Você está preparado para não morrer?

A humanidade sempre encarou a morte como sua única constante. Mas fazemos parte da primeira geração que pode, de fato, estar próxima de alcançar a imortalidade. Mas o que significa viver para sempre?


Por Gustavo Nogueira

Com o avanço exponencial das tecnologias, o mundo ao nosso redor não para de mudar. Todos os dias leio uma novidade sobre ambientes conectados, carros autônomos e geração de energia limpa… Experimentos que nos levam rumo às próximas grandes revoluções, em campos como Inteligência Artificial, Robótica, Nanotecnologia… Algo difícil de imaginar quando tive o primeiro contato com a Internet aqui no Brasil, em 1995, e todos esses temas estavam presentes somente em livros de ficção científica.

Sim, tudo isso está acontecendo. Estamos em uma mudança de era. Chegamos ao futuro.

Mesmo com tantas transformações, há um tema que ao longo dos anos sempre pareceu imutável para a humanidade: a Morte. Em cada sociedade, lidamos com ela de uma forma diferente; em cada tempo, escolhemos uma forma diferente de representá-la. Mas o que os tecnófilos e grandes nomes do campo científico têm a dizer sobre o futuro da morte? Ela continuará sendo uma constante? E, se não for?

O que acontece quando mudamos esse elemento fundamental na equação da vida? E se você descobrisse que em breve poderá se tornar imortal?

Para enxergar além da luz no fim do túnel, nesta edição da Swarm Creativity vamos conversar sobre os caminhos que a tecnologia apresenta para o nosso tempo (e para depois disso) sobre prolongar a vida, diferentes formas de lidar com a morte ou mesmo ressignificar esses conceitos — vida e morte — por completo. Who wants to live forever?


Você conhece histórias sobre como a tecnologia influencia na forma como as pessoas lidam com a morte? Compartilhe suas referências com o grupo da Swarm Creativity, escreva uma resposta ao artigo aqui no Medium, ou me envie por e-mail para gustavo@telescope.cc ;)


1. Prolongando a vida por meio da tecnologia


Em julho deste ano, li uma matéria no Motherboard sobre porque Elon Musk (SpaceX) e Mark Zuckerberg (Facebook) estão lendo livros de ficção cientítica utópica. A resposta é que bilionários como eles têm um poder inimaginável em mãos de tornar real tudo o que um dia já foi imaginado. Mas há uma resposta que vai ainda mais a fundo, e que eu gostaria de compartilhar aqui: os bilionários do nosso tempo não querem morrer.

Por mais capital financeiro que os homens e mulheres da lista da Forbes tenham, do ponto de vista de expectativa de vida — ou capital temporal — eles são tão limitados quanto a maioria de nós, seus contemporâneos. Os mais visionários estão cientes disso, a ponto de investir em tecnologias que de alguma forma possam lhe comprar mais alguns anos de vida e, a longo prazo, congelar a contagem regressiva do relógio biológico da humanidade para sempre.

Bioimpressão: impressão 3D de órgãos

Uma das descobertas que pode alterar a condição humana para sempre é a criação de "órgãos artificiais" por impressão 3D. A técnica, chamada bioimpressão, é promissora. Em vez de envolver metais e outros materiais que imaginaríamos em algo sintético, tem como matéria-prima células vivas. Proteínas que, após impressas, são preenchidas por células-tronco que crescem entre suas lacunas. E, quando injetadas no corpo humano, somam-se aos tecidos já existentes e/ou substituem órgãos por completo.

Os resultados até agora são impressionantes, mas é importante lembrar que, além dos orgãos que primeiro vem à mente (como o cérebro em si, coração, etc.), nossos ossos, pele, veias, artérias e outros componentes do corpo também são órgãos vitais que envelhecem e precisariam ser repostos à medida que se aproximam do colapso.

Transfusão de sangue e terapia genética

Um outro caminho que vem sendo testado por cientistas é a transfusão de sangue de pessoas mais novas em pessoas de idade mais avançada, para desacelerar o processo de envelhecimento. E, nesses experimentos, o corpo humano com sangue mais jovem tem reagido de modo mais jovem, acredite.(!) Apesar de imaginarmos a possibilidade de surgir algo como um tipo de vampiro do nosso tempo, os cientistas têm usado esse tipo de experimento para entender as reações do corpo humano em suas diferentes idades, assim como que genes agem mais fortemente em cada momento da nossa vida.

A partir disso, a ideia é que também possamos enviar remédios pelo sangue ou, por meio de terapia genética, desligar os genes associados ao envelhecimento ou a doenças que surgem com a idade avançada, tratando-as em nível molecular. Como? Nanorrobôs são uma das possibilidades.

Remédios (e comida) antienvelhecimento

Mesmo com um corpo saudável, a preservação das faculdades mentais do nosso cérebro ainda seria um grande desafio. Um dos campos que recebe grande investimento neste sentido é a indústria farmacêutica, que vem desenvolvendo smart drugs com o objetivo de estender e ampliar as capacidades do cérebro humano.

O Google (agora por meio da holding Alphabet) é um dos grandes players neste território. Com a Calico, empresa da holding, vêm sendo pesquisadas diversas tecnologias para aumentar a compreensão que temos da biologia e ciências afins que controlam nosso tempo de vida, para criar intervenções que permitam "levarmos vidas mais longas e saudáveis", como diz o site da própria empresa.

Mas se você pensa que os remédios do futuro serão similares aos de hoje, pense outra vez. Eles estarão cada vez mais presentes em produtos do nosso cotidiano e como parte da nossa rotina alimentar. A Johnson & Johnson, por exemplo, tem um forte setor de medicamentos vendidos sem receita, além de atuar ainda nas áreas de cosméticos e de suplementos alimentares. Recentemente, inclusive, a curitibana Jasmine foi adquirida pela empresa francesa Nutrition et Santé, subsidiária da farmacêutica japonesa Otsuka, com a intenção de expandir seus negócios em produtos alimentícios, fora do setor de remédios devido a sua forte regulamentação.

Qual a sua relação com o fato de que você e as pessoas ao seu redor envelhecem e morrem? E com a ideia de que isso poderá em breve mudar?


2. Consciências digitais não conhecerão a morte


Na edição anterior da Swarm Creativity, compartilhei um pouco da história de Ray Kurzweil, o homem que não pretende morrer. Mais do que postergar a própria morte, o fundador da Singularity University acredita que conseguiremos eternizar nossas consciências digitalmente e abdicar da necessidade do corpo físico. Sua história foi registrada no documentário "The Transcendent Man"

Ray Kurzweil: The Transcendent Man

Kurzweil representa uma legião de cientistas que defendem o transhumanismo como futuro, ou seja, que a condição humana em si precisará ser "transcendida" por meio da tecnologia para que possamos sobreviver.

A visão de Kurzweil pode parecer egocentrada e flertar com a onipotência que os bilionários de hoje podem ter. Mas, para mim, a palestra de Martine Rothblatt no SXSW 2015 nos faz sentir como a imortalidade também pode traduzir questões relacionadas à identidade, criatividade e amor ao falar sobre seu trabalho para preservar a consciência da mulher que ama em um arquivo digital, a criação de famacológicos que salvaram a vida da sua filha e o desenvolvimento de um robô companheiro.

Com a ideia de que nossas mentes possam estar sincronizadas com um backup digital, nos tornaríamos cyborgs: verdadeiros organismos digitais. No entanto, com nossos smartphones em mãos, hoje nossas vidas já são sincronizadas entre o mundo físico e o virtual.

E se para você é difícil imaginar como ampliar ainda mais essa simbiose, aqui fica uma dica: como próximo passo, homem e máquina se tornarão um só ser.

Você está preparado para se tornar um ser digital?


3. Confrontando a morte nos dias atuais


"Cumpriu sua sentença. Encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca do nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo, morre." — Ariano Suassuna

Sabemos que as taxas de mortalidade ainda são altíssimas nos dias atuais, principalmente por motivos que a tecnologia (ainda) não consegue interferir em escala global, como fome, condições precárias de saúde e violência. Independentemente do que queremos para o futuro, hoje, as pessoas morrem.

A morte está presente no nosso cotidiano, físico e digital, desde notícias em grandes portais aos perfis de pessoas falecidas que se tornam memoriais em redes sociais. Enquanto produzíamos essa edição da Swarm Creativity, o tema Morte também foi abordado pelo UOL TAB de forma magistral e com muito respeito ao luto dos envolvidos nas diversas histórias apresentadas.

Mesmo com a morte, é possível continuar ativo em seus perfis nas redes sociais por meio de recursos de inteligência artificial que apreendem sua personalidade e hábitos online, e os replicam em publicações por toda a eternidade. Para quem quiser conferir, esta é a promessa da plataforma Eter9.

Você confiaria seus perfis nas redes sociais a uma inteligência artificial?

Após muitas referências e reflexões sobre estes aspectos do confronto com a morte — formas de prolongar a vida por meio da tecnologia, transhumanismo, consciências digitalizadas, e plataformas de A.I. que possibilitam eternizar nossas atividades online - retomo a questão:

Vamos ou não fazer parte da primeira geração que alcançará a imortalidade?

Sinto muito, mas esta pergunta continua em aberto. Pessoalmente, eu acredito que é sim possível que isso ocorra em breve, mas não conto com a sorte. Por isso meu conselho é aproveitar a sua existência de maneira a se sentir realizado e útil à humanidade, ainda que você tenha somente o dia de hoje.

São muitas as possibilidades para os próximos anos. Como qualquer conclusão da minha parte nesse momento estaria no campo da suposição, limito-me aqui a dizer que… quem viver, verá.


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Para compartilhar:


// Para degustar:

In Time (O Preço do Amanhã): uma sociedade na qual o tempo é a moeda corrente, os ricos não envelhecem e os pobres trabalham para ganhar o dia seguinte de vida. Uma reflexão sobre o que em breve pode acontecer no nosso cotidiano.

Anticast 59: Baudrillard e o Preço do Amanhã

*Recomendo, aliás, ouvir na sequência a excelente análise do Anticast sobre o filme e o tema.

RepoMen: Quando órgãos artificiais se tornarem mercadoria e puderem ser compradas no cartão de crédito, o que acontece com quem não puder pagar por eles? Esse filme de 2010 com Jude Law e Alice Braga nos dá um vislumbre do futuro.

Ressuscitados: série em quadrihos por Bruno Seidel

Já pensou como seria se conseguíssemos evitar a morte e, mais que isso, trazer de volta todas as 108 bilhões de pessoas que já habitaram o planeta? Esse é o fio condutor das tirinhas Ressucitados, idealizadas pelo meu amigo Bruno Seidel.

Em "Be Right Back", episódio da 2ª temporada de Black Mirror, acompanhamos uma viúva que decide conversar com a réplica virtual do marido, até que "ele" sugere um nível maior — ainda experimental — de comunicação. Traz discussões fundamentais sobre nossas relações.


Na edição anterior da Swarm Creativity: a partir do tema #Sentidos, falei por aqui sobre “CyberSentidos”, updates dos sentidos humanos por meio da tecnologia (e como isso pode impactar drasticamente nosso futuro). Sempre é tempo de ler, então participe da discussão e, se gostar, recomende. ;)


// Swarm Creativity: A cada mês, publicamos um novo conjunto de artigos, que se integram em uma experiência coletiva e são complementados por você. Leia os demais desta edição em nossa publicação aqui no Medium. Assine Assine nossa newsletter e participe das discussões no nosso grupo no Facebook.

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