Lookout Records: a cena catalogada

Um papo com Christopher Appelgren, ex-dono da gravadora que lançou o Green Day e foi fundamental para o punk da East Bay

Por Rodrigo Alves

No início dos anos 90, o Green Day começava a ganhar popularidade e vivia o dilema de assinar ou não com uma grande gravadora. Um belo dia, no meio de uma turnê com o Bad Religion, toca o telefone do vocalista Billie Joe Armstrong. Era Christopher Appelgren, jovem funcionário da Lookout Records, preocupado com a possibilidade de a banda tentar um passo maior que a perna e ser mastigada e cuspida de volta para o anonimato. Billie Joe riu e falou com a mais absoluta certeza:

“Nós acreditamos que isso vai funcionar”

Quase três décadas depois, a Lookout não existe mais, e o Green Day segue lotando estádios mundo afora. Durante um longo papo num café em São Francisco, é a vez de Christopher rir ao relembrar a história:

Ele estava certo…

O vídeo acima reúne trechos da entrevista em que Appelgren recorda a explosão do Green Day, os perrengues com o Screeching Weasel, a coragem para lançar o Pansy Division (banda punk abertamente gay) e a cena da East Bay como foco de resistência política — até hoje, em tempos de Trump.

Christopher Appelgren durante a entrevista em um café em São Francisco

Appelgren começou a trabalhar na Lookout ainda adolescente. Passou a fazer também a arte de vários discos, incluindo a capa icônica do “Kerplunk”, do Green Day. Virou dono e presidente em 1997, quando o fundador Larry Livermore decidiu pular do barco. Em 2005, a gravadora perdeu os direitos dos discos de bandas como Green Day e Operation Ivy, mas o selo continuou funcionando até 2012, quando finalmente fechou as portas — o prédio onde era o escritório/loja em Berkeley é ocupado hoje por uma pizzaria Domino’s e outros estabelecimentos comerciais.

Foi legal mostrar para o Chris as cartas que ele próprio me enviou há mais de 20 anos, quando eu comprava CDs da Lookout pelo correio mandando dólares escondidos no envelope — e o disco às vezes levava dois meses para chegar.

A seguir você confere a íntegra do papo, incluindo vários outros temas, como o evento comemorativo dos 30 anos da gravadora no 924 Gilman Street, as bandas dos primórdios, as coletâneas fundamentais, a saída do Rancid, a relação com outros selos e os arrependimentos na condução da empresa.

- Em janeiro de 2017, rolou o evento The Lookouting, comemorando três décadas da Lookout e do 924 Gilman, em Berkeley. O quanto foi especial para você ver todas aquelas bandas juntas novamente?
- O Lookouting foi uma surpresa e um prazer. Quando a gravadora estava na ativa, já era difícil juntar as bandas para fazer coisas. Mas o Alex, o garoto que montou o festival, conseguiu reunir bandas que eu nunca pensei que veria de novo. Foi ótimo ver isso e apenas ser um fã da música. Brent’s TV, The Smugglers, Nuisance, Monsula…

- E você também tocou, com o show do The Potatomen.
- Sim, a formação original do The Potatomen, com Larry Livermore, Patrick Haynes e eu [todos eram integrantes da Lookout Records]. Foi a banda que se formou no pequeno escritório da gravadora, que também era o apartamento do Larry. Nós tocamos, mas não éramos, digamos, a banda mais musical. Geralmente eu tocava batendo baquetas numa lata de lixo ou numa caixa, e desta vez eu estava realmente sentado atrás de uma bateria de verdade. Foi incrível, e também é incrível que algumas bandas tenham continuado a tocar, como Corrupted Morals. O que também é legal é que, na metade dos anos 90, quando a Lookout se tornou uma empresa maior, na esteira do sucesso do Green Day, acho que houve uma pequena desconexão. A garotada do Gilman Street sentia que a Lookout não era exatamente uma gravadora do Gilman. Achavam que o Gilman não era a casa de shows da Lookout. Então foi legal celebrar o aniversário de 30 anos do Gilman e fazer isso reconectando a herança dessas duas instituições. Para mim, como fã dessas bandas quando eu era um adolescente, e como fã do Gilman Street, passando lá o máximo de tempo que eu podia, eles estavam muito conectados na minha mente.

“Operation Ivy, Corrupted Morals, Isocracy e Crimpshrine foram bandas muito importantes, são todas diferentes e estão conectadas. Colocadas juntas, lançadas ao mesmo tempo, formaram uma grande explosão”

- Se a gente juntar a Lookout, o Gilman e o fanzine Maximum Rocknroll, é correto dizer que esses eram os três grandes pilares da cena punk da East Bay naquela época? Você acrescentaria mais alguma coisa?
- É difícil. Quando a Lookout começou, era um selo regional muito dedicado a catalogar e celebrar toda aquela música incrível que estava acontecendo no Gilman Street. A nova atitude, os novos estilos. E é claro que o Gilman nasceu do Maximum Rocknroll, era um projeto do MRR. Mas eu nunca pensei dessa forma, como grandes pilares. Na Lookout, nós tentamos nos tornar uma gravadora nacional, com artistas punks e independentes de todos os lugares. O Gilman realmente se manteve fiel ao que era. O Maximum Rocknroll curiosamente nos anos 90 criou sua própria fronteira e focava no punk — o que era mais indie rock eles não queriam mais cobrir. Eu não sei se eu daria para a Lookout tanto crédito assim. E a Lookout não durou tanto tempo. Além disso, você tinha outras gravadoras independentes incríveis na Bay Area, como a Alternative Tentacles [de Jello Biafra, vocalista do Dead Kennedys], que surgiu muitos anos antes da Lookout. Houve um momento em que os voluntários do Maximum Rocknroll ajudaram a criar o Epicenter Zone e o Blacklist Mailorder, em São Francisco, que sediavam shows e vendiam fanzines. Blacklist era um ótimo serviço de entrega por correio, antes de a internet explodir. Essas foram instituições muito importantes.

Operation Ivy, banda de Jesse Michaels, Tim Armstrong e Matt Freman

- Você citou o Corrupted Morals. O quão importantes foram essas bandas lá no início? Operation Ivy, Crimpshrine…
- Eu conheci o Larry Livermore no início de 1988. Foi bem na época em que os primeiros quatro EPs da Lookout foram lançados.

- Foram essas três bandas e The Lookouts, certo?
- Isso. Não, não: Crimpshrine, Operation Ivy, Corrupted Morals e Isocracy. O disco do The Lookouts [banda do próprio Larry Livermore] tinha sido lançado antes. E acho que o Larry não via a Lookout como uma gravadora propriamente dita. O que eu entendia era que o plano dele era apenas lançar sua própria banda. E ele era um grande fã do Isocracy. Larry viu o Operation Ivy e teve a ideia de fazer um disco split juntando as duas bandas. Ele e David Hayes, que tinham a ideia de criar uma gravadora, se juntaram. Hayes trabalharia com Crimpshrine e Corrupted Morals, e a ideia era lançar esses quatro singles. Todas essas bandas foram muito importantes, são todas diferentes e estão conectadas. Colocadas juntas, lançadas ao mesmo tempo, formaram uma grande explosão. Era o hardcore do Corrupted Morals, o punk-ska do Operation Ivy, o Isocracy e as melodias do Crimpshrine. Eram muito diferentes, mas unidos eram algo muito poderoso para mim, na época com 14 ou 15 anos. Em vez de lançar um de cada vez, você conseguiu dar esse sentido imediato do que era essa gravadora e mostrar o que estava rolando no Gilman Street em Berkeley.

“Sempre senti que a música punk que eu amava e a Lookout estava lançando era a melhor música do mundo. Mas achava que o resto do mundo era burro e nunca perceberia isso. Aquelas bandas eram meus Beatles e meus Rolling Stones”

- E as coletâneas? Eu pergunto porque no Brasil, por exemplo, elas eram muito importantes. “Can of Pork” foi muito importante para mim e meus amigos. Foi a primeira vez que nós conseguíamos ouvir aquelas bandas e não precisávamos comprar os discos pelo correio baseados apenas no que líamos nos catálogos.
- Sim, as coletâneas foram muito importantes. “Can of Pork” foi um dos primeiros discos pelos quais eu fui responsável. Realmente parecia importante, estávamos tentando capturar o que estava acontecendo na cena naquele momento. As coletâneas eram uma ótima maneira de apresentar as bandas. Antes da internet, você lia sobre as bandas, mas não conseguia ouvir, a não ser que um amigo seu conseguisse uma fita ou algo do tipo. Então era um modo divertido e interessante de capturar um momento. Com o tempo, as coletâneas ficaram mais promocionais. O álbum duplo com 40 bandas e um grande encarte, isso se perdeu.

O Green Day lançou seus dois primeiros álbuns pela Lookout

- Vamos falar do Green Day. Em que momento você percebeu que eles seriam uma banda gigante?
- É difícil expressar exatamente como era assistir e fazer parte do sucesso do Green Day. Acho que eu sempre estive muito nervoso até ficar claro que eles eram a maior banda do mundo. Deixa eu tentar explicar isso. O Green Day certamente era uma das bandas de mais sucesso na Lookout. Mas houve um momento em que tudo que fazíamos era um sucesso. Ou pelo menos superava as nossas expectativas. Com 18 ou 19 anos, não acho que eu conseguia perceber que uma daquelas bandas teria esse mega-sucesso numa escala global. Sempre senti que a música punk que eu amava e a Lookout estava lançando era a melhor música do mundo. Mas achava que o resto do mundo era burro e nunca perceberia isso. Aquelas bandas eram meus Beatles e meus Rolling Stones. E havia uma história de bandas punk ou independentes assinando com grandes gravadoras e eles fracassavam. Pense em bandas como Hüsker Dü ou The Replacements, que assinaram com grandes gravadoras e isso praticamente encerrou a carreira delas. Então meu primeiro pensamento quando ficou claro que o Green Day ia tentar um acordo com a Warner era uma preocupação. Eram caras eram parecidos comigo, da mesma idade, incrivelmente talentosos, dedicados à música deles. Mas o que vai acontecer se eles tentarem e não funcionar? Onde eles ficariam? A cena que gerou esses caras poderia rejeitá-los. Eles não poderiam mais voltar para casa. Isso mudou no mundo, hoje você pode ser uma banda gigante e voltar para casa. Mas também acho que eles tinham uma confiança e uma certeza que eu não tinha. Por mais que eu amasse a banda, que eu tivesse visto a banda centenas de vezes, que eu acreditasse que eles eram uma tremenda banda, eu ainda achava que o mundo ia mastigá-los e cuspi-los de volta. Lembro de ter uma conversa sobre isso com o Billie Joe [vocalista do Green Day], quando eles estavam em turnê com o Bad Religion e o Samiam. Eu estava tão envolvido com aquilo, o Larry Livermore me colocou no telefone com o Billie e disse: “Fala para ele o que você está pensando”. Tentei explicar e não consegui direito. Mas lembro dele falando claramente: “Nós acreditamos que isso vai funcionar”. E ele estava certo (risos).

Rancid ontem e hoje: a banda começou na Lookout e se mantém independente na Epitaph

- E o Rancid? Era possível segurar a banda na Lookout por mais tempo? Como foi a ida deles para a Epitaph?
- Quando a banda se formou, quase imediatamente eles tinham a plateia cantando junto no Gilman. E por causa da nossa história trabalhando com o Operation Ivy [de Tim Armstrong e Matt Freeman, que depois formariam o Rancid], sabíamos que queríamos fazer alguma coisa com eles. O plano original era fazer uma série de singles e depois lançar um disco que seria uma coletânea desses singles. Por isso o nosso primeiro disco se chama “Single 1”. Claro que não é um single, tem cinco músicas. Logo depois, por causa dos shows, eles entraram no radar da Epitaph, e fazia muito sentido para eles essa mudança. Pensamos que era uma continuação da relação que tínhamos com esses caras. A Epitaph estava realmente empolgada com o Rancid e tinha recursos na época que a Lookout não tinha. Claro que foi uma pena não trabalhar mais com eles. Lembro deles chegando no escritório, tomamos café ou algo do tipo, e eles disseram que iam assinar com a Epitaph. Sempre fomos grandes apoiadores deles, é claro que seria legal fazer mais.

“Quando a Lookout virou minha responsabilidade, eu certamente tive a Epitaph como inspiração. Havia uma concorrência saudável. Não estávamos querendo roubar bandas que estavam em outros lugares”

- Como era essa relação entre as gravadoras? Vocês da Lookout com Epitaph, Fat Wreck Chords, Alternative Tentacles…
- Por muitos anos, Lookout e Alternative Tentacles trabalhavam com a mesma empresa de distribuição, então éramos muito alinhados, assim como também éramos com outros selos punk da costa Oeste. Eu conhecia o Fat Mike [vocalista do NOFX e dono da Fat Wreck Chords], e lembro dele indo até o escritório da distribuidora com a ideia de distribuir os discos da Fat. Eles recusaram, pediram para voltar outra hora. Eu só conheci pessoalmente o Brett Gurewitz [guitarrista do Bad Religion e dono da Epitaph] no meio dos anos 90. E me inspirei muito nele, vendo aquele escritório bonito. A operação que ele construiu era impressionante. Quando a Lookout virou minha responsabilidade, eu certamente tive a Epitaph como inspiração. Havia uma concorrência saudável, e raramente havia problemas. Não estávamos competindo ou querendo roubar bandas que estavam em outros lugares.

- Queria que você falasse especificamente sobre algumas bandas. Começando pelo Pansy Division. O quanto foi importante ter na gravadora uma banda abertamente gay com letras tão explícitas?
- Trabalhar com eles foi incrivelmente importante. Isso não estava claro quando Larry e eu encontramos Jon Ginoli [vocalista e guitarrista do Pansy Division] no apartamento dele, falamos sobre a possibilidade de gravar um disco. Ou até quando Pat, Larry e eu ouvimos a fita demo no escritório e consideramos a possibilidade. Era uma maneira poderosa de representar a abertura da gravadora para os diferentes estilos de vida, numa época em que o punk era muito mais homogêneo, não era nem muito amigável com as mulheres. Na época não pareceu muito radical, mas depois ficou claro que era radical. A banda era ótima e tão divertida, passou a ser parte do nosso elenco de uma maneira muito forte. Eles fizeram turnê abrindo para o Green Day. Eu via como mais uma banda na família. Mas hoje, olhando para trás, fica claro como foi importante, por causa da exposição que veio nessa turnê com o Green Day. Sempre vou pensar que tivemos muita sorte de trabalhar com eles. Eu me lembro de um episódio quando alguns fãs antigos da Lookout vieram para Berkeley, em 1993 ou 1994, quando ainda estávamos no pequeno apartamento do Larry. Eles eram fãs de algumas bandas. Pat e eu fomos almoçar com eles. Eram do Meio-Oeste, e nós os levamos para um restaurante chinês vegetariano, eles acharam muito esquisito — um dos garotos saiu no meio do almoço e foi pegar um Burger King, não conseguiu lidar com aquela comida (risos). E nós mostramos para ele o único vídeo que tínhamos de uma banda da Lookout, era um vídeo do Pansy Division, que era muito explícito. Queríamos agradá-los e mostramos aquele vídeo. Obviamente foi uma experiência tensa para eles, talvez uma afronta às normas pessoais deles. Para mim isso foi animador, poder lançar algo que desafiasse e confrontasse as pessoas. Era algo bem alinhado com o que a gravadora queria ser.

- O Screeching Weasel lançou vários discos pela Lookout, mas teve seus altos e baixos no relacionamento com a gravadora. E você era bem próximo ao Ben Weasel, certo?
- Sim, eu era próximo ao Ben. Eu amava o Screeching Weasel. Foi uma das primeiras bandas de fora da Bay Area com quem trabalhamos. Era sempre muito trabalho. Lembro de momentos em que eles não ficavam satisfeitos com a masterização, tínhamos que voltar e refazer, os pratos da bateria estavam muito altos no disco Wiggle, coisas desse tipo. Era ótimo trabalhar com eles, mas era um trabalho duro. Eles demandavam muito, mas eram muito comprometidos e dedicados. Ben é do Meio-Oeste, e o Larry Livermore também. Nós temos uma atitude mais tranquilona na Califórnia. Houve muito conflito e discussão. Infelizmente, no meio dos anos 90, isso se agravou, e eu era uma espécie de pessoa de confiança para o Ben nos vários projetos que ele estava fazendo com a gravadora. Os contratos da Lookout Records sempre tinham esse ponto dizendo que o artista e a gravadora concordam que o contrato mais verdadeiro é baseado na amizade e na confiança. Nós sempre tentamos ser fiéis a isso, tentamos agir com amizade e confiando um no outro.

Surgiu um conflito sobre como calculávamos os royalties. Aquela confiança estava se quebrando, e eu era uma das poucas pessoas da gravadora que ainda tinham uma relação com o Ben. Foi difícil, eu me senti responsável por ele. Era um artista que foi parte de um grande sucesso não só para a banda dele, mas também para a Lookout. Tanto com as próprias bandas dele, como trazendo novas bandas para a gravadora. Então tivemos essa discordância, e eu achei que poderia ser resolvida. Peguei um avião para Chicago, passei horas e horas no telefone com ele, mas no fim das contas não era possível resolver. Isso acabou virando um fator para Larry e Patrick deixarem a Lookout e anteciparem suas aposentadorias. Eu senti que precisava consertar alguma coisa na relação da gravadora com o Ben Weasel. E pelo resto do tempo que a empresa existiu, até cortarmos relação de vez com o Ben, eu sempre tentei consertar esse problema. Tenho muitos arrependimentos sobre isso. Deu muito trabalho, muito esforço para restaurar aquela relação que parecia tão importante, mas nunca consegui. Assumo a responsabilidade por isso, mas também acho que tem a ver com o tipo de pessoa que é o Ben, do jeito como ele aborda as coisas. Isso ficou provado pela relação que ele teve com outras gravadoras, não conseguiu levar adiante. Acho ótimo que ele esteja fazendo coisas sozinho agora, provavelmente é o que faz mais sentido. Mas eu tenho arrependimentos. Eu amo a banda e amo as coisas que nós conseguimos fazer juntos. Mas gostaria que eu — ou melhor, nós, porque era eu defendendo as decisões da gravadora — que nós não tivéssemos tentado tanto fazer aquilo funcionar, quando provavelmente devíamos ter nos separado em 1996.

“Quando olho para trás, sinto que por muitos anos tentei fazer com que a Lookout refletisse algo de mim, deixando para trás a sombra do Larry. Mas no fim das contas, vai ser sempre a gravadora dele, mesmo sendo o meu trabalho comandar a empresa. Se eu tivesse entendido isso, eu o teria procurado mais vezes para conselhos, consultas”

- Quando Larry e Pat saíram da Lookout após essa questão com o Screeching Weasel, era você que estava planejando sair, certo?
- Sim. Eu estava cogitando seriamente. E o Ben, nas nossas conversas, estava incentivando isso. Não sei o motivo, talvez para dar um recado ao Larry. Depois senti que não entendia o motivo de ele estar envolvido naquele tema, eu nem deveria ter mencionado isso pra ele. Mas eu estava desiludido. Cogitei que aquilo talvez não fosse o que eu pensava, talvez fosse a hora de fazer outra coisa. Obviamente não saí, e tudo aconteceu de um jeito bem diferente [Larry e Pat saíram, e Appelgren acabou se tornando presidente da gravadora]. Mas eu sentia que, tendo esse conflito mal resolvido, e um processo da banda contra a gravadora — que não era por dinheiro, mas ainda assim era caro para os dois lados, com advogados e tal — como um idealista de 21 anos eu cogitei fortemente sair. Nao sei quem estava certo porque, no fim das contas, quando você chega a esse ponto de ter brigas com uma banda, você se torna algo totalmente diferente. Não foi uma desilusão pensando que nós estávamos errados e a banda estava certa. Mas a ficha caiu de que a empresa e os negócios eram difíceis de conciliar com a vida pessoal.

Larry Livermore, fundador da Lookout

- E como era a sua relação com o Larry? Ele é um cara de personalidade muito forte. Vocês também tiveram seus altos e baixos?
- Sim. Eu conheci Larry quando era um adolescente. Nós apresentávamos um programa de rádio. Eu era um fã. Nós tivemos uma amizade que foi realmente importante para mim. Fui criado por uma mãe solteira, então de diversas maneiras, o apoio e o incentivo do Larry foram experiências significativas para mim. Ele não era meu pai. Houve altos e baixos, discordâncias sobre coisas. Ele também ficava furioso. Pat e eu fazíamos as ilustrações e o layout para a revista da Lookout, e o Larry escrevia e imprimia as páginas para fazermos os layouts. Havia dias em que chegávamos de manhã e trabalhávamos até as 22h. Eu pensava: “Temos que ir embora, precisamos de um tempo”. Mas foi ótimo. Tenho uma grande dose de amor e admiração pelo Larry. Certamente eu faria muitas coisas de um jeito diferente. Quando olho para trás, sinto que por muitos anos tentei fazer com que a Lookout refletisse algo de mim, deixando para trás a sombra do Larry. Mas no fim das contas, vai ser sempre a gravadora dele, mesmo sendo o meu trabalho comandar a empresa. Se eu tivesse entendido isso, eu o teria procurado mais vezes para conselhos, consultas. Mas por causa do conflito que o levou a sair da gravadora, e por eu achar que nós precisávamos fazer as coisas que não fizemos quando ele estava lá, eu fui por esse caminho de fazer tudo de um jeito totalmente oposto. Nós poderíamos ter fechado a gravadora, e eu poderia ter aberto outra e feito todas as coisas que a Lookout fez sem ter que lidar com esse legado. Talvez tivesse sido melhor, mas sei lá, não dá para voltar no tempo. Eu sou uma pessoa melhor por causa da amizade com o Larry. Claro que foi complicado, não foi fácil, mas no fim eu sou um cara melhor por ter o Larry na minha vida.

“Eu não tentaria dizer a você o que você deve pensar ou acreditar, mas eu acredito numa sociedade inclusiva, baseada na igualdade, na diversidade. Por isso o punk era ótimo, não só pela música, mas por ideias que eram mais alinhadas com o que eu penso”

- Vamos falar sobre política. A Bay Area tem uma tradição de esquerda, e Donald Trump foi amplamente derrotado nesta região nas eleições. Agora temos essa insanidade neo-nazista em Charlottesville. Vejo muitas pessoas aqui reagindo fortemente a isso. Como a cena punk se envolveu desde cedo em temas políticos e sociais?
- Minha experiência com o punk é altamente política. Eu era um adolescente no fim dos anos 80, o punk e a política radical eram muito ligados. O fanzine Maximum Rocknroll sempre tinha um artigo forte sobre isso. Lembro que o primeiro número que eu comprei falava sobre condições nas prisões. Com 13 anos, nunca tinha pensado naquilo. Para mim, a prisão era para pessoas ruins, nunca tinha pensado em direito dos prisioneiros. Aquilo abriu meus olhos. Na medida em que o punk ficou mais popular como estilo de música, fazia sentido que a política radical não estivesse na linha de frente, e certamente não estava em todas as bandas. Mas aquele era um lugar em que ideias mais radicais, interessantes e diferentes conseguiam germinar. É um ambiente democrático, na linha faça você mesmo, onde novas ideias se desenvolvem. Você está certo ao dizer que a Bay Area na Califórnia é um lugar muito progressista, então é mais fácil receber conceitos de esquerda, progressistas e liberais. Mas também é importante que bandas populares além da comunidade punk falem o que pensam. Eu não tentaria dizer a você o que você deve pensar ou acreditar, mas eu acredito numa sociedade inclusiva, baseada na igualdade, na diversidade. Por isso o punk era ótimo, não só pela música, mas por ideias que eram mais alinhadas com o que eu penso.

A marcha dos neonazistas na Virgínia deixou a população de Berkeley indignada

- Antes de o punk chegar aqui, já havia um histórico de luta por liberdade de expressão. Eu estive nas escadarias da Universidade da Califórnia, onde Mario Savio fez seu famoso discurso por liberdade de expressão em 1964. Então esses temas devem ser naturais para as pessoas.
- Sim, mas o curioso é que, por outro lado, a direita radical, por coisas que já vimos, a cena punk também tem história com esse lado. No Gilman Street, certamente há episódios de luta contra skinheads fascistas, fazendo com que eles soubessem que não havia lugar para eles naquela comunidade. Quando você tem uma cena que permite um pensamentos mais radical, cabe à própria comunidade avaliar o que é aceitável ou não.

“Lembro claramente de receber uma carta do Brasil, de um cara nos contando como havia o risco de uma guerra entre punks e skinheads na América do Sul”

- Por fim, queria te mostrar a correspondência de 22 anos atrás, quando eu comprava CDs da Lookout pelo correio com meus amigos. Naquela época, imagino que vocês tinham muito trabalho mandando CDs, camisetas e catálogos para o mundo inteiro, não?
- Sim, o meu trabalho especificamente naquela época tinha muito disso. Uma grande parte do nosso trabalho era a encomenda pelo correio. Éramos apenas três pessoas cuidando disso, e as encomendas eram muitas. Naquela época o punk não estava muito disponível nas lojas, então o correio era muito importante. Fiz amizade com pessoas para quem nós vendíamos discos. Mandávamos cartas, recebíamos fanzines. Era uma experiência social, mas também era muito trabalho. Depois de um tempo, conseguimos desenvolver relações com outros selos e empresas de distribuição em outros países, na Europa, no Japão. Queríamos que todos os interessados na nossa música pudessem ter acesso, com preços não muito altos.

- Você lembra de muita gente do Brasil comprando com vocês?
- Sim. E eu lembro claramente de receber uma carta do Brasil, de um cara nos contando como havia o risco de uma guerra entre punks e skinheads na América do Sul. Ele nem queria nada, era apenas para nos contar, buscando alguma solidariedade.

Christopher Appelgren examina cartas enviadas há mais de 20 anos para o Brasil