Construa seu caminho para ser feliz (Verdades quase sempre esquecidas 6)

Uma velha senhora construiu uma cabana para um monge para que este pudesse meditar e alcançar o satori (termo budista japonês para iluminação). Ela cuidou dele e o alimentou por vinte anos, como forma de adquirir méritos já que queria acumular karma positivo para suas próximas vidas.
Certo dia, como forma de experimentar a sabedoria adquirida pelo monge, a velha pediu à jovem mulher que levava ao monge o alimento todos os dias (já que a velha senhora não podia mais fazer o caminho com frequência) que o abraçasse.
Ao chegar à cabana, a menina encontrou o monge em zazen (posição de meditação — sentado). Ela abraçou-o e perguntou-lhe se gostava dela. O monge, frio e indiferente, disse de forma dura: “É como se uma árvore seca estivesse abraçada a uma fria rocha. Está tão frio como o mais rigoroso inverno, não sinto nenhum calor.”
A jovem retornou chorando, e disse o que o monge fez. A velha, irritadíssima, foi até lá, expulsou o monge e queimou a cabana. Enquanto ele se afastava, ela gritou: “E eu passei vinte anos sustentando um idiota!”

Esse é o último texto da série “Caminhos”, pois nos próximos abordarei outros aspectos dessa busca eterna por caminhos que nos levem onde queremos.

A pergunta “Qual é o sentido da vida?” pode ser uma das questões mais profundas da existência humana ou nada mais do que um pedido absurdo construído sobre uma confusão conceitual.

Pode-se dizer que a pergunta traz em si uma intrínseca falta de clareza (e alguns dirão uma falta de coerência). Todos concordamos que essa não é uma questão sobre o significado semântico da palavra “vida”, mas então, a que essa pergunta se refere?

Estamos falando apenas sobre a vida humana? É uma pergunta sobre toda a vida num contexto biológico? É uma questão sobre a existência? Se sim, estamos buscando uma resposta teleológica (é o estudo filosófico dos fins, isto é, do propósito, objetivo ou finalidade)?

Difícil chegar numa resposta bem estruturada quando a pergunta em si carece de maiores direcionamentos para que a resposta seja mais ou menos satisfatória.

Filósofos, cientistas e pensadores em geral tem se debruçado sobre esse questionamento, de forma organizada e metodológica, pelo menos desde Aristóteles [384–322 a.C.] (ver seu conjunto de obras denominado Metafísica).

Ou seja, quase 2400 anos de buscas ainda não nos levaram a uma resposta final (lembre-se que a resposta negativa do significado ou propósito também poderia ser uma resposta final).

Conforme abordei no meu texto anterior, as patologias do espectro da depressão e ansiedade já são consideradas pela OMS como o principal fator incapacitante do mundo e dentro da realidade dessas patologias, muitas vezes as pessoas perdem os referenciais de propósito/sentido de vida, o que aponta essa patologias como as principais causas de suicídio no mundo. Se você quiser ler um pouco sobre isso, segue um estudo interessante (Link aqui).

No relatório global sobre depressão e saúde mental (link aqui) a OMS afirma que:

O suicídio ocorre ao longo da vida e foi a segunda principal causa de morte entre os 15–29 anos de idade globalmente em 2015.

Já afirmei anteriormente que situações onde a patologia já esteja instalada necessitam de acompanhamento especializado, seja psicológico ou psiquiátrico, os quais obtêm grande sucesso no tratamento (outro estudo interessante — Link aqui). Mas, o que resta para aqueles que não apresentam patologias como essas e, mesmo assim, precisam de suporte quando falamos a respeito de sentido/propósito de vida? Obviamente a psicoterapia também pode ajudar nestes casos, e existem outras ferramentas que podem e devem ser exploradas, de forma concomitante àquela ou não, por todo aquele que deseja ter maior conhecimento e domínio sobre si mesmo.

“Oras, você mesmo disse que não existe uma resposta final para a questão do sentido/propósito da vida” você dirá. Correto, mas o fato é que na falta de uma resposta final, e quando digo final me refiro a uma que possa satisfazer a humanidade como um todo (se é que isso é possível), nós podemos nos sentir livres para atribuirmos o sentido/propósito que quisermos.

Não importa se nesse processo cada um escolha como pano de fundo uma filosofia, religião ou linha de pensamento qualquer. O fato é que os dados mostram que a humanidade está caminhando para uma realidade em que o avanço tecnológico, científico, social e todos os outros induzem os indivíduos a viverem cada dia mais no modo automático e sujeitos a pressões e injunções de forma crescente.

Nesse contexto, a escolha consciente por um sentido/propósito de vida é fundamental para que possamos enfrentar essas realidades de forma a manter um mínimo de equilíbrio e até mesmo de forma a construir uma realidade gratificante e de maior felicidade (sim, é possível!).

De forma resumida, acredito que possamos aplicar um processo parecido com o que utilizamos nas empresas quando tratamos de planejamento estratégico, fazendo uma análise do ambiente externo, verificação das forças e fraquezas, estabelecimento da missão, visão e valores e, por fim, determinar metas e objetivos que precisam ser constantemente acompanhados para que possamos avaliar se estamos chegando mais próximos ou não deles, fazendo possíveis correções de rota e, assim, alimentando nosso sistema de recompensa cerebral com experiências cada vez mais recompensadoras. Se você quiser entender mais sobre como esse mecanismo funciona, leia esse estudo (Link aqui).

Como disse no texto anterior, não somos educados para ter controle de nossas vidas, não somos educados para sermos realmente produtivos e felizes, não somos preparados para tomar para nós a responsabilidade sobre nós mesmos. A verdade é que quase todos nós vivemos uma realidade de meta ignorância, é a verdadeira Matrix!

É interessante notar que o monge de nosso pequeno conto introdutório tinha um objetivo de vida estabelecido, que era atingir o satori, mas nem todo o seu esforço e empenho puderam imuniza-lo contra o erro crasso de se desconectar do mundo ao seu redor quando o propósito era completamente o contrário disso.

Ele não avaliou se a meta estava bem definida, não compreendeu o ambiente externo, provavelmente não tinha total consciência de suas forças e fraquezas e nem ao menos tinha controles para dizer se estava se aproximando o se afastando de seu objetivo.

Nos próximos textos eu pretendo desenvolver um pouco melhor a ideia sobre o planejamento estratégico pessoal.

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Abraços.