Quem quer ser real?

Ou como deixar de ser um holograma.


por Danilo Novais

Não sei você, mas quando eu assisto a um filme é comum ser tomado por uma avalanche de sentimentos, intensificada pela natureza da história. Quanto mais dramática, mais tenso eu fico. Quanto mais engraçada, mais leve eu fico. E nesse furacão emocional, me pego viajando nos diálogos das personagens, tentando encontrar uma forma daquilo fazer sentido na minha vida.

Após assistir a Boyhood e notar que o filme retrata a vida como ela é, percebi que tudo o que consumo (ouço, leio, assisto e compartilho) ultimamente condiz com a minha vontade latente de ser ~real~.

Uma vez alguém disse que a vida imita a arte e vice-versa. Numa era em que tudo é registrado e o digital se mistura com o mundo físico, a afirmação de que uma coisa imita a outra nunca fez tanto sentido. Nesse cenário, tornar-se uma mera reprodução da ficção ou a ficção ser mais interessante que a realidade acabam sendo caminhos inevitáveis.

Com isso, a sensação que eu tenho é que todo mundo está em algum lugar intermediário, sem realmente saborear os momentos. É como se nos tornássemos hologramas de nós mesmos.

Gastamos mais tempo construindo quem somos de verdade ou a nossa persona meramente ilustrativa online? A frequência com que vemos nossos amigos é maior do que o tempo gasto com caracteres? As respostas para essas perguntas raramente são claras.

Eu sei o que você deve estar pensando, que este é mais um daqueles textos que desmerece a internet ou a tecnologia, mas não é. Eu juro. O que quero com ele é tentar encontrar o equilíbrio entre esse on e off. Ao mesmo tempo em que adoro estar conectado, quero tentar viver a vida fora de uma tela. Quero interações reais, com pessoas reais, não com páginas de perfil. Contraditório, eu sei, mas será que é possível?

Bom, eu imagino que sim. Vamos tentar descobrir juntos, explorando alguns pontos importantes do tempo presente?

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Desconectar para reconectar

Naturalmente, quando um contexto histórico é estabelecido, um contramovimento surge para contestá-lo. Hoje tudo é consumido com uma velocidade feroz, o barulho causado a cada clique é ensurdecedor e o tempo se esvai por nossas telas, fazendo com que executemos várias tarefas simultaneamente. Logo, é compreensível a vontade de desacelerar para reconectar-se a si mesmo. Viver nesse ritmo caótico cansa. Essa é a explicação direta e reta. Mas mais do que isso, o silêncio passa a ser revalorizado como medida essencial para resgatar o equilíbrio e a criatividade pessoal.


Transição como principal arma da privacidade

É praticamente impossível viver uma vida sem rastros digitais. Temos isso como característica principal do nosso tempo, daí o surgimento de comportamentos como o “stalking”. Tudo está lá. E estamos acostumados com isso. A efemeridade, considerada até então a maldição da atualidade, passa a operar de um jeito diferente, contribuindo para a fuga da eterna memória digital e como principal recurso da privacidade. Aplicativos como Snapchat ou Telegram, que têm como característica o não-registro, são exemplos claros de transição.


“O passado é apenas uma história que contamos a nós mesmos.”

Empatia, pra que te quero?

Nesta animação fofa, Brene Brown nos lembra que só podemos criar uma conexão de empatia genuína se formos corajosos o suficiente para entrar em contato com as nossas próprias fragilidades.

Se a efemeridade está passando de vilã para uma importante aliada da privacidade, um movimento contrário e diferente vem acontecendo com a empatia. Apesar do sentimento muitas vezes ser confundido com piedade e nunca ter sido de fato compreendido, ele ainda persistia entre nós. Agora ele praticamente não mais existe. Todos estão correndo, sem tempo até para si mesmos, imagina para se preocupar com o outro. Juliana Alvim discorre sobre o que é empatia de verdade em um artigo maravilhoso. Não há mais nada essencial que a empatia quando o desejo é ser real. Ser real exige envolvimento. Envolver-se significa praticar empatia.


O presente como memória antecipada

O vídeo abaixo desenvolve melhor o que falei ali em cima sobre nós estarmos vivendo em algum lugar intermediário, sem realmente saborear os momentos. O que parece é que os momentos nos saboreiam. E eles passam sem nem notarmos, porque estamos tirando fotos para registrá-los. Controlar como as situações serão lembradas pode nos dar a falsa sensação de autores da própria vida, quando talvez essa antecipação as tornem cada vez menos verdadeiras.

Há outra consideração aqui, viver só de memórias é chato, não? Assim como o Bruno Tozzini, acredito que não há experiência melhor do que viver e poder criar novas realidades. De maneira um pouco incisiva, porém verdadeira, Bruno conclui que todo tipo de memória será apenas um registro imperfeito de realidades que não existem mais. Daí a urgência em ser real.


De holograma à carne e osso: reboot da mente e do comportamento

E já que estamos falando de momentos, que tal aproveitá-los ao máximo com quem gostamos? Soa clichê — e tendemos a ignorar clichês—, mas é uma máxima simples. Mergulhar de verdade na vida e nas pessoas requer coragem. Parar e refletir demanda tempo. O que esquecemos com frequência é que esse tempo está nas nossas mãos. E o problema não reside necessariamente nas ferramentas, nos aplicativos, na internet ou na tecnologia, mas sim no jeito como usamos tudo isso.

Eu quero ser real, e você?

// Digital Detox

PARA CRIAR NOVAS REALIDADES OFFLINE

Boyhood

Como começo o artigo falando sobre Boyhood, obviamente a minha primeira dica de programa offline é o próprio filme. O longa é tão real que te faz sentir como se um amigo estivesse contando uma história íntima nos mínimos detalhes. Entregue-se à experiência de assistir a um projeto fabuloso concebido após 12 anos. Destaque para os diálogos incríveis que só Richard Linklater sabe criar. Convide alguém especial e corra para o cinema!

“Deep Blue”, Arcade Fire

Se Boyhood pode ser considerado ótimo só pela trama, ele ganha um outro patamar quando vem acompanhado de uma trilha sonora fantástica. “Deep Blue” do Arcade Fire é a canção que encerra o filme e te faz pensar sobre a vida. Desde então, voltei a ouvir o álbum The Suburbs (2010) inteiro. A canção traz uma visão pós-apocalíptica sobre o declínio da criatividade humana em um mundo cada vez mais mecanizado. Recomendo ouvi-la com os olhos fechados, deitado na cama, após um dia exaustivo de trabalho. Se quiser saber mais sobre a letra, tem tudo aqui.

Those who don’t believe in magic will never find it.

Se você é um sonhador de plantão, como eu, aqui uma dica ouro de leitura para aqueles momentos em que a criatividade desaparece. O Mundo é Mágico — As Aventuras de Calvin & Haroldo é o primeiro álbum de 17 produzidos pela Editora Conrad, que reúnem histórias completas da tirinha criada por Bill Waterson. Acompanhar a vida de Calvin, um garoto hiperativo de seis anos cujo maior amigo é um tigre de pelúcia — que ganha vida quando não existe nenhum adulto por perto — , é uma maneira gostosa e leve de se inspirar.


// Swarm Creativity

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Leia também o meu novo post:

Como a morte é representada na cultura?

Uma investigação sobre quais expressões culturais a única certeza que temos em vida assumiu ao longo da história.