Hoje é o último dia da maior aventura da minha vida

É isso. Chegou o dia.

Estou voltando para casa.

Por tanto tempo tentei adivinhar como eu me sentiria quando chegasse esse momento e agora estou aqui.

Antes pensei que estaria muito triste com o fim da minha volta ao mundo. Também disse muitas vezes que se pudesse viajaria por mais alguns meses. E eu acho que sim, viajaria, embora já não tenha tanta convicção de que isso faria alguma diferença a esse ponto.

Eu tenho essa mania esquisita de ficar feliz quando as coisas acabam, sabe? Já falei sobre isso em outro texto, então não vou me explicar de novo.

Agora que acabou fica mais fácil olhar para trás e ver essa viagem como um todo. Início, meio e fim. E rebobinando os últimos meses só consigo pensar: “cara, que aventura!”.

Que aventura.

Eu dei uma volta completa no planeta terra!

Alguns meses atrás eu peguei um avião que ia nessa mesma direção. Parti em direção ao leste e estou voltando em direção ao leste. Um círculo. Uma volta. Terraplanistas, me perdoem: A terra é mesmo redonda.

Há pouco eu me levantei, fui até o banheiro do avião, me olhei no espelho e me perguntei, olhando nos meus próprios olhos: “o que mudou?”.

Acho que nada mudou. Eu ainda sou o mesmo. No fundo eu queria me iludir com a fantasia de estar voltando com outra personalidade, outra visão de mundo, outra perspectiva, mas não consigo apontar o que mudou — ou sequer se algo mudou at all.

Nada além de um cabelo incontrolavelmente grande, uma barba descuidada, uma marca de camiseta que me acompanha desde a Califórnia e algumas coisas a menos. Pff. Muitas coisas a menos.

Só toalhas, perdi três. Minha caneta nanquim explodiu dentro da mochila no primeiro voo, não chegou nem até o Peru. Minha saboneteira, por outro lado, chegou lá e por lá ficou. Meus óculos caíram em um precipício na Austrália. Meu celular, minha carteira e meu passaporte se foram em um assalto na África. Perdi todos os carimbos. Perdi dinheiro. Perdi tempo. Perdi trens.

Eu já nem lembro mais tudo o que perdi. E o que eu esqueci talvez não faça mesmo tanta falta.

Eu gostaria de dizer que perdi o medo, mas eu acho que esse nunca se vai por completo (mas com certeza ganhei uma boa dose de coragem). Meus defeitos também seguem todos aqui, firmes e fortes.

Porém eu me sinto orgulhoso. Imensamente orgulhoso. Feliz por ter ido até o fim. Feliz por ter feito isso. Feliz por ter vivido o que vivi. Feliz pelas histórias que poderei contar pelo resto da vida. Feliz por feito isso sozinho.

Embora, veja bem, eu nunca tenha estado sozinho de verdade. Tantas vezes eu precisei de ajuda e tantas vezes a ajuda veio. Através de velhos amigos, de meros desconhecidos, de Deus, do destino, da sorte, do acaso, do Thiago, da Bianca e principalmente dos meus pais. Eu estava sozinho no mundo, mas sempre tive ajuda de todos os lados.

As tantas coisas que perdi, por outro lado, nunca me fizeram menos sozinho. Coisas nunca foram nada além de peso na minha mochila. E coisas… se vão.

Para o que ficou, agora eu volto.

O que eu não imaginava é que fosse sentir esse misto de alívio e felicidade por estar de volta. Não sei como esse sentimento irá se manter quando eu estiver outra vez na rotina. Mas agora é sim, um pouco aliviante.

É um alívio não ter que me preocupar sobre onde dormir na semana que vem. Não precisar planejar como ir de ponto A ao ponto B. Não ter que me preocupar com deslocamentos. Não ter que me preocupar com o câmbio. Não ter mais que anotar todos os meus gastos. Não ter que planejar os próximos passos. Não ter que ficar sempre alerta. Não trancar todas minhas coisas. Não fazer e desfazer a mala. Não me esforçar pra me comunicar.

Porém se tem algo do que eu já sei que sentirei falta, é dos aviões e dos aeroportos. Quem diria que eu ia me sentir tão bem dentro deles? Um lugar de segurança, felicidade e conforto. Criei carinho por um não-lugar. Espaços que foram ao mesmo tempo o respiro e o auge da viagem. A epítome e o intervalo.

A partir de agora ficarei longe de aviões por um tempo. E trens. E barcos.

A partir de agora o que restará são alguns flashes. Quase fotografias.

Como tirar o colete salva-vidas em alto mar e mergulhar até os corais na Tailândia para resgatar o snorkel que deixei cair. A duvidosa roda gigante em alta velocidade daquele parque de diversões em Nova Déli. Andar de bicicleta pela praia de Santa Mônica desviando das pessoas no caminho. Me sentir paradoxalmente em casa pelas ruas exóticas de Hong Kong. As longas horas de trilhas para chegar no topo das montanhas mo Peru. Invadir a piscina de um hotel cinco estrelas com outros mochileiros na Malásia. Ir à praia na Austrália. O jardim botânico de Cingapura com suas árvores artificiais. Machu Picchu. Muralha da China. Taj Mahal. O Sydney Opera House. As ruazinhas de Cartagena. A Golden Gate Bridge. A Table Mountain. Hollywood. Até aquela noite dormindo no chão do aeroporto no México.

Esse parágrafo anterior é só um cisco. Um nada que sobe à superfície da memória que tenta encontrar destaques. Mera ilusão São apenas grãos de uma enorme duna. Seria impossível enumerar os momentos pivotantes dessa experiência indescritível.

Eu não sei mais escrever porque de repente as palavras se tornaram pequenas demais.

O que não é pequeno diante desse mundo enorme?

E pensar que coloquei meus pés em quatro continentes. Três oceanos. Dez países. Vinte e uma cidades. Uma atrás da outra, sem parar, por praticamente seis meses.

Cartagena, Medellín, Lima, Cusco, Huaraz, Los Angeles, Las Vegas, São Francisco, Pequim, Macau, Sydney, Brisbane, Cingapura, Kuala Lumpur, Phuket, Jaipur, Agra, Nova Déli, Cidade do Cabo, Joanesburgo. Para mim nenhuma dessas cidades voltará a ser apenas um nome. São histórias.

A sensação de voltar é um misto ainda muito confuso de sentimentos, mas acho que o que mais sinto é a sensação de dever cumprido. A certeza de um sonho realizado.

Pois sim, eu realizei um sonho.

E no fundo da minha cabeça, só tem uma música tocando sem parar. A música do filme La La Land que eu ouvi várias e várias vezes durante a viagem e que resume tudo muito bem. The Fools Who Dream.

A tradução da letra é mais ou menos assim:

“Minha tia costumava morar em Paris. Lembro que ela costumava chegar em casa e nos contar histórias sobre morar no exterior e lembro que ela nos disse que uma vez pulou no rio. Descalça, ela sorriu, saltou sem olhar e caiu dentro do Sena! A água estava congelante, ela passou um mês espirrando, mas disse que faria tudo outra vez. Essa música é para aqueles que sonham, por mais tolos que pareçam. Essa é para os corações que sofrem. Essa é para a bagunça que a gente faz. (…) Ela me disse que um pouco de loucura é a chave para nos fazer ver novas cores. Quem sabe onde isso vai nos levar? E é por isso que eles precisam de nós. Então traga os rebeldes, as ondas das pedras, os pintores, poetas e peças de teatro. Essa aqui é para os tolos que sonham, por mais loucos que pareçam. Essa aqui é para os corações que quebram. Essa aqui é para a bagunça que a gente faz. Então eu volto para aquele momento. Ela,a neve e o Sena. E enquanto sorria, ela dizia, que faria tudo outra vez.

E eu também.


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