O movimento feminista e suas vertentes

Kamylla Lemos
Mar 30, 2016 · 4 min read
Ilustração do projeto De|generadas que discute o feminismo e suas vertentes através de ciclos de conversa / Divulgação

Foi durante a segunda onda do feminismo, nos anos 60, que o movimento feminista ganhou força no Brasil. Na mesma época que acontecia a luta pela redemocratização, as mulheres iam para a rua em busca do direito ao voto e outras reivindicações. “São mulheres letradas, de classe alta, que foram entrando em contato com feministas de fora do País”, explicou Carolina Branco Castro Ferreira, em entrevista ao Brasil Post, que é pós-doutorada do núcleo de estudos de gênero Pagu, da Unicamp.

Só que havia um problema: enquanto as mulheres brancas, de classe alta, lutavam por direitos iguais, as mulheres negras lutavam por direitos básicos. As diferentes vertentes no feminismo surgiram para tratar as pautas de cada grupo separadamente, uma vez que uma mulher trans e uma mulher branca, por exemplo, possuem necessidades diferentes.

Porém, algumas pautas são comuns entre duas ou mais vertentes, como a violência de gênero. No artigo da filósofa Marilena Chauí, Participando do Debate sobre Mulher e Violência, ela explica que a violência contra a mulher é o resultado de uma ideologia de dominação masculina, que é reproduzida pelos homens, mas, também, pelas mulheres.

Atualmente, no Brasil, os movimentos mais populares, segundo a pesquisadora Carolina Branco Castro Ferreira, são: o feminismo negro, o feminismo radical e o feminismo interseccional. Ainda existem o feminsmo trans e o feminismo liberal.

FEMINISMO RADICAL

A palavra radical é, normalmente, idealizada como algo extremo. Mas as feministas radicais — ou radfem, como são chamadas — não são extremistas. Essa corrente surgiu entre as décadas de 60 e 70 e defende que a raiz — de onde a palavra radical vem — de todas opressões é o patriarcado. O radfem aceita apenas mulheres no movimento, por isso, muitas vezes, elas são chamadas de transfóbicas.

Uma diferença entre o feminismo radical e as outras vertentes é o fato de que o radfem não é reformista, mas, sim, abolicionista. Ele acredita que certas coisas devem ser destruídas para que haja uma libertação feminina. Como, por exemplo, a prostituição. Isso porque na sociedade o homem se beneficia com tudo pelo simples fato de ser homem e “defender” o direito de uma mulher de se prostituir seria o mesmo que defender o direito de um homem explorá-la.

FEMINISMO NEGRO

Essa vertente chega no Brasil durante os anos 80, junto com o movimento negro. Foi percebido que os problemas das mulheres negras iam além de questões de gênero, isso porque ela sofre uma opressão dupla: por ser mulher e por ser negra.

"A opressão da mulher negra não é mais importante que a opressão da mulher branca, porém a mulher negra carrega outras questões que não atingem diretamente a mulher branca. Questões essas que nos transpassam além do gênero e que devem ser discutidas com um viés diferente.", afirma Mara Gomes, administradora da página A mulher negra e o feminismo, para o site blogueirasnegras.

TRANSFEMINISMO

O transfeminismo surgiu como uma corrente voltada apenas para as questões de pessoas trans — alguém que tem uma identidade de gênero diferente daquela esperada pela sociedade em função do seu sexo biológico. A falta de visibilidade e a exclusão no feminismo foram motivos para a organização de uma estrutura própria.

FEMINISMO LIBERAL

O feminismo liberal é uma vertente feminista inversa ao feminismo radical. O libfem, como é chamado popularmente, acredita que a forma de assegurar a igualdade entre o homem e a mulher é por meio de reformas políticas e legais. E que quando a mulher decide seguir um padrão de beleza ou se prostituir, ela está exercendo a sua liberdade de escolha. Enquanto no radfem é explicado e debatido que isso é algo à que ela foi condicionada.

Esse tipo de feminismo é o menos popular no Brasil, sendo bastante conhecido na Europa e nos Estados Unidos. Entre os principais nomes do feminismo liberal no século 20 estão Eleanor Roosevelt, Hilary Clinton e Naomi Wolf.

FEMINISMO INTERSECCIONAL

O feminismo interseccional é uma corrente que procura a interseccção entre os tipos de opressão: de gênero, de raça e de classe social. “A visão de que as mulheres experimentam a opressão em configurações variadas e em diferentes graus de intensidade. Padrões culturais de opressão não só estão interligados, mas também estão unidos e influenciados pelos sistemas intersecionais da sociedade.” explica Kimberlé Crenshaw que batizou o termo interseccional em seu livro,em 1989.

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De todas as vertentes é a mais receptiva com homens no movimento. “As radicais, nos anos 70 e mesmo hoje são completamente contra, porque para elas homens são opressores por natureza”, explica Carolina, que se considera uma feminista interseccional. Algumas das principais figuras do movimento intersec são as estudiosas Kimberlé Crenshaw, Audre Lorde e Bell Hooks.

Um movimento que se pauta em aprendizagem com o outro é muito saudável e enriquecedor. Pra mim é essencial que feministas brancas estejam a par do que as mulheres negras estão discutindo, assim como pra mim é importante eu saber o que acontece com as pessoas trans uma vez que eu sou cisgênero”, explica a estudante de artes visuais Julia França. Se descobriu feminista aos 15 anos e hoje, aos 19, trabalha como colaboradora no site Capitolina. “Se o nosso feminismo não é pra todas essas mulheres, pra quem ele é?

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