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        <title><![CDATA[wannacome - Medium]]></title>
        <description><![CDATA[Somos duas médicas portuguesas que rumam à Guiné Bissau. Gostávamos de poder contribuir para a melhoria de cuidados de saúde prestados às populações locais, trabalhando em Centros de Saúde e de Recuperação Nutricional. Embarcam connosco nesta missão de voluntariado? “Wanna come? - Medium]]></description>
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            <title>wannacome - Medium</title>
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            <title><![CDATA[Sem título definido]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria João Nuno Lopes]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 06 Apr 2017 18:23:48 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-04-06T18:37:59.169Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p>— — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — — —</p><p>A saudade tem lugar na missão. A saudade da imensidão do mar de Bubaque, do seu sol tórrido, das pessoas com quem, por lá, nos cruzámos. Mas não é dessas saudades que vamos falar. É das de Empada? Das que começam, devagarinho, a instalar-se? Não. Hoje a Guiné não tem lugar. Hoje não é sobre <em>o cá</em>, mas sobre <em>o lá</em>.</p><p>Vamos falar de anatomia? Vá, calma! Da anatomia do amor. O coração presta-se a tudo. Há quem seja um coração mole. Outros há que o têm despedaçado. Depois há corações de pedra. Há também os de Viana. E os apaixonados? Há quem tenha um coração grande. Enfim… há corações para todos os gostos. Eu acho que o meu é de vidro. Às vezes tem <em>dedadas</em>, que eu tento ir polindo. Mas, na maioria das vezes, é transparente. Eu confesso facilmente, com ou sem paredes por perto, de quem eu gosto. Talvez por recear que alguém parta para outro lugar antes de eu lhe mostrar qual é o seu… no meu coração. O vidro é também <em>tramado</em>, quando cai. São mil os pedaços para recolher. Mas também não é disso que vamos falar.</p><p>A saudade tem lugar na missão. Através do vidro, sabem que o meu coração já tem a lotação esgotada. E é mesmo assim. Cada missionário, mesmo que parta sozinho, vai acompanhado. Consigo leva a preocupação de uma mãe, o receio de um pai, os mimos de um irmão, as recomendações de uma avó, o último abraço dos amigos. A mala pode ir cheia ou então não. A forma como cada um gere a saudade é muito própria. Há quem opte por <em>desligar</em>, que isto l<em>onge da voz,</em> longe do coração! Há quem ligue muitas vezes. <em>O coração albarda-se </em>à vontade do dono<em>.</em></p><p>Desta vez, conheci mais um tipo de coração em missão. O coração da Eunice, que eu já sabia ser dos gigantes, é também um coração de mãe. E este é diferente. Transcende qualquer descrição. É a hipérbole vivida e transborda saudade a cada minuto. Nunca deixou de ser um coração de mãe mas, é hoje, acredito, um coração mais recheado.</p><p>Desta vez, experimentei mais um tipo de coração em missão. Acho que não é só a cara que tem uma metade, o coração também. Já éramos um do outro quando parti em missão, em 2013, mas ainda não sabíamos. Hoje sabemos. E isso muda tudo. Mas, com tudo o que mudou, ele continua a ser ele, o que apoia, o que incentiva, o que está sempre lá.</p><p>Depois, houve os repetentes. Foram até à Costa do Marfim e vieram conhecer a Guiné também. Os meus pais, a minha irmã, as minhas tias, os meus primos, as minhas avós e os meus amigos. São as pessoas mais incansáveis, mais presentes, mais <em>minhas, </em>e eu, sem eles, não era eu.</p><p>Se ambicionam partir em missão, não tenham receio de levar “as vossas pessoas” com vocês. Eles podem ter os receios, as preocupações, os mimos, as recomendações e os abraços. Mas têm-vos no coração. Dão-vos apoio sempre. São estabilidade. E, quando ligarem à vossa mãe, vão ouvir “Força! Estou contigo!”. O que ela vos queria, verdadeiramente, dizer? “Estou a morrer de saudades tuas”. Se não derem notícias durante demasiado tempo? Há um pai, à vossa espera, que não dormiu a noite inteira, mas que vos diz “Não te preocupes. Estou bem só por saber que também estás!”. E o vosso coração até pode não os ver, mas sente-os… sempre!</p><p>Quando decidimos criar o “WannaCome?”, sabíamos que a mala viria mais cheia. Queríamos alargar a nossa experiência a outras pessoas e partilhar as nossas vivências. As malas nem sequer fecham! Ter-vos <em>lá</em> facilitou (e muito) a nossa vida cá! Agradecemos cada <em>gosto</em>, cada comentário, cada mensagem e cada partilha! Excederam as nossas expectativas! Muito, muito, muito obrigado a todos!</p><p>Este texto é de e para todos os que embarcaram connosco nesta missão. E o título? Exato, é vosso, escolham o que quiserem, por favor!</p><p>Resta-me uma semana de missão e, por isso, este é o último texto do “WannaCome?”. Lembram-se do 100%? Para regressar a 100%, esta última semana tem de ser uma <em>de mim para mim</em>. Os últimos dias, para quem vive intensamente uma missão, são particulares. Há mais sentimentos, há mais memórias, há mais sensações, há mais saudades…e, simultaneamente, há um regressar. E este tem de ser preparado. O mais nunca será menos, mas tem de ser apaziguado. Porque há um regressar. E, como toda esta missão, é para ser a 100%!</p><p>Muito obrigada a todos! E sim… vocês estiveram sempre a 100%!</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=7aaff2d8fb04" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/wannacome/sem-t%C3%ADtulo-definido-7aaff2d8fb04">Sem título definido</a> was originally published in <a href="https://medium.com/wannacome">wannacome</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[As missões]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria João Nuno Lopes]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 05 Apr 2017 18:56:57 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-04-05T19:21:17.254Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<blockquote>do missionário</blockquote><p>Deitamo-nos cedo e cedo nos erguemos. Muito salutares por aqui, mas crescer? Ainda não chegou cá nada. Gosto dos amanheceres de Empada. Está mais fresco, cheira a terra e o silêncio imperaria, não fossem os pássaros que <em>ensaiam</em> logo pela manhã. Quando não é dia de ir ao hospital, vou lá na mesma. No caminho, pode acontecer de tudo. Já parei para jogar <em>só um minutinho de matraquilhos</em>, porque <em>tinha mesmo de ser</em>. Já me chamaram porque as calças que tenho vestidas faziam a delicia de quem tirava água do poço e, assim como quem não quer a coisa, queriam que desse uma voltinha. Também agendo consultas pelo caminho, depois de insistir várias vezes que, no meio da rua, é difícil palpar uma barriga. Já me entregaram uma taça de arroz, por acharem que não como e só trabalho. E às vezes, tenho de parar numa casa ou na outra, só para saberem se está tudo bem. Quando não é dia de ir ao hospital, vou lá na mesma, e depois fico no Centro Nutricional das Missionárias da Consolata ou desloco-me a alguma tabanca (aldeia). Em ambos, passo grande parte do tempo em (muitas) consultas, por serem gratuitas (o que não acontece no hospital) e porque a <em>médica é branca.</em></p><p>É claro que podem pensar o quão óbvio é, para um médico, dar consultas e observar doentes, numa missão. E, de facto, ser médico, numa missão de voluntariado, é meio caminho andado. Para começar, as pessoas procuram-nos, são elas que vêm até nós. Sabemos onde e em que área vamos trabalhar, apesar das nuances deste saber. O resto do caminho não andado são os desafios do exercício da profissão que conhecemos, em sítios que não conhecem a língua que falamos, as doenças e os medicamentos que usamos mais frequentemente ou os exames que gostávamos de poder pedir. Mas nem só da área da saúde se conta a história da missão. É uma coletânea com vários fascículos. Mesmo que todo o caminho seja não andado. Não acreditam que missionário é mulher/homem dos sete ofícios? Ora vejam: (sim, a <em>Anita</em> foi a minha inspiração clara!)</p><h4>Missionário vai à escola!</h4><p>O ensino é transversal à maioria das missões, não fosse a alfabetização uma área de grande investimento das instituições de voluntariado. Das aulas de línguas, às aulas de informática, à formação de outros profissionais, à organização de bibliotecas. Eu dei uma <em>perninha</em> em aulas de português, mas levei <em>bóias</em>, que essa coisa da filha de peixe podia dar em afogamento. A outra <em>perninha</em> ainda estou a dar, em aulas com os enfermeiros do hospital.</p><h4>Missionário é criativo!</h4><p>Ui, esta dava pano para mangas. Nas reuniões com outros missionários, volta e meia surge a questão “Pois, mas tu és médica! Agora eu sou escultor/desenhador/fotógrafo, qual poderá ser o meu contributo?”. Todo! M<em>alta das artes:</em> em 2013, quando parti para a Costa do Marfim, o meu grupo integrava dois desenhadores. E o que fizeram <em>essas almas</em> por lá? Usaram o seu dom, desenharam a nossa experiência e, uma vez chegados a Portugal, publicaram um livro. E isto foi só uma parte pequenina do trabalho deles!</p><h4>Missionário pinta, reabilita, constrói!</h4><p>As missões precisam, muitas vezes, deste tipo de trabalho. Ou porque não há uma escola e há um grupo que a constrói de raiz, ou porque há um centro de saúde a precisar de ser pintado. Então e costumam ir muitos construtores civis/pintores em missão? Nem por isso. Mas de <em>construtores</em> e de loucos todos temos um pouco! Pronto, eu fico-me pelo provérbio original que, admito, a minha experiência neste fascículo é nula.</p><h4>Missionário é dona de casa!</h4><p>É verdade! Missionário vive na missão. O que é que isso implica? As tarefas domésticas do costume, sem as ajudas do costume. E não falo das mães. Não há máquinas mas há loiça e roupa. E tudo se faz, talvez com uma melhor motivação do que de costume.</p><h4>Missionário brinca com a criançada!</h4><p>Uma constante na missão! Há crianças para todas as idades, sempre dispostas a mais um jogo ou brincadeira. São carinhosas, são enérgicas… dizem que são o melhor do mundo! E eu acredito! Fazem-nos levar a missão com um sorriso no rosto!</p><h4>Missionário vai à igreja ou é catequista (ou tenta, vá)!</h4><p>Se se trata de uma missão católica, é natural que, às duas por três, sejam chamados a participar na parte pastoral. Esta é uma forma de aproximação à comunidade, de se envolverem. Não é bem a minha forma mas (sim, há um mas!) todos podemos contribuir. Esta semana, por exemplo, vou estar na catequese dos adolescentes. Claro que não vou falar do que não sei ou não acredito. Mas se for para falar dos valores em que acredito, dar a minha opinião, tentar contribuir para a formação dos jovens… vamos lá ser catequistas por um dia!</p><h4>Missionário é pau para toda a obra!</h4><p>Por tudo o que escrevi anteriormente, acho que este é o título que melhor define um missionário. Se é para fazer… Quando cheguei à casa das irmãs, em Empada, havia um <em>pi-pi-pi</em> constante. Tinha avariado o botão do frigorífico. Um, dois, três dias. Lancei-me a ele, munida de uma pós-graduação em “frigoríficos e geleiras de levar para a praia” e a coisa resolveu-se. Claro que em Portugal chamaria um técnico, que lá não tenho a mania que conserto botões de frigoríficos… mas a <em>ameaça-de-surdez aguça o engenho</em>!</p><p>Missionário também é isto! Disponibilidade para o que aparece e… vão aparecer muitas e muitas coisas. Na missão há lugar para todos. Não importa a idade. Não importa a formação. Não importa a profissão. Não importa o que fazíamos. Importa o que fazemos. Há fascículos mais simples. Há fascículos que têm de ser decifrados. Mas coletânea é isso. O conjunto de todos os fascículos, a panóplia de pessoas que parte, na riqueza das suas diferenças. E a missão ganha com todos mas, definitivamente, com cada um!</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=dd9d9ee1622f" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/wannacome/-dd9d9ee1622f">As missões</a> was originally published in <a href="https://medium.com/wannacome">wannacome</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[O silêncio]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria João Nuno Lopes]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 03 Apr 2017 18:31:27 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-04-03T19:08:18.869Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<blockquote>deixa-me ilesa</blockquote><p>O título não é o de uma canção. São só os primeiros versos. Podem ouvir, sim, “Eu não sei dizer”, dos Silence 4. Eu também ouvi… vezes sem conta, quando era adolescente. Hoje são mais contadas, essas vezes. Mas voltando ao tempo em que não fazia contas… quando a tarde sucumbia para dar lugar à noite, eles pegavam na guitarra. Juntávamo-nos mais do que 4 e, mesmo que todos cantassem, aquele era o silêncio que me deixava ilesa. Refleti muito ao som desta canção e cresci com ela. Com ela e com os mais do que 4. Quando não fazia contas, estava com eles todos os fins-de-semana. Volta e meia, íamos acampar. Era escuteira na altura. Éramos. Hoje, somos amigos para a vida. Agora fazemos muitas contas, não estamos juntos todos os fins-de-semana e já não dormimos sob a mesma tenda há tempo a mais. Agora fazemos muitas contas mas foram eles que me prepararam.</p><p>Em 2013, quando decidi partir em missão, fi-lo por intuição, por achar que era o momento. Inscrevi-me sozinha, soube que tinha sido selecionada sozinha. O grupo iria conhecê-lo depois e isso não era, de todo, uma preocupação para mim. De facto, achava que a receita para “um grupo de voluntários perfeito” era adicioná-los num local, agitar um bocadinho e… <em>voilá</em>! Essa coisa da preparação, que tinha ouvido falar em relação aos grupos missionários, soava-me a um grande exagero. Preparar o quê? É ir e… pronto! Mas, na realidade, não é…</p><p>Voltando a 2013… fomos dos primeiros grupos a partir durante um mês com os Missionários da Consolata, mas quem dava os primeiros passos era mesmo eu. Os outros nove voluntários que comigo partiram já pertenciam à Consolata. Algures em Casablanca, onde fizemos escala, soubemos que íamos ser divididos em dois grupos de cinco. E eu ralada com isso. Tinha estado um par de horas com alguns deles, para castigo <em>os alguns</em> foram para a outra missão. Demorou até que eu percebesse “Espera lá, que isto tem tudo para correr mal!”. E tinha. Era a receita imperfeita: colocam-se cinco jovens, entre os vinte e poucos e os trinta e muitos, com interesses e profissões diferentes, noutro continente, 24 horas por dia, juntos, e vamos ver no que dá! E correu tudo bem. Porquê? Porque no grupo de jovens estavam as pessoas certas. Não eu, que ia mais na incerteza do que outra coisa… eles! Eles souberam criar e orientar o grupo, provavelmente porque já tinham partido em missão antes ou porque “esta coisa do grupo” já lhes corria no sangue, por pertencerem à Consolata. Davam-me tempo e ainda me ofereciam as ferramentas para refletir. Eu <em>safei-me</em> graças a eles. Aos <em>eles</em> de 2013 e aos <em>eles</em> que cantavam Silence 4.</p><p>No final de 2016, voltei a sentir essa tal de intuição. A intuição era minha mas decidi com <em>ele</em>, que agora a cara tem duas metades. Partilhei com a Eunice esta decisão e ela quis vir também. A Eunice, que entrou na minha vida há pouco mais de um ano. A Eunice, minha orientadora de especialidade. Mas ela tem outras especialidades e na amizade é exímia. A Eunice, com quem partilhei este último ano e muito mais. A Eunice, com quem fiz a dita preparação, ainda que estivéssemos habituadas uma a outra. E não teve preço. Estar ao lado de quem partilha connosco o que sabe (e o muito mais) não teve preço. E refletimos em conjunto e não contámos as vezes que o fizemos.</p><p>E depois veio o silêncio. Na verdade, quando a Eunice regressou, senti que estava a começar uma outra missão. Porque as pessoas com quem vivemos uma missão constroem-na. São intrínsecas. São indissociáveis. E depois veio o silêncio. Perguntaram-me se tinha a certeza que queria continuar. Houve até quem me dissesse que não seria capaz por recear a solidão (és… tenho a certeza!). Mas eu não estou sozinha. Estou comigo. E estou bem, comigo, graças a eles: a quem partilhou a tenda comigo, a quem viveu comigo em 2013 e a quem se desafiou e veio comigo para a Guiné-Bissau. E estou também com todos os que leem, os que comentam e partilham… mas estes merecem o seu próprio texto, que este já vai longo.</p><p>Ontem, quando as minhas pálpebras teimavam em ceder à gravidade, uma das irmãs alertou-me “Amanhã é dia de reflexão”. Entrou a cem e saiu a uma velocidade que rebenta com qualquer radar. E hoje acordei. Esta é uma casa com rotinas e regras. Hoje estava tudo desregrado. Fui trabalhar como sempre. Mas as irmãs não fizeram o de sempre. O “dia da reflexão” é exatamente um “contra-o-sempre”. É dia de parar. “Se não tivermos este dia, não paramos e… se não páras, quando é que pensas?”. Na minha cabeça formou-se uma daquelas respostas de anteontem “Todos os dias”. E é verdade. Eu penso, reflito, todos os dias. Aqui. Aqui, neste sítio onde voltei a deixar de fazer contas. Onde estou comigo mais do que nunca. E onde percebi que estar só comigo é bom. Li, algures no tempo e no espaço, que</p><blockquote>O silencio responde até mesmo ao que não foi perguntado.</blockquote><p>E é verdade. Hoje elas estão silenciosas. Hoje elas pararam. Porque a rotina é inimiga da perfeição. Porque, estupidamente, eu achava que pensava e refletia todos os dias e agora percebi que não. Aqui, eventualmente, até porque partilhar com vocês o implica. Mas, e quando voltar? E se todos pudéssemos ter “o dia da reflexão”? Não seria essa a <em>preparação</em> para um dia-a-dia menos quotidiano, mais nosso, melhor? Não sei… parece que o dia da reflexão é contagioso. Experimentem!</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=7e857fde1a71" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/wannacome/o-sil%C3%AAncio-7e857fde1a71">O silêncio</a> was originally published in <a href="https://medium.com/wannacome">wannacome</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Se eu fosse um dia o teu olhar]]></title>
            <link>https://medium.com/wannacome/se-eu-fosse-um-dia-o-teu-olhar-d95603342492?source=rss----29f8e136205---4</link>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria João Nuno Lopes]]></dc:creator>
            <pubDate>Sun, 02 Apr 2017 17:17:04 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-04-02T17:45:08.678Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<blockquote>E tu as minhas mãos também</blockquote><p>Domingo. Em relação à origem da palavra, e desculpem-me todos os conhecedores do latim, das etimologias e coisas que tais, acredito piamente que é o dia do <em>Mingo</em>. <em>Mingo</em>, filho do senhor verbo <em>Mingar</em>. Porque é isso que penso do tempo ao domingo… <em>minga, minga, minga</em> e traz a segunda-feira sempre mais cedo do que se queria. “Ai, mas <em>mingar </em>não existe e não é um verbo e nem sequer <em>mingo</em> é uma palavra”… isso é que era doce! É sim, que a minha avó quando olha para um tacho de lulas diz sempre “Sacanas. <em>Mingam </em>sempre”! E uma avó não se desmente.</p><p>Posto isto, voltando ao domingo… domingo é dia de passear, de correr uma meia-maratona (de preferência na cidade mais alta, onde o ar é o mais puro), de ver um filme no sofá. Domingo é dia dos almoços em família e da sesta para acomodar o que comemos a mais.</p><p>Vá, confessem, estão de perna esticada, no sofá? Ui, alguém está a abrir a porta da vossa casa. Acabou de entrar. Não conhecem a pessoa. Veste-se de uma forma esquisita. Fala com vocês mas não a entendem. A cor da sua pele é diferente da vossa. Passou o hall de entrada, olha para todos os cantos e recantos, e dirige-se à sala. Começou a brincar com os vossos filhos, pega-lhes ao colo e dá-lhes beijos. Tirou agora o telemóvel e começou a tirar fotografias a tudo. A vocês, aos vossos filhos, ao vosso cão, à vossa casa. E agora senta-se no vosso sofá, tira uma selfie com a vossa família. Levanta-se, acena e sai pela porta da vossa casa.</p><p>Gostavam que isto acontecesse? Permitiam, sequer, que alguém que não conhecem, invadisse assim o vosso espaço? Sei que desse lado há respostas prontas: Não!</p><p>Deste lado, é muito fácil tornarmo-nos esses invasores. Aqui as casas são diferentes, não há muros, não há portões, muitas vezes nem portas ou janelas. Aqui as pessoas têm hábitos diferentes, estão muitas vezes sentadas à porta de casa, riem e conversam durante horas. Aqui as crianças são muito apelativas, querem mimos e brincadeiras a qualquer hora do dia. E é tentador fotografar a diferença, os rostos cativantes e os sorrisos rasgados. Sim, aqui é definitivamente aliciante explorar cada recanto e registar tudo.</p><p>Mas é preciso parar. É preciso calçar os chinelos do outro. Ver com o seu olhar. Eu publico, diariamente, fotografias porque, acredito, são ilustrações do meu dia e do que sinto. Tento nunca tirar uma fotografia com alguém sem pedir ou sem que me seja pedido, o que por aqui acontece com frequência. As pessoas, por aqui, pedem para serem fotografadas, para que eu nunca me esqueça delas (como se isso fosse acontecer) ou porque querem ver como ficam no ecrã. Publico fotografias com algum significado e, volta e meia, peço ajuda para perceber se é ou não correto publicar a fotografia X. Em relação ao textos, faço o mesmo. São sempre lidos por mais alguém… Porque sei que, ao estar aqui, perco facilmente “o olhar”. Tento expôr-me mais a mim do que aos outros, tento que seja a minha visão e não uma descrição <em>per si</em>, evito o que também não gostava que mostrassem do sítio onde vivo. E, com o tempo, as pessoas abrem a porta das suas casas, das suas vidas… quando nos conhecem. Uma questão de tempo.</p><p>E também as consultas tiveram que ser repensadas. No início, tínhamos sempre connosco um tradutor, que esta coisa do crioulo é bem mais “chinês” do que eu pensava. Páginas tantas percebi, enquanto conversava com uma das trabalhadoras do centro nutricional, que a tinha “obrigado” a partilhar um tema íntimo com um colega de trabalho. Meu tradutor por um dia, colega de trabalho dela todos os outros. Muito justo, de facto. Continuo a pedir ajuda quando não percebo. Com os miúdos, que são literalmente <em>mais do que as mães</em>, também! Mas tento perceber quando não é fundamental. E, muitas vezes, não é. Sempre me disseram que falava com as mãos, que nas apresentações era melhor ter uma caneta porque era um fator de distração. Aqui é veículo de comunicação. E entre as mãos e o crioulo… bem, uma pitada de cada!</p><p>E quando pensamos que não somos compreendidos, esta é a terra das surpresas. Esta manhã fui até ao hospital dar uma espreitadela à menina de dois meses que tem uma bronquiolite (ela gosta mais de ser tratada por “princesa-sou-tão-gira-e-minúscula-que-me-falta-o-ar”). Chego e cumprimento a mãe, que só fala crioulo. Ou então não. Olha para mim e diz “Bom dia <em>Mária</em>”. Bate sobre o peito, polegares para cima e “Respirar, bem!”. Aponta para a cama, onde amontoou capulanas para a cabeceira estar elevada “Dorme <em>siempre</em> cima”. Sorri, aponta para o biberão e diz “Mama, mama, mama, bem!”. “Minha <em>Chocha</em>, bem”. Decorou as perguntas que faço com mais frequência e também as expressões que uso, vezes sem conta, enquanto lhe dou um medicamento, um biberão, um miminho… “Respira, minha <em>Chocha</em>”, “Mama, minha <em>Chocha</em>”, “Quem é a minha <em>Chocha</em>?”.</p><p>Um olhar, um gesto, uma mão, desbloqueiam a conversa que a língua teima em bloquear. Às vezes só precisamos de ser, um pouco mais, o outro. De viver onde estamos. De ceder às tentações.</p><p>(A algumas tentações… que tenho uma taça com abacate, lima e açúcar no frigorífico e a essa não resisto! Experimentem e vão ver!)</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=d95603342492" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/wannacome/se-eu-fosse-um-dia-o-teu-olhar-d95603342492">Se eu fosse um dia o teu olhar</a> was originally published in <a href="https://medium.com/wannacome">wannacome</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Esta vida de missionária]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria João Nuno Lopes]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 01 Apr 2017 14:50:21 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-04-01T14:50:20.791Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<blockquote>está a dar cabo de mim</blockquote><p>Nunca se enfiem num avião para irem fazer uma missão de voluntariado internacional. Nunca! Numa palavra: horrível. Com tanta coisinha para se fazer, tanto filme para ver, tanto centro comercial para passear… escolham outra coisa! E não há um sítio que se safe. Aliás, quem é que no seu perfeito juízo, decide deixar o conforto da sua casa e o troca por condições piores? Doidos varridos, esses tais de missionários. Não acreditam? Pois bem, hoje vamos falar sobre</p><h3><strong>5 razões para nunca partirem numa missão de voluntariado</strong></h3><h4>#1: Vão ser assaltados em cada esquina e, quiçá, poderá haver um rapto ou outro</h4><p>É um perigo. Mas nem imaginam. Só os veem a correr na vossa direcção, seja de dia, seja de noite, chegam ao pé de vocês e… é abraços e carinhos até mais não. As crianças aqui são assim. Assaltam todo o vosso stock de mimos, todos os dias. Bem ando de catana na mão, mas não adianta. Para pessoas com a cabeça no ar como eu, isto é o paraíso. Eu deixo canetas em todas as partes, latas de leite, o estetoscópio… e estes casmurros teimam em não me roubar nada. Devolvem tudo e no próprio dia. Para os amantes de notícias trágicas… não tenho nada para vos contar. Continuam todos os orgãos no sítio e nada de raptos…</p><h4>#2: Vão emagrecer pela certa porque lá não há comida</h4><p>Bem, vistas bem as coisas, isto até podia ser uma vantagem… Na missão passam muita “fominha”! É um horror. Em 2013, na Costa do Marfim, foi uma dor de alma. Entre a banana frita, o côco ralado, os amendoins e coisas que tais, a minha mãezinha nem me reconheceu no aeroporto. Pois é… engordei dois quilos. Diz que foi do ar. Mas desta vez é que é. Estou para aqui numa desnutrição que nem imaginam. Ele é gelado de côco, bolo de cenoura, abacate com sumo de limão e açúcar, polenta, gelado de caju… e calças que teimam em não fechar! Mãe, desta vez levo um cartaz com o meu nome, para não haver enganos.</p><h4>#3: É só bicharada <em>perigozíssima</em>, aliás parece o “<em>BBC Vida Selvagem”</em></h4><p>Tigres, leões, serpentes e tubarões… só vi no jardim zoológico. Vem uma pessoa para África à espera de um safari todos os dias e… nada! Em Bubaque disseram-nos para não irmos por um sítio por causa da “Baguera”. Eu, que vi Mogli quando era (ainda) mais pequena, pensei numa pantera, por lá numa árvore, prestes a comer-me um braço. Nada! Eram só meia dúzia de abelhas. Mas não há bichos nenhuns? Até há! Daqueles raros… tipo formigas, osgas e aranhas. <em>BBC Vida Selvagemzísssima</em>!</p><h4>#4: Vão apanhar muuuuuuuitas doenças e é tudo uma <em>badalhoquice</em></h4><p>Mal saio da cama de tanta maleita. Malária, febre tifoide, febre amarela. Já tive todas…as precauções para que nada disso chegue nem perto. E isto é fundamental. As vacinas devem ser tomadas, a profilaxia da Malária também, repelente na mochila e todos os medicamentos necessários se algo acontecer. Posto isto, é aproveitar… que de doenças não reza a lenda! Quanto à higiene, são banhos a toda a hora. Mas mais do que um por dia? Isso não faz mal à pele? Definitivamente. Basta sair de casa e são banhos de amor das crianças que por aqui passam, banhos de gratidão das pessoas de quem cuido, banhos de afectos das irmãs com quem vivo. Já nem sei onde enfiar tantos sentimentos e sensações. E a casa onde vivo? Ui… eu bem lhes digo que lavarem o chão duas vezes por dia desgasta os azulejos, mas estas missionárias são teimosas.</p><h4>#5: Não se faz por lá nada e correm o risco de falecer de pasmaceira</h4><p>É mesmo assim. Nunca há nada para fazer. As crianças não querem brincar com vocês. Os adultos detestam a vossa companhia e não querem saber absolutamente nada sobre a vossa vida. No hospital fogem de mim como o diabo da cruz e só ainda não me despediram porque não assinei nenhum contrato. Hoje, por exemplo, nem tivemos de lançar um aviso que era sábado e que, por isso, não trabalharia. Enfim… nada para fazer. Estou sempre de papo para o ar. E também não cumpro nenhuma das tarefas altamente <em>glamourosas</em> que tenho de fazer… isso não, que lavar roupa no tanque é coisa para partir uma unha e ajudar cá em casa pode-me fazer mal ao coração. Nada. Não faço nada.</p><p>Por tudo isto, e também por ser dia 1 de abril, não arranjem desculpas para saírem da vossa zona de conforto. “Ah mas eu tenho mesmo muita vontade de fazer uma missão de voluntariado!” Pois, come um geladinho que isso passa. A sério, vão por mim, não há coisinha pior que estar numa missão de voluntariado. Eu que o diga. Cada dia a sofrer mais do que o anterior. Chiça!</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=d3185e25fd27" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/wannacome/esta-vida-de-mission%C3%A1ria-d3185e25fd27">Esta vida de missionária</a> was originally published in <a href="https://medium.com/wannacome">wannacome</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Bate]]></title>
            <link>https://medium.com/wannacome/bate-551e29eab463?source=rss----29f8e136205---4</link>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria João Nuno Lopes]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 30 Mar 2017 18:08:14 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-03-30T18:26:25.446Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<blockquote>Lenta, lentamente</blockquote><p>Lembram-se quando fomos à praia, em Bubaque? Da viagem de canoa até Soga? Ou da caminhada por Empada? Bate lenta, lentamente o coração enquanto passeamos por aqui. E quando escrevo? Quando finjo que desenho umas coisas? Quando dou uma-coisa-tipo-aula-de-português com música? Bate lenta, lentamente o coração enquanto relaxamos por aqui. E quando converso com as irmãs? Quando me sento à mesa e as refeições estão prontas? Quando guardam o último pedacinho de gelado de côco para mim? Bate lenta, lentamente o coração enquanto somos mimados por aqui.</p><p>Mas não havendo chuva, não sendo da gente, quando é que o coração não bate assim? Na segunda-feira, entre as quase trinta crianças que observei de manhã, entre o crioulo que eu não falo e o português que os pais não entendem, entre os três enfermeiros que estavam na consulta e que queriam perceber todos os gestos, cálculos e decisões… o coração não bateu assim. A meio da tarde acelerou de novo quando “o menino queimado da branca” veio até à missão. Entre o banho, a adaptação do que faríamos em Portugal ao que a Guiné tem para oferecer e os 38ºC que se faziam sentir, não, definitivamente não bateu assim.</p><p>Na terça fui até à tabanca Gã Cumba a pé, com consultas, pesagens, e brincadeiras… vá, nada de exageros, bateu quase sempre assim.</p><p>E na quarta-feira, como foi? Bateu como quem chamava por ti? Não propriamente. Duas prematuras, com as contas todas certas. Uma com menos de dois meses e dois quilos, a outra com menos de um mês e um quilo. Uma decide respirar a mil à hora. A outra, para não ficar atrás, opta por não comer. Aqui amaldiçoei toda a poesia. Qual lento, qual carapuça. A mil à hora eu também. E sem fome, ora pois. E como é que nos safamos disto? Com uma pitada do que sabemos e outra do que sentimos. E depois pegamos no telemóvel: os conselhos vindos de Portugal controlam qualquer arritmia, que a neonatologia por lá é exímia!</p><p>E hoje é quinta. Tal como ontem, fico-me pelo Centro de Recuperação Nutricional. Recupero o batimento lento entre consultas, pesagens e afins. Eu e eles, “o menino queimado da branca” e as “juntas-pesamos-três-quilos-mais-outros-tantos-de-preocupações”.</p><p>Lembram-se quando fomos à praia, em Bubaque? E de todas as outras coisas que já fizemos? É isso. Bate lenta, lentamente o coração por aqui. Mas não bate sempre assim. E era justo partilhar também isso, porque nem só dos <em>lentamentes</em> se faz a missão. Ai, não era a missão, era vida. Nem só de<em> lentamentes</em> se faz a vida. E também, por aí, aposto, volta e meia a coisa acelera e depois volta ao seu lugar. É isso, a vida!</p><p>Ai, e há outro momento em que também bate como quem está desesperado para passar uma porta. E sim, já passou muito tempo e já devia ter controlado este batimento. Na hora do banho, quando a água fria me aguarda. E sim, os quase 40ºC deviam bastar para me deixar destes lamentos. Mas na verdade, continuo a dar por mim a contemplar a água à espera que aqueça. Mas ela,teimosa, é para mim sempre fria… como a neve, a da balada.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=551e29eab463" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/wannacome/bate-551e29eab463">Bate</a> was originally published in <a href="https://medium.com/wannacome">wannacome</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Muito mais é o que nos une]]></title>
            <link>https://medium.com/wannacome/muito-mais-%C3%A9-o-que-nos-une-bc5600ef06f2?source=rss----29f8e136205---4</link>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria João Nuno Lopes]]></dc:creator>
            <pubDate>Wed, 29 Mar 2017 18:35:36 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-03-29T18:53:51.435Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<blockquote>Que aquilo que nos separa</blockquote><p>(Antes de iniciar a leitura deste texto, por favor coloquem a música “Primeiro Beijo” do Rui Veloso a tocar. Está a tocar? Não vale aldrabices!)</p><p>O final da tarde poderia muito bem ser o meu período do dia preferido. A temperatura desce, o silêncio sobe. Mas não o é porque aparecem esses bichos que começam com MO e terminam em -quitos ou -cegos. Não sou fã. Ainda não sendo o preferido, é o que elejo para passear. É aquele em que consigo vencer o outro bicho começado por MO, que chega no pico do calor, e termina em -leza. Vá, chega de zoologia por hoje. Vamos passear? Aqui o castanho conhece todas as suas tonalidades. Das pessoas, às casas de lama, ao pó do caminho. Os nossos pés são já camaleões por aqui. E eu que disse que chegava de zoologia.“Branco, branco, branco”. Normalmente são as crianças que se dirigem a nós desta forma. Ou porque a cor é rara ou porque têm essa fobia altamente prevalente por estas bandas que é o “medo de branco”!</p><p>Não são crianças. Desta feita, são um grupo de jovens. Convidam-nos a sentar. Sento-me no chão, para deixar a cadeira para um deles. Levo um raspanete porque em Portugal não me sento no chão. A cadeira, seja! Já sabem quem sou, até o meu nome. Falamos sobre a minha idade, sobre os filhos que ainda não tenho, sobre o casamento que eles acham que já vai tarde. Falamos sobre o amor. Falamos das diferenças entre Portugal e a Guiné. É preciso falar. Mas é preciso moderar o que se partilha. Não temos que mentir, mas diferenças podem ser flechas certeiras. Vamos com calma. Chega um homem mais velho. Participa na conversa. Faz muitas perguntas. Não estão contentes. Querem mais. O último a chegar apresenta-se como o diretor do liceu. Quer que dê umas aulas à turma que aprende português. Que fale sobre métodos contraceptivos. Acham que sim? Aceito o desafio? Vamos a isto!!!</p><p>Uns dias depois chega a “aula”. Se a aula é de português, vamos deixar os ditos métodos para depois. Aliás vamos usar é um outro método. A música. Pergunto-lhes que artistas portugueses conhecem. Vacilam. Respondem Anselmo Ralph. Não tenho nada contra mas a facada no coração é inevitável. Não tenho o “artista português” que conhecem na minha playlist. Proponho Rui Veloso. Escolho o “Primeiro Beijo” (que espero que estejam a ouvir, nada de batota!) por ser lenta. Peço-lhes que recolham dez palavras. A seguir interpretamos cada verso. E depois cantamos. E aí fico desarmada. Finjo que me entrou uma coisa para o olho. Mas só entrou no coração. Ouvi-los cantar Rui Veloso, com os seus sotaques que o crioulo e os dialectos impõem, não teve preço. E, naquele momento, independentemente dos filhos que não tenho, do casamento que já vai tarde, muito mais é o que nos une, do que aquilo que nos separa. É a linguagem universal da música, do amor. Universal mas em português!</p><p>(Ouvimos outras músicas. Falamos de contracepção. Porque agora já podemos, estamos unidos, já faz sentido. Repetimos a aula no dia seguinte. Aquele foi o meu momento de eleição. Eles elegem os DAMA. Seja! Cantam no meu português!)</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=bc5600ef06f2" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/wannacome/muito-mais-%C3%A9-o-que-nos-une-bc5600ef06f2">Muito mais é o que nos une</a> was originally published in <a href="https://medium.com/wannacome">wannacome</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Abre a tua porta,]]></title>
            <link>https://medium.com/wannacome/abre-a-tua-porta-fc4cf0619be4?source=rss----29f8e136205---4</link>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria João Nuno Lopes]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 28 Mar 2017 19:12:03 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-03-28T19:30:31.789Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<blockquote>…Tens um mundo inteiro à espera para entrar</blockquote><h4>Etiópia 39–26 Portugal</h4><p>Sei que os vossos pés já se habituaram a andar livres, que já só gostam, qual Lisboa, varina, da chinela no pé. Mas hoje é dia de caminhada, de meias, de sapatilhas. Já dei o laço final nos atacadores, ela também, e vocês? Vá… vamos andando, apanhem-nos no caminho. Saímos de casa, cumprimentamos A, B e C. E paramos mais um bocadinho, que o alfabeto na Guiné parece ter mais letras. Agora estamos só as duas. Aproximem-se, mas não de mais. Conseguem ver os cajueiros? Pintalgados de amarelo e vermelho? Conseguem sentir o cheiro ácido do fruto maduro? Apreciem. Nós vamos continuar. Conversamos. Conversamos muito. Está quente e nem a sombra parece ajudar. O destino é a praia. Aguentam mais quarenta minutos? Podem ir parando pelo caminho. Mas nós não vamos parar. Acabámos de descobrir um mundo de semelhanças, o assunto não termina. Conversamos. Conversamos muito.Chegamos finalmente à praia. Avistamos o que resta do Porto de Empada, erguido no tempo da Guerra Colonial. A maré está baixa. Tentamos alcançar o mar mas ficamos enterradas na lama a cada passo. E rimos muito. Troçamos uma da outra. Decidimos regressar. Fizemos quarenta e poucos minutos de caminho porque queríamos tomar um banho no mar. E nesses mesmos minutos trocámos essa vontade pela vontade de estarmos juntas.</p><p>O caminho de regresso é o mesmo, caminhamos ao mesmo ritmo, mas parece infinitamente mais curto e rápido. Sei que, para vocês que nos observam, parecemos duas amigas de sempre… não tivesse este sempre menos de meia dúzia de dias de duração. Afastem-se agora. Segredamos, segredamos muito. Olhamos para os nossos pés e rimos. Rimos muito da lama que carregam, como duas adolescentes que vão levar um raspanete quando chegarem a casa.</p><p>Ela, a irmã Desalech, etíope, de 39 anos. Caminhamos sobre a idade e a nacionalidade. Ela joga em casa e vence. Bastou uma partida para me conquistar.</p><h4>Brasil 74–26 Portugal</h4><p>Uma colher de café, uma colher de açúcar, uma colher de água a ferver. E agora é só mexer vezes sem conta, até que o castanho do café dá lugar a um tom caramelo. Mais água. Dissolvemos tudo. O café, a idade, a nacionalidade. E conversamos, conversamos muito. Elevo o tom, para que os seus 74 anos me oiçam em pleno. Os mesmos 74 anos que fazem com a sua família lhe implore que não regresse a Empada, cada vez que vai de férias. Mas este é o seu caminho. Não há como não voltar. E aproximamos os lábios da chávena de novo. Explico como os portugueses gostam de café, que aprendi a fazê-lo assim em casa da minha avó. Pede que lhe fale das minhas avós. E eu falo. Falo muito. Entretanto diz-me que tem uma dor no ombro, uma clavícula fraturada há muitos anos e que não consolidou corretamente. Já fez tudo, já tomou tudo. Racionalizo a utopia da melhoria desta dor. Mas o coração também manda. E todas as noites tentamos qualquer coisa. Uma massagem, uma toalha que a água quente molhou… E todas as manhãs ela me mente. Diz que está um bocadinho melhor. E eu todas as manhãs gosto que ela minta. E volta e meia, vai-me dizendo como os melhores perfumes estão em frascos pequenos.</p><p>Ela, a irmã Inocência, brasileira, de 74 anos. Ela joga em casa e vence. Bastou uma partida para me conquistar.</p><p>É preciso ir a jogo. Não é só na missão… na vida. Aqui sou é mais vezes convocada. Porque jogo melhor? Não. Porque me disponibilizo, com muito mais facilidade, a não ficar no banco. A vida transborda pessoas que vale a pena conhecer, a quem devemos escancarar a porta para que possam entrar. Por vezes, basta uma, que afinal não valia assim tanto a pena ou que nos magoa, para nos fazer pensar o contrário. Fechamos a porta, compramos uma fechadura ainda mais forte, damos muitas voltas à chave. Podemos demorar mais ou menos tempo a abrir as trancas. Mas devemos abrir. Elas continuam ali. Elas, as pessoas que vale a pena termos na nossa vida.</p><p>Vamos a jogo?</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=fc4cf0619be4" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/wannacome/abre-a-tua-porta-fc4cf0619be4">Abre a tua porta,</a> was originally published in <a href="https://medium.com/wannacome">wannacome</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Desamor]]></title>
            <link>https://medium.com/wannacome/desamor-7885d654416a?source=rss----29f8e136205---4</link>
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            <dc:creator><![CDATA[Maria João Nuno Lopes]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 27 Mar 2017 17:59:13 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-03-27T21:01:36.423Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<blockquote>à primeira vista</blockquote><p>É escuro. As paredes são verdes, escuras. O chão tem pó, escuro. O hospital é assim, escuro. E num ápice, essa escuridão invade-nos e tudo nos parece escuro. E, a cada minuto que passa, mais e mais escuro. Nem só de momentos bons, de palmas e de sorrisos vive a missão. Há momentos assim, escuros. E nesses momentos é imperativo parar. É imperativo sair porta fora, respirar fundo, soltar um grito, enfim… descontaminar!</p><p>Na primeira manhã, no hospital, a descontaminação não pegava. Ali só há enfermeiros, maioritariamente estagiários, com alguns meses de prática, outros nem isso. Nas primeiras consultas, depois de perceber que preferia não perceber muito do que ali se fazia, estava prestes a lançar a bata ao chão. Dava por vencida a batalha e já nem queria saber da guerra. Mas todos os túneis têm a sua luz, independentemente da sua extensão. Todos têm. Ás vezes, só para picar, está no estagiário com alguns meses de prática. O que parece não querer, não ver, não aprender, não perceber. Mas só parece. Quando achava que estava a falar comigo mesma, ele mostrou-me que esteve sempre ali. Que quis, que viu, que aprendeu, que percebeu a maior parte. Que o papel ao lado dele, onde eu pensava que ele rabiscava, consumindo tempo, eram afinal apontamentos das dúvidas para me colocar. Eu ia desistir, mas ele não. A luva pode não ser branca, mas a chapada soube que nem ginjas.</p><p>Hoje regressei ao hospital. As paredes são só verdes e o chão tem só pó. E, neste hospital, esperava-me uma mão cheia dos maioritariamente estagiários. Só conhecia um, a luz. Querem ter aulas porque não podem estar todos na consulta. Uma mão cheia. Todos de luvas, as tais que podem não ser brancas, calçadas. Todos os túneis têm a sua luz, independentemente da sua extensão. Todos têm. Ás vezes, só para picar esta médica com um vastíssimo par de anos de experiência e a fazer voltar à batalha. Podemos não vencer a guerra, mas nada de batas no chão.</p><p>Felizmente há quem dê sempre o corpo às balas. Conheci-a no quarto ano da faculdade. Falou-me da dignidade, da humildade, da humanidade na medicina. E eu nunca esqueci. E voltei a estar com ela anos mais tarde. E também hoje. Eu em Empada, ela em Lisboa, a ajudar-me a tratar um menino queimado. Não temos nada do que conhecemos mas estamos munidas de criatividade e de vontade de o cuidar. E se partilhar esta experiência servir de pouco, que tenha servido para a ter comigo aqui, doutora Margarida. Obrigado!</p><p>Vamos manter a luz acessa.</p><p>Boa semana para todos!</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=7885d654416a" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/wannacome/desamor-7885d654416a">Desamor</a> was originally published in <a href="https://medium.com/wannacome">wannacome</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Quem vem]]></title>
            <link>https://medium.com/wannacome/quem-vem-c8d1a7971dbe?source=rss----29f8e136205---4</link>
            <guid isPermaLink="false">https://medium.com/p/c8d1a7971dbe</guid>
            <dc:creator><![CDATA[Maria João Nuno Lopes]]></dc:creator>
            <pubDate>Sun, 26 Mar 2017 09:13:50 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-03-26T09:13:49.829Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<blockquote>e atravessa Empada</blockquote><p>Vamos brincar ao faz de conta? Faz de conta que sempre tivemos internet. Faz de conta que, na quinta-feira, se levantaram connosco. Viajámos quatro horas num autocarro apinhado de gente, de cheiros, de calor. Aqui um lugar num autocarro é um pormenor. Enquanto há espaço no corredor, cabem todos. Mais uma hora e picos numa carrinha, buraco sim, buraco não. E chegámos a Empada.</p><p>Agora que estamos prontos, que estamos todos em Empada, vamos a isto! Temos de vos levar ao hospital, de vos falar desta terra e de quem cá vive. Vamos conversar sobre o calor, o centro nutricional, as escolas e os sonhos. Havemos de falar sobre tudo isto, quando a internet permitir. Mas não era justo centrar este post em nós ou no que já vimos. Este post é delas. Tem de ser delas.</p><p>Não há estátuas. Não há nenhuma rua com o nome de nenhuma delas. Não há, eu vi bem. Mas acredito que qualquer branco que entre em Empada nunca sairá sem saber quem elas são. Não. É mais do que uma crença. É uma certeza. E para que queria eu estátuas? E que tontaria esta do nome da rua! Para quê qualquer uma destas coisas? Elas têm muito mais. Elas conquistaram estas pessoas. Elas são destas pessoas. Elas são de Empada. Sim… qualquer branco que ouse dar um passo nestas terras vai ouvir mil vezes a pergunta: “E Tânia? E Maura? Conheces?”.</p><p>A Tânia e a Maura viveram em Empada durante um ano. Conheci-as pouco tempo antes de partir. Falaram humildemente do que fizeram, partilharam as saudades destas gentes e o quanto a experiência as marcou. Esqueceram-se de me dizer que gravaram o nome delas no coração de todas estas pessoas.</p><p>“Sabes, elas ensinaram-me a usar o computador”. E este é o início de uma longa conversa sobre tudo o que elas fizeram por aquele rapaz. Há também uma senhora, cujo nome esqueci. Mas ela não esqueceu “gostava de estar com elas, conversávamos…”. Cruzo mais uma esquina. Perguntam-me o nome, o que estou ali a fazer e… “diz-lhes obrigado outra vez. Elas deram aulas, sabes? Sobre comunicação e outras coisas. Elas trouxeram material. Elas…”. Elas. Elas estão aqui, em cada esquina. Estou aqui há um par de dias e elas estão aqui sempre.</p><p>Muitas vezes o impacto dos missionários é questionado. Porque estão transitoriamente num local. Porque oferecem coisas. Ou porque não oferecem. Porque tiram fotografias. Porque respiram. Sei lá. E depois existem elas. Elas, que podem ter vivido aqui um ano fisicamente mas que continuam cá, em cada conversa, em cada virar de esquina, em cada pessoa que conheço. E este é o impacto que, claro, pode ser questionado mas que é comprovado no terreno. E é o impacto dos afetos, do amor. Obrigado miúdas por terem sido e serem de Empada!</p><p>Um bom domingo para todos!</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=c8d1a7971dbe" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/wannacome/quem-vem-c8d1a7971dbe">Quem vem</a> was originally published in <a href="https://medium.com/wannacome">wannacome</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
    </channel>
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