Leituras para o fim do mundo

[Experiências de leitura #8]

Não sou nenhuma usuária hard de redes sociais, mas tem dias que simplesmente me sinto ridícula e minúscula enquanto observo a quantidade de atrocidades que aparecem nas notícias do meu feed. São calamidades imensas contra as quais me sinto completamente impotente. Nessas horas, parece constrangedoramente inadequado compartilhar um texto sobre como a reciclagem é pouco eficiente em mudar as coisas porque nos exime da responsabilidade de modificarmos nossos hábitos enquanto, com uma canetada longe de mim, se autoriza que uma área de floresta do tamanho da Dinamarca seja destruída para se transformar em dinheiro barato.

Tudo o que tenho me obrigado a fazer nesses momentos é fechar as redes, respirar e exigir de mim mesma um pouco de presença. É como se, por um momento, eu precisasse voltar a encontrar a minha escala, as coisas do meu tamanho, pra só depois voltar a lidar com o mundo. Preciso ter um pouco mais de cuidado comigo, com o meu estado emocional naquele instante, prestando atenção em como me sinto e como reajo com as coisas a minha volta.

Faço isso um pouco por instinto, mas fui surpreendida ao ler que ir com calma e não se deixar dominar pelo pânico é também o que a filósofa Isabelle Stengers no livro No tempo das catástrofes — resistir à barbárie que se aproxima (lançado em 2017 pela Editora Ubu) nos convida a fazer neste momento.

Lendo o livro, fui capaz de compreender que uma das coisas que mais me deixam neste estado de medo é quando percebo que enquanto me sinto completamente alarmada pelos rumos do mundo, outros parecem apenas ter um tipo de pânico tácito, não-declarado. Ele é visível na fala das autoridades — que a autora chama com ironia de "nossos responsáveis", assim, entre aspas — na quantidade de mensagens contraditórias que eles fazem circular: "consumam, o crescimento depende disso" mas "pensem em sua pegada ecológica"; "saibam que nosso modo de vida vai ter que mudar" e também "não se esqueçam de que estamos numa competição e nossa prosperidade depende dela". São falas de quem espera o milagre, venha ele dos céus ou da religião da ciência e tecnologia. Porém, parece tarde demais para continuar esperando esta redenção em vez de partir pra ação.

As mudanças causadas por um progresso, que é sinônimo apenas de crescimento econômico, estão aí, como nos lembram os furacões, o derretimento das geleiras, os desastres ambientais de toda espécie. Não é o caso de discutir o que poderá vir a acontecer caso venha o aquecimento global e a depredação do planeta, ou de como evitar ou reverter o problema, mas de saber que já está acontecendo e já estamos lidando com suas consequências. Stengers faz questão de mostrar que não estou sozinha na minha angústia e que essa angústia definitivamente não é um devaneio. Sejamos nós alguém que se sente em suspenso, entre a certeza de que é preciso fazer alguma coisa e a paralisia frente ao tamanho da tarefa, e os que já estão de algum modo fazendo, esse livro foi escrito pra gente — ela deixa claro.

A pergunta que norteia No tempo das catástrofes não é sobre o que fazer para evitar a catástrofe, mas como sobreviveremos ao fim do mundo? Como sobreviver a isso mesmo que já estamos vivendo e não ao que podemos vir a viver? Como sobreviver às mudanças climáticas e suas consequências, a superexploração da natureza como recurso, ao declínio dos combustíveis fósseis e todo tipo de guerra e atrocidades feito para se conseguir energia? Como sobreviver ao aumento das desigualdades, a opressão, aos regimes de trabalho pensados como se fossemos máquinas? Como sobreviver ao monopólio biológico dos transgênicos, que extinguem formas de vida vegetal e põe em risco toda a biodiversidade? Como sobreviver à contaminação por plástico em mares, rios, lençóis freáticos afetando toda a cadeia da vida tornando o planeta completamente insalubre?

O grande conselho da autora é de que é preciso cuidado e um cultivo da atenção para não entrar em uma espiral de pânico embrutecedora. Devemos lutar contra o pânico porque ele é justamente o caminho para a barbárie.

Na edição #58 da newsletter Ócio Compulsivo, Thomaz Amancio faz uma leitura muito cuidadosa desse livro. Não entrar em pânico significa desenvolver a arte do cuidado e aprender a viver nesse novo mundo cuja ameaça ambiental jamais poderá ser remediada, considerando-se que nossa vida tem uma limitação temporal pequena. Esse aprendizado significa abrir mão de acreditar no discurso de espera do milagre (especialmente os da ciência), pois eles também são parte do problema: A questão é que, no seio de nossas sociedades, permanece uma crença inabalável no “desenvolvimento” como ferramenta capaz de responder à realidade das mudanças climáticas, e portanto no capitalismo como única alternativa. Alguns esperam que o avanço tecnológico nos livrará dos combustíveis fósseis. Outros, como Stephen Hawking ou Elon Musk, querem colonizar outros planetas. Obviamente, essa última solução deixa muitas perguntas no ar (quantos de nós iriam? quais de nós?), despreza por completo o “restante” da vida no planeta, e ainda planeja “exportar” para outros mundos a catástrofe do nosso.

No caso dos combustíveis, por exemplo, mesmo que apareçam outras fontes, nenhuma delas parece ser capaz de dar conta da demanda infinita que o crescimento econômico exige. Também nunca entram na conta os materiais necessários para se produzir placas solares ou torres eólicas na escala necessária para serem supostamente sustentáveis — e no entanto esses materiais são raros, limitados, finitos, ao contrário da nossa demanda. Por isso, não é possível ser conivente com esse sistema que nos levou a esse ponto de autodestruição, e nem é possível se deixar levar pelo mantra do deus-mercado que diz "não tem jeito, é preciso", não por acaso tão parecido com o imperativo do "não pense, trabalhe" de alguns governos.

Que outro mundo é possível ninguém sabe ainda, mas não se levar pelo pânico e evitar a resposta da barbárie certamente envolverá tentativas de criação.

É aqui que fica claro pra gente como ir com calma também não significa não fazer nada: é preciso criar uma vida "depois do crescimento econômico", uma vida que explora conexões com novas potências de agir, sentir, imaginar e pensar, Stengers nos diz. São tentativas, sem dúvida nenhuma, cheias de dificuldades, mas cuja desistência seriam o mesmo que decretar nosso suicídio.

Criar outros modos de viver, ao contrário do que as vezes pode parecer, não é se deixar guiar pela culpa com sua pegada ecológica, mas acima de tudo, recusar o papel de consumidores que continuamente querem que a gente assuma. Se limitar a ser consumidor é limitar a vida ao sistema econômico e nós somos muito mais do que isso. Parece indispensável fazer tentativas de sair da lógica competitiva que domina tudo o que vivemos hoje e tentar inventar novas formas da gente produzir e cooperar que não signifiquem apenas dinheiro.

A tarefa parece imensa e é nessas horas que eu acabo me sentindo tomada pelo medo de que tudo o que posso fazer vai ser insignificante. Esperamos sempre que nossas contribuições sejam gigantescas demais porque nos acostumamos com essa escala planetária. Mas ela não é real: as coisas grandes são formadas por partículas minúsculas. Cada pequena coisa que conseguimos fazer no sentido desse agir com cuidado e transformar nossas pequenas ações cotidianas tem sua relevância.

É preciso também continuamente colocar tudo isso em uma caixa de ressonância e falar sobre isso, a partir dos meios e das habilidades que cada um tem. A esperança é que possamos (re)descobrir juntos dimensões da vida que ficaram soterradas nesse conceito torto de progresso: a reconexão com a terra, a existência dos ciclos, a convivência com seres não-humanos, o valor do cuidado, a potência do não agir.

Isso não significa que seremos bem-sucedidos na missão de reverter o quadro de catástrofes que já estamos experimentando, mas precisamos continuar a construir outras narrativas e experimentar outras possibilidades pra tentar reverter ao menos a barbárie que se desenha como o mais triste e possível cenário.

Apesar desse panorama tão problemático com o qual estamos vivendo, me surpreendi em perceber que o tom final da autora não é derrotista e eu me senti muito contaminada pela visão dela. Um sentimento positivo também me invade quando, no meio do desespero, eu paro, respiro e decido ir com mais cuidado e insistir nas ideias que tenho botado em prática. A mudança, nos fala Isabelle Stengers, longe de se parecer com uma visão triste de que temos só que abrir mão das coisas interessantes que existem, se parece mais com a imagem da alegria. Alegria, sim, pois a mudança significa um aumento da nossa potência de imaginar, criar e agir. Ter a coragem de admitir que existe alegria na criação desse novo mundo é uma das maiores afrontas que podemos pacificamente realizar. Esse sentimento tem a ver com se chegar a um saber, mas não a um saber teórico: é aquele saber que se adquire quando produzimos descobertas. É aquele ah!, é isso que se abre como possibilidade de experiência e que corresponde ao que gente chama de vida.


Três leituras para imaginar um mundo novo (e um bônus)

O fim do mundo não pressupõe que o mundo em si acabe, mas que o mundo que conhecemos chegue ao fim. No entanto, quando tudo desmorona são abertas possibilidades de criarmos novas histórias. Algumas dessas histórias já estão sendo imaginadas, escritas, ensaiadas e aqui compartilho algumas iniciativas feitas por mulheres dessas novas narrativas (que tal compartilhar suas tentativas nos comentários?):

Ainda restará arte (Aline Valek — Bobagens Imperdíveis #114) — Nesta edição da sua newsletter, Aline conta um pouco do livro Estação Onze, ficção escrita pela canadense Emily St. John Mendel sobre um mundo pós-apocalíptico arrasado por uma pandemia. Diferentemente de muitas histórias com esse tipo de temática, a narrativa não fica centrada nas coisas que costumamos achar indispensáveis para a sobrevivência dos que ficaram. As personagens do livro se cercam continuamente de trabalhos artísticos frente a esse terrível cenário. Quando o mundo acaba, a arte ainda é um pilar de sustentação e de conexão com o que de mais humano que existe em nós: Precisamos da arte — e precisamos de quem se dedique a criá-la — especialmente em momentos de ruptura. Quando as coisas parecem perder o rumo. Quando as pessoas atingem níveis preocupantes de embrutecimento.

Come-se (Neide Rigo) — A Neide escreve no Come-se há mais de 10 anos e o blog é uma referência. Ela fala sobre PANCs no espaço urbano fomentando uma outra relação que não é a velha oposição cidade X campo; fala sobre voltar a conhecer e valorizar ingredientes locais, saborosos, versáteis, que ficaram soterrados na uniformização alimentar que interessa apenas ao agronegócio e ao capital; dá receitas e nos incentiva a voltar a preparar nossa própria comida, deixando de lado o que nos oferece a indústria alimentícia. Comida é das coisas que mais nos dizem sobre cuidado, uma ideia tão desvalorizada no mundo produtivista em que a gente vive. Eu sou suspeita, pois também mantenho um blog sobre o assunto, mas dividir afetos a partir das refeições sempre me soa como um dos passos mais fundamentais pra gente resistir à barbárie.

[BÔNUS] Lowtech Magazine (Kris de Decker)— Geralmente neste espaço indico apenas mulheres como ação afirmativa, mas se me permitem, vou indicar este site como um bônus (pra essa tarefa de lidar com a barbárie vamos precisar de muitas ideias). Kris de Decker se recusa a acreditar que todo problema tem uma solução tecnológica e, por isso, fala do potencial de ideias e conhecimentos do passado: muros simples para a produção de jardins urbanos já utilizados no séc XIV, aquecimento de casas no sistema de hipocausto dos antigos romanos, um carro movido à fermentação natural da madeira, entre outros. Lowtech Magazine é deliciosamente provocativa, cheia de boas ideias e tem um levantamento de dados cuidadoso (em inglês, espanhol e holandês).