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Personagens em fundo preto e branco se movendo para área colorida da imagem, fugindo da "bancocracia" em direção ao Pagbank. Ilustração: Bernardo Abreu.

Ilustrando brasileiros reais no aplicativo PagBank

Em 2019 começamos a nos questionar, como área de design, sobre as ilustrações que eram utilizadas nos produtos digitais do PagBank PagSeguro. Desde questões como temporalidade e coesão entre elas, mas principalmente se comunicam o que gostaríamos que comunicassem e se as pessoas que usam esses produtos se veem representadas, de alguma forma, naquelas imagens. Esse é um problema que, além do seu caráter ético e político — pois simboliza a maneira como a empresa se posiciona diante do mercado e da sociedade -, é também técnico.

Tínhamos diante de nós um amontoado de ilustrações sem padrão nem consistência, criadas conforme a necessidade pedia e, com um time de cerca de 50 pessoas, era chegada a hora de arrumar a casa. Afinal, pensar em ilustração sistematicamente não é arte: é design.

Assim nascia nosso desafio:

Criar um sistema de ilustração norteado pelo conhecimento adquirido através de pesquisas com o usuário, que seja escalável e coerente com a nossa marca e a forma que queremos ser percebidos.

Para isso, era necessário um passo atrás. Foi aí que a área de Research se juntou ao time de Design no projeto e começou por onde somos bons: fazer perguntas. Antes de mais nada, precisávamos entender o estado atual das coisas. Elencamos três questões que nortearam o início do projeto, que chamamos aqui de Fase 1. Elas eram:

  1. O que temos para aprender com nosso histórico de ilustrações?
  2. O quanto estamos próximos do nosso público em consumo visual e cultural?
  3. Como trazer referências para nossos designers criarem?

Fase 1

Aprendendo com o histórico

Primeiro, queríamos descobrir a percepção das pessoas sobre os três conjuntos de ilustrações mais comuns ao longo da experiência digital do PagBank e demais produtos. Essas informações serviriam como um norte para as etapas seguintes.

Decidimos começar com uma pesquisa quantitativa com a base de clientes PagBank PagSeguro. Consideramos ilustrações de diversos contextos, desde as utilizadas nos aplicativos até as usadas nos sites, em suas áreas deslogadas (mais focados em divulgação de produtos) e logadas (mais focadas em funcionalidades para os clientes). O objetivo era entender se elas eram percebidas como um apoio ao texto ou mesmo como uma forma de ajudar a completar determinada tarefa, além de mapear também a relação entre imagem e marca e o quanto as pessoas se lembravam ou não de já terem visto cada uma delas.

Parte dos resultados obtidos nessa etapa. No primeiro conjunto de ilustrações, lê-se: “para 60% dos usuários, essas ilustrações não são percebidas por orientar como completar uma ação”. O segundo, “percebido por ajudar o usuário a completar uma tarefa (60%) e ser complementar ao texto (70%)”. O terceiro, “esse estilo não traz clareza de função para o usuário (só 26% associou como suporte ao entendimento de tarefa).”.

Os resultados das 3000 respostas coletadas deram uma noção sobre o que já era imaginado: apesar de haver certo entendimento, não existia padrão, e o estilo com melhor resultado não era facilmente aplicável a outros contextos. Vale ressaltar que, naquele momento, a marca PagBank estava dando seus primeiros passos. Isso significava uma grande oportunidade de criar um sistema de ilustrações que reforçasse os valores dessa nova marca e influenciasse na maneira que queríamos ser vistos. A partir desses aprendizados, seguimos adiante para as etapas exploratórias e generativas.

Abrindo o Leque

Se já era sabido que aquelas ilustrações não eram consistentes, precisávamos então saber quão próximas elas de fato estavam ou não do que nosso público tinha como repertório visual em relação à marcas. Iniciamos uma segunda etapa quantitativa, também com a base interna de clientes, com um alto volume de dados coletados.

Compilado de imagens representando parte dos resultados da etapa “Abrindo o Leque”, com as principais marcas mencionadas pelos respondentes.

Aqui, o objetivo era entender o que os respondentes tinham como referência de consumo, desde marcas pequenas à grandes, passando ainda por recomendações de vídeos e canais de Youtube. Todo esse material possibilitou mapear o que representava e influenciava em termos visuais cada um dos 10 mil respondentes dessa etapa.

A partir disso, encontramos padrões e começamos a entender quais poderiam ser os caminhos de ponto de partida para a construção de novos estilos de ilustração. Após esse grande mapeamento que, apesar de quantitativo, nos trouxe insumo bastante qualitativo a respeito do público atual do PagBank, pudemos iniciar a mais extensa e intensa das etapas de pesquisa do projeto.

Sonda Cultural

Com o que aprendemos na etapa anterior, era hora de nos aprofundar nas percepções qualitativas sobre a vida, os valores e os pensamentos das pessoas, especialmente as que ainda não usavam nossos produtos e eram potenciais clientes. Além de entrar em detalhe nas referências visuais e senso estético de cada participante, queríamos entender também suas aspirações e o que eles tinham como inspiração no seu dia-a-dia.

Ao longo de todas as etapas, Design e Research trabalharam lado a lado, mas foi a partir da sonda cultural em particular que essa parceria mostrou a potencialidade do que podíamos fazer juntos.

Imagens do kit enviado aos 30 participantes da Sonda Cultural com algumas das atividades a serem preenchidas.

Para começar, criamos um kit, contendo um caderno com diversas atividades lúdicas que deveriam ser preenchidas ao longo de 10 dias. Esse material era acompanhado ainda de um contato diário dos pesquisadores do time com cada um dos 30 participantes via Whatsapp, que os instruíam conforme as atividades que deviam ser realizadas no caderno. Ao final dos 10 dias, cada pessoa foi entrevistada para que pudéssemos nos aprofundar juntos naquele material e discutir os resultados das atividades.

Montagem do kit que foi enviado pelos Correios aos participantes da Sonda pelos dois pesquisadores que trabalharam nessa etapa do projeto. À esquerda, Bianca Lima, à direita, Bruno Rosa.

Uma das preocupações que tivemos foi sobre como garantir a diversidade entre os participantes, sendo que faríamos entrevistas presenciais ao final dessa etapa (estávamos em setembro de 2019).

O escritório do PagBank, onde temos o Design Lab — uma super estrutura pra workshops, co-criações e sessões de pesquisa com usuários — fica na capital de São Paulo, e isso com certeza era um limitador em relação à quem poderíamos trazer. Por isso, decidimos que no recrutamento um dos critérios seria que parte das pessoas não fosse da capital, e sim de cidades próximas, e outra parte seria de pessoas naturais de outros Estados. Desse modo, ao menos traríamos a percepção de pessoas de outras regiões, o que era primordial para o tipo de aprendizado que buscávamos encontrar.

Compilando uma montanha de dados

Após o preenchimento dos cadernos e da realização das entrevistas, que duraram cerca de 2 horas cada uma, tínhamos uma quantidade imensa de material a analisar:

Números totais do material coletado na Sonda ao longo do preenchimento do caderno e após as 30 entrevistas.

Alguns dos resultados encontrados, tanto na etapa “Abrindo o Leque” como na Sonda Cultural, foram um tanto quanto surpreendentes. Em relação à consumo de conteúdo, por exemplo, encontramos diversas menções que iam desde ao videoclipe de Thriller, de 1982, de Michael Jackson, passando ainda pelo filme Titanic, de 1998, até Avenida Brasil, de 2012, da Rede Globo, ou seja, não tínhamos apenas referências a conteúdos recentes. Outro resultado muito interessante foi a rejeição alta à algumas ilustrações exibidas durante as atividades. O uso de cores como roxo e formas desproporcionais para representar pessoas, algo que era uma tendência bem forte em produtos digitais em 2019, foram bastante criticados. Descobrimos também que influencers que mostram seus pets, como cachorros e gatos, eram muito importantes para os participantes, que consideravam seus próprios bichinhos como membros da família.

Tudo isso não poderia, evidentemente, ficar em posse apenas dos pesquisadores do projeto. Afinal, nosso maior objetivo era justamente gerar insumo para que os designers pudessem criar. E lá fomos nós compartilhar esse material e, de quebra, pedir ajuda para catalogar tudo aquilo…

Designers e pesquisadores fazendo imersão no material coletado.

Co-criando

Era chegada a hora que o time ansiava: desenhar! Em posse de todo aquele conteúdo, Bernardo Abreu, o ilustrador responsável por todo o projeto do lado de Design, organizou duas sessões de co-criação com cerca de 14 designers que vinham acompanhando de perto o projeto desde a imersão da Sonda Cultural.

Nessa etapa, era muito importante que todos ali pudessem “soltar a mão” e a criatividade para realmente expressar o que imaginavam a partir do que tinham aprendido com nossos participantes e entrevistados. Para isso, Bernardo fez questão que toda a co-criação fosse analógica, sem uso de meios digitais, para que todos estivessem o mais livre possível para criar. Além dos designers, participaram também pessoas de outras áreas, como Marketing e CRM, que também fariam uso dos estilos criados ao final do projeto.

Designers no seu habitat natural, o Design Lab, durante as sessões de co-criação e parte dos resultados das sessões de co-criação.

Finalmente, novos estilos!

E, assim, chegamos ao final da Fase 1, com 5 novos estilos, que foram refinados, digitalizados e estavam prontos para a validação e análise crítica mais importante de todas: a das pessoas que usam os produtos PagBank PagSeguro.

Fase 2

Analisar e validar junto às pessoas que usam os produtos já era uma fase muito aguardada desde o início do projeto. Seria ali a hora da verdade, em que clientes e não-clientes nos trariam suas percepções a respeito do que tínhamos criado e todos estavam bastante ansiosos por esse momento. Como tínhamos 5 estilos a validar, decidimos quebrar em algumas etapas essa validação, tendo como norte as perguntas a seguir:

  1. As ilustrações ajudam a entender a informação em tela?
  2. As imagens trazem sentimento de conexão ou estranheza?
  3. As pessoas se sentem representadas?

Filtrando propostas

A primeira etapa foi uma fase quantitativa com cerca de 2250 pessoas, na qual esperávamos fazer um filtro entre os estilos e seguir apenas com os que tivessem bom desempenho conforme os critérios que definimos:

  • Entendimento e agradabilidade da imagem;
  • Coesão entre texto e imagem;
  • Conceitos PagBank — Os “Conceitos PagBank” eram um grupo de 10 atributos usados para orientar a criação dos materiais de Design. Com eles, podíamos ter mais clareza sobre como nosso público respondia ao que estávamos propondo, com aspectos positivos e negativos que nos ajudariam a confirmar ou corrigir o direcionamento;
  • Relação com a marca.

A partir disso, em todos os critérios avaliados, a proposta 5 foi a que teve pior resultado.

Parte dos resultados do critério “entendimento e agradabilidade da imagem”. As frases abaixo do gráfico foram usadas no questionário para indicar quanto cada participante concordava com cada uma a respeito de cada um dos 5 estilos.

Com esse resultado, decidimos que o estilo 5 não continuaria no projeto. Isso também facilitaria a etapa seguinte, pois agora tínhamos 4 estilos em vez de 5, e seria menos complexo planejar a etapa qualitativa. Um dos aprendizados que tivemos aqui foi que os estilos precisavam ter elementos equivalentes entre si para que fosse justa a comparação entre eles. Por exemplo, se tínhamos um personagem segurando um smartphone, precisávamos ter esses mesmos elementos nos estilos todos, para que a mesma cena estivesse retratada igualmente, diferindo apenas no traço. Assim, antes de seguir para as entrevistas, fizemos um refinamento para ajustar esses aspectos em cada estilo restante, tornando os elementos equivalentes sem alteração na identidade e traço de cada um deles.

Entrevistas em profundidade? Tem, mas acabou…

A essa altura, estávamos em março de 2020. O que havíamos planejado, de trazer novos participantes para o Design Lab, mostrar a eles os novos estilos, criar atividades lúdicas para coletar as percepções sobre cada conjunto de imagens… Tudo foi por água abaixo. Fomos atropelados pela pandemia que chegava com força ao Brasil e o escritório do Pag foi fechado, com todos nós passando a trabalhar de casa.

Naquele momento, havia muita incerteza sobre como seriam as coisas dali em diante, não se sabia quanto tempo tudo aquilo ia durar e como poderíamos seguir. Por isso, decidimos segurar o projeto por alguns meses.

Ilustrações aguardando a pandemia acabar.

O remoto tá aí, entrevista quem quer!

Como bem sabemos, estamos até hoje, novembro de 2021, vivendo a pandemia. Logo ficou claro que as coisas não voltariam ao normal tão cedo e os trabalhos precisavam continuar. Foi aí que retomamos o projeto, por volta de junho de 2020, adaptando tudo que tínhamos previsto para o contexto do remoto. Obviamente isso trouxe consigo inúmeros desafios: como captaríamos as percepções das pessoas com entrevistas remotas? Quanto perderíamos por não poder apresentar as ilustrações presencialmente e não estar com as pessoas fisicamente, pra ver suas hesitações, reações e impressões?

Engolimos o choro, que a essa altura todo pesquisador viveu, e começamos a planejar. As ilustrações não seriam consumidas fisicamente, afinal, estariam aplicadas digitalmente nos produtos. E uma das grandes vantagens do remoto veio à tona: poderíamos entrevistar pessoas de todo o país! O que antes, na Sonda Cultural, tinha sido uma limitação contornada, agora era uma oportunidade imposta. Iniciamos, então a execução da etapa de entrevistas em profundidade.

Avaliando os novos estilos

Com todas as adaptações necessárias ao contexto do remoto e da pandemia — nunca é demais lembrar: fazer pesquisa em meio a um evento global sem precedentes exige uma série de cuidados, não só com quem faz pesquisa, mas principalmente com quem participa dela — recrutamos 12 pessoas das 5 regiões brasileiras, distribuídas conforme a incidência da própria base atual de clientes do PagBank no país.

Entrevistas remotas conduzidas pelo Whereby.

Ao longo das entrevistas, de cerca de uma hora e meia cada, mostramos aos participantes, clientes e não-clientes, um grupo de ilustrações em diversos contextos: isoladas na tela em branco e aplicadas nas telas finais; as telas sem as ilustrações para entender também o “vazio” causado pela ausência de imagens, e os 10 conceitos PagBank, para que fossem associados à cada um dos desenhos. Desse modo, pudemos entender a percepção de cada pessoa e, no meio de cada entrevista, trazíamos um outro conjunto de ilustrações, de outro estilo, a fim de comparar o que tinha sido visto até então. Por fim, mostrávamos os 4 estilos juntos e coletávamos uma opinião final sobre qual funcionava melhor para o objetivo em questão.

Essa etapa foi extremamente rica e valiosa, pois era a primeira vez que tínhamos pessoas não-designers avaliando em profundidade aquele material. Essas entrevistas foram conduzidas em parte por mim e em parte pelo Bernardo, que pôde em primeira mão ter esse contato com os participantes e entender seus pontos de vista.

Como resultado, tivemos de tudo: smartphone confundido com copo de água, cartão de crédito confundido com pasta, personagem feminina confundida com homem gay… Fora alguns extremos, foi tudo muitíssimo valioso, pois tivemos uma quantidade enorme de opiniões super positivas a respeito de um assunto que muito nos preocupava: representatividade. Mas vamos chegar lá daqui a pouco.

Interpretando os resultados

Nos quatro estilos, podemos ver, da esquerda para direita, a) um personagem de gênero feminino segurando objetos em ambas as mãos, b) outra personagem do mesmo gênero ao centro, de pele mais escura, com seu pet, e c) um personagem de gênero masculino sentado em um porquinho. Embora todos os estilos tivessem os mesmos elementos e personagens, a diferença entre os traços e cores utilizadas afetou diretamente a maneira como cada um foi interpretado.

Os estilos 1 e 4, por exemplo, foram ambos percebidos como mais realistas. Essa característica também auxiliou os participantes a interpretarem os desenhos, que eram mais facilmente entendidos. Já os estilos 2 e 3 tiveram problemas específicos de entendimento, seja pelas formas e cores utilizadas, que deram um ar infantil, ou ainda pela ausência de elementos financeiros que auxiliassem na interpretação da imagem. A seguir, um resumo de como cada um dos 4 estilos foi avaliado:

Estilo 1. Imagens despojadas e alegres. O traço mais detalhado ajudou na compreensão da composição em si. Estilo 2. As cores e formas utilizadas foram percebidas como infantis e simplistas, não sendo adequadas para o contexto financeiro. Estilo 3. Leveza e felicidade. Maior dificuldade de entendimento dos elementos e associação com contexto financeiro. Estilo 4. Realismo do estilo e representatividade. Críticas quanto à expressão dos personagens e entendimento de alguns elementos.

Tem que ter “cor de gente”

Como já tínhamos visto em etapas anteriores, nosso público demonstra forte rejeição à ilustrações pouco realistas, que usem cores “irreais” para representar aspectos humanos. Já sabendo disso, evitamos na co-criação qualquer elemento que fosse nessa direção.

Dois dos estilos que levamos para validação (2 e 3), no entanto, faziam uso de cores bastante vivas que, vimos de maneira enfática, também não funcionavam. Após as entrevistas, essa conclusão foi reforçada e ampliada: sejam clientes ou não-clientes, o público que tínhamos em vista não aceitava esse tipo de representação.

Entre todos, o estilo 2 foi nitidamente o mais mal avaliado de todos. A personagem central do conjunto, com a pele escura representada por um tom magenta, “cor de terra”, nas palavras dos nossos entrevistados, foi extremamente mal recebida. De maneira geral, esse estilo teve forte associação à infantilidade e críticas bem severas (chegamos a ouvir de alguns participantes que esse estilo tinha sido feito por uma criança, de tão amador que parecia — a autoestima dos designers foi um pouco abalada, mas todos passam bem), não havia como esse conjunto continuar no projeto. Para as etapas seguintes, apenas os estilos 1, 3 e 4 prosseguiram.

Essa tal representatividade

Um dos grandes trunfos do estilo 1 e particularmente do estilo 4 foi a maneira óbvia como eles representavam mulheres negras. O Brasil, como se sabe, é majoritariamente formado por pessoas não-brancas e do sexo feminino. Esse fato, no entanto, é aparentemente ignorado pelas fintechs, que se propõem a serem inovadoras e miram justamente no “brasileiro médio”. Seu enfoque nesse público até aparece em peças publicitárias, quando fazem uso de imagens reais ou fotos, mas passam longe de representar essas mesmas pessoas quando falamos em ilustração.

A tentativa do mercado, até aqui, se resume a representar esses grupos com uma liberdade criativa que em nada se comunica com as pessoas reais. Para o público PagBank, nada disso serve e foi com grande alento que nossas ilustrações foram recebidas. Nenhum elemento passou despercebido: para os participantes entrevistados, as personagens femininas, com cifrões ao redor, segurando o cartão de crédito black — comumente associado à alta renda, status e poder — representavam a mulher brasileira, chefe de família, numa posição inédita. Mas melhor do que eu contando, deixo aqui algumas frases deles mesmos:

“Quando se traz a imagem de uma mulher, não de um homem, isso pra mim soa positivo, porque remete à questão verdadeira de que é a mulher quem faz o gerenciamento [financeiro]. E ter uma ferramenta que ofereça isso me faz me enxergar facilmente na ideia que está sendo proposta.” (Sheila*, sobre o estilo 1).
Frases reais dos entrevistados sobre cada um dos 3 estilos — o estilo 2, como mencionado, não teve bom desempenho nem nenhuma percepção positiva sobre representatividade.

Conexão ou estranheza?

À esquerda, análise e cruzamento das entrevistas, frase a frase. À direita, organização dos resultados divididos por interpretações subjetivas, por contexto, por identificação ou “negociada”, quando o participante dizia gostar se determinados elementos fossem removidos ou alterados. Clique para aumentar.

Todo o material bruto das entrevistas foi exaustivamente classificado, taggeado e organizado no Notion para que pudéssemos encontrar facilmente quando fosse necessário.

Por fim, precisávamos entender qual tipo de sentimento cada ilustração trazia às pessoas. Durante as entrevistas, abordamos essa questão de diversas formas, direta e indiretamente e, para nossa surpresa, o resultado se tornou autoexplicativo. Para responder de maneira objetiva, fizemos diversos cruzamentos e análises para garantir que os resultados não estavam enviesados por nós mesmos, à essa altura, super afeiçoados a um ou outro estilo em particular. Para isso, criamos algumas métricas a partir das percepções coletadas.

A primeira delas buscava responder a respeito do entendimento que os participantes tinham demonstrado sobre cada desenho. Considerando as opiniões coletadas sobre cada ilustração de cada estilo e o quanto cada uma delas tinha gerado ruído ou confusão a respeito do que estava sendo representado, definimos se o entendimento havia sido a) pleno, sem atritos, b) médio, com alguns atritos ou c) obstruído, com interpretação muito ou totalmente distinta do previsto. Assim, quanto maior a confusão, pior o entendimento.

A segunda métrica tentava responder sobre os sentimentos evocados por cada uma a partir das associações e memórias trazidas ao ver cada ilustração. A partir dos adjetivos usados para qualificar cada ilustração (“expressão falsa a desse boneco” ou “traz serenidade, uma sensação de leveza”) e do tipo de reação causada (“tá estranho, não gostei” ou “me vi na imagem dessa mulher”), definimos qual tinha sido a sensação causada, de estranheza ou conexão. Ficou evidente, daí em diante, que, quanto mais difícil de interpretar era um desenho, mais estranhamento ele causava. A partir dessas interpretações, sobrepusemos ambas criando a matriz a seguir, colocando a questão do entendimento no eixo vertical e a questão dos sentimentos no eixo horizontal. O resultado que tivemos foi esse:

Matriz de entendimento versus estranheza e conexão.

Mesmo para mim, que já estava imersa nesse material há meses, foi bastante revelador chegar a essa conclusão tão visual e que resumia tão bem tudo que havíamos coletado qualitativamente até então. Com isso, se tornou evidente que os estilos 1 e 4, no topo à direita da matriz, tinham obtido os melhores resultados: eram os estilos que tinham sido mais facilmente interpretados e entendidos e, consequentemente, os que tinham causado maior sentimento de conexão entre os entrevistados.

Mais refinamento!

Antes da etapa final, decidimos que seria útil fazer alguns refinamentos, afinal, diversos elementos tinham sido mal interpretados e não queríamos que isso afetasse o resultado. Mais uma vez, Bernardo se debruçou sobre os estilos e fez ajustes a partir do que os participantes tinham trazido.

De modo geral, todos os estilos precisavam, basicamente, das mesmas correções:

  • A proporção dos elementos precisava ser ajustada:

“Ficou meio desproporcional o cartão em relação à pessoa, né? Está até maior que a cabeça dela…”

  • As cores “irreais” representando aspectos humanos precisavam ser alteradas:

“[Chama atenção] o cara ser vermelho. Porque chama mais atenção que as outras cores, então você bate o olho, vejo vermelho, depois vou ver o resto.”

  • A expressão de alguns personagens precisava ser suavizada ou alterada:

“Tá com cara de bobo esse bonequinho. Acho que o investidor não tem essa cara.”

Apesar do conteúdo das entrevistas estar todo atomizado no Notion, para agilizar o trabalho de refinamento, foi criado um Guia de Boas Práticas a partir das percepções aprendidas, que serviria para todos os designers que fossem trabalhar futuramente na criação de novas ilustrações e auxiliaria na escalabilidade dessa produção. Além disso, esse material já fornecia orientações que poderiam ser aplicadas em qualquer estilo, inclusive nos então atuais, em caso de necessidade de criações de peças novas enquanto o processo de seleção era finalizado.

Exemplos do Guia de Boas Práticas criado a partir das percepções dos entrevistados.

Estilos refinados

Estilos 1, 3 e 4, antes e depois do refinamento. Clique para aumentar.

A etapa final

Concluídos os refinamentos, fomos enfim para a última fase de validação quantitativa. Nela, assim como nas etapas anteriores, tínhamos como critérios aqueles mesmos itens mencionados anteriormente. Aqui, esperávamos obter resultados claros sobre qual dos três estilos finalistas funcionava melhor e seria a base do nosso novo sistema de ilustrações. Qual não foi nossa surpresa ao ver os resultados…

Parte dos resultados da etapa quantitativa, mostrando perfeito equilíbrio entre os três estilos. Aquele momento em que o pesquisador senta e chora porque os resultados não trazem resposta óbvia 🤡

Não foi exatamente o resultado que estávamos esperando, porém, após uma análise cuidadosa, chegamos à única conclusão possível: os três estilos tinham tido praticamente o mesmo desempenho justamente porque havíamos feito um trabalho tão minucioso no refinamento final, que todos tinham sido bem compreendidos e funcionavam para o propósito que tínhamos. Não era, portanto, um mau resultado, ao contrário, significava que, àquela altura, todos eram bons!

E agora?

Após algumas reuniões entre os principais apoiadores desse projeto, que durou dois anos inteiros, com uma pandemia no meio, todo esse extenso trabalho de pesquisa foi apresentado e chegamos juntos à decisão sobre qual seria o novo estilo de ilustração do Pagbank. Apresentamos aqui o resultado final que, em breve, vai estrear nos produtos PagBank PagSeguro:

E não é só isso!

Achou que acabou? Achou errado, meu caro! Um projeto desse tamanho não podia ficar na cozinha do Pag e não se contenta em estar no Medium pra todo mundo ler! Estamos também no ILA 21, o Interaction Latin America, maior evento de design de interação da América Latina! Pra quem nos viu por lá e veio até aqui pra saber mais, muito obrigada! ❤️ Ficamos muito, muito felizes em ter esse trabalho escolhido e compartilhado com toda a comunidade latina, foi uma honra! Você pode conferir a apresentação na íntegra aqui.

Tenho o maior orgulho de ter feito parte disso e, claro, não fiz nada disso sozinha! Agradeço imensamente a todos os apoiadores internos que nos deram espaço e o tempo necessários para que pudéssemos fazer tudo isso com tamanha qualidade e cuidado. Ao Bernardo, que participou desde o dia zero, envolvidíssimo sempre, junto com o Thiaguinho, um dos nossos líderes de Design, visionário que foi brilhar em mares estrangeiros; à Vivi Delvequio, por todo suporte e experiência ao me guiar nessa empreitada; à todos que passaram pela equipe de Research no período desse projeto — Lidi Santana, Bianca Lima, Bruno Rosa, Ana Tannus, que em maior ou menor grau também foram fundamentais para tudo isso acontecer; às lideranças de Design por trás de tudo isso, Aline Alves e Maryanne Cury; e, claro, a todos os designers que participaram e foram os criadores desse resultado incrível! Obrigada, obrigada e obrigada! ❤️

E você, pessoa curiosa e atenta que chegou até aqui, conta pra gente, o que achou de tudo isso? Comenta aqui embaixo ou, se quiser, é só me procurar no Linkedin!

Até a próxima! :)

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Thamy Almeida

Thamy Almeida

UX Researcher, sempre à esquerda . Gosto de analisar as coisas e acredito em um mundo melhor "by design".