Prepare-se para as Guerrilla Girls

Coletivo feminista que faz uma das críticas mais potentes ao patriarcado no mundo da arte expõe no Masp a partir de 29 de setembro; a Bravo! conversou com uma das fundadoras

Casos diários de feminicídios, abusos de mulheres em transportes públicos, justiça que atua em favor do sistema patriarcal. O que a arte tem a ver com isso? Para as Guerrilla Girls, tudo. O coletivo de artistas mulheres fundado em 1985 nos Estados Unidos questiona a falta de diversidade nos museus, galerias e leilões. Identificado como feminista interseccional — isto é, que vê as desigualdades em diversas camadas, apoiando também lutas de mulheres negras, trans, lésbicas, etc — , o grupo terá a partir de 29 de setembro a maior parte do seu trabalho exposto no Masp. Será a primeira exibição individual das artistas no Brasil e uma das maiores que elas já fizeram. O museu também editará um catálogo, com versões em inglês e português, entrevistas e texto dos curadores, Adriano Pedrosa e Camila Bechelany.

Uma das principais marcas das Guerrilla Girls é o anonimato. Elas só aparecem usando máscaras de gorilas, e utilizam codinomes inspirados em outras artistas mulheres. A Bravo! conversou com Kathe Kollwitz, uma das fundadoras do grupo cujo apelido é baseado numa desenhista e gravurista expoente do expressionismo alemão e perseguida pelo nazismo. Conversamos por Skype justamente na semana dos atos racistas em Charlottesville.

Uma das missões das Guerrilla Girls, diz Kathe, é a de falar com um público mais amplo do que o que já conhece as pautas do feminismo. A ideia é atingir pessoas que nunca pensaram sobre o assunto — e nisso, certamente, a linguagem pop dos cartazes e o uso de estatísticas ajudam bastante. Ela também questiona o que os museus têm colecionado: "Daqui a 100 anos, se tudo o que eles tiverem for o que esses bilionários doaram para eles, isso não vai ser realmente uma história da arte. Será uma história dos mesmos poucos artistas. (…) É a história da riqueza e do poder. Museus necessitam fazer tudo o que estiver ao seu alcance para colocar em exposição uma variedade muito maior de artistas, colecionar a história inteira da cultura que eles dizem representar". Leia toda a conversa abaixo.

É a primeira exibição solo de vocês no Brasil, certo? Qual é a expectativa?

Sim! É a primeira vez que praticamente quase todo o nosso trabalho, projetos, vídeos, entre outros, estarão nessa exibição. Estamos muito empolgadas. Estamos fazendo um pôster sobre o museu (o Masp), um trabalho inédito.

Nós usamos muitas estatísticas no nosso trabalho, por isso fizemos uma primeira versão do que será apresentado mas estamos esperando os dados finais da estatística, porque aparentemente o Masp está reorganizando algumas coisas expostas. O trabalho só ficará pronto mais perto da mostra.
Nós estivemos no Brasil há mais ou menos 10 anos, em um dos Sescs e na Bienal de Arte. E fomos no Masp uma vez, mas dessa vez vamos aprender muito mais sobre ele.

O design e o jeito como estão montando a exposição vai ser muito diferente de qualquer uma que já fizemos; os cartazes serão traduzidos para o português logo ao lado dos pôsteres, isso é muito importante pra gente. Estamos muito empolgadas com isso.

Como é o processo criativo de vocês? Quantas Guerrilla Girls há?

A gente nunca diz exatamente quantas somos, porque somos um grupo anônimo, mas posso te dizer que já tivemos cerca de 55 membros entre as Guerrilla Girls, algumas entraram há algumas semanas, outras por décadas. Nesse tempo todas sempre fomos um grupo bem diverso em idades, orientação sexual, classe e muitas origens étnicas. Há pessoas do sul asiático, afro-americanos, latinos. Também posso te dizer que por um tempo fomos um grupo muito pequeno. Porque não dá pra fazer o trabalho que fazemos — nós somos um coletivo que trabalha como se fosse um artista — e era muito difícil fazer com que 20, 25 pessoas chegassem a um acordo. Então somos mais — como chamamos aqui nos Estados Unidos — uma célula do que um grupo grande.

Às vezes é muito difícil chegar num acordo, e às vezes não. Nós temos uma filosofia de fazer arte ativista, “activist art”. Nós tentamos mudar a perspectiva sobre alguns temas e apresentá-los de uma forma que eles não tinham sido vistos antes. Nós não queremos falar só com gente que já concorda com a gente, mas queremos tentar mudar algumas mentes. Queremos contar para pessoas coisas que elas não ouviram antes. Então, em um monte das estatísticas que usamos — particularmente sobre arte, mas também sobre filmes, cultura pop ou política —, nós tentamos exibir algo que capte as imaginações e a atenção das pessoas, mas que conte algo diferente. Normalmente é sobre a falta de diversidade em museus e instituições de arte.

Pensando na trajetória das Guerrilla Girls desde 1985, algo mudou desde lá no mundo da arte e na representação de mulheres em museus e galerias?

Eu acho que as coisas mudam o tempo todo, e se você pegar o mundo da arte, quando começamos em 1985 o número de mulheres e artistas de cor (conforme a terminologia americana) nas galerias e museus eram incrivelmente baixos. Nós não estávamos reclamando porque havia 50% de mulheres, eram 1 ou 2% de mulheres! Museus não tinham exibições solo de mulheres. Isso definitivamente mudou em algum ponto.

Muitas pessoas que trabalham em museus estão tentando melhorar em termos de diversidade, tentando aumentar a diversidade das coleções em todos os sentidos. E isso está lentamente acontecendo. Mas os museus estão presos em coleções que foram criadas em tempos que eram muito discriminatórios, basicamente. A maioria das coleções é artistas homens brancos. Então leva tempo pra que essas coleções mude.

Nós fizemos um grande projeto em Londres no ano passado. A gente enviou questionários para 400 instituições e museus. Foi na White Chapel Gallery, e a exibição foi basicamente o resultado dessas respostas. Foi muito interessante: mesmo os museus que escreveram de volta pra gente que eles realmente acreditavam em diversidade na verdade tinham só 20% de mulheres nas suas coleções. É um caminho lento, dois passos à frente e um para trás.

Especialmente com essa semana nos Estados Unidos.

Ah, meu deus. Essa semana foi tão nojenta. Todo mundo nos Estados Unidos que acredita no quão bandido é esse presidente tem que se posicionar contra ele. E nós estamos fazendo o que podemos.

No nosso site, tem um poster que fizemos depois da eleição de Trump que fala justamente desse assunto: nós repostamos ele ontem, em meio à essa turbulência do “white supremacy”.

Nosso pôster dizia: “O presidente Trump anuncia novos meses comemorativos”. Nos Estados Unidos temos meses da história afro-americana, por exemplo — e antes de toda essa questão de Charlottesville fizemos esse pôster que prenunciava: o mês da história afro-americana, por exemplo, era trocado pelo mês do Klu Klux Klan. E repostamos ele com essa frase de Michelle Obama que dizia: “Ser um presidente não muda quem você é, revela quem você é”.

Nós sabíamos que esse cara [Trump] era assim, mas as coisas vão piorando a cada dia e é muito nojento. Uma grande crise. Nós — e tantas outras pessoas — vamos fazer qualquer coisa que esteja ao nosso alcance. Nós temos que nos livrar desse cara.

Nós queremos ouvir muito também sobre a situação do Brasil quando chegarmos aí. Que é em algumas semanas!

Como será a visita de vocês ao Brasil?

Nós temos um projeto interativo na Frestas Trienal, em Sorocaba, então vamos passar lá primeiro e ver como está sendo — tem um mural gigante chamado “Guerrilla Girls Complaint Department”, em que as pessoas podem escrever suas reclamações. Vamos ficar lá por alguns dias e depois seguimos para São Paulo. Faremos uma palestra no dia 29 de setembro. E seria ótimo se todo mundo fosse lá para ver a exibição e nos dizer o que pensaram sobre ela.

Como artistas homens, galerias, donos de galerias e etc reagem ao trabalho de vocês? E o público em geral?

Quando começamos — lutando pelas mulheres e brigando contra discriminações no sistema da arte — eles ficaram muito bravos. Tivemos que responder a muitas pessoas bravas. E galerias irritadas também. Isso ainda acontece, mas além disso nós recebemos milhares e milhares de e-mails e posts nas redes sociais, de pessoas do mundo todo, de gêneros diversos, de idades de 8 a 80, nos dizendo que nosso trabalho inspirou eles a fazerem os seus próprios trabalhos malucos, criativos, e de arte ativista. E isso é ótimo! No fim, é isso que importa. O que nos importa é mostrar porque todo mundo precisa se levantar e falar sobre assuntos que eles se importam. Nós nunca vamos conquistar todo o mundo da arte, mas a ideia de fazer um trabalho ativista e criativo é algo que as pessoas realmente gostam de ver.

Também recebemos cartas de pessoas nos dizendo que eles nunca souberam dessas coisas antes. Porque é como se o modo como o sistema funciona ficasse escondido, não é algo que todos sabem. Você não vai entrar num museu e saber como isso funciona. Não só há muita corrupção e discriminação, mas nos Estados Unidos também há uma grande influência de colecionadores de arte absolutamente ricos. Eles têm cada vez mais influência sobre o que museus colecionam, sobre o mercado da arte, sobre galerias, e isso leva ao fato de que muitas dessas pessoas têm basicamente a mesma coleção: eles colecionam os mesmos caríssimos artistas.

Pra nós, o mundo dos artistas é ótimo. Artistas põem suas vidas no seu trabalho, há tantos grandes artistas. Mas o mundo da arte e o sistema da arte são péssimos.

Uma grande questão para os museus hoje em dia é: daqui a 100 anos, se tudo o que eles tiverem for o que esses bilionários doaram para eles, ou doaram para eles agora, isso não vai ser realmente uma história da arte. Será uma história dos mesmos poucos artistas. E nós sentimos que isso não é a história da arte — é a história da riqueza e do poder. Museus necessitam fazer tudo o que estiver ao seu alcance para colocar em exposição uma variedade muito maior de artistas, colecionar a história inteira da cultura que eles dizem representar.

Algumas pessoas nos museus já estão fazendo isso, mas não podemos deixar que o gosto de bilionários decida o que os museus colecionam. Alguns colecionadores tentam ter uma coleção mais variada, mas a maioria compra o que eles acham que vale algo e que valerá algo no futuro. É muito limitado.

Primeiro pôster criado pelo coletivo Guerrilla Girls

Vocês se preocupam com uma crítica que pode questionar o fato de uma arte política ser um trabalho datado?

Não nos preocupamos com isso. Primeiro: você tem que fazer o que tem que fazer. Segundo: quem sabe? Temos 30 anos e nossos primeiros trabalhos ainda não estão muito datados. Em 32 anos temos trabalhado e nossos primeiros posteres ainda fazem sentido. Tem isso. E também, como um grupo de artistas que conhecem muitos outros artistas e vamos a museus pelo mundo — eu tenho certeza que você deve se sentir desse modo também — mesmo quando vejo algo do passado no museu, é possível ver um novo ponto de vista totalmente diferente do meu e que muda a minha percepção sobre as coisas. E você vê um monte de arte política do passado que ainda tem uma grande ressonância. Nós esperamos que a nossa continue a fazer isso — quem sabe se fará, mas esperamos que sim.

Nós nos sentimos sortudas por fazermos isso. Eu, pessoalmente, amo fazer esse trabalho, sou uma das fundadoras e estou envolvida basicamente com tudo o que já fizemos. Nós lidamos com coisas que queríamos que mudassem mais rápido, um mundo que queríamos que só ganhasse em direitos humanos, mas volta para trás… Fazer esse trabalho é desafiador, interessante.

Não vi muitos exemplos no trabalho de vocês mencionando artistas transgênero. Também é uma preocupação?

Nós temos alguns trabalhos e vídeos que são sobre questões de transgênero no mundo da arte, temos membros cis e trans desde o início do grupo. Feminismo para nós não é limitado de nenhuma forma, somos um grupo interseccional, sempre fomos. O feminismo interseccional luta por direitos humanos para todos. Estamos sempre preocupadas com a situação das mulheres, mas também sempre preocupadas com a situação de todos os tipos de pessoa de todo o mundo, incluindo, claro, gays, trans, lésbicas, etecetera.

GUERRILLA GIRLS NO MASP 
Abertura: 28 de setembro, 20h
Data: 29 de setembro a 14 de fevereiro de 2018
Local: Mezanino do 1º Subsolo
Curadoria: Adriano Pedrosa e Camila Bechelany
Expografia: METRO Arquitetos Associados

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