Teorização de Ecossistemas Circulares — A semente inicial

Aline Faria
Dec 7, 2021 · 4 min read

Em posts anteriores, exploramos uma diversidade de aspectos de ecossistemas como os seus tipos, crescimento, criação de valor e a transição para um ecossistema circular. Sobre este último aspecto, também foram feitas abordagens como onde estamos e aonde podemos ir e a servitização de produtos. A leitura desses textos pode trazer um insight direto sobre a transição para a economia circular: a sua natureza disruptiva. Entretanto, a adoção ou transformação para um ecossistema circular deve ser estrategicamente concebida (ou teorizada) de acordo com a sua tipificação. Nesse texto, avançaremos em relação à teorização.

Source: CIO

A natureza disruptiva da transição para a economia circular mexe com o status quo e afeta diretamente a dinâmica de colaboração e competição entre atores, no tocante à tecnologia, à inovação, ao governo e à indústria. A adoção dos princípios da economia circular é, portanto, sociotécnica já que envolve atores de diferentes segmentos da economia e de outros domínios. A transformação para a nova lógica de produção e consumo (circular), busca a eficiência de recursos e a sustentabilidade ambiental nos mercados e na sociedade. Entretanto, para atingirmos tal eficiência, necessitamos de mudanças nos fluxos de materiais, energia e valor, a um nível sistemático. Afinal, uma andorinha só não faz verão.

Assim, para atingirmos o nível sistêmico, precisamos da interação de diferentes tipos de atores, entre eles, organizações, o poder público e consumidores. É essa necessidade de atingir tantos atores diferentes que aumenta a importância do entendimento da lógica de ecossistemas de negócios já que eles contribuem para maior eficiência de recursos e fluxos de materiais por meio de ciclos de feedback e diferentes interdependências entre diversos tipos de atores. Os casos da Michelin, Moura, Trocafone e Enjoei ilustram bem essa ideia.

Entretanto, a configuração circular em ecossistemas pode não aparecer espontaneamente. Os seus gestores têm uma participação ativa na criação de ideias sobre como um ecossistema específico pode ser convertido em circular ou mesmo em como um ecossistema pode nascer já com a característica da circularidade. Esse processo de criação e transformação pode ser denominado teorização. Portanto, essa teorização de ecossistemas se dá por uma cadeia de pensamentos que envolve diferentes tipos de atores e papéis dentro de um ecossistema, destacando fluxos de criação de valor, entrega de valor e captura de valor.

Os casos anteriormente citados e aqui publicados são bons exemplos de teorização de ecossistemas. No caso da Michelin, ela, como empresa focal, planejou a criação de um pneu capaz de cumprir o seu papel de forma segura após furar por mais 250 km, a uma velocidade de até 100 km/h, antes de interromper a jornada para que seja feita a manutenção (criação de valor). Para que esse pneu funcionasse para o consumidor final, a empresa focal teve que planejar parcerias com oficinas mecânicas para que adquirissem equipamentos específicos para a manutenção desse novo tipo de pneu (entrega de valor). Além disso, precisou se articular com as montadoras de veículos para criarem rodas compatíveis com o novo pneu e para que já o novo sistema (roda e pneu) vendessem junto aos novos veículos (captura de valor). Tudo isso deve de ser teorizado e antecipado pela empresa focal muito antes de colocar o novo produto no mercado.

Já os casos da Moura, Trocafone e Enjoei têm a ver com o aumento da vida útil de produtos antes diretamente descartados pelo consumidor final. A maior eficiência de recursos e a sustentabilidade ambiental tampouco surgiu espontaneamente. Os gestores do ecossistema da Moura tiveram que se desafiar intelectual e criativamente com uma mudança na lei que exigia o gerenciamento ambientalmente adequado de baterias esgotadas, no que tange à coleta, reutilização, reciclagem, tratamento ou disposição final. A teorização do ecossistema desenvolvido passou pela organização de esforços envolvendo diferentes atores como recicladores, coletores de baterias usadas e lojas franqueadas, além da própria fabricante de baterias (Moura). A teorização incluiu esquematizar os fluxos de criação de valor, entrega de valor e captura de valor. Para isso, a evolução da colaboração com seus parceiros de negócios foi essencial, assim como as novas interações com organizações que antes a empresa não tinha relações. A Trocafone e a Enjoei também teorizaram os seus ecossistemas em cima do retorno de produtos usados e a articulação de diferentes atores com distintos papéis.

Also, different circumstances lead to different logics of theorization of circular ecosystems that do not arise spontaneously. They are purposely designed and architected so that it is possible to establish circular ecosystems with carefully planned and defined flows of value creation, value delivery and value capture.

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Gestão de Ecossistemas de Inovação

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Uma iniciativa da USP, ISA CTEEP, 100 Open Startups sobre melhores práticas em Gestão de Ecossistemas de Inovação.

Aline Faria

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