(Imagem: Jornal dos Sports)

1949: o sonho de voos mais altos

Mirando na Copa do Mundo de 1950, o Brasil sediou — e venceu — o Sul-Americano do ano anterior sem enfrentar seus dois principais adversários, dizimados por uma greve histórica

Puntero Izquierdo
Jun 5 · 12 min read

Na história da Copa América, nunca houve uma equipe tão dominante quanto o Brasil de 1949. Foram 46 gols marcados em oito partidas, uma média de quase seis por jogo. Ainda hoje, permanece como o ataque mais demolidor já visto no torneio continental: o recorde anterior eram 28 gols marcados pela Argentina, dois anos antes. Se é verdade que a Seleção Brasileira não ganhou o título de maneira invicta, ela se encarregou de massacrar também o único time por quem foi superada: no desempate contra o Paraguai, de quem haviam levado um surpreendente 2x1 na última rodada, os brasileiros mostraram que tudo não passava de um acidente de percurso — apenas três dias mais tarde, venceram a “final” por 7x0.

Ainda assim, quando o torneio terminou, dando ao Brasil seu primeiro grande título em 27 anos, as celebrações tiveram um gosto de prólogo. O Sul-Americano já não era um fim em si mesmo, como no passado: desde que Leônidas da Silva fizera o Brasil sonhar com uma Copa do Mundo, na campanha do terceiro lugar de 1938, o país passou a considerar a taça continental pequena demais para o seu potencial. Não só desprezava a Copa América, como nunca fez muito esforço para sediá-la: a edição de 1922, além de ser seu mais recente título, ainda era a última vez que a disputa havia ocorrido por aqui. Metade do time convocado para a edição de 1949 nem era nascida na época do último título o mais velho da equipe, o volante Noronha, tinha apenas quatro anos de idade na ocasião. E se agora o Sul-Americano finalmente voltava a ser decidido no Rio de Janeiro, não era como a atração principal: tratava-se de um aquecimento para o Mundial de 1950, aquele que o Brasil precisava vencer de qualquer maneira.

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Poster oficial do Sul-Americano de 1949.

O sonho brasileiro de receber uma Copa do Mundo nasceu precisamente em meio às vitórias de 1938. Para a cartolagem da época, conquistar o título em solo francês era uma espécie de pré-condição para sediar o torneio seguinte, já que — apesar do que achava de si mesmo — o Brasil ainda tinha um histórico modesto no futebol internacional. Quando a Seleção foi finalmente derrubada nas semifinais, pela Itália, o decepcionado presidente da CBD, Luiz Aranha, lamentou aos jornais: “Posso informar que as tratativas para receber a Copa foram iniciadas, mas, agora, acho-as sem possibilidade de êxito, uma vez que não levantamos o campeonato”.

De fato, a FIFA acabou decidindo oferecer o Mundial de 1942 a uma economia pujante da Europa, que vinha de sediar as Olimpíadas mais grandiosas já vistas até então: a Alemanha nazista. O Brasil, com sorte, poderia receber o torneio em 1946, após novo processo seletivo. Mas, entre a escolha germânica e a Copa, a Segunda Guerra Mundial teve início, os alemães caíram em desgraça e nenhum dos Mundiais daquela década chegou a ser realizado.

Após a paz voltar ao Velho Mundo, com tantas dificuldades econômicas e ruínas nas tradicionais potências europeias, a solução foi olhar para o outro lado do Atlântico: sem ser diretamente atacado no conflito — com exceção dos navios afundados em sua costa, que levaram à entrada na Guerra –, o Brasil estava inteiro o bastante para realizar seu sonho. Sediaria, assim, a primeira Copa do pós-guerra (marcada inicialmente para 1949, depois adiada para dar mais tempo à organização e para manter o intervalo de anos original), e a seguinte seria dada à nação europeia que menos sofreu no conflito — a neutra Suíça, sede de 1954.

Assim, a Conmebol — que apoiou o pleito brasileiro, apesar de uma malsucedida oposição argentina — achou de bom tom também trazer o torneio continental para cá. O que hoje chamaríamos de “evento-teste”, no entanto, praticamente só serviu para testar a própria Seleção, mas não a estrutura. Cinco estádios foram utilizados na Copa América e, de todos eles, apenas um voltaria a ser sede no Mundial: o Pacaembu, em São Paulo, maior cancha do país entre 1940 e a construção do Maracanã. Presentes no Sul-Americano também estiveram São Januário e General Severiano, no Rio, a Vila Belmiro, em Santos, e o velho campo do América Mineiro — nenhum deles utilizado em 1950, quando entrariam em cena Curitiba, Porto Alegre e Recife, o Maracanã no Rio e o Independência em Belo Horizonte.

Então conhecido genericamente como o futuro “Estádio Municipal”, o Maracanã já estava em construção na época do Sul-Americano, como uma resposta ao crescimento vertiginoso do futebol no país nas décadas anteriores. Em 1919, o Estádio de Laranjeiras havia sido suficiente para receber o primeiro campeonato continental do Brasil. Trinta anos mais tarde, nem mesmo São Januário — o principal estádio do Rio desde 1927 — parecia digno da capital federal: era preciso mirar numa estrutura capaz de receber quase 200 mil torcedores.

(Imagem: Jornal dos Sports)

O Maracanã, assim, nascia com a pretensão de ser o maior do mundo em uma nação que, após consolidar o fanatismo pelo futebol, agora tinha nele um espetáculo capaz de ser seguido pelo país inteiro. Também foi o Mundial de 38 o responsável por isso: além dos ótimos resultados em campo, aquela foi a primeira Copa acompanhada sem depender apenas dos jornais: foi a explosão do rádio — e até mesmo do vídeo, pois alguns dias mais tarde chegavam também rolos de filme com as imagens dos jogos, em compactos ou na íntegra, que eram exibidos nos cinemas das grandes cidades.

O futebol não era mais para alguns poucos eleitos que conseguiam frequentar os jogos da Seleção, invariavelmente disputados no Rio e em São Paulo (o Brasil só mandaria uma partida fora desse eixo em 1965, quando foi a Belo Horizonte). No Sul-Americano de 1949 e no Mundial do ano seguinte, qualquer um dos 52 milhões de brasileiros com acesso a um aparelho de rádio conseguiria ouvir o que seus ídolos faziam em campo.

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O terceiro título continental do Brasil — e a ilusão de que o primeiro mundial talvez não fosse tão difícil assim — começou a ser gestado meses antes, a milhares de quilômetros do Rio de Janeiro, e sem qualquer influência dos próprios brasileiros. Em meados de outubro de 1948, jogadores profissionais do Uruguai dariam início à maior greve da história do futebol, que deixaria marcas profundas e ficaria ainda mais famosa pelas consequências catastróficas que teria para o esporte no país vizinho — em novembro, o movimento de paralisação chegaria também à Argentina, e nos dois lados do Prata as huelgas durariam até maio de 1949.

(Jornal dos Sports)

Tudo começou como um protesto contra o baixo salário recebido por jogadores de clubes pequenos e contra a regra dos “cinco jogos”: uma norma segundo a qual, após completar a quinta partida por uma determinada equipe, um atleta ficava preso a ela pelo resto da vida — dependendo, a partir daí, da benevolência dos cartolas para conseguir se transferir para um clube que pagasse melhor. A Mutual Uruguaya de Futbolistas Profesionales, sindicato formado dois anos antes, contou com a solidariedade de classe: grandes nomes de Nacional e Peñarol se negaram a entrar em campo até que a situação dos colegas menos afortunados fosse resolvida. Sem receber salários durante toda a paralisação, foram às ruas pedir dinheiro e conscientizar a população. Também precisaram viver de bicos: o grande Obdulio Varela, por exemplo, passou aqueles meses complementando a renda como padeiro.

Para se manter, os jogadores seguiram afrontando os dirigentes: fundaram equipes fictícias e disputaram amistosos uns com os outros na várzea montevideana, passando uma caixinha para contribuições voluntárias da torcida. A renda, ainda que modesta, era distribuída igualmente entre os sindicalizados. O auge das greves viria após Buenos Aires se aliar à causa: a Futbolistas Argentinos Agremiados (FAA), vendo que a situação em seu país não era muito melhor, decretou paralisação geral poucas semanas após o início do movimento em Montevidéu. O grande momento veio em 5 de dezembro, no interior do departamento de Colonia, quando as seleções da FAA e da Mutual fizeram um amistoso de protesto. Os argentinos venceram por 2x1, gols de Camilo Cerviño e Alfredo Di Stéfano. Juan Alberto Schiaffino, o mesmo que empataria o jogo para o Uruguai no Maracanazo, descontou para o time da casa.

O Campeonato Uruguaio de 1948 foi interrompido na metade e jamais concluído. Já o Argentino chegou ao fim, mas com juvenis disputando as partidas no lugar dos profissionais — e sem a presença de um dos candidatos ao título, o Racing de Avellaneda, que se recusou a entrar em campo nas duas rodadas finais. No curto prazo, o caos pareceu maior em Montevidéu, mas as soluções para as huelgas seriam muito distintas: no Uruguai, a greve foi considerada vitoriosa, com o reconhecimento do sindicato e o fim da regra dos “cinco jogos”. Os jogadores garantiram, inclusive, uma porcentagem sobre o valor do próprio passe quando fossem transferidos. Na Argentina, o governo peronista concedeu uma vitória pírrica aos revoltosos: estabeleceu o piso salarial, uma das principais demandas da greve, mas também criou um teto — considerado baixo demais pelo sindicato.

Os resultados infelizes da greve na Argentina provocaram um êxodo sem precedentes no futebol de seu país. Foi a época em que a Colômbia se aproveitou disso e, sem pagar taxas de transferência, importou os principais craques portenhos com o oferecimento de altos salários — um período conhecida como El Dorado, quando Di Stéfano desembarcou no Millonarios de Bogotá, e esteve longe de ser o único a trocar o Prata por terras cafeteras. Em 1949, quase 60 dos melhores jogadores argentinos estavam jogando na “Liga Pirata” da Colômbia, que anos depois seria punida pela FIFA por suas transferências predatórias e obrigada a devolver os jogadores aos clubes de origem, ou indenizá-los.

A Argentina havia sido o melhor time do continente nos anos 40 e seria uma das maiores favoritas a vencer o Mundial se a Guerra não acontecesse: venceu quatro das cinco Copas América disputadas na década. Mas a resposta à greve sepultou aquela geração: em uma época na qual as seleções nacionais praticamente só escalavam craques que atuavam em casa, a Argentina ficou sem time de um dia para o outro. Di Stéfano, por exemplo, trocaria Bogotá pelo Real Madrid, e nunca mais defenderia seu país natal. Dizimada, a Seleção Argentina principal não voltaria a participar de competição alguma antes de 1955, ficando de fora de duas Copas do Mundo e dois Sul-Americanos — incluindo os dois torneios sediados pelo Brasil.

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Capa do Jornal dos Sports depois de Brasil 7x0 Paraguai (Imagem: Jornal dos Sports)

Não foi por falta de tentativa que o Brasil acabou sem adversários à altura na disputa da Copa América. Em fins de 1948, quando as duas greves ainda corriam a todo vapor, uma comitiva encabeçada por Rivadávia Corrêa Meyer, então presidente da CBD, e pelo chileno Luis Valenzuela, mandatário da Conmebol, dirigiu-se às duas capitais do Prata em busca de uma solução amigável. Conversaram com jogadores, explicaram a importância para o futebol sul-americano que tinha aquele torneio prévio à primeira Copa do Mundo recebida pelo continente em vinte anos, e lembraram a todos o tamanho da desmoralização que seria para o Brasil não contar com as duas maiores campeãs na disputa.

Os dirigentes esperavam uma resposta rápida, mas encontraram líderes sem qualquer disposição a furar a greve. Seriam necessários outros seis meses até que as paralisações encontrassem seu desfecho, e ele só ocorreria quando o Sul-Americano estivesse próximo do fim. O torneio começou em 3 de abril e as huelgas só se encerraram exatamente um mês mais tarde. Com a situação cada vez mais complicada, a Argentina sequer montou time, no primeiro capítulo dos longos anos em que sua seleção principal ficou inviabilizada. Já o Uruguai mandou uma equipe de aspirantes: dos 17 convocados para o torneio, apenas um, o defensor Matías González, chegaria a atuar no Maracanazo.

(Imagem: Jornal dos Sports)

Desde a última Copa América sediada pelo Brasil, o troféu havia sido distribuído 14 vezes: oito títulos argentinos, cinco uruguaios e uma surpresa peruana, em 1939. Desta forma, os anfitriões de 49 se viram diante de um torneio esvaziado. Sem os dois oponentes mais temíveis, o Brasil passeou: com exceção de um sofrido 2x1 sobre o Chile e a inesperada derrota diante do Paraguai na última rodada, o torneio (um octogonal envolvendo toda a América do Sul, menos Argentina e Venezuela, que só começaria a jogar Copas América em 1967) acabou se revelando uma sucessão de goleadas — 5x1 no Uruguai, 5x0 na Colômbia, 7x1 no Peru, 9x1 no Equador, 10x1 na Bolívia (a maior vitória da Seleção até hoje) e, no desempate pelo caneco, 7x0 nos paraguaios.

Jair Rosa Pinto foi artilheiro com nove gols marcados, seguido por Ademir de Menezes e Tesourinha, com sete cada. Um ano mais tarde, Ademir viria a ser artilheiro do Mundial, enquanto o gaúcho Tesourinha se tornaria a grande ausência brasileira, cortado por lesão. Sem ser realmente testado, o Brasil considerava estar no caminho certo, apesar dos bairrismos e das brigas entre paulistas e cariocas sobre quem devia ter mais convocados.

O grande legado da competição, porém, seria para o Uruguai. Com um modesto 6º lugar entre oito times, e quatro derrotas em sete jogos, ficou claro que a Celeste não podia prescindir dos seus maiores nomes no ano seguinte — por maior que fosse a raiva dos cartolas em relação aos grevistas. Obdulio Varela, líder dos sindicalizados, foi um dos jogadores com a imagem mais danificada na paralisação: os chefões do futebol no país também mandavam nos jornais, e o grande capitão foi atacado nas páginas com frequência. Há quem teorize, até, que a lenda do Maracanazo de certa forma acabou involuntariamente amplificada por esse ranço: aquela geração celeste foi tão atacada pela imprensa local que, quando o triunfo se consumou em 1950, não era possível ceder a argumentos lógicos e racionais — o discurso então vendido foi de um triunfo obtido pela mística e pelo imponderável, jamais pela qualidade que o time de fato possuía.

Obdulio Varela com a camisa do Peñarol.

Nos meses seguintes à greve, muito se falou que Obdulio Varela seria vendido a outro país para deixar de causar problemas. Falavam em Boca Juniors, em futebol brasileiro, ou até mesmo o Chile. Qualquer lugar além de Montevidéu. Na seleção uruguaia, então, que não pisasse nunca mais. Mas, quando 1950 raiou e a Celeste viu o tamanho do problema sem seus melhores nomes, o técnico do Uruguai implorou que El Negro Jefe reconsiderasse. Obdulio não queria ir, magoado com os dirigentes, mas decidiu viajar ao Brasil “por los muchachos” que vestiam a camisa com ele. Na Copa do Mundo, a sucessão de goleadas brasileiras pareceu apontar na mesma direção de 1949. Mas, na hora da partida decisiva, aquele seria um Uruguai bem diferente do que havia levado 5x1 em São Januário, um ano antes. No Maracanã, los de afuera eran de palo, e os que estavam em campo de celeste seriam campeões do mundo.

Capa de "A Gazeta Esportiva" com os jogadores campeões do Sul-Americano de 1949.

Da geração brasileira que ergueu a Copa América em 1949, poucos realmente chegariam até o momento em que o Brasil enfim superasse os seus fantasmas e erguesse a Jules Rimet, e nenhum deles esteve presente no Maracanazo: Nilton Santos e Mauro Ramos de Oliveira, dois jovens suplentes que atuaram no Sul-Americano mas não em 1950, seriam os recuperados para escrever seus nomes na história do futuro bicampeonato mundial.

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Puntero Izquierdo

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