamos o tempo inteiro antecipando o que acontecerá. Quando lemos devagar e discutindo cada frase, nossas apostas ficam claras para a pessoa que escreveu — que então tem a oportunidade de avaliar se suas escolhas estão levando a leitura para o lugar desejado.

A regra do silêncio continua valendo: quem escreveu não fala durante a leitura. Se o texto não se sustenta, que seja tomado como ferramenta pedagógica.

(Antes de fechar essa parte: meu texto é “para ler como quem escreve” e não “para ler como um escritor” para desafiar a presunção da masculinidade como abarcadora da humanidade. Se fosse “para ler como uma escritora”, a gente estranharia — mas vale estranhar o nosso estranhamento. “Ah, é a gramática”, alguém pode dizer. E é mesmo, mas nossa gramática é machista e podemos reescrevê-la.)

Mais referências

Obrigado por ler até aqui. Se esse assunto te interessa, tenho duas indicações:

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Quando fico feliz, escrevo mais textos como esse.


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