Vidas Opostas no Sol Nascente: oportunidades iguais, destinos diferentes

Kenio da França Santos, estudante, 19 anos, acordou cedo, às 5h30 da manhã, para ir à uma entrevista de estágio. Ele colocou a melhor roupa: o tênis que ganhou do pai no mês passado, uma camisa de gola polo e uma calça jeans azul. Pegou o ônibus e chegou ao local marcado com 20 minutos de antecedência. Ensaiou um discurso para passar boa impressão.

João da Silva (nome fictício), desempregado, 18 anos, também acordo cedo, às 6h30 da manhã. Mas diferente de Kenio, o jovem resolveu ganhar dinheiro de outro jeito: por meio de assaltos. Num único dia ele conseguiu roubar três celulares, um par de tênis e uma quantia de R$ 120,00. No total, João da Silva conseguiu um montante de R$ 4 mil, dinheiro que será usado para a compra e revenda de drogas.

Mas o que eles dois têm em comum? Ambos os jovens são moradores da maior favela da América Latina, a comunidade Sol Nascente, de acordo com estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

A história de Kenio e João revela a doença crônica da sociedade brasileira: local onde o pobre não tem vez. “Eu tentei várias vezes conseguir estágio e até empregos informais, mas quando eu falava que moro no Sol Nascente, o empregadores já me olhavam de um jeito diferente. Eu saía das entrevistas com a certeza de que não ia ser aprovado”, lamenta Kenio.

Após enfrentar dificuldades para sair dos caminhos das drogas, Kenio deu a volta por cima: conseguiu um estágio, voltou para a escola e hoje ajuda jovens a transformarem a vida por meio da inclusão social.

A falta de oportunidades fez com que João perdesse as esperanças de que iria conseguir honesto.“Tô de boa, parceiro. Até tentei ser gente, mas prefiro ficar como estou. Tudo o que eu tenho foi conquistado com o roubo e tô de boa assim”, diz João da Silva, que afirma não querer arrumar um emprego.

Mas como conseguir espaço numa sociedade em que o cidadão já está à margem? Como ser luz num lugar onde as pessoas só veem trevas? A comunidade Sol Nascente é nacionalmente conhecida pelo crescente número de tráfico de drogas e violência. São mais de 95 mil habitantes, que dividem um perímetro de 20 km quadrados. Nesse ambiente vivem pessoas que passam por dificuldades semelhantes, mas que escolheram caminhos opostos.

Líderes comunitários afirmam que a comunidade possui hoje cerca de 120 mil habitante.

Kenio veio do Piauí em 2005 com os pais e os dois irmãos. A família saiu de São Raimundo Nonato para conseguir melhores condições de vida na capital do país. Contudo, alugueis caros, custo de vida elevado e desigualdade social fizeram com que a família mudasse para o Sol Nascente em 2006. A família de João da Silva veio de Barreiras, interior do Bahia. Mas diferente da família de Kenio, eles já sabiam que iriam morar numa favela. Eles chegaram à comunidade em 2004.

O número de nordestinos que imigraram para o Distrito Federal é quase equivalente à população total. A família dos dois jovens engrossa as estatísticas. De acordo com a Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan), 52% do total de imigrantes do DF são oriundos da região Nordeste, sobretudo os estados da Bahia, bem como do Maranhão e do Piauí.

Os pais de Kenio tiveram um choque quando chegaram no Distrito Federal. Eles não sabiam que as condições de vida que teriam na capital eram semelhantes às que tinham no sertão. “A gente olha Brasília pela televisão e acha que vai morar nas áreas mais nobres, perto de prédios chiques e locais de lazer. Pura ilusão”, explica a mãe de Kenio, a dona de casa Rosângela Maria dos Santos, de 37 anos.

Na comunidade, a única escola construída é destinada para alunos do pré-escolar até a quarta série do ensino fundamental. Em razão disso, Kenio saiu da escola aos 11 anos quando iria cursar a quinta série. A falta de oportunidades levou o jovem a um submundo que ele jamais poderia imaginar que entraria: as drogas e o crime.

Pesquisa da Codeplan revela que o problema da comunidade é a infraestrutura.

“Eu comecei fumando cigarro normal, em pouco tempo já estava viciado em maconha”, lembra. Kenio conta que a maioria dos adolescentes que se envolvem com drogas ou até mesmo com o crime organizado, entra nesse caminho por influência de amigos.

João da Silva, por sua vez, garante: “Eu comecei a usar maconha porque eu quis mesmo. Ninguém me influencia nessa merda aqui, não”, explica o jovem que experimentou drogas pela primeira vez aos onze anos.

Conheça na íntegra a história de vida de Kenio e João da Silva.

Ainda de acordo com a Codeplan, crianças e jovens com idade de 10 a 18 anos representam 18% do total de habitantes da comunidade . Desses, mais 1,7 mil são analfabetos. A situação ainda é mais alarmante quando se trata de crianças de até seis anos: são mais de 6,3 mil que estão fora da escola.

Para tentar amenizar este problema, a Secretaria de Educação do Distrito Federal (SEDF) informa que há previsão de construção de duas creches, além de uma escola de ensino fundamental e outra de ensino médio. Os projetos fazem parte do Plano de Obras do Governo de Brasília em relação ao triênio 2015/2018. Contudo, de acordo com a SEDF, os projetos ainda estão em fase de elaboração.

Os moradores da região carecem de políticas públicas voltadas para a educação. De acordo com a Codeplan, cerca de 78% da população não tem o ensino médio completo e cerca de 8% das crianças não estão matriculadas em alguma instituição de ensino.

“Todos que entraram para essa vida saíram da escola. A gente ia pra bagunçar, às vezes a gente usava droga no banheiro e até no pátio. Os professores viam, mas tinham medo de nós. Todo ano a gente reprovava então não fazia sentido continuar ali. Esse é o pensamento de muitos estudantes daqui”, explica kenio.

A psicóloga Ana Flávia Madureira acredita que há falta de incentivo para que os jovens consigam mudar a própria realidade e que o capitalismo exagerado da sociedade moderna contribui para inserção deles no crime organizado. “Se a sociedade acha que o mais importante de uma pessoa é o que ela pode comprar, os jovens que não têm condições financeiros tendem a ser atraídos com a promessa de ganho rápido oferecido pelo crime organizado”, explica.

Kenio é um exemplo desse fato. “Eu queria andar com pisante de marca, com a roupa da moda, queria sair com minha namorada, mas sem trabalho eu ia conseguir isso como?”, explica o jovem, que também se tornou traficante. “Na primeira semana eu já tinha quinhentos reais no bolso. Eu ganhava R$ 20,00 por semana para ajudar meu pai na obra, o que você acha que era mais atrativo pra mim?” justifica.

Já a assistente social Margarida Minervina diz que esta é a uma realidade de grande parte dos jovens moradores da comunidade e que a raiz desses problemas, na maioria das vezes, vem de casa. “Muitos deles não têm aconchego dentro de casa, os pais trabalham fora, outros não têm pai ou mãe e vivem com outras pessoas”, afirma.

O conselheiro tutelar Jonas da Marcena Costa completa: “A família é a base da sociedade. Se ela é desequilibrada, a sociedade também fica desequilibrada. É por isso que muitos jovens estão sem a menor perspectiva de vida atualmente”, avalia.

João da Silva nunca conheceu o pai. Ele vive com a mãe e mais três irmãos numa casa de apenas três cômodos. “Quando a minha coroa (mãe) não consegue as coisas, eu que coloco comida dentro de casa e por causa da vida que eu tenho que a gente não passa fome, parceiro”, lamenta o jovem.

A mãe de João é diarista e ganha cerca de R$ 900,00 por mês. Segundo o jovem, o dinheiro não é o suficiente para garantir o sustento da família. “Você sabe o que é ver seus irmãos mais novos quererem comer um pão e não tem nada? Se as pessoas soubessem o que é isso me julgariam menos”.

Kenio nunca passou fome, mas também cresceu em meio a pobreza. Ele usava a vulnerabilidade social para justificar suas falhas. “Honestidade vem do caráter eu tive que comer o pão que o Diabo amassou para aprender isso”, explica.

Amizade que gera mudança

Kenio contou com a ajuda de boas influências para sair do crime. Ele conheceu por acaso o educador social Luiz Henrique Mangabeiro, que ofereceu ao jovem um curso de informática no Instituto Inclusão de Desenvolvimento e Promoção Social (Idepros.) A instituição oferece cursos profissionalizantes gratuitos para crianças e jovens do Sol Nascente. No local, os alunos recebem capacitação profissional e orientação pedagógica e psicológica.

“Tava meio ‘lombrado’ quando o Luiz me abordou na rua. Eu tava acostumado a andar em alerta, pois mexia com drogas. Estava armado e lembro que me assustei quando ele falou comigo”, conta. “Mas para falar a verdade, eu não aguentava mais viver naquela situação. Todo viciado sabe que vai se ‘ferrar’, a maioria até tenta sair, mas ninguém consegue isso sozinho e, na maioria das vezes, ninguém nos apoia”, avalia.

Ana Flávia Madureira afirma que o preconceito é um dos responsáveis pela inserção de crianças e adolescentes no crime. “A nossa autoestima se constrói a partir da nossa relação com as pessoas. Situações que sinalizam o fracasso e a impotência tendem a criar nas pessoas uma desconfiança em relação a si mesmo”, avalia.

Luiz tem 23 anos e é voluntário na Idepros. Ele dá aulas de violão e informática. O jovem é negro, de baixa renda, morador do Sol Nascente há cinco anos, mas diferente da maioria das pessoas dessa idade, que residem na comunidade, conseguiu vaga numa instituição de ensino superior. “Sou bolsista, é claro. Faço Publicidade e Propaganda e tive que estudar muito para conseguir realizar meu sonho”, testifica.

A instituição já atendeu mais de 700 crianças e jovens desde 2014.

O educador social encontrou Kenio no meio da rua e se sensibilizou. “Nós temos quase a mesma idade. Daí eu pensei: ‘Por que eu consigo vencer e ele não?’”. Hoje, os dois são amigos. “Ele acreditou em mim quando nem eu mesmo acreditava”, diz Kenio, que está há dois anos sem usar ou vender drogas.

Kenio voltou para a escola e conseguiu um emprego num supermercado em Ceilândia. A luta dele, hoje, é fazer com que os mesmos amigos que o levaram para o submundo do crime, conheçam a luz da vida digna e honesta.

João da Silva, no entanto, não quer sair do crime. Ele afirma que vai ajudar no sustento da família por meio do tráfico e que não teme a repressão policial. “Eles são tudo folgado. Nós tem que meter bala na cara deles mesmo”, diz.

Viver no Sol Nascente é superar desafios diários para não entrar num caminho que muitas vezes não tem volta. O pior de tudo, é que a maioria dos habitantes não podem contar com o auxílio do governo. Enquanto essa realidade não mudar, pessoas como Kenio e João terão que contar com a própria sorte e força de vontade.

Confira o depoimento da psicóloga Ana Flávia Madureira na íntegra

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