Está tudo bem! — “13 Reasons Why”

Como criamos uma solidão coletiva ao fingir que não temos problemas

Por Frederico Mattos, psicólogo clínico

“Oi, é a Hannah. Hannah Baker. Acomode-se, porque vou contar a história da minha vida. Mais especificamente, como minha vida terminou”.

Quantas vezes na vida você já foi perguntado "está tudo bem?" e sua resposta com um sorriso amarelo foi "sim, e você?" mesmo quando nada ia bem. Vida que segue, porque responder a verdade? Por que fazer os outros perderem tempo? Do que vai adiantar? Afinal, eu tenho que ser forte e resolver meus problemas, certo? E se todo mundo fosse falar a verdade? Passaríamos o dia todo lamentado, certo? Eu já me perguntei muitas vezes isso também. A verdade é dura.

Lembro como se fosse hoje, era véspera do meu aniversário, 23 de outubro de 1988, Lapa de Baixo, São Paulo. Eu havia passado muito tempo sozinho em casa, minha irmã, cinco anos mais velha estava com os amigos dela e eu resolvi procurá-la no pequeno condomínio sem nome, do lado do viaduto. O líder da turma a que ela pertencia era ao mesmo tempo carismático e temperamental, eu o adorava e ele parecia gostar de mim, o mascote da turma. Bem, nem tanto mascote, pois só me deixavam participar quando os conviesse.

Não lembro que dia da semana era, mas houve uma celebração, não para mim, eles criaram um castelo de terror no nosso prédio, cada criança pequena subia as escadas andar por andar sendo assustada por um dos mais velhos devidamente caracterizado por um monstro. Ingênuo como toda a criança de oito anos poderia ser eu entrei alegremente na brincadeira. No meio do caminho houve uma tentativa de me agarrar, quando me debati para escapar o líder da turma bateu em mim de um jeito que perdi o fôlego no chão. Além disso me ameaçou e disse que o que eu recusei aconteceria de verdade na próxima vez, que ele espalharia o boato para todo mundo e que ia matar minha mãe. Bem, obedeci com meu silêncio, por anos.

Dez anos depois finalmente pude falar isso com um amigo bem mais velho, que realmente sentou, me ouviu enquanto eu chorava copiosamente, como o refém de um sequestro que se vê finalmente longe do carcereiro. O que faltou durante dez anos que não pude falar para ninguém, além do medo? A ameaça, mesmo poderosa, na verdade foi circunstancial, pois depois de dois anos eu perdi o contato com o garoto que me agrediu.

Não sabemos falar

Existe uma cultura que parece reforçar a ideia de que expor as próprias vulnerabilidades transforma você em um perdedor ou vitimista. É verdade que algumas pessoas vestem a capa da autopiedade, mas mesmo elas carregam questões que merecem ser ouvidas, exatamente porque são pessoas que se prenderam no script do sofrimento como forma de se comunicar.

Estamos criando problemas coletivos, quando sustentamos uma imagem intocável publicamente e mesmo diante de perguntas sinceras de pessoas que se importam conosco sempre esboçamos um sorriso para despistar a pergunta embaraçosa. Todos nós passamos por problemas de diferentes portes e é preciso muita coragem para quebrar o protocolo de gentileza falsa ao poupar os outros de nossas vivências desagradáveis.

"Tudo bem, Clay?" Tudo (só estou em colapso mental)

Por que responder a verdade? Porque não precisamos estar sempre bem e não é necessário sustentar uma fantasia pública de perfeição.

Por que fazer os outros perderem tempo? Porque quando somos honestos com a nossa dor todos ganham, inclusive o ouvinte, que se sente mais generoso e conectado à você, e o suposto tempo perdido é revertido em mais amizade.

Do que vai adiantar? Em termos práticos nem sempre existe uma solução conclusiva, mas isso não impede que a sensação de alívio e de não estar mais sozinho abra espaço emocional para ganhar novas perspectivas e sair de um looping infinito de auto-destrutividade.

Afinal, eu tenho que ser forte e resolver meus problemas, certo? E algumas medida precisa ser corajoso par olhá-los, mas imbatível para resolvê-los, não. E isso não precisa ser feito sozinho.

E se todo mundo fosse falar a verdade? Passaríamos o dia todo lamentado, certo? Pelo contrário, a lamentação da qual já nos incomodamos surge de uma sociedade pouco solidária. Se tivéssemos pequenos aperitivos de ajuda mútua não precisaríamos de grandes catarses de lamentação. O próprio lamento seria um compartilhamento menos carregado de dor aguda.

O primeiro ponto é, abrir o jogo, ter entrega nas relações, criar redes de pessoas nutritivas para que você possa se jogar sem receio.

Base: coragem e entrega

Não sabemos ouvir

Você está com problema, não sabe exatamente com quem se abrir, pensa em três grandes amigos, mas surge uma interrogação cruel, talvez eles não sejam capazes de ouvir. A intimidade com essas pessoas queridas fez você tirar algumas conclusões sobre elas e quais são os seus medos, desejos e preconceitos. Se essas pessoas são ácidas e colocam lenha na fogueira quando comentam de outras pessoas talvez sejam capazes da mesma crueldade, ainda que não expressa, com você.

A escuta começa antes dos ouvidos, é uma relação de confiança prévia, inclusive da qualidade pessoal e ética do ouvinte, é nessa rede que se cria que uma possibilidade de verdadeira revelação surge.

Para ouvir é preciso tirar a si mesmo do centro do palco, tirar da frente suas concepções de vida e ser receptivo ao que o outro traz à tona. Ouvir com qualidade é saber captar mais que as palavras, mas os sentimentos ambivalentes da pessoa, suas necessidades ocultas, mesmo em situações moralmente problemáticas.

Ninguém faz coisas estúpidas só por ser impulsivo, mas porque não teve clareza de suas motivações cheias de contradições, porque normalmente atacou num momento desesperado de antecipação do ataque.

Parece haver uma necessidade exagerada das pessoas fazerem circular as histórias alheias. Os momentos pós-almoços de família e entre casais parecem sempre ter aquele momento posterior onde tudo será revelado da vida dos outros. Qual a razão dessas revelações sobre a vida dos outros? Necessidade de validar a própria importância e uma pitada mais ou menos intensa de competitividade. A fofoca parece aliviar a própria pequenez, motivo pelo qual sempre tentamos evidenciar os pontos fracos do outro e diminuir os pontos fortes.

Nessa mentalidade coletiva de "contar um conto e aumentar um ponto" alimentamos a rede de desconfiança da qual nós próprios sofremos, somos agentes e prejudicados por isso. É preciso generosidade na escuta, com menos caras, bocas e palpites tóxicos.

Base: confiança, abertura e generosidade

Não sabemos ajudar

Depois da fala e da escuta mal conduzida somos pouco habilidosos na devolutiva. Nossa educação para bom aconselhamento é bem pobre e a cultura da eficiência parece querer embalar cada dor numa planilha de tarefas futuras. O problema é que não vivemos numa planilha, nem tudo vira exercício e execução no papel com esqueminhas bonitinhos.

Para a maioria das dores importantes da vida como a solidão, a morte, a inadequação, contradições morais, o sentido da vida, não temos grandes respostas eloquentes e o que cabe mais é o silêncio respeitoso e amigo. Mas poucos conseguem oferecer uma palavra de conforto.

Para saber ajudar é preciso serenidade e sabedoria, com o outro e consigo. Na maior parte das vezes que tentamos ajudar parece que um ruído interno nos atrapalha. Queremos apressar o filme e chegar logo no final feliz, mas a vida real não tem um acelerador do tempo. Na prática, isso vira uma impaciência bondosa que tenta matar charadas, dar respostas e concluir o assunto. As gafes típicas podem ser:

Aconselhar: “você deveria…”

Conselho parece sempre lindo e bem ajustado, mas parte de uma suposta condição de alguém que já sabe o que é certo. O problema é que cria a impressão de hierarquia entre quem aconselha e quem é aconselhado, justamente por causa dessa imposição de perfeição.

Competir pelo sofrimento: “comigo foi até pior, nem imagina…”

Parece que contar um pouco de sua história faria a pessoa achar que é menos azarada, mas isso gera uma inferioridade sobre o sofrimento do outro, como se fosse possível haver um ranking de desgraça. Isto no fundo quer subestimar a dor do outro e reverter a posição de vítima para você. Você pode até contar sua história, mas para revelar a sua condição humana e de fragilidade.

Educar: “que aprendizado tirar dessa situação?”

As intenções deste tipo de questionamento parecem ser nobres, mas sufocam o estado de luto como se a pessoa mal tivesse vivido uma experiência emocional perturbadora e já tivesse que racionalizar tudo e suprimir uma transição emocional importante. Essa tendência de catequizar os outros não ajuda de fato, a não ser quando surge espontaneamente no meio do processo.

Consolar: “você fez o melhor que pôde”

Dizer à pessoa que ela fez o melhor possível cria a sensação de fraude, afinal na maior parte das vezes nosso sofrimento surge exatamente porque fizemos bem pouco esforço. No fundo sabemos que demos nosso pior fantasiando que seria suficiente para conquistar algo. Racionalizar uma dor não permite que ela cumpra seu papel.

Desviar o foco: “isso lembra uma história que ouvi”

Esta é uma mania dos antigos que parece desviar o foco das emoções dolorosas, como se fosse possível amenizar uma emoção de maneira sábia remetendo a alguma historinha instrutiva e nobre. Depois que a travessia foi completa pode até valer a pena lembrar algo, mas no meio do processo você estanca a emoção precipitadamente.

Encerrar o assunto: “fica bem, tá?”

Frase típica de quem entrou numa questão espinhosa sem saber que não tinha cacife para lidar. O relato embrulhou o estômago e para criar um atalho o sujeito dá tapinhas nas costas e encerra a conversa desviando da dor pela própria dificuldade de lidar com ela. Seria mais justo abrir o jogo e dizer que aquilo ainda está além do seu alcance de ajuda.

Solidarizar-se: “oh, meu deus, coitado”

É uma postura que tem o objetivo de infantilizar a pessoa, supostamente protegendo-a dos outros e das situações maldosas. Esta polarização ente vítima e algoz não ajuda efetivamente; enfraquece a pessoa diante do que precisa enfrentar.

Interrogar: “já pensou que essa pessoa não quis dizer aquilo?”

A tentativa de investigar motivações intelectuais ocultas para afastar da dor emocional parece querer ajudar, mas bloqueia uma real possibilidade de assimilação do problema. Desvia do foco e cria um ambiente de adivinhação inútil.

Explicar-se: “eu no seu lugar teria já feito…”

Se você acha que é um expert em solução, guarde para você esse tipo de fala, pois isso cria um ambiente de superioridade desnecessária. Talvez só comprove que você se cerca de pessoas problemáticas para se sentir superior a elas quando no fundo está com medo de encarar suas próprias dificuldades.

Corrigir: “você não entendeu nada do que aconteceu, está errada também”

Este é o método favorito das pessoas que adoram criar culpa nos outros. Mal a outra está lidando com aquilo e já toma bordoada de alguém que se acha o justiceiro do universo. Cuidado especial com a tendência arrogante de sua parte como ajudador.

Será que toleraríamos confortos como:

• Farei o meu melhor pra renovar o amor que sinto por você agora
• Muitas coisas indicam que será uma boa experiência para você e a empresa, ainda que ninguém possa garantir nenhum sucesso
• Agora estou ao seu lado, farei todos os esforços que estar por perto, mas muitos embates, talvez a maioria, serão seus.
• Não importa qual seja o resultado estarei ao seu lado
• Coisas ruins acontecem, não temos um escudo para nada, vamos enfrentar isso tudo
• Puxa, as vezes a gente quer um ponto final que nunca chega, seguirei com você nessa jornada

O gigantesco X da questão não é encontrar uma solução fácil, mas é simplesmente estar ao lado. Os pragmáticos perguntarão como agir. Na maior parte das vezes a melhor ação é uma não-ação; apenas uma presença apoiadora, silenciosa e acolhedora frente à coisas que não conseguimos e nem precisamos explicar. É olhar no rosto, tocar o corpo, como uma mãe que está amorosamente ao lado do filho.

Ao invés de dar consolações é melhor nossa presença, nosso olhar, nosso afago, enfim, dar uma parte de nós, sem ilusões… Suportar o choro.

Em última instância, é preciso suportar a própria dor da impotência para ajudar de verdade.

Base: não julgamento e ilusão (conforto barato), sabedoria

“Precisamos melhorar. O modo como nos tratamos e cuidamos do outro. Precisa melhorar de algum jeito.” — Clay Jensen (em "13 reasons why")
Esse é o segundo texto de uma trilogia

1.Bullying Os adolescentes estão mais perversos que antigamente?

2.Está tudo bem!

3.Os 13 personagens (uma autópsia psicológica)


Gostou do texto? Então clique no botão Recommend ( ), logo abaixo.
Fazendo isso, você ajuda esta história a ser encontrada por mais pessoas.


Para se conectar comigo clique nos links abaixo

Sobre a Vida | Facebook | Instagram | Youtube | Twitter


One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.