Enquanto me adapto à ideia de viajar pelo mundo nos próximos anos, sem endereço fixo ou casa para onde voltar, penso muito sobre aquela frase típica que todos nós já estamos acostumados a ler em manchetes de revistas: “Casal larga tudo para viajar pelo mundo” ou alguma variante ainda mais clichê.

É tão clichê, que se colocar no Google surgem páginas e páginas de manchetes como essa, todas elas contando histórias muito parecidas. Além da revirada de olhos incontrolável, elas trazem consigo um ar de surpresa típico: “Esse casal largou tudo! E foi viajar! De bicicleta! Olha que doido!”

Mas o que é o “largar tudo” sobre o qual todas as manchetes falam? Tudo o quê? O que exatamente as pessoas têm que torna o ato de “largar tudo” tão surpreendente?

Pensava nisso porque me perguntava se algum dia alguém escreveria isso sobre mim. Poderiam, porque não seria mentira. Tenho uma passagem só de ida para daqui menos de um mês e a perspectiva de voltar apenas daqui alguns anos.

Pouco tempo atrás, quando eu identifiquei o que era o meu “tudo”, fiquei feliz em saber que eu poderia, de fato, largar tudo sem me importar demais. Depois, li vários desses artigos e constatei que o “tudo” das outras pessoas era o mesmo que o meu. Todos nós deixávamos para trás as mesmas coisas.

Me formei em Antropologia e Arqueologia em 2015, com 21 anos. Durante os anos seguintes, aprendi coisas que a faculdade não podia me ensinar. O resultado foi um progressivo desprendimento pelas noções coletivas de “vida normal”, que acabou fertilizando em mim tantas ideias que hoje eu me sinto um jardim, cheia de plantinhas, umas maiores do que outras.

Eu nunca quis viver a vida toda no mesmo lugar. Estar “parada” — indo sempre nos mesmos lugares e fazendo sempre as mesmas coisas — me causava grande angústia. Mas a ideia de que eu realmente poderia viver indo de lugar a lugar só nasceu no último ano. Com ela, outros questionamentos e reflexões também afloraram.

Nossa vida, mesmo antes de nascermos, é extremamente pré-planejada e, ao longo dela, faremos pouquíssimas escolhas conscientes sobre como queremos vivê-la. Nossos valores, crenças, o que consideramos como educação, felicidade, amizade, sucesso, riqueza, nossa forma de se relacionar, de ver o mundo e de ser: tudo é moldado por outros, escolhido por nós de antemão, sem nosso consentimento.

É difícil notar como não estamos no controle das nossas próprias decisões e por que nossas opções parecem ser sempre tão limitadas. Desde pequenos, aprendemos a valorizar um número limitado de coisas, dentre as quais dinheiro e bens materiais são os protagonistas. Todo tipo de “bem” é ultra valorizado, enquanto todo o resto parece ter menor importância.

Em uma sociedade tipicamente individualista e capitalista, em que adquirir objetos e propriedades é uma afirmação política de status, nós acumulamos coisas de montão. Somos movidos por elas. Vivemos para tê-las. Comerciais nos vendem a ideia de que o nosso maior sonho é adquirir uma televisão nova, um carro novo, um celular novo.

Quando não fazemos escolhas conscientes, nem mesmo nossos desejos e aspirações são inteiramente nossos. E não questionamos. Não aprendemos que podemos questionar.

Como arqueóloga, pesquisei intimamente as relações entre sociedades e objetos, que denominamos como cultura material. Os objetos são, em sua forma típica, um produto e agente natural da cultura de uma sociedade. Eles comunicam mensagens e ideias tão bem quanto nossas próprias palavras. Suas roupas, por exemplo, podem me dizer muito sobre você — gênero, idade, forma física, crenças, estilo de vida — e sobre o que é considerado aceitável na sociedade em que você vive, em determinadas circunstâncias — se frio, se quente, se na praia, se na cidade.

Cada aspecto de viver em sociedade está permeado por um número incontável de coisas, que têm outro número incontável de significados e objetivos. Nossas relações interpessoais são todas marcadas por objetos, e mantemos relações com eles, também. Não seria correto dizer que não os precisamos.

No entanto, aprendi que não precisamos deles tanto quanto pensamos.

Desapegar e se desprender

O primeiro obstáculo para a realização dessa viagem foi justamente os objetos que eu tinha acumulado ao longo do tempo, que preenchiam um apartamento de um quarto no centro de Pelotas. Era tudo novo, a maioria tinha sido comprada há somente dois anos. Parecia um desperdício deixar tudo para trás. Cheguei a afirmar que não faria tal coisa. Que loucura.

Foi preciso parar e analisar se eu possuía aquelas coisas, ou se elas me possuíam. Percebi, então, que não podia deixar de fazer o que eu queria por causa de objetos que, hoje, acabam sendo quase descartáveis. Não é segredo que seu tempo de vida útil é feito para durar muito pouco. Logo tudo precisaria de reparos e conserto, até mesmo o próprio apartamento.

O ar de surpresa das revistas não é por acaso. Quando elas escrevem que alguém largou tudo para viver de um modo diferente do esperado, elas estão se referindo todas as vezes ao “tudo” como as coisas materiais que aprendemos que têm tanto valor e que acumulamos ao longo dos anos. Esse é o meu “tudo” também.

Só deixei para trás coisas materiais e os sentidos que dei a elas. Os amigos e a família vêm conosco. Seja lá onde formos, existem diversas maneiras para eles nos acompanharem.

É fácil perceber que o que nos ata a um lugar específico — a ponto de parecer insensatez largar tudo — são meramente coisas que transmitem um falso senso de estabilidade. Coisas que aprendemos serem as corretas, o objetivo da nossa vida e a fonte de toda a nossa felicidade. Acontece que nenhuma dessas coisas é tão segura quanto pensamos que é. Empregos se perdem de um dia para o outro, carros perdem valor, coisas estragam o tempo todo e são substituídas.

A expressão “largar tudo” também implica uma ação imediata, instantânea, quase mágica. Só que nunca acontece desse modo. Não é possível largar tudo repentinamente. É preciso planejar, avaliar, considerar suas opções, tudo isso com meses ou anos de antecedência.

No momento em que escrevo isso, sei que essa última afirmação é óbvia. Mas nenhum dos artigos que li conseguiu transmitir essa ideia, e talvez isso aconteça porque ainda exista um grande romantismo em volta dessa história de largar tudo. É como se ela fosse algo inalcançável, com o qual as pessoas apenas sonham e nem se atrevem a tentar. Afinal, o senso comum nos diz que pessoas comuns não simplesmente largam tudo e vão fazer outra coisa. Isso não existe.

Naturalmente, uma mudança como essa — que implica diversas variáveis — não se faz do dia para a noite, nem em uma semana, mesmo se quiséssemos. Quando decidimos (eu e Martín, meu companheiro de vida e viagem) fazer isso, nada foi planejado em uma hora, em um dia. Foi um processo, que começou com uma ideia. Ela foi crescendo e ganhando forma com o tempo.

Quando finalmente contamos a todos que esse seria o plano para 2018, queríamos partir na semana seguinte. Mas isso claramente não era possível. Havia muito no que pensar antes. Precisávamos juntar dinheiro, pesquisar para onde iríamos, quanto precisaríamos para pagar acomodações, como faríamos com nossos móveis e todos nossos pertences.

Inicialmente visualizando essa ideia apenas como uma sementinha, tenho certeza que você poderia me dar pelo menos meia dúzia de razões pelas quais você não conseguiria largar tudo e viajar, ou largar tudo e mudar de cidade, ou largar tudo e viver como você gostaria. Para tomar qualquer decisão que implique uma grande mudança, é preciso rever compromissos, valores, verdades que você já guarda há anos ou décadas. Eu também tinha inúmeras razões para não fazê-lo. Mas descobri que tinha ainda mais razões para fazê-lo.

Nosso processo de mudança não foi complicado, mas levou meses de planejamento. Sete meses, para ser exata. Levaria ainda mais, se não estivéssemos tão ansiosos para ir. Como já trabalhamos desde casa, não precisamos passar por essa transição, mas muitos precisam. Juntamos dinheiro e planificamos um roteiro para os primeiros meses de viagem. O restante veremos ao longo do caminho.

Ideias são sementes

Tínhamos o suficiente para ser considerado loucura largar tudo e fazer qualquer outra coisa, inclusive estabilidade financeira para dar os próximos passos da "vida adulta".

Acontece que, como eu disse, eu nunca quis viver sempre no mesmo lugar. Nunca gostei de imaginar o futuro e saber exatamente onde eu estaria em cinco anos.

Eu espero mais da vida do que viver para trabalhar, guiada unicamente por dinheiro, eternamente insatisfeita e tendo que aceitar valores que não são meus. Já vivi assim e não queria continuar.

É claro que, ao lado de pessoas que têm trabalhos de carteira assinada ou que trabalharam a vida toda para se aposentar, o ato de largar tudo e sair do seu país natal, sem casa para onde voltar, parece extremo. Vai contra tudo aquilo que eles passaram a vida construindo.

Mas ao lado de pessoas que estão conscientemente tomando suas próprias decisões e criando suas próprias noções de felicidade, viver com menos, viver mais livremente, se conscientizando sobre como nós e nosso modo de viver impactam o mundo, essa é uma decisão normal.

Hoje temos tecnologias e recursos que nos permitem fazer coisas que nossos avós nem sonhariam. Temos mais liberdade para construir um modo de viver que seja mais flexível e que esteja em sintonia com nossos interesses e desejos, mais empático com os que estão à nossa volta e com o mundo.

Quantas coisas nós acabamos fazendo simplesmente porque elas são convenções sociais? Ou por que fomos ensinados que essa é a norma a seguir? Ou por que nos preocupamos com o que os outros irão pensar? Quantas vezes nós deixamos de fazer o que realmente queremos para seguir o mesmo caminho já traçado por outras pessoas? E o quanto todas essas coisas realmente importam?

Felizmente, é possível mudar essa situação. É possível rever suas escolhas passadas, e é possível mudar de direção no presente. É possível se desapegar de conceitos já tão intricados em nosso sistema sobre como se parecem felicidade e sucesso, sobre como se parece uma família, sobre como você deveria estar gastando seu tempo.

Por um tempo, eu imaginei toda a minha vida na minha frente, já planejada e escrita por tantas mãos que não eram as minhas. Levei alguns anos para perceber que sou eu mesma que pode — e a única pessoa que deve — escrevê-la. Largar tudo é uma grande parte desse processo. Quando você abre mão de tudo, só o que sobra é você.

Ao me ver livre de um peso que é tanto material como emocional, eu me aproximo mais da vida que eu quero ter, de quem quero ser, ambos muito diferentes do que prescrevem as receitas.

Mas se comprometer a uma mudança desse tipo não é fácil. É algo pelo qual você deve lutar e se esforçar todos os dias. É nadar contra uma correnteza que insiste em te puxar para trás. Mas é uma escolha. Tomar as próprias decisões é uma escolha. Seguir o próprio caminho é uma escolha. Não deixar-se levar pela correnteza é uma escolha. Viver é uma escolha. E todas estas são minhas escolhas.

Nos últimos anos, aprendi o suficiente para entender que preciso trabalhar primeiramente em mim (e para mim) para que eu possa melhorar o mundo ao meu redor. Afinal, pessoas infelizes só geram mais infelicidade. Tenho plena consciência de que sei muito pouco. Sei que há ainda vários mundos para aprender e que cada um de nós está em seu próprio caminho de aprendizagem.

Viajar, ou melhor, largar tudo e viajar é só o resultado de me sentir livre. Não se trata de fugir, nem de buscar felicidade fora de mim mesma. Eu já a encontrei, e ser apta a tomar esse tipo de decisão e viver como eu desejo é também responsável por essa felicidade. Se trata de olhar para si e descobrir quem você é, ao que você dá valor, e viver de acordo com essas ideias — suas ideias, e de ninguém mais.

Então, não, eu não vou largar tudo e viajar pelo mundo. Eu só vou viajar pelo mundo.


Revista Passaporte

Uma revista colaborativa brasileira para todos que amam ler e escrever sobre viagens.

Dayanne Dockhorn

Written by

Antropóloga, escritora, nômade. Escrevo o que eu preciso escrever. instagram.com/dayannedockhorn dayannedockhorn@gmail.com

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