Superpopulação: comida e mudanças climáticas

Chegamos ao último texto da nossa série sobre Superpopulação, e ele é de certa forma especial para mim. Eu sou biólogo, mas bem cedo na minha carreira acadêmica fui levado para o “lado negro” da força: a Agronomia. Imagine: um biólogo conversando com agrônomos sobre sustentabilidade. Era um desastre.

Fiz meu mestrado, doutorado e pós-doutorado trabalhando com estratégias de produção de alimento de forma sustentável, principalmente em relação à emissão de gases do efeito estufa. Neste meio tempo trabalhei com a produção de carne bovina, soja, cana-de-açúcar e iniciei um projeto recentemente com a produção de leite. Depois de aprender sobre os sistemas de produção de alimentos, pude ter uma visão melhor de todo o processo, com um pé em cada área.

Eu poderia ficar o dia inteiro aqui digitando sobre estes dois temas, mas vamos manter o foco! Se você lembra dos nossos textos anteriores, seremos 11 bilhões de pessoas em 2100. Já disse como isso vai acontecer, onde vamos viver e que teremos grana suficiente… mas será que vai ter comida pra todo mundo? E o planeta, vai sobreviver?


Como alimentar 11 bilhões de pessoas?

Este tópico pode causar diversas discussões apaixonadas, principalmente entre vegetarianos/veganos e onívoros. Como veremos, de fato, diminuir o consumo de carne pode ajudar na solução do problema, mas só isso não é suficiente. Há uma estratégia mais fácil de ser adotada e com resultados mais significativos: diminuir o desperdício de comida.

Não estou falando isso só porque eu gosto de carne… vamos aos dados! De acordo com a FAO, hoje é produzida cerca de 670 kg de comida por pessoa no mundo, mas, quanto deste total é realmente utilizado?

Dados: FAO (2015)

Apenas 53% do que produzimos é consumido. O grande problema está no desperdício, que representa cerca de 23% do total de alimento produzido (somando o desperdício de produção/armazenamento e consumidor). Então, ao invés de ficar discutindo com o amiguinho(a) sobre vegetarianismo/veganismo, vamos tratar do problema real, e que pode ser feito por várias pessoas, sem precisar mudar os gostos pessoais.

Aqui vai um exemplo bobo, mas que é aplicável em quase todo mundo. Você deve ter pão-de-forma em casa… aquele que vem no saquinho já cortado. Sabe a primeira e a última fatia, as “tampinhas”? Aquelas menores, que ninguém quer? O que você faz com elas? Aqui em casa a Josiane Lopes gosta destas partes, mas nas minhas andanças por aí, eu nunca vi um sanduíche feito com “tampinhas”. Para onde elas vão?

Fonte: Feeding 5K (Flickr)

Aqui está a resposta. Tampinhas “comíveis” desperdiçadas porque não são “esteticamente agradáveis”. A mesma coisa acontece com batatas, bananas e muitos outros alimentos. Não fazemos isso apenas com os vegetais e frutas, mas também com os animais: fígados, rins e os famosos “miúdos”, perfeitamente “comíveis” também são desperdiçados, renegados pelas partes mais “nobres”.

Veja bem, algum desperdício é inevitável… eu não sou tão idealista assim, mas podemos reduzir muito o desperdício e só com aqueles 23% já seria possível alimentar quase 11 bilhões de pessoas.

Aliás, nós já produzimos mais do que o suficiente para os atuais 7 bilhões. Pensando bem, esta é uma história de sucesso da nossa espécie. Imagine aquele nosso ancestral nômade, que vivia na maioria da vezes com fome, caçando comida por aí e mal andava ereto, entrando em um supermercado hoje. Há cerca de 10 mil anos desenvolvemos a agricultura e hoje produzimos como nunca. Mesmo com maior produção e menor desperdício, ainda pode haver fome. A fome é causada pela pobreza e a desigualdade, não pela escassez.

Outra opção são os trangênicos. Antes de você sair por aí gritando que eu fui comprado pela Monsanto, leia este texto aqui.

Mas o que nós temos de reconhecer é que estamos alcançando os limites ecológicos que o nosso planeta pode suportar. É aí que entra o outro lado da nossa conversa: as mudanças climáticas.


Pense globalmente, aja localmente

Eu já falei um algumas vezes sobre mudanças climáticas no Medium, desde a controvérsia (ou não), a estratégia negacionista e até o Acordo de Paris. O mínimo divisor comum destes textos é exatamente o “mote” ali em cima.

Algo que tem que ser colocado em perspectiva é a contribuição de cada um na emissão de gases. As emissões de um cidadão dos EUA hoje são equivalentes a quatro chineses, 30 paquistaneses, 40 nigerianos ou 250 etíopes. Uma mulher na Etiópia rural pode ter dez filhos e, no improvável cenario de que essas dez crianças vivam até a idade adulta e tenham dez filhos, o clã inteiro, com mais de cem indivíduos, ainda emitira menos dióxido de carbono do que um eleitor de Donald Trump. O grande foco neste momento deve ser trabalhar em alternativas para que os grandes emissores possam diminuir seu impacto.

O que os “ricos” podem fazer?

Mudanças climáticas são um problema, e eu acho que quem vai resolver isso somos nós mesmos criando novas tecnologias e mudando o nosso comportamento.

Neste texto eu já falei do Elon Musk e seus carros e telhas elétricas, além da possibilidade do uso de energias alternativas, como solar e eólica. Outra opção a ser considerada para nos livrarmos do petróleo é (não saia correndo ainda) a energia nuclear, que é a mais “limpa” de todas.

Sempre que se fala em novas tecnologias parece ser algo que vai acontecer em um futuro utópico, mas preste atenção: a partir de 2040 o Reino Unido vai banir as vendas de carros movidos a diesel e gasolina. Além disso, ainda lá na terra da Rainha, já está sendo testada uma estrada que recarrega a bateria dos carros elétricos. Em uma faixa especial haverá fios elétricos enterrados sob a estrada gerando campos eletromagnéticos que são capturados por uma bobina dentro do veículo e convertidos em eletricidade. Na Suécia já há uma “estrada elétrica”, mas ela funciona com cabos, no estilo bondinho antigo.


Unindo o útil ao agradável

Há uma série de relações intrincadas quando falamos em produção de alimentos e mudança climática, e quando você puxa um fio, pode alterar alguma coisa lá no meio do novelo. Quer ver alguns exemplos?

Diminuir o desperdício de comida pode aliviar a pressão na produção, o que evita o desmatamento e o uso de fertilizantes para aumentar a produtividade, que são fontes importantes de gases de efeito estufa.
Comprar e comer aquilo que é produzido na sua região pode diminuir o transporte de alimentos vindos de outras regiões, o que também diminui a emissão de gases pela queima de combustíveis fósseis. Além disso, diminui o desperdício causado durante o transporte. Já ficou atrás de um caminhão carregado de soja?
Aumentar a produtividade da produção de carne (maior produção em menor área) gera o chamado “efeito poupa-terra”, liberando área para outros fins. Esta área que “sobra” pode ser utilizada para a produção de grãos para os animais, ou mesmo para reflorestamento, o que pode ajudar no sequestro de carbono.

Estes são alguns dos exemplos mais “óbvios”. A Costa Rica tem uma meta de ser o primeiro país carbono neutro no mundo. Veja bem, neutro não é livre. A idéia é não aumentar a emissão atual e obter novas estratégias para produzir mais emitindo menos. Várias ações, como os exemplos citados, estão sendo feitas por produtores de café, cana-de-açúcar, banana, leite e carne.

É exatamente isso que eu faço todo dia: procurar estratégias para uma produção de alimento com pouco impacto na mudança climática. Lembra do novo projeto sobre produção de leite que eu havia comentado lá no início do texto? Pois ele é na Costa Rica, e meu objetivo é contribuir para que esta meta tão audaciosa seja atingida.


Conclusão

Algumas pessoas tem medo do futuro… outras preferem nem pensar sobre o assunto. Nesta série de textos eu me propus a analisar alguns tópicos importantes e “prever” o que acontecerá em breve. Talvez os que leram todos os textos vão me chamar de otimista, mas eu sou mesmo um “possibilista”.

Nesta série eu usei muitos dados e gráficos do Gapminder, uma plataforma de visualização de dados criado pelo estatístico Hans Rosling. Ele costumava dizer:

“Poucas pessoas apreciam música apenas ao olhar para uma partitura. Para a maioria, é preciso que alguém “traduza” aquelas notas em música. A minha ideia é passar de números para informações, e de informações para conhecimento.”
O homem que transforama estatística em música para os meus ouvidos.

Espero que você tenha gostado de ler tanto quanto eu gostei de escrever esta série. Também espero que eu tenha cumprido a missão de Hans, trazendo números, que se transformam em informações e conhecimento para todos.


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