A Arte da Aprendizagem Autodirigida — Blake Boles

Tradução de Alex Bretas

Acesse o texto preliminar e o sumário do livro traduzidos clicando aqui. Veja abaixo os links para os capítulos anteriores:


4. Aprendizagem Consentida

Logo após a faculdade, entrei num curso técnico de emergência médica. Faminto por construir habilidades práticas e mão na massa depois de 16 anos de abstrações acadêmicas, eu esperava que a primeira aula fosse direto para a parte boa: como estancar um grande sangramento arterial, como enfiar uma caneta na traqueia de alguém para ajudá-la a respirar novamente ou como usar uma tala para imobilizar uma fratura no fêmur.

Ao invés disso, nós tivemos uma conversa sobre consentimento.

Técnicos de emergência médica, eu aprendi, podem cometer todo tipo de erro. Numa batida de carro, por exemplo, é só começar a mover as pessoas acidentadas e você pode acabar agravando uma lesão na coluna de alguém. Ao atender a uma criança sem a permissão de seus pais, você pode se meter em uma grande encrenca.

O princípio básico é: não ajude alguém sem perguntá-la antes. Obtenha consentimento primeiro. Até porque, quando você pensa que está ajudando, pode estar na verdade piorando a situação.

Depois daquela aula, revivi toda a minha trajetória na educação básica. A despeito da quantidade de pessoas de bom coração e bem intencionadas que tiveram um papel nas minhas experiências de educação formal, quantas sequer se preocuparam com meu consentimento? Quantas me fizeram (e realmente me incentivaram a refletir sobre) as perguntas: Será que eu realmente queria ir à escola? Será que eu concordava que fazer essa tarefa era realmente uma boa ideia? Aquela aula realmente valia o tempo dedicado a ela? E o que mais eu poderia ter feito com meu tempo que não ficar sentado e entediado?

Foi então que percebi que a escola é um péssimo lugar para se aprender sobre consentimento — o que é uma pena, dado que o consentimento é a pedra fundamental de qualquer relacionamento ou comunidade saudável que já conheci.

Para mim, consentimento significa:

  • Entender com o que você está se comprometendo
  • Conhecer quais são as alternativas
  • Dizer “sim” de modo a preservar seu poder de dizer “não”

Para ilustrar, vamos imaginar que você está pensando em se inscrever para uma aula de gastronomia. Consentir totalmente no caso dessa aula significa ler cuidadosamente a descrição do curso, procurar comentários e recomendações de quem já o fez, compará-lo a outros cursos disponíveis e compreender como funciona a política de reembolso.

Tendo feito essa pesquisa, você está pronto para tomar uma decisão informada sobre começar as aulas de gastronomia, ao mesmo tempo em que se reserva o direito de parar de frequentá-las, se assim preferir.

Agora, imagine como seria aplicar esse método para qualquer decisão educacional da sua vida. Esse é o trabalho diário de um aprendiz autodirigido.

Uma jovem que se formou no ensino médio e que aprende de maneira autodirigida não tenta simplesmente uma vaga nas “melhores universidades”. Ela visita os campi, entrevista professores, conversa com alunos já matriculados e localiza pessoas que se formaram recentemente em cada uma das opções disponíveis. Ela considera múltiplos caminhos, inclusive não fazer faculdade. E, se ela entra em alguma, ela sempre se lembra que pode mudar para uma outra ou abandonar a educação superior, se assim o decidir.

Um adolescente homeschooler capaz de aprender autonomamente não assume que as escolhas de seus pais o farão ter sucesso automaticamente. Tão cedo quanto possível, ele começa a assumir as rédeas de sua própria educação. Por meio de livros, da Internet e do contato com outras pessoas, ele faz pesquisas para informar suas decisões. Se o currículo escolhido por seus pais não mais lhe parece significativo, ele defende e argumenta quanto a seus interesses. Se ele fica com vontade de ir à escola, ele propõe essa alternativa como um experimento para si próprio. Ele se vê como um participante ativo — e não um peão de tabuleiro — da sua própria educação.

Quando uma mãe que pratica a aprendizagem autodirigida quer que seu filho tenha aulas de violino, ela não o matricula simplesmente nas aulas. Ela explica seu raciocínio para ele: “Eu quero que você aprecie música”, por exemplo. Ela sugere outras atividades que poderiam fornecer os mesmos benefícios, como aulas de violão, composição de música digital ou assistir a uma sinfonia. Ela estabelece expectativas claras em relação às aulas ou à tutoria: “quero que você dê o melhor de si em três aulas”. Ela dá espaço para o filho pensar, elaborar suas opiniões e responder. Ela não impõe, bajula ou chantageia o filho emocionalmente. Ela o trata como o adulto promissor que ele logo se tornará, e isso significa que quando ele diz “não”, é não. E, se ela fica muito impaciente, ela mesma se matricula nas aulas de violino e lidera pelo exemplo.

C. S. Lewis escreveu: “De todas as tiranias, aquela que se justifica pelo bem de suas vítimas talvez seja a mais opressora”. A educação não foge à regra. Tornar-se um aprendiz autodirigido é se tornar, nas palavras do meu amigo Ethan Mitchell, um aprendiz consentido.

Rejeite a tirania da aprendizagem forçada, a despeito do quão desejado é o resultado final.


Você não faz com que seus filhos aprendam nada?

“Fazê-los aprender? Não. Não os faço aprender nada. Eu instigo. Eu sugiro. Eu ofereço incentivos. Mas eu não faço por eles. Não sou o planejador da vida deles: essa função já tem dono. Meu trabalho não é decretar no que eles serão bons ou como eles farão cada coisa. Não sou o rei da vida deles. Eles são soberanos. As mentes deles pertencem a eles próprios. É propriedade deles, afinal.
Meu trabalho é abordá-los com humildade, sabendo que minha habilidade de discernir o que eles serão ou farão ou no que serão bons não é nada comparada à deles. Minha função é apoiá-los em seu próprio discernimento. É disponibilizar experiências, trabalhos, brincadeiras, recursos, professores, mentores e colaboradores com o intuito de ajudá-los a se construírem. É conversar sobre as coisas com eles, mas também não ficar conversando demais o tempo todo. Meu trabalho é ficar calma, me calar e servi-los quando posso. Eu não dirijo nada. Menos de mim. Mais deles.”
Ana Martin (página do “The Libertarian Homeschooler” no Facebook)

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