É hora de mudar a experiência do usuário e repensar os negócios usando dados

O 'journalytics' propõe unir conteúdo do jornalismo de dados ao conhecimento profundo dos hábitos e necessidades dos leitores para construir negócios jornalísticos mais escaláveis

Os desafios que o jornalismo vai encontrar pela frente em 2019 só serão vencidos se contarem com um importante aliado: os dados. Eles já vêm mudando a maneira como as redações se organizam e inclusive foram tema de edições anteriores do especial O jornalismo no Brasil. Daniel Carnaúba, por exemplo, previu com precisão as batalhas algorítmicas de 2018; no ano anterior, Natália Mazotte havia descrito a agenda do jornalismo de dados no Brasil, que continua atual.

No entanto, depois de tudo que aconteceu em 2018, é preciso expandir essa discussão de dados para além do (sempre necessário) uso dos algoritmos em pautas: precisamos falar dos dados para a tomada de decisões nos negócios. No próximo ano, as empresas jornalísticas terão que tratar como sensíveis e estratégicos os dados de seus usuários, de seus produtos e da combinação dos dois. É parte do que chamamos no JOTA de ‘journalytics’. O termo inclui ainda a entrega conteúdo quantitativo, via ferramenta interativa para assinantes do site, com ou sem camadas de apuração jornalística. Mas neste texto vou me ater à primeira parte da definição, sobre o uso dos dados nos negócios.

Esse é um caminho sem volta porque, em alguma medida, todos somos digitais na indústria do jornalismo. Todos, até as empresas cujo core ainda é o impresso, temos presença digital, vendemos e distribuímos nossos conteúdos em site próprio e/ou com a ajuda das redes sociais. É a regra do jogo.

Quando falo em ‘journalytics’, não estou falando apenas em saber quantos pageviews tivemos no mês ou vender assinatura pelo site. Estou falando em aprender o padrão de uso dos leitores nas plataformas, entender exatamente o que o assinante quer, como ele quer e em que momento. É entregar conteúdo com graus de profundidade diferentes, a partir de ferramentas interativas distintas, a depender do perfil do leitor. É criar robôs que avisem sobre falhas nos sistemas e nos ajudem a ser proativos em reverter problemas antes que eles fiquem grandes demais. É desenvolver automações que facilitem a vida dos repórteres, liberando o tempo do time para aquilo que a tecnologia não pode fazer sozinha. É relacionar engajamento com dados financeiros, usar essas informações para determinar planos futuros de desenvolvimento. É pedir o consentimento do usuário para rastrear as pegadas digitais deixadas por ele nas plataformas, avisando quais informações estão sendo usadas e para quê. É tratar esse manancial de informação de maneira responsável e transparente.

E por que falar disso se tornou urgente?

Porque 2018 foi um ano difícil para o jornalismo, mas com as decisões estratégicas e de negócios informadas por dados e evidências, temos a chance de construir empresas mais sólidas e preparadas para os desafios que se avizinham, capazes de oferecer produtos que os usuários gostam e pelos quais eles topam pagar.

De um lado, a crise da indústria parece não ter atingido seu fim ainda — os sucessivos passaralhos dos grandes jornais e o pedido de recuperação judicial da Abril são prova disso. De outro, e talvez ainda seja cedo para identificarmos com clareza os desdobramentos deste processo, a corrida eleitoral opôs o jornalismo profissional à força da produção e disseminação de conteúdo pelos usuários. Era para esse fenômeno que Manuel Castells, autor celebrado na comunicação e na sociologia, alertava quando dizia que a audiência não era, para o bem ou para o mal, mais um agente passivo diante da mensagem.

Além disso, em maio a Europa colocou em vigor sua lei de proteção de dados (abreviada para GDPR), forçando empresas de todos os continentes a repensar suas estruturas. Afinal, no mundo globalizado, é difícil circunscrever a um território uma lei que regulamenta ações virtuais e protege cidadãos europeus.

Seguindo a tendência internacional, poucos meses depois, em agosto, o presidente Michel Temer sancionou a Lei Geral de Proteção de Dados, dando às organizações brasileiras 18 meses para se adequar a ela. Em linhas gerais, o texto garante ao usuário que seus dados pessoais só serão usados por uma empresa com seu consentimento explícito e lhe dá o direito de saber como e por que suas informações estão sendo coletadas, como são guardadas, entre outros direitos.

O lado bom de haver uma contagem regressiva como essa em curso é que ela obriga os veículos a serem mais intencionais e responsáveis com os dados que estão sob o seu domínio. Ao nos prepararmos para cumprir a lei, estamos sendo obrigados a amadurecer os métodos que usamos para guardar, analisar e disponibilizar os dados de nossos usuários — uma oportunidade de ouro para fazer o que é certo e arrumar a casa para os times de marketing, vendas e desenvolvimento tomarem decisões informadas.

Para completar esse panorama de urgência, é preciso lembrar ainda que, hoje, quem consome informação já está acostumado a consumir no universo digital. As pessoas chamam Uber ou 99 para ir para casa, assistem a séries no Netflix, compram livros na Amazon, escutam música no Spotify, pedem comida pelo iFood, compram eletrodoméstico pelo grupo do desapego no WhatsApp. O jornalismo precisa se inserir neste contexto. Muitos veículos já trouxeram os dados para a rotina da redação no ponto de vista editorial. Agora eles têm que fazer parte da empresa de maneira transversal. 2019 é o ano para isso.


Este texto faz parte da série O Jornalismo no Brasil em 2019. A opinião dos autores não necessariamente representa a opinião da Abraji ou do Farol Jornalismo.