A Justiça — Autor: Solange Maria B. Soares Thomas

Advogado de Lampião

Um ladrão de banco sobre os pontos de vista de nossa justiça

A normalidade do estado, as regras, a ordem, são coisas que aceitamos desde pequenos e julgamos natural. Eu, assim como a maioria dos leitores por aqui, nasceu no final de um período de exceção e viveu a maior parte da vida em um Estado Democrático de Direito.

A nós nos ensinaram que o prefeito governa a cidade, os parlamentares fazem as leis e fiscalizam o prefeito e o juiz julga os fatos em uma análise fria e calculada dessas leis.

Que a polícia nos protege e prende o bandido que nos quer mal.

São definições bem simples, fáceis de serem entendidas e representam o bem contra o mal.

Porém, nós crescemos. E vemos parlamentares e governantes trabalhando em causa própria. Fechando seus esquemas com construtoras , nadando em grana. A polícia não os prende. Os juízes não os julgam.

Já imaginou se você entrasse armado num banco..

Se você entrasse armado num banco e levasse uns milhões nas costas, naquelas sacolas brancas marcadas com um cifrão em preto?

Provavelmente a polícia te pegaria. E uma bala acertaria você nas costas antes que você pudesse gritar “Eu me rendo!”

Se você saísse vivo, te algemariam com os braços atrás das costas. Te jogariam no camburão de uma vez só, apertado com uns outros seis. Você ficaria em uma cadeia a espera de julgamento, revezando lugar para dormir com outras 100 pessoas. Uns seis meses. Condenado no julgamento, pegaria mais alguns anos de cadeia.

A sociedade aplaudiria, o Datena teria mais uma matéria para seu jornal. Segue o jogo, que venha o próximo.

Temos pauta!

Mas se você fosse um parlamentar…

De qualquer tipo , independente de partido, a primeira diferença é que você entraria no banco para falar com um diretor. Tomaria café, falaria do tempo. Vai chover? E aquela PL, será que passa? Depois pegaria seus milhões tranquilamente, chamaria o motorista e tocaria para Miami, porque lá é que é lugar pra se viver. Meses depois a PF ou o Ministério Público após muitos meses de investigação conseguiria um mandato para sua prisão. Um policial bateria na sua porta da sua casa. Algema, não! Que eu não represento perigo! Temos leis nesse país. Vamos respeitá-las.

Você seguiria no banco de trás do carro, ficaria na Papuda, nada luxuoso, mas tirando o fato que seu colega de cela ronca alto e atrapalha assistir TV , você consegue levar de boa.

Logo mais um juiz solta uma liminar. As provas são ilegais. O processo não foi seguido. Faltou o carimbo 6 na folha 7. A data para dar entrada nos papéis expirou. Você está livre. Desculpe deputado, esse é um país de regras, não vamos mais incomodar. O senhor faria o favor de devolver alguns milhões?

Claro que não. Não tenho nada. A milionária é minha esposa, minha filha e meu cunhado. Eu sou pobre. Perseguido. Não podem tirar nada de mim.

Gilmar M. vê ‘possibilidade’ de anular delações após vazamentos. Fonte:http://politica.estadao.com.br/noticias/geral,gilmar-ve-possibilidade-de-anular-delacoes-apos-vazamentos,10000094271

É um bonito estado de direito. A população não gosta muito, em revolta, quebra umas janelas de agências, picha muros, chuta lixeiras no chão. Que absurdo. Onde já se viu? Temos leis. Vândalos. Bandidos. Maconheiros.

Prendam-se todos. Todos exceto os que já caíram para as balas de borracha.

Terroristas.

Manifestantes contra a PEC 55 atacam a Fiesp — Edilson Dantas / Agência O Globo

Uma das histórias que se conta de lampião é a de seu conflitos com os Saturnino por conta de questões de terra e criação. Em uma ocasião, ocorreu uma troca de tiros onde o irmão Antonio Ferreira ficou gravemente ferido . Por esse acontecimento, Zé Saturnino e Zé Caboclo foram presos e pegaram três meses de cadeia. Mas diz-se que Saturnino tinha bons contatos com o coronelismo local e que Lampião foi processado, no Primeiro Cartório da Comarca de Serra Talhada.

Intimado a a comparecer ao fórum para prestar depoimento, o Juiz mandou que o mesmo procurasse um advogado e testemunhas em sua defesa.

O trecho abaixo é retirado desse blog que tem como fonte o livro Lampião e Zé Saturnino — 16 anos de luta de José Alves Sobrinho

Virgulino andou a cidade inteira a procura de um advogado que quisesse defender seu processo, mas não houve ninguém, que aceitasse a causa.
Virgulino ficou aborrecido e decidiu, dizendo: “Eles estão brincando comigo. Espere lá que vocês vão ver”. Desceu a praça grande, entrou na casa do comerciante Pedro Martins, comprou cinco rifles e mil balas. Distribuiu as armas e balas entre Antônio Ferreira, Livino Ferreira, Ezequiel Ferreira e João Gameleira. Disse Virgulino:
“Agora, arranjei cinco advogados e mil testemunhas para defender minha causa.”

Felipe J.S. Antunes


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