Telhado de Vidro

Jornalismo & etc. por MARCO ANTONIO BARBOSA. Reportagens e artigos sobre cultura, sociedade, política, comportamento, humor, em textos inéditos e republicados.

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A CULTURA DO CANCELAMENTO É O NOVO POLITICAMENTE CORRETO

“Se você diz que algo é tecnicamente correto, sugere que se trata de algo errado — o advérbio antes do ‘correto’ corresponde a um “mas”. Entretanto, dizer que uma declaração é ‘politicamente correta’ implica algo mais insidioso. Para dar nome aos bois, implica que o declarante age de má-fé. (…) Não há uma história clara do ‘politicamente correto’. Só existem campanhas contra algo definido como ‘politicamente correto’. Por 25 anos, invocar esse vago e mutante inimigo tem sido uma tática favorita da direita.” Moira Weigel, em Political Correctness: How the Right Invented a Phantom Enemy

Nas redes sociais, o ato de cancelar é uma tomada de posição radical diante de uma conduta que se julga censurável (…) e rapidamente vem se impondo como uma forma de justiçamento moderno. (…) A esquerda também tem culpa (ao) promover seus linchamentos em nome de causas (…) Esses ataques em prol do ‘bem’ nasceram nas lutas identitárias dos liberais americanos.”João Batista Jr. e Marcelo Marthe, Supremo Tribunal Virtual

Quando publiquei, em 2017, um post sobre um maluco que chacinou toda uma família, se suicidou em seguida e deixou uma carta cheia de ~argumentos~para justificar seu ato, um amigo me recomendou a leitura do artigo que cito na abertura deste texto. Posso dizer que, sem exagero, foi uma das leituras mais iluminantes que já experimentei. Moira Weigel, autora de Labor of Love: The Invention of Dating, botou no papel (modo de dizer) pensamentos e teses sobre o tal do ~politicamente correto~ (doravante, PC) que há muito rondavam minha mente.

No textão, a acadêmica mostra como, a partir de 1990, a cultura PC foi identificada e rotulada como uma “polícia do pensamento” instilada por “novos fascistas” radicados nas universidades americanas. Usada de forma irônica pela esquerda até a década de 1980 — de forma pejorativa, para assinalar excessos de ortodoxia e dogmatismo — a expressão foi capturada pela direita e avidamente adotada pela mídia na virada para os anos 90.

Nunca houve, na esquerda, uma corrente de pensamento ou um movimento que se denominasse como PC; no entanto, nas mãos da direita, o conceito se tornou um poderoso espantalho. “A ‘correção política’ virou um tópico de debate neoconservador”, descreve Moira. “Eles afirmavam que se tratava de um programa político esquerdista que buscava tomar o controle das universidades e das instituições culturais — e eles (os neocons) estavam determinados a impedir isso.”

De 1990 para cá, o combate ao ~politicamente correto~ virou um dos temas favoritos das ideologias reacionárias. Na teoria, a luta é contra uma cultura que tolhe a liberdade de expressão, obcecada com a ideia do vitimismo (sic) e com a imposição de um pensamento hegemônico que não admite o dissenso. Na prática…

A prática.

Pouco mais de três anos depois de eu ter lido o artigo de Moira Weigel, vemos pipocar nas interwebs um debate acerca de um suposto “filhote” do politicamente correto: a “cultura” do “cancelamento”. Por “cancelamento”, entenda-se a execração pública de alguma pessoa flagrada em comportamento inaceitável. Já a expressão “cultura” traz a inferência de que se trata de algo organizado, não-orgânico, e que obedece a uma determinada agenda (política? Comportamental? Identitária?). Impulsionada pelas redes sociais (que, como sabemos, servem primariamente para disseminar conteúdos que apelam à emoção, e não à razão), a “cultura” é a responsável por julgamentos sumários que, apesar de virtuais, podem ter consequências muito concretas.

O tema não é novo e já foi objeto de um post neste blog. Em 2020, o questionamento à tal “cultura” atingiu um pico histórico com o manifesto publicado pela revista Harper’s em junho sob o título “Uma carta sobre justiça e o debate aberto”. Subscrita por um batalhão de intelectuais e artistas, muitos dos quais identificados historicamente com causas “liberais” (i.e. progressistas), a carta fala de um “clima intolerante” no qual “a livre circulação de ideias se torna a cada dia mais restringida” — tudo por causa do “clamor por uma rápida e severa retribuição a supostas transgressões de discurso e de pensamento”. Ou seja: chegamos ao ponto em que até pensadores progressistas pararam e disseram “Essa parada de cancelamento já não foi longe demais?”

Há muita, muita coisa errada na vigente cultura que permite “cancelar” pessoas via mobilização online. A extrema polarização que vivemos hoje, incendiada pela internet em geral e pelas redes sociais em particular, ofusca o racional e nubla o raciocínio. A infame prática do exposed põe no tribunal das redes assuntos que deveriam ser tratados pela polícia e pela justiça. Na imensa maioria das vezes, os famosos “cancelados” sofrem baques apenas momentâneos e não tardam a voltar por cima. Quem se fode de verdade são os anônimos que, sem querer ou não, se vêem no centro de uma campanha de cancelamento: muitos dos ilustres cancelados, mesmo acusados de crimes, usam a exposição negativa para lucrar.

Entretanto, esses desmandos são típicos do momento em que vivemos, uma época de excesso de reação e escassez de reflexão. O que hoje se chama de “cultura de cancelamento” vai evoluir (espero) para um debate sério sobre as questões que levam as pessoas a serem canceladas — que serão tratadas de forma ponderada, como convém às causas progressistas. Afinal, cancelar é nocivo, mas não se pode deixar de protestar contra o que há de ruim no mundo porque “não queremos aderir à cultura do cancelamento”. Chamar um racista pelo nome não é “cultura de cancelamento”. Denunciar um chefe machista não é “cultura de cancelamento”. Criticar comportamentos homofóbicos não é “cultura de cancelamento”.

No Brasil, a questão mereceu o Selo de Preocupação Oficial do Conservadorismo BR: parou na capa da Veja. A reportagem da edição de 29 de junho de 2020 apresenta a “onda feroz que contamina as redes sociais”. O texto aponta de forma correta alguns dos (muitos) problemas embutidos no frêmito cancelatório: o comportamento de manada que gera verdadeiros linchamentos virtuais, o uso de fake news poluindo a opinião pública sobre os fatos, o revanchismo disfarçado de busca por justiça. Por outro lado, como sói acontecer nas reporpensatas (reportagem + pensata) da revista, há uma certa confusão conceitual, fruto do afã de cancelar os canceladores e botar a tal cultura, mais uma vez, na conta da esquerda.

A obsessão do conservadorismo com a cultura do cancelamento parece muito com o ódio do mesmo grupo ao ~politicamente correto~. Ambas as campanhas partem de um pressuposto enganoso para responsabilizar o campo progressista por “movimentos” que simplesmente não existem. 99% do que a direita rotula de ~politicamente correto~ não passa de uma visão de mundo humanista que inclui a empatia, o respeito às diferenças, a tolerância, a coletividade e outras atitudes que podem ser resumidas em duas palavras: seja legal. Já a “cultura” do cancelamento seria a apropriação, com fins ideológicos, de um legítimo clamor pela punição a comportamentos preconceituosos, machistas, racistas, intolerantes e/ou simplesmente criminosos.

Matérias como a da Veja buscam virar o jogo, de modo insidioso: ignoram as estruturas sociais que deram a oportunidade aos “cancelados” de se comportarem mal e afirmam que o “cancelamento” de uma pessoa intolerante é tão ruim quanto o próprio comportamento do intolerante. Será mesmo? É a mesma arenga que se repete há pelo menos 30 anos contra o ~politicamente correto~, e que já está sendo usada como muleta pelos reacionários. Virou mais um round na incansável guerra cultural contra o progressismo.

A vontade individual de cancelar (que pode involuir para o linchamento virtual) segue existindo, como sempre existiu. O que não dá é permitirmos que o campo reacionário coopte essa vontade — que, mesmo exagerada, é em muitos casos legítima — e a transforme em mais um espantalho, como fizeram com o ~politicamente correto~.

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Dono do medium.com/telhado-de-vidro. Escrevo coisas que ninguém lê, desde 1996 (Jornal do Brasil, Extra, Rock Press, Cliquemusic, Gula, Scream & Yell, Veja Rio)

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