Sobre assistentes digitais e solidão

Como o Ocidente e o Oriente abordam a relação homem-máquina a partir das assistentes digitais

Lidia Zuin
Dec 14, 2016 · 6 min read

Em janeiro deste ano, a startup japonesa Viclu Inc lançou um concept video do Gatebox, seu novo produto que envolve uma assistente digital holográfica interagindo não apenas com a casa, mas também com o proprietário desta e seus dispositivos móveis em um nível semelhante àquele proposto por Spike Jonze em Her (2013). Disponível apenas para o Japão e os Estados Unidos, o aparelho já está em pré-venda no site oficial pelo preço de 298 mil ienes e com previsão de entrega a partir de dezembro de 2017.

Gatebox nasceu, portanto, como um projeto de fazer com que a distância entre humanos e personagens se torne ainda menor. A proposta não é nova, considerando a existência de dating simulators, casamentos e campanhas de moda com personagens de jogos, bem como ginoides e outros brinquedos que emulam e simulam a presença física de personagens como, por exemplo, Hatsune Miku.

A mais famosa das Vocaloids, que reúne milhares de pessoas em seus shows holográficos e até se apresentou no programa de David Letterman em 2014, também faz parte do Gatebox: seja como inspiração para o design de Azuma Hikari ou ainda com a possibilidade de uma performance da própria Miku ser projetada no dispositivo.

De acordo com a empresa, as razões por trás do Gatebox não incluem apenas entretenimento ou conveniência. “Queremos que personagens sejam naturalmente parte de nossas vidas cotidianas e passem um tempo relaxando conosco. ‘Quero viver com meu personagem preferido’. Nós sonhamos com um mundo assim e então começamos esse projeto.” Para que as pessoas pudessem testar a nova tecnologia, em setembro, a empresa levou o Gatebox para demonstração com uma performance de Hatsune Miku durante o evento Magical Mirai 2016 que aconteceu em Chiba.

Enquanto desenvolvedores ocidentais criam assistentes digitais que são ou desmaterializadas (como a Siri) ou então concentradas em dispositivos do tipo “caixa”, como o Amazon Echo e Google Home, há ainda o Jibo que se utiliza de um approach ao estilo de um mascote. A criação ocidental mais próxima do Gatebox talvez seja o projeto Personal Robot que, assim como o Jibo, também é fruto de um financiamento coletivo na plataforma Kickstarter.

Mas a interação entre homens e máquina no Ocidente ainda é bastante asséptica se comparada com a forma como Azuma Hikari se comunica no segundo concept trailer do Gatebox. O próprio vídeo traz uma edição e uma linguagem que aproxima a tecnologia da narrativa das animações e quadrinhos japoneses, então humanizando a personagem que se põe tão presente quanto Samantha em Her.

Mas mais do que a novidade do produto e do desenvolvimento de uma inteligência artificial desse tipo é também o seu propósito e o contexto em que ela se insere. Por que ela foi desenhada dessa forma e qual é o público? Do mesmo modo que Her aborda a solidão das metrópoles, o medo do isolamento é uma das constantes seja na crítica à tecnologia ou nas narrativas de ficção científica distópica.

Mais do que tratar da substituição de cargos operacionais por máquinas, tais tecnologias que facilitam nossas vidas também esvaziam a presença humana nos estabelecimentos, como é o caso da loja Amazon Go em Seattle, que possibilita que os clientes comprem o produto pelo celular, daí dispensando o trabalho dos caixas e também as filas. No entanto, será mesmo que a interação nesses espaços, que se dá na forma de perguntas como “CPF na nota?”, é profunda o suficiente para fazer com que sua ausência faça realmente falta na vida das pessoas? Pode ser que sim, ou pode ser que não.

Serviços como chatbots eliminando a interação com os funcionários de call center podem negativos do ponto de vista do funcionário que perde seu emprego, mas um alívio para os que precisam daquele serviço e ficam horas a fio em uma ligação ao estilo kafkiano. Sem entrar no mérito econômico e focando no aspecto social ou mesmo psicológico do assunto, serviços como o Uber Eats, que acabou de chegar em São Paulo, e o próprio aplicativo iFood eliminam a necessidade de se fazer uma ligação para pedir comida em delivery e acabam sendo “o céu” dos introvertidos.

No filme belga Thomas est amoureux (2000, foto acima), Thomas é um homem que sofre de agorafobia e está há anos confinado em seu apartamento. Seu único contato com o mundo externo, portanto, é feito a partir de um videofone pelo qual faz terapia, sexo e dialoga com sua mãe e outras pessoas que conhece a partir de um sistema no estilo Tinder. Constantemente criticado pelo seu medo de sair de casa, o personagem do filme, no entanto, parece encontrar na tecnologia o único meio de se comunicar com as pessoas. E é a partir dessa ferramenta que Thomas se apaixona por uma mulher, de modo que seu sentimento romântico ultrapassa o medo de sair em público.

Por outro lado, restaurantes como a franquia japonesa ICHIRAN propõem, justamente, que os clientes tenham seu próprio espaço para comer ramen sozinhos, sem falar com ninguém, nem mesmo funcionários. Segundo a empresa, a ideia é fazer com que as pessoas possam desfrutar da refeição sozinhas, sem pressões. Como descrito em reportagem no site Observer, “não é preciso se sentir envergonhado por não ter encontrado ninguém para fazer uma refeição juntos, já que não precisa fazer contato visual com nenhum estranho.”

Em Her, o personagem Theodore (Joaquin Phoenix) encontra companhia em Samantha (Scarlett Johansson) e, mesmo que ela não esteja fisicamente presente, é a partir da interação com a máquina que o personagem já não se sente mais desconfortável em estar sozinho em meio às multidões acompanhadas. É a partir da interação e do relacionamento com a inteligência artificial que Theodore aprende mais sobre si mesmo e sobre a própria solidão

Em outras palavras, o medo da solidão talvez esteja mais ligado a uma moralidade do que realmente uma preocupação com a saúde mental das pessoas. Ainda que o isolamento, em casos extremos, possa causar até alucinações (no sentido de que, no vazio total, a mente passa a criar recursos para preencher as lacunas), talvez o maior medo não seja de estar sozinho, mas de ser julgado por isso.

Em um post sobre os costumes na Coreia do Sul no blog One Weird Globe, foi dito que comer sozinho no país não é necessariamente algo rude, mas é incomum. “Alguns restaurantes coreanos podem não te servir se você estiver sozinho. Pratos como samgyeopsal e dalk galbi são feitos para ser compartilhados, ou é como tradicionalmente pensam. Você quase nunca verá um coreano comendo sozinho, a não ser que seja uma refeição no McDonald’s ou Gimbap Cheonguk. O mesmo acontece para bebidas — o álcool é uma experiência compartilhada, assim como uma boa comida.”

E talvez seja por isso mesmo que, na Coreia do Sul, há pessoas transmitindo suas refeições em vídeo e ganhando dinheiro com isso. Lee Chang-hyun chega a ter 10 mil pessoas o assistindo comer em frente à câmera todos os dias. Segundo a reportagem da BBC, é justamente a busca por uma companhia, mesmo que seja remota, que faz com que o canal funcione. “Eles gostam de me ver comer, mas também conversamos bastante. Falamos sobre tudo. Eu até dou conselhos sobre problemas que podem ter, então temos uma verdadeira relação”, diz Lee Chang-hyun. Para o vlogger, ele sente como se realmente estivesse saindo com seus espectadores. “De certa forma, é uma promessa, um pacto que tenho com eles. Eu saio com eles. Estou me divertindo com eles.”

Nesse sentido, o fato de uma pessoa escolher ter uma assistente digital talvez não ponha em detrimento o relacionamento entre humanos, mas uma nova relação que pode servir de intermediário para a “coisa real”, bem como uma nova vivência em que inteligência orgânica e inteligência artificial possam interagir livremente seja mais um desdobramento. Enquanto em Mr. Robot Dominique tenta amenizar sua solidão com Alexa, a assistente digital da Amazon, outros vão poder encontrar o mesmo suporte na figura holográfica de Hikari, a partir do fim do ano que vem.

Ponto Ômega

Futurismo, ficção científica, tecnologia, cultura e arte.

Lidia Zuin

Written by

Brazilian journalist, MA in Semiotics and PhD candidate in Visual Arts. Head of innovation and futurism at UP Lab. Cyberpunk enthusiast and researcher.

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