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        <title><![CDATA[Construtor - Medium]]></title>
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            <title>Construtor - Medium</title>
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            <title><![CDATA[Submissão]]></title>
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            <dc:creator><![CDATA[Glauber Cruz]]></dc:creator>
            <pubDate>Tue, 09 Feb 2021 22:34:44 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2021-02-09T22:34:44.761Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*48RdseHRCDwbFRo5lIijPQ.jpeg" /><figcaption>arte de Marcelo Casarotto</figcaption></figure><p>Quando ele expôs a carne sob a roupa, eu senti aquela sensação quente na boca do estômago. O cálcio que mantinha a minha estrutura óssea dona de si começou a derreter e eu cambaleei, sustentando todo meu peso sobre a rótula dos meus joelhos. Todo aquele peso, que se equilibrava sobre meus ombros… todo aquele peso, que pendia das minhas orelhas. Todo aquele peso….</p><p>Ele, por sua vez, tinha o próprio peso todo em pé, diante de mim. Aquela carne de tônus elástico, salpicada por um castanho escuro, fechado em pêlos. As suas mãos eram articulações que ora pareciam ameaçadoras — com aquelas ranhuras na forma de veias — ora pareciam receptivas — naquele fluxo lento dos seus movimentos, suaves, poderiam até ser delicados. Quando a ponta daqueles dedos se afundou nas raízes dos crespos sobre a minha nuca, pressionando minha cabeça para dentro dele, me afoguei numa dúvida terrível entre o medo e a vontade; a fuga e a permanência; a vergonha e a revelação. E ali, no meio da sala escura e refrescada pela noite tépida, senti vontade de engolir cada pedaço daquele corpo em pé diante de mim. A primeira de três.</p><p>Chupei ele de um jeito alarmado, apertando suas coxas com força — a carne ficando vermelha sob meus dedos — e respirando os seus pêlos profundamente. Tudo para me certificar de que aquela noite era real, de que ele era real. Seu nome no Grindr era menino deus, e o encadeamento da sua descrição — a justaposição de letras, sílabas e palavras — ecoava ainda na minha memória, como se ele mesmo baixasse todo o peso de sua carne para falar, ao pé do meu ouvido, respirando sobre o meu lóbulo, montando entre a língua, os dentes e os lábios, cada pedaço daquelas palavras.<em> </em>vst atv dot. curto mamar e ser mamado e comer. curtição sem neuras e com discrição. Senti aquilo se movimentar em mim como um aspirador de pó ao contrário. Toda a sujeira espalhada pelo assoalho de mim, escondida pelos cantos das minhas vontades e depositada sobre a superfície das minhas ações, se esparramou por todos os lados. Havia algo de vulcânico na vontade que eu tinha de engolir sua porra, algo vindo daquele pó em circulação. Quando ele gozou com a pressão da minha boca, me percebi mais uma vez ciente dos meus ossos e da rigidez do meu tônus. Eu estava de certa forma aliviado. Gostei. Queria mais.</p><p>Voltando para casa, enquanto a negrura do céu sobre a minha cabeça começava a se abrir — o dia à espreita — pensei na possibilidade de uma outra foda com ele. Mas ele sumiu. Por dias voltei ao perfil dele no Grindr pra ver se ele tinha estado por ali. Eu pensava numa sala de recepção: paredes escuras, poucas ou nenhuma entrada de luz. Me via ali, de cabeça baixa, esperando alguma porta abrir, algum barulho romper o silêncio. Mas nada. <em>Online 3 horas atrás. Online 12 horas atrás. Online dois dias atrás. Offline.</em></p><p>Quando ele começou a se dissolver nas fantasias das minhas masturbações, que eu via projetadas nas paredes do quarto escuro à noite, decidi mandar uma mensagem. Foi aquela vontade de rompimento, de cruzar as fronteiras, quem digitou as palavras. Não respondeu. Não era incomum aqueles peitos definidos e sem cabeça não responderem às minhas mensagens. Mas o silêncio dele — quinze minutos depois, duas horas depois, três dias depois — foi especialmente frustrante.</p><p>Me vi ali, agarrado pela vontade de atravessar os limites, exposto àqueles olhares. Então chiou na minha cabeça e no meu pau — principalmente no meu pau — aquela sensação efervescente. Aquele ácido que se espalhava pelas fronteiras das minhas vontades, coisas que eu não podia falar em voz alta, envolvidas por envelopes de um negrume intenso que impedia aqueles olhos de visualizarem. E eles estavam atentos, o tempo todo. Eu tinha de esconder tudo, o tempo todo. E devia correr, o tempo todo.</p><p>E eu corri. No vácuo do silêncio dele, fui ainda mais rápido. Circulei pela vizinhança espalhada no <em>touchscreen </em>sob meus dedos, vi as opções, me senti quente e agitado. Mas daquele jeito diferente, deslocado do fluxo natural do estado das coisas, algo como um coma induzido. O Grindr pareceu ainda mais hostil que o natural. Eu circulava por ruas vazias, dobrando em esquinas onde aqueles olhos procuravam ferozmente qualquer indício de erro, qualquer movimento torto. Parei na Getúlio com a Ganzo. <em>pass rabão</em>. E aí? blz? Online, mas sem resposta. O <em>A fim</em> tinha o pau grande, a berinjela dizia tudo ao lado do <em>user</em>. A sua descrição me deixava quente, e vezes ou outra deixava a minha boca agitada de salivação. <em>Se não aguenta nem chama.</em> Senti aquela vontade se esgueirando, vazando, aquele chiado… O <em>Leia </em>também estava pelos arredores — Visconde de Herval? Botafogo? — Eu li. <em>Sem rosto nítido, sem resposta. Ah tenham mais transparência, vocês não vão conseguir levar o fake…</em> Cara chato, vai pra porra. O <em>bi pica grossa </em>não tinha nenhuma informação além da altura (1,70m) e da posição (versátil ativo), e esse vazio me atiçava, coçava a minha glande e pressionava, junto com meus dedos, o corpo todo do meu sexo. Acabei abrindo o perfil do <em>PassivoBranco</em>, que estava sempre <em>online</em> mas cujas dimensões (baixa a atarracada) e idade (30) não me atraíam. Ele mostrava o rosto — colado numa cabeça redonda de orelhas afastadas — e também os seus interesses (conversa, amigos, agora). Lembro de tê-lo visto um dia, no Zaffari. Não sei se ele percebeu que eu era o <em>Sam</em>, 25 anos, 1,72 de altura, negro, ativo, HIV negativo, em busca de amizades, encontros, conversa e agora. Mas eu percebi que ele era ele, e ao lembrar daquela manhã até consegui tornar mais rígido o músculo que centralizava meu corpo. Dae, blz? blz e aí? também? fala de onde? menino deus e tu? também. a fim de real? sim. vamo?</p><p>E fomos, num movimento mecânico, um roteiro enxuto. Ele se ajoelhou e eu enfiei meu pau lá no fundo da garganta dele, para que ele engolisse a mim por inteiro. Engoliu, chegando no extremo, a bile incentivada a voltar. Me senti pesado, todos os músculos do corpo rígidos, maiores. Eu poderia pegar ele pela cintura a manipulá-lo como uma massa disforme. Mas quando fui no fundo do íntimo dele, fazendo escapar por entre os seus dentes um gemido quente e elástico, o percebi concreto, pulsante. Nesses momentos eu costumava a diminuir, todo o meu peso perdia a potência, voltava a ser magro, mediano. Gozei murcho, perguntando o porquê daquilo tudo. Mas aí lembrava que eles olhavam, sempre à espreita, sempre atentos. Mas fiquei aliviado, pois sabia que ali, naquele momento, eu não estava torto. Quebrado. Desviado. Cheguei em casa e tomei um banho quente, a água fervendo, a minha pele fosca ficando rosada. Dormi sem roupa sob o olhar atento deles, que não dormiam nunca.</p><p>No dia seguinte fui pro trabalho, fazendo o ritual que eu fazia todos os dias: olhar os homens que cruzavam meu caminho, que sentavam perto de mim no ônibus, admirando como eles conseguiam manter as roupas perfeitamente alinhadas, o cheiro deliciosamente marcado, as barbas milimetricamente aparadas. Observava o pedaço de carne exposto sob o cós da calça de meus colegas, o naco de braço abaixo das mangas curtas. Olhos e boca. Pescoço e nariz. Fazia o mesmo na volta pra casa. No silêncio dos meus pensamentos eles me empurravam para os cantos, forçavam a minha mão pra dentro de suas calças, me afogavam em seu perfume.</p><p>Chegava em casa prensado entre os muros do cansaço como se tivesse corrido o dia todo. A cabeça doía — pesada. Naqueles momentos eu costumava me jogar na cama e, de janelas fechadas, me confinava numa solitária de tesão. A mão sobre o pau, o corpo descansando, as extremidades formigando, a excitação dançando sobre meus pelos.</p><p>Num absoluto silêncio, lentamente, para não chamar a atenção daqueles olhares, eu tirava a roupa. Tirar o cinto era sempre um martírio discreto. O couro comia com dentes curtos a minha pele. Abria o Grindr, sentindo meu pau ficar duro e aquela vontade de ultrapassar um limite que eu queria ultrapassar- mas não podia. <em>Se não aguenta nem chama. </em>Ali, no escuro, a minha mão deslizava — meus olhos fechados, bem fechados — pela minha barriga, virilha, chegando lentamente àquele espaço quente e imerso em intimidade. Eles olhavam — censores. E ali eu ficava, no escuro, pensando naqueles corpos riscados, pensando no que pensariam ao saber que eu pensava em corpos riscados.</p><p>Depois daqueles momentos, eu sempre tomava banho. Sentir as linhas em carne viva na cintura ferverem em calor me dava a sensação de expurgar aquilo tudo de mim, mesmo que eu não soubesse ao certo o que era <em>aquilo</em>. Saía, me secava e excluía o Grindr.</p><p>O exílio do <em>app </em>não durava muito. Volta e meia eu retornava pra ele, percorrendo as ruas vizinhas, pensando nos corpos daqueles que estavam ali — disponíveis, ao alcance do dedo. Um dia, depois de ficar horas e mais horas naquele fluxo de sobe e desce, quando as cervejas que eu tomava começavam já a esquentar na garrafa ao lado do sofá, chegou uma mensagem. Aquele corpo de fato existia, aquele peso de fato se fazia presente. menino deus perguntando se eu pilhava real mais uma vez. Senti uma sensação de confusão na barriga e na cabeça, como se o teor alcoólico de tudo fosse acionado. Se a excitação costumava me despertar no meio da madrugada, como um despertador natural, ali me senti potencialmente sonolento. O meu cálcio escorria, derretido, ao mesmo tempo que se solidificava, para acabar derretendo mais uma vez, e assim me firmei sobre meus dois pés, sentindo a excitação que saía do meio das minhas pernas se espalhar por todo o corpo. Respondi na hora. <em>sim, bora</em>.</p><p>Quando levantei do sofá, o mundo girou ao meu redor. Mas de um jeito tranquilo, como um carrossel em <em>slow motion</em> — eu poderia descer e caminhar ao lado dele com a mão sobre a cabeça dos cavalos. Eram 3h25 quando saí para a noite, ainda alcoolizado. Era como se no processo do meu derretimento interno, a cerveja se misturasse aos meus ossos. Ali, enquanto avançava pela rua vazia e sepulcralmente silenciosa, ele fazia parte de mim. Atravessei a Getúlio, dobrei na Ganzo; escura de perigo, até os seus paralelepípedos pareciam ter sumido. As árvores eram um borrão de sombras e mais sombras. E eles ali, no meio delas, me espiando afiados, censores. Fui pelo meio da rua, longe deles e das árvores, que pareciam ser os limites da noite, as fronteiras do perigo. Atravessei a Mucio, que se esticava vazia à direita e à esquerda, iluminada pelos semáforos que organizavam o tráfego vazio. A Ganzo seguiu, mais escura, até que dobrei na Vicente. A Estado de Israel estava sinistra em seu silêncio. Àquela altura, o álcool do meu cálcio começava a se dissipar, acompanhando o acelerar dos meus batimentos, que se aproximaram dos limites do estouro enquanto esperava ele baixar as escadas ali parado no escuro da Peri. A segunda de três.</p><p>Eles, os batimentos, não pararam em agitação, mesmo quando já estava abrigado mais uma vez no meio da sala dele. Agora era o nervosismo de estar ali, com ele, mais uma vez, encarado por aqueles olhos dele — cintilavam de malícia e de uma vontade de fazer coisas sujas que as pessoas não fazem às vistas das outras. E ali, naquele universo dele, aqueles olhos outros eram míopes, ou alienados pela catarata ou mesmo cegos. E os meus ossos, derretidos-solidificados, faziam eu me sentir gelatinoso por dentro. Eu queria descer, mas não podia. Não podia mesmo? Será que eu não queria? As perguntas e suas respostas escorriam no fluxo dos líquidos que mudavam à medida que a madrugada avançava. No suor que cintilava sob a meia luz da luminária a um canto da sala; na porra que ele derramou em mim e eu no chão; na água que escorria do chuveiro enquanto ele lavava o corpo.</p><p>Algo tornava tudo elástico, espichando ao máximo a sensação de vontade, de toque das extremidades, de perfuração da carne. Eu queria engolir o corpo dele, a curva do peito sob os mamilos, o planalto de suas coxas, a sua barriga; queria que ele me engolisse, tomasse para si todo o meu peso, todos os meus pelos e tudo mais o que quisesse. Havia alguma coisa diferente nele — talvez na ponta daqueles dedos longos — que me dava vontade de perfurar aqueles olhos que me olhavam sempre — censores. Algo ali, no universo dele, me dava uma ânsia urgente em me desprender, arrebentar o couro — com os dentes se necessário — gritar. Quando ele saiu do banho, o olhei e em silêncio. Os olhos cintilaram mais uma vez. <em>Aqueles</em> olhos — <em>dele </em>— me deixavam confortável. <em>Aqueles</em> olhos — <em>dele </em>— eu queria encarar.</p><p>Continuamos.</p><p>E ali, naquela caverna da nossa intimidade, na umidade do suor, da porra e da vontade, com o pau dele dentro da minha boca, senti correndo pelo meu sangue a vontade de dar pra ele toda a extensão do que havia de mais secreto e inexplorado em mim. Mas sentia também aquela pressão que ameaçava tampar meus ouvidos, que me puxava de volta — para cima, rijo, em pé. Pareciam se materializar ali — intrusos — aqueles olhos. Quando flexionei os joelhos para pôr o meu peso sobre eles e sobre os meus cotovelos, cedendo à vontade, à tensão, ao tesão, foi aquela pressão nos ouvidos que, como uma cãibra, me paralisou. Erro e culpa. Num ouvido o erro, no outro a culpa, e as linhas de vermelho discretamente vivo da minha cintura pareciam arder como se tivessem sido expostas a álcool. Me perguntei, enquanto erguia o meu peso diante da enormidade dele, se a cerveja estava vazando por ali. Havia um tensionamento que me espichava, como numa queda de braços. Não sabia se ficava em pé, ou se ficava de joelhos, se abria ou se fechava os olhos, se me submetia ou não. No fim, ele gozou novamente — no meu rosto e no meu peito, e eu mais uma vez naquele chão que parecia ser o repouso de tudo, inclusive de mim.</p><p>Paramos. Ficamos um tempo em silêncio, jogados no sofá, sujos de porra. O sono começou a subir pelas paredes até que cobriu a gente. E como que invisível àqueles olhos, percebi que sim, eu queria. Queria entregar tudo a ele, queria romper aquela parede que ergueram — não sei quem — ao meu redor. Tive certeza quando andei por aquele apartamento, à procura do banheiro. A porra seca puxava os pelos da minha barriga com um vigor tímido, rachando aos poucos enquanto eu andava. Pairava distraído no ar aquele cheiro de gente, um misto de suor com esperma. Mas havia ali, principalmente, o cheiro asseado dele, um cheiro quase cítrico de tão limpo, que parecia se grudar em tudo, ao mesmo tempo que emanava de tudo. Ele ressonava baixinho, enquanto eu circulava pelo apartamento depois de mijar, estudando a sua organização, a sua prosperidade, o seu cuidado, aquele universo limpo de um jovem homem bonito, que tinha um pau gostoso de pegar, uma boca gostosa de beijar.</p><p>Sentei no sofá cheirando a ponta dos meus dedos de unhas cortadas até o limite de quase não existirem, sentindo aquele cheiro que era o cheiro dele, e sentindo aquela vergonha que descia amarga pela garganta como o café que tomei quando cheguei em casa. Não foi ele quem depositou em mim a vontade de dar meu corpo. Mas com ele aquela vontade se tornava febril, trêmula; ela estava presente, arrepiando tudo, invadindo cada pedaço de mim. Com ele eu <em>queria </em>tanto estar ao chão, e às vezes ficava tonto, confundindo aquilo com uma necessidade.</p><p>E à medida que os dias foram passando, e aquela (segunda) noite começou a se perder na esteira dos dias, percebi que aquilo era, de fato, uma necessidade. E manusear essa certeza aguçava ainda mais aqueles olhares, cutucando ainda mais aquela vergonha. Desviado. Torto. As paredes erguidas envoltas do meu eu pareciam cada vez mais altas — como escalar? — e as minhas vontades pareciam desafiar ainda mais rebeldes aqueles olhos, queriam com mais avidez perfurar aquele muro. Passei a sentir mais vontade de todos os que cruzavam o meu caminho, que subiam no ônibus, que pedalavam ao meu lado. Eu me sentia mobilizado — tesão e tensão — , dedicando horas e minutos a deslizar o polegar sobre os troncos sem cabeça, as berinjelas e os pêssegos, as setas para cima e para baixo do Grindr. Naqueles dias me atrasei para o trabalho, e também me masturbei no trabalho. Naqueles dias, encarei de maneira fixa e persistente o volume de cada calça, de cada short que cruzava por mim. Naqueles dias também senti mais ardente a sensação de que estava sendo olhado com os cantos dos olhos. Naqueles dias eu peguei uma faca e perfurei o meu cinto, de maneira que meus jeans e minhas cuecas mordiam com uma ferocidade ainda maior a carne da minha cintura.</p><p>Eu estava febril. Um calor que crepitava por dentro, resguardado por uma espessa placa de vergonha, de julgamento, que queimava sempre que cogitava a possibilidade de me submeter, de me ajoelhar, de me apoiar sobre os cotovelos e dar a minha intimidade para alguém, de sentir aquele cheiro de gente, de corpo, de noite, de rua, de sujeira, que levantava dos poros toda vez que os fluidos se fundiam, que os órgãos se chocavam, que os corpos se penetravam.</p><p>Puxei o cinto mais um pouco e fiz outro furo mais além. Sentia aquilo me pressionar de maneira pesada, marcante. E aquela pressão, que parecia ser uma mão apertando um personagem de desenho animado, os olhos esbugalhados em sua explosão, me deixava com uma necessidade enrijecida de provar, sabe-se lá para quem — para todos, para mim, para aqueles olhos invisíveis que me encaravam — a posição correta, a forma não tão feia de fazer as coisas. Erguido sobre os pés, equilibrando o peso do corpo sobre eles, com olhos longe do chão, e tronco firme, rijo, mecânico, potente, ativo. Metedor, fudedor, leitador.</p><p>Passei a ir com mais frequência ao banheiro, onde no silêncio do box eu afrouxava o cinto e sentia minhas pernas afrouxarem junto. As linhas dos meus quadris estavam mais fundas e queimavam o tempo todo, e quando eu chegava naquele apartamento, que parecia tão vazio de tudo — inclusive de mim -, quedava no marasmo, no cansaço, no ranço próprio. Num sábado vi a noite cair sobre o quarto e a espessura do tesão recair sobre mim, recaído sobre a cama, recaída naquele quarto. Tentei, em vão, procurar uma resposta para aquela coisa que parecia turva diante da naturalidade, que parecia torta diante da normalidade. Aquela vontade de sujar os dedos, a língua, os mamilos. Fui tomar banho — me sentia principalmente sujo, como se minhas articulações ficassem rijas de cascões, rachadas de poeira incrustada. A água quente preenchia a carne viva das linhas na minha cintura. A água queimava, mas a sensação invisível do crepitar não ultrapassava o limite da violência corrosiva do calor. E ali no box eu me senti murcho, derretendo nos azulejos, escorrendo ralo abaixo.</p><p>Saí do banheiro quando a água quente já não era tão quente e as linhas dos meus quadris não latejavam — eram então uma dor insistente. O apartamento era só sombras e pairava em mim aquela vontade de ceder, me desarmar, de baixar a guarda, me desnudar de tudo. E foi isso que me empurrou rua afora, no meio da noite. Foi isso que me fez caminhar pelos paralelepípedos escuros da Ganzo. Foi isso que me fez atravessar a Estado de Israel, foi isso que me levou de volta ao Jordão, mesmo que não tivesse sido convidado. Apertei o interfone na noite quieta e ouvi a voz dele questionando quem era aquele visitante não convidado, consumido pela vontade, pela culpa, pela vergonha. Ele estranhou. Quem? Então me tornei o Sam do Grindr. A vergonha ali estourou, num ápice violento, uma coisa agitada, violenta. Mas eu repeti. <em>Samuel, do Grindr.</em> Nunca tinha notado que meu nome saía daquele jeito, meio soprado. <em>Sssssamuel</em>. Nunca tinha notado o embalo da língua e dos lábios. <em>Sammmuuueeeelll</em>. Ali no escuro da rua, ele pareceu bonito, pareceu rodopiar pelo silêncio da noite de forma livre, solto de amarras, livre do couro dos cintos. O <em>u </em>em queda livre quase se chocando no chão; o <em>e</em> num voo raso, raspando o chão, salvando a minha existência, a minha nomenclatura. E por fim o <em>l</em>, perene, estável em linha reta, solto pela noite, interrompido apenas pelo sinal da porta do Jordão sendo aberta. O breve e robótico que anunciava o rosto dele. Aquele belo rosto. A terceira de três.</p><p>Nossos silêncios subiram as escadas quase de mãos dadas. Ele me ofereceu uma cerveja quando passamos a soleira da porta. Senti o líquido amargo e gelado me escapar garganta abaixo. Queria que meus joelhos cedessem ao meu peso, e eles cederam. Queria que a minha vergonha cedesse à vontade, que aqueles olhares censores ficassem cegos e me dessem um descanso. Quando senti o peso do meu corpo se esvaindo perna abaixo, me percebi mais maleável, ondulado como meu nome, o ápice do <em>a</em>, a queda conjunta do <em>m </em>e do <em>u</em>, a estabilidade do <em>e</em> a linha reta, fechada, contínua e perene do <em>l</em>. Agarrei as coxas dele, e mergulhei na sua carne, naquele cheiro profundo de intimidade grudado em cada costura de sua cueca. A carne dele ganhava vida no tronco arfante, nos pelos arrepiados, na pau que ficava duro. E me senti no ímpeto de engoli-lo todo com o meu corpo. Meus dedos afundaram em suas coxas e na sua bunda, senti o fluxo sanguíneo daquele pau cheirando a gente, cheirando a ele, em jatos fortes sobre a minha língua. Abri meu cinto e senti um peso se afastar, levado pelas águas do Jordão. Eu estava quente. Não somente por aquele calor que subia da gente, mas pela sensação de estar me dissolvendo, por perceber que aqueles olhos me olhavam cada vez mais cegos.</p><p>Quando tive a certeza de que queria todo o corpo dele, a sensação de calor foi tão intensa que tudo se amenizou. Brasas que crepitavam sobre nossas peles. Ali, me tornei só vontade e dei tudo para ele. Da minha carne à minha voz, do meu cu aos meus olhos, das minhas mãos ao meu coração. No espaço silencioso do seu mundo, nos sujamos. Senti a porra escorrendo pelas minhas coxas, pelo meu peito e também pela minha boca. Dei pra ele ali e no seu quarto e no banho. E quando o dia começou a se esgueirar no céu enquanto ele dormia ao meu lado, tomei um banho naquela água morna em jato forte do seu chuveiro. Coloquei seus chinelos, a camiseta solta com suor incrustado nas axilas e o short que ele vestia quando subimos as escadas em silêncio, o short que tirei dele para chupá-lo, o short que mordi quando ele me comeu, quando abri pela primeira vez a minha intimidade para sentir prazer, vontade, dor e alívio. Tudo menos vergonha. Eu poderia sustentar meu peso sobre os joelhos e os cotovelos, de quatro para ele, por muito tempo e mais um pouco. Mas ali, com aquele short que se firmava suavemente na minha cintura, eu só queria andar.</p><p>Saí. Atravessei a Estado de Israel e caminhei pela Visconde de Herval. Cheguei à Getúlio, mas não queria voltar para casa, não naquele frescor da manhã que se abria, não com aquele short leve de tudo. Segui adiante, acompanhando a linha das palmeiras enfileiradas no silêncio da avenida, andando pela noite que virava dia num progresso inevitável, impossível de parar. O primeiro 177 do dia passou vazio por mim, o letreiro borrado de sono. Quando alcancei o encontro entre a Getúlio e a José de Alencar, onde as palmeiras acabam e a Praça Menino Deus observa toda a extensão da avenida, no coração do bairro, me senti confortável por não estar sendo observado por aqueles olhos — censores. Sentei na praça vazia, de costas para a igreja modernista e olhei o vazio daquele lugar, daquelas ruas, daquelas palmeiras, um universo de homens em silêncio, de suores escondidos, de gemidos inaudíveis, de submissões inaceitáveis. Pensei no pau dele e na extensão de sua carne; no asseio de sua existência, na sua porra, quente na minha língua. Senti meu próprio pau endurecer. As linhas em carne viva do meu quadril não ardiam. Ali, na noite que não era mais noite, mas sim um tímido dia, elas não latejavam. Cicatrizavam no frescor e no silêncio do Menino Deus.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=9ee418c5a22b" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/construtor/submiss%C3%A3o-9ee418c5a22b">Submissão</a> was originally published in <a href="https://medium.com/construtor">Construtor</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Torta de bolachinha]]></title>
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            <category><![CDATA[literatura]]></category>
            <category><![CDATA[família]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Glauber Cruz]]></dc:creator>
            <pubDate>Mon, 03 Aug 2020 17:59:35 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-08-04T13:42:52.281Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*-uHgp7cPIH1OlPxmAym55Q.png" /><figcaption>arte de Marcelo Casarotto</figcaption></figure><p>A estrada parecia não ter fim.</p><p>Quase que derretida pelo calor do sol, que abafava o mundo no alto do céu de uma manhã sem nuvens, ela se espichava na direção do horizonte, se torcendo em curvas fechadas aqui e ali, sempre exalando um bafo gelatinoso que dava sensação de que tudo estava mais lento. Era a única coisa que Nico conseguia ver ali, no confinamento do banco traseiro do Fusca, sob a guarda dos cotovelos de Tio Alberto e Tio Albrantino, cada qual com seus 1,98m de altura. O calor lhe deixava com os olhos pesados, como se estivesse acordando de uma sesta depois do almoço.</p><p>Era um dia amarelo de tão quente, de um janeiro em que o sol pareceu mais próximo do chão. Mesmo o vento que invadia o carro pelas janelas tinha algo de sufocante, como se estivessem todos com a cabeça na boca do fogão enquanto Tia Tide assava bolo de milho. Quando saíram de casa de manhã bem cedo, por insistência de Tio Vilmar que odiava esperar, o calor já esquentava as paredes da casa. Nico acordou com a movimentação dos tios pela casa, fazendo os preparativos da viagem, cada um estalando a língua dentro de suas bocas tornadas inevitavelmente murchas pelos escorrer do tempo.</p><p>Saíram quando os ponteiros dos relógio recém tinham passado das 8h, sob os resmungos de Tio Vilmar no volante, logo silenciados pelos olhares de sua irmã mais velha, Tia Tide, que ocupava o banco do carona com uma toalha no ombro que de tempos em tempos ela passava na testa e no pescoço. Com um rosto reluzente de suor e firme em sua negrura, livre de rugas mais profundas que acusassem os seus 74 anos de vida, segundo as lendas familiares ela lançava aqueles olhares de reprovação desde que nascera. Silenciosos, afiados e definitivos, eles instauraram dentro do Fusca, durante todo o trajeto, o mais absoluto silêncio.</p><p>Passaram por estradas de terra que eram mais pedras do que terra; se balançaram em pontes suicidas de madeira sobre fiapos de riachos; desceram e subiram morros e passaram por campos tão grandes que se esticavam, empanados por aquele calor, até o horizonte. Tio Vilmar dirigia com muita atenção e todos ocupantes do Fusca sabiam que ele estava mais preocupado em relembrar com clareza os seus tempos de motorista do que de fato chegar no ponto final da viagem. Mesmo assim, chegaram.</p><p>As águas do rio corriam sob uma ponte alta, erguida em pedras já carcomidas pelo tempo. Uma ponte tão antiga que se Tio Vilmar e Tia Tide somassem as suas idades, ainda sobraria espaço para colocar a idade de Tio Alberto e Tio Albrantino, cada um com seus 42 anos, e os 12 anos de Nico para igualar a idade da estrutura. Tio Vilmar estacionou o Fusca sob a sombra de árvores que se erguiam firmes aos pés de um barranco pelo qual desciam aquelas gentes todas em seus carros velhos, com as suas toalhas de mesa e seus isopores com latas de cerveja. O rio não era, pelo menos ali, aquela traço de violência que Tia Tide dizia ser, e que levara, ao longo dos tempos, dezenas de vidas correnteza abaixo. Ali, ele marulhava de maneira tranquila, com uma porção de gente esparramada à beira da areia, ou dando saltos de cabeça na espuma da correnteza. Algumas mães gritavam para os filhos cuidarem as pedras, enquanto outras preparavam o chimarrão sentadas à beira d’água. Aqui e ali as pessoas mergulhavam e voltavam à superfície, sentindo o prazer da ausência daquele bafo opressivo, daquela gelatina invisível que pairava no ar e tornava tudo mais espesso, sonolento e preguiçoso.</p><p>Eles retiraram do carro as sacolas trançadas que Tia Tide usava para ir ao mercado, ocupadas por potes com sanduíches embalados em papel alumínio. Seguiram pela beira da praia, desviando dos grupos que faziam churrasco, davam gaitadas, brigavam entre si. Entraram no mato, seguindo a trilha que era tão funda que parecia existir desde sempre e que fazia curvas fechadas sob galhos de árvores que se agarravam perfeitamente em forma de arco. Vez ou outra eles topavam com algumas famílias que riam do calor amarelo ali, na frescura verde, ao som daquele <em>tchibum</em> das pessoas sendo engolidas pela água em algum lugar do rio próximo dali. Era um estranho cortejo aquele: ágeis para a idade e em roupas leves e desbotadas pelo sol de tantos verões, Tio Vilmar e Tia Tide iam na frente. Nico, miúdo demais para uma criança de doze anos, ia logo atrás. Por último, como sempre, Tio Alberto e Tio Albrantino, com as roupas idênticas, a calvície idêntica, a pele escura idêntica, a vida idêntica.</p><p>Serpentearam o matagal até encontrar o rio novamente. Avançaram pela beira d’água até chegarem em um trecho onde a solidão fazia companhia ao som de uma queda d’água mansa. O último suspiro da lentidão daquele dia amarelo de tão modorrento. As águas do rio eram escuras, pois o fundo era recheado de pedras ameaçadoras cobertas de limo. Ainda assim, aqui e ali era possível vislumbrar alguns peixes cintilando entre uma pedra e outra. Por alguns instantes, eles apenas quedaram numa contemplação silenciosa daquelas águas que iam sem voltar num fluxo contínuo e tranquilo, até que Tia Tide bateu uma palma e despertou a todos. Eles sabiam que quando Tia Tide batia uma palma, alguma providência deveria ser tomada, pois daquele exército capenga de homens velhos, solteirões ou acometidos pela infância, ela era a comandante.</p><p>Ninguém notava, mas aquela situação a deixava tensa, fazendo com que uma insolente ruga de preocupação teimasse em riscar a sua pele maciçamente negra, no canto esquerdo da boca. Era assim que ela ficava quando tinha que fazer coisas difíceis. Há muitos anos, quando a boca de Tia Tide ainda era envolta por lábios carnudos de um rosa que contrastava com aquela pele que parecia ainda mais reluzente, aquela mesma ruga tensionara lábio, boca e maxilar quando ela negou o amor de Edmundo. Ele tinha os ombros um tanto quanto caídos, uma pinta no pescoço, a pele escura como a dela e os olhos tristes como o feriado de Finados. Era dono de uma beleza assustadoramente simples que se instalou involuntariamente no fundo do coração de Tina, a irmã mais nova de Tia Tide. Sabendo que aquilo fazia com que a irmã fosse fisgada por pontadas nas costas, derretesse em dias de febre e chorasse noites a fio, pedindo pelo fim da vida, Tia Tide então abriu mão daquele amor, daqueles ombros caídos e daqueles olhos tristes. Fechou-se para Edmundo e armou um engenhoso esquema que envolvia ele, a irmã, encontros, desencontros e, por fim, a paixão de um pelo outro. Abriu mão do sentimento que a fazia sorrir naqueles dias tão distantes sem saber que seria a primeira coisa de muitas outras que abriria mão ao longo da vida.</p><p>A irmã e Edmundo casaram e, alguns muitos anos depois, tiveram uma filha, Ângela, que anos depois, ao se aventurar com um rapaz de riso largo e fácil apesar da voz potente e do supercílio cerrado, teria um filho, Nico. O guri ali, na beira do rio, não tinha nenhum traço do pai, ou da mãe, ou da vó. Era um retrato rejuvenescido do seu avô Edmundo, emergido do poço sem fundo da memória e de um passado empoeirado e arrependido.</p><p>“Vamos fazer isso logo” ela sentenciou.</p><p>Tio Alberto e Tio Albrantino se olharam, enquanto Tio Vilmar limpou a garganta com um pigarro. Retirou de uma das sacolas a urna que Tia Tide enrolara naquela toalha muito antiga, toda puída, com um desbotado que era o desbotado do desbotado, florida por ramos em linha verde que Tina fizera quando ela completara vinte anos — não queria que a urna ficasse à vista do guri.</p><p>Tia Tide pegou a urna das mãos do irmão com os dedos firmes e compridos em calos que por anos e anos seguraram as paredes de toda a estrutura familiar. Retirou os chinelos e, com a ajuda de Tio Vilmar, tateou com os pés esbranquiçados de garrões levemente rachados as pedras envoltas em limo. Com a água gelada alcançando as canelas, ela abriu a urna num movimento rápido, como se o conteúdo fosse escapar assim que a tampa fosse retirada. Mas não havia vento, e cinzas humanas não tinham pés. Enterrara pai, mãe, irmãos, primos e sobrinhos. Aquele ritual era diferente, mas ainda assim era um enterro.</p><p>Em instantes, ela colocou os pais de Nico de volta a nadar naquele rio de águas escuras e pedras limosas, no meio dos peixes pequenos e cintilantes, da mesma maneira que eles fizeram quando se conheceram em um longínquo verão amarelo de tão quente; e depois quando começaram a namorar; e depois quando se amaram pela primeira vez; e depois quando entraram para um apartamento com quarto, sala, cozinha e banheiro; e depois quando conceberam Nico. O pó logo sumiu na espuma da correnteza, se escondendo sob as pedras ou então rodopiando pelo ar até alcançar o bafo amarelo daquela tarde de verão.</p><p>Quando Tia Tide tampou a urna novamente, todos soltaram o fôlego e olharam de soslaio para o guri, que fitava o rio e as cinzas e os peixes com aqueles olhos tristes que herdara do avô. Tio Vilmar sentia tanto dó. Lembrava muito bem do dia em que seus pais faleceram. Ela, de um fulminante ataque no coração, numa manobra comandada pelo tempo e pela idade. Ele, dias depois, de um fulminante ataque de solidão, sem saber como se portar num mundo sem a existência da mulher que sempre amara. Foram os piores dias da vida de Vilmar, tão ruins que ele só voltaria a viver uma tristeza como aquela vinte anos depois, quando os caminhos da cidade através da qual ele circulava como motorista de ônibus começaram a ser pouco a pouco corroídos pelo esquecimento e pelo medo do esquecimento. Nem conseguia imaginar como estava o coração daquele menino, tão pequeno que ele nem cogitava em lhe chamar por Nicolas, seu verdadeiro nome.</p><p>Tia Tide devolveu a urna vazia para Tio Vilmar. Bateu a sua palma e então eles começaram a movimentação de montar ali mesmo o acampamento que consistia em uma toalha, nos potes com sanduíches, algumas almofadas e garrafas de suco de melancia meio congelado, meio derretido. Puseram-se a comer ali, na beira d’água, ouvindo o som da algazarra das famílias próximas, da correnteza tranquila do rio, dos biquinhos insolentes, das lembranças de todos e de cada um. Nico mastigava seu sanduíche devagar, para sentir por mais tempo o gosto daquele queijo que tinha um sabor específico entre o gostoso e o enjoativo e que fazia com que seus pais viessem à memória de uma maneira mais vívida. Era como se estivessem ali, cada um mastigando o sanduíche da Tia Tide, que eles tanto amavam e falavam que era o melhor sanduíche do mundo.</p><p>Quando engoliu o último pedaço, se aproximou das águas, sob um alerta de Tia Tide de que as pedras eram escorregadias demais. O menino sentou em uma pedra e quedou na contemplação dos próprios pés que, imersos até a canela, ficavam disformes com o dançar das águas. Os peixinhos começaram a rodear seus pés e mordiscá-los com um carinho tranquilo. Pareciam dizer, enquanto cintilavam dentro d’água, que tudo ficaria bem.</p><p>Quando Tia Tide retirou do fundo da última sacola trançada ainda fechada aquele prato oval de vidro recheado com a torta de bolachinha que Tio Vilmar aprendeu a fazer aos dezesseis anos — que validava o discurso dele de que fazia doces melhor do que a irmã mais velha, e que o deixava feliz por ser uma coisa que ele não esquecia como fazer — os peixinhos já tinham se afastado dos pés de Nico e o menino ainda tinha os olhos baixos de tristeza, porém sem a opacidade da certeza de não ter mais ninguém naquele mundo.</p><p>Anos depois, ao comer a última garfada da primeira torta de bolachinha que ele mesmo preparara, rodeado pela bagunça da mudança para aquele que seria seu primeiro apartamento próprio, Nicolas lembraria que, no final das contas, ele que acabaria por cuidar daquele exército de tios desajustados e não o contrário. Lembraria também da torta de bolachinha que começaram a comer quando Tio Alberto deixou o mundo e que ainda não estaria terminada quando, perdido naquele mundo sem o irmão gêmeo, Tio Albrantino seguiria pelo mesmo caminho. Lembraria ainda da torta de bolachinha deliciosa, mas sem aquele toque doce lá no fundo da língua, que Tia Tide preparou quando Tio Vilmar faleceu, engolido pelo Alzheimer, meses antes de Nicolas se formar em Psicologia. Lembraria, por fim, daqueles dias silenciosos mas felizes ao lado de Tia Tide, depois que os outros tios todos silenciaram para sempre e, claro, do dia em que ela fechou os olhos para esse mundo, não sem antes lembrar cada uma das viagens ao Balneário da Insolação, que eles tomaram como hábito fazer sempre que os dias ficavam amarelos de tão quentes. Riu ao pensar que, assim como os pais, os tios, e todos mais que um dia amou, um dia seria ele o motivo para que todos comessem uma gostosa torta de bolachinha.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=1aee745fa808" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/construtor/torta-de-bolachinha-1aee745fa808">Torta de bolachinha</a> was originally published in <a href="https://medium.com/construtor">Construtor</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Formigas]]></title>
            <link>https://medium.com/construtor/formigas-f1f282a20e48?source=rss----bcf2c9cff651---4</link>
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            <category><![CDATA[literatura-negra]]></category>
            <category><![CDATA[literatura-brasileira]]></category>
            <category><![CDATA[contos]]></category>
            <category><![CDATA[literatura]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Glauber Cruz]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 15 May 2020 19:00:01 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-05-19T20:15:04.097Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*V_LhpN6kfrek32u6u-IkNg.jpeg" /></figure><p><strong><em>Alerta de gatilho! O conto a seguir aborda assuntos como depressão e suicídio, que pode ser gatilho para algumas pessoas.</em></strong></p><p>As formigas começaram a mastigar a minha cabeça pelas beiradas.</p><p>Elas eram a única coisa que eu lembrava daqueles dias embaçados que passei no hospital. Dias que pareciam dilatados, lentos de tão espessos, marcados pela sensação das pequenas patinhas caminhando pelos meus braços, pelas minhas pernas, pelo meu rosto. Às vezes eu sentia aquela cócega perturbada enquanto elas se enfiavam dentro das minhas narinas ou saíam dos meus ouvidos.</p><p>Quando despertei de fato e passei a sentir com um pouco mais de consciência a dor quente no lado esquerdo da minha cabeça, quando consegui mover com mais força os lábios e a minha língua, a primeira coisa que comentei com a moça de branco que me atendia foi que aquele lugar estava infestado de formigas iguais àquela que caminhava pela minha canela naquele exato momento. Assustada, ela me disse que não havia formiga nenhuma ali, o que não parecia verdade, pois elas estavam por todos os lados. No chão, nas paredes, no teto.</p><p>Eu continuei a vê-las depois que os dias começaram a passar mais rápido, desprovidos da paralisia dos analgésicos, e no momento em que abandonei o hospital, ciente de que em algum momento da vida um ônibus havia arrebentado o lado esquerdo da minha cabeça, transformando, segundo as testemunhas, meu supercílio em uma massa disforme e quente de sangue. Quando escovava os dentes, eu as via deslizar sobre suas patinhas na direção do ralo, depois de caírem dos meus cabelos; quando tomava banho, seus corpos encharcados ficavam presos em bolhas de sabão e tufos de cabelo; quando colocava meus tênis, sempre os sacudia primeiro para me certificar de que não havia nenhuma escondida no sufoco escuro das palmilhas. Não adiantava muito, pois sempre restava uma ou até mesmo duas esmigalhadas sob o meu peso, restos em manchas nas meias. Precisava cuidar até os pratos de comida que comia, pois elas gostavam de mergulhos quentes no caldo do feijão ou da prisão pastosa no grude do arroz que aquela mulher cujos cabelos tinham raízes brancas preparava ao meio-dia. Estavam no fundo dos copos de suco de laranja que eu tomava, nas muitas caixinhas de remédios que eu passei a engolir, nos fundilhos das cuecas que eu vestia. Estavam em mim.</p><p>As pessoas que me rodeavam passaram a perceber, algum tempo depois que saí daquele quarto de hospital, quando eu as enxergava. Meu olhar ficava fixo sobre elas, tentando não perdê-las de vista, imaginando o seu trajeto, tentando entender de onde vinham, para onde iam. Mas elas tropeçavam umas nas outras, se chocavam e se separavam, e tão logo eu já não sabia se estava perseguindo aquela que caminhava pela mesa afora ou aquela que entrava na manga da minha camisa. E eles me olhavam, perguntando em silêncio o que havia comigo, delimitando, nos seus olhares debochados e irritados, o meu <em>antes </em>e o meu <em>depois </em>do ônibus. Falavam, como se eu não estivesse ali, que <em>antes</em> eu era aquela coisa ensimesmada, quieta no meu próprio universo de timidez, mas ainda assim viva, com ar entrando e saindo dos pulmões. <em>Depois</em>, eu virei aquela coisa com um tônus frágil, com um andar cansado, temendo cada passo, cada porta e cada esquina. Um olhar perdido e distante, potencializado em seu vazio pelo meu silêncio absoluto.</p><p>Para mim, não havia um <em>antes</em>. Eu não lembrava de nada do que acontecera antes do tal ônibus. Quando acordei naquele universo delimitado pelas duas cortinas encardidas ao redor da maca do hospital, me perguntei como havia parado ali. Alguns estalos pipocavam na minha cabeça, como um fio de energia em curto circuito. Rastros de coisas há muito passadas, que iam e vinham, para voltar mais uma vez. Eu sabia que sabia falar, e tinha a noção de que havia aprendido a andar, por exemplo. Mas não sabia quem havia segurado meus pulsos me protegendo do tombo dos primeiros passos, tampouco quem apontara para as letras que juntas formavam as minhas primeiras sílabas e palavras.</p><p>Aquelas pessoas todas que me rodeavam, que me acompanharam no hospital, que me acomodaram naquele quarto cheio de cartazes de times de futebol, eu não sabia quem eram. Não havia conversa que fizesse eu ter a certeza de que aquela mulher que fazia um arroz embolotado era minha mãe; também não havia fotos ou qualquer outro tipo de registro que pelo menos raspasse as minha memória e me fizesse lembrar que aqueles homens que moravam nas casas ao lado daquela que eu estava eram meus tios, e não meus irmãos, ou meus pais, ou seja lá o que fosse. Não havia nada também que me fizesse enxergar aquela casa como <em>minha</em> casa. Nenhum cheiro, nenhum raio de sol, nenhuma parede, nenhuma tomada estragada. O curioso era que elas, as formigas, andavam aos montes por lá. Se nos outros lugares que eu ia, sempre acompanhado por alguém que eu não sabia quem era, as via perdidas, uma cá outra acolá, naquela casa elas andavam em linhas que se espalhavam pelo chão, para cima e para baixo, caindo de tudo e sobre tudo.</p><p>“Tá louco”, um dia disse aquele homem que diziam que era meu tio e que tinha um tufo ralo de cabelo grisalho na cabeça para um outro que eu não sabia quem era pois nunca me disseram. Eu estava olhando aquela linha de formigas que entrava pela porta da sala e sumia debaixo do tapete vermelho cheio de pó. “Bem tantã”, ele prosseguiu, girando o dedo de apontar em volta da orelha. Ele riu e eu não entendi como deveria me sentir. Só fiquei olhando pra ele, tentando puxar de algum canto da minha cabeça quem ele era, até ele arremessar um pouco de erva-mate na minha direção e mandar eu sair, com um som esquisito escapando pela boca. <em>“Sshiisp”</em>.</p><p>Virou rotina as pessoas arremessarem coisas na minha direção. Eles achavam que as coisas na minha cabeça não duravam muito tempo e elas realmente esmaeciam facilmente. Mas algumas coisas ficavam, muitas delas daquelas coisas feitas em silêncio, caretas esquisitas, os beliscões, e mesmo os tapas no rosto, vindos das mãos daqueles meninos que tinham o meu tamanho e o rosto próximo do meu, que diziam que eram meus primos. Normalmente o faziam quando a mulher que preparava aquele arroz empaçocado não estava presente, mas pareciam ainda mais excitados quando ela estava e o faziam por suas costas. Eu não entendia muito bem, no fim das contas. E pensar demais, tentar entender demais, fazia com que minha cabeça doesse e que as coisas se dissolvessem ainda mais rapidamente, sopradas por um vento qualquer, vindo de lugar nenhum.</p><p>Não raramente eles juntavam todos dentro daquela casa, colocavam mesas pelo pátio, e as pessoas começavam a chegar de todos os lados, falando alto, rindo alto, fazendo tudo muito alto. A minha cabeça doía e as formigas pareciam mais agitadas, pareciam duplicar, triplicar em quantidade e se enfiavam por tudo em mim, me dando coceira e eu me coçava e o outros me olhavam. Alguns tinham os olhos tortos, outros os olhos de troça, a mulher que fazia o arroz empaçocado os olhos indecisos, algo entre a raiva, a pena e a tristeza. Por isso que eu preferia ir pra aquela peça com cartazes de times de futebol na parede, onde ficam só eu e elas, as formigas, dedilhando o rosto imóvel e desbotado dos jogadores daqueles times antigos.</p><p>Numa noite em que a casa estava cheia de luzes e gente, com mesas cheias de comidas e uma ave assada toda picotada no meio de um prato redondo sobre a mesa, eu estava naquela peça, escondido das risadas e do dedo apontado por aquele homem que tinha uma barriga enorme e redonda, que não largava o copo e tinha os olhos vermelhos como sangue, quando os meninos que tinham a minha altura entraram porta adentro. Estavam acompanhados de mais um monte de meninos e meninas, quase todas do mesmo tamanho, com olhares esquisitos, debochados e amedrontados.</p><p>“E se ela chegar?”, perguntou uma menina, que costumava aparecer por lá só nesses momentos em que a casa enchia de gente.</p><p>“Foda-se, a mãe xinga ela” disse um dos meninos que tinha a minha altura. “E ele nem vai lembrar nada mesmo.”</p><p>“É real que ele esquece tudo?”, perguntou um outro menino, com o cabelo muito preto apertado numas tranças curtas e com ferros enfiados nos dentes. Eu nunca tinha visto ele, pelo menos antes de esquecer tudo.</p><p>“É. É um babão”, disse o menino da minha altura que estava à frente de todos os outros. Eles formavam um círculo pela metade à minha volta, um círculo de deboche, curiosidade e medo, e eu me perguntava como sabia diferenciar o brilho naqueles olhos, como sabia quais eram de uma sensação e não de outra.</p><p>“E o pau dele? Será que sabe usar?”, perguntou um outro menino um pouco menor, com o pescoço mais cheio, separado em dobrinhas.</p><p>“Ele não usava mesmo, usava só a parte de trás. Não é Pedro?”, disse uma menina muito magra, com o cabelo espichado ao máximo em um coque perfeito. Os outros riram.</p><p>“Cala a boca, guria”, disse um menino também muito magro, o único que não sorriu.</p><p>“Bom, a gente pode testar”, disse o menino da minha altura, avançando na minha direção. Um brilho cintilou nos olhos dele e eu soube exatamente que o raio daquele brilho e a forma como ele tremulava sob a luz do quarto era um brilho de deboche. Um deboche que se deliciava em si mesmo, um deboche orgulhoso de si mesmo, que queria aparecer. Por isso brilhava daquele jeito.</p><p>Quando a mão dele agarrou o meio das minhas pernas, não senti aquela agitação que eu costumava sentir quando acordava, mas sim um medo muito profundo, acionado em segundos. Afastei a mão dele com um tapa.</p><p>“Parece que ele esqueceu que gosta dessas coisas”, disse a menina magra com o coque perfeito.</p><p>Todos riram, e os olhos do menino que tinha minha altura pareceu cintilar ainda mais, fazendo-o avançar. E ele avançou, rápido demais, tão rápido que nem tive tempo de perceber as formigas que se agitavam ao redor dos meus pés, subindo pelas minhas pernas. Num instante ele estava ali, no outro já estava me segurando pelas costas, me deixando imóvel diante daqueles olhares que cintilavam. Prazer. Os tapas e os beliscões e os chutes que ele e o menino que era parecido com ele me davam não estavam concretos na parede das minhas lembranças, mas eu sabia que aquele momento estava sendo diferente. O medo que eu sentia, e que agitava as formigas em mim, me fazia ter certeza disso. Principalmente quando aquela menina avançou, com o punho fechado, com um brilho cheio de vontade cintilando nos olhos. O menino segurava meus braços muito forte, e quando as formigas começaram a mordiscar, em sincronia, cada pedaço das minhas pernas, o desespero se alastrou em mim e eu comecei a me debater. Uma dança feia, fora de sincronia, que divertiu todos eles. Me sacudi, e quando ela socou a minha barriga, me deixando sem ar e agitando ainda mais as formigas, eu me sacudi tão forte, girei a cabeça tão forte, que ela bateu no rosto do menino que tinha a mesma altura que eu. Doeu muito e mais uma vez a minha cabeça ficou quente e pesada, parecia que estava estalando, rachando lentamente.</p><p>“AaAh”, o menino gritou e a menina do coque perfeito arregalou os olhos, assustada. As formigas haviam fugido, e de repente me senti terrivelmente sozinho. Precisava correr, e corri. Joguei a menina com o coque perfeito pra longe do meu caminho, para cima dos outros. Senti minha mão se debruçar, aberta, sobre o lado do rosto dela e tudo pareceu ficar em silêncio. Eu não ouvia mais as vozes de toda aquela gente, nem a música alta e mesmo as luzes pareceram mais fracas. Corri daquela peça e entrei na primeira porta que apareceu na minha frente, a porta do banheiro. Mas quando fui fechá-la, algo me impediu, uma força que a empurrava. O menino que tinha a minha altura surgiu, seguidos dos outros todos, e tentava entrar no banheiro; ele tinha o nariz e a boca manchados de sangue; a pele, que era de um marrom escuro, igual ao meu, parecia toda vermelha. Não foi difícil para ele abrir a porta, e quando eu vi já estava no chão, com aquele olhar dele cintilando sobre mim. Agora era um brilho de fúria. Ele socou o meu rosto com tanta força que eu pude ouvir o <em>crack</em> de alguma coisa que eu não sabia o que era, mas que doeu, deixando minha cabeça ainda mais pesada e mais quente.</p><p>Houve uma confusão, palavras que se enrolavam umas nas outras, e vultos que eu não conseguia divisar por causa da tontura que pegou a minha cabeça e começou a chacoalhar com força e velocidade. Eu não conseguia me levantar, era como se um outro ônibus tivesse me arrebentado novamente.</p><p>“Esse filh… da puta, quebro… meu narish”, o menino que tinha a minha altura e que ali parecia ser o vulto que era enorme diante de mim, gritava, as palavras estavam encharcadas, esguichavam da boca dele.</p><p>“Vou sair daqui!”, alguém que eu não sabia quem era gritou. Então começou uma confusão de pés batendo numa só direção, alguns tropeçaram em mim e a porta foi batida com tanta força que o som foi quase como uma outra pancada.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*6AFFkIGziJinWVicDcDbnw.jpeg" /></figure><p>A minha cabeça parecia uma peça móvel, que girava em torno de articulações enferrujadas. Doía tanto que eu comecei a chorar. E aquilo, aquele estranho ato de chorar, que pareceu tão natural naqueles dias de ações mecânicas, ajudou a afastar lentamente toda a dor daquele momento. Aos poucos a minha cabeça parou de ranger e girar. E quando o som daquela gente que fazia tudo muito alto voltou a soar nos meus ouvidos, elas reapareceram. Trafegando pelo rejunte entre os azulejos, saindo do vaso sanitário, entrando pela basculante e aquela uma, no teto, exatamente na linha dos meus olhos, que mesmo minúscula, parecia nitidamente desequilibrada ao andar pelo mundo de ponta-cabeça. Acompanhei ela por uns instantes e quando pensei que, enfim, talvez pudesse ver para onde elas iam, ou de onde vinham, ela perdeu a força nas patinhas minúsculas e caiu. Um corpo minúsculo em queda livre que encontrou no escuro da minha boca entreaberta um refúgio quente e improvável.</p><p>Ela tinha gosto de ferro quando derreteu, esperneando, na minha saliva. Mas não um ferro qualquer, mas sim ferro de sangue. Talvez por isso eu tenha sentido ela pulsar na minha boca, morrendo sobre a minha língua. Tão logo ela sumiu, aquele calor na cabeça começou a amornar, até virar uma baforada leve que até gostosa parecia. Tão logo o seu corpo deixou de existir, o rosto de meu primo veio à cabeça. O som da rua, das pessoas e da noite, chegou aos meus ouvidos quando eu me dei conta que sabia que aquele menino que tinha a minha altura era meu primo. Tive a noção da proximidade dos nossos traços e também da distância dos nossos traços, e entendi cada beliscão, cada soco, cada xingamento que ele proferia e entendi também o brilho daqueles olhos, que brilhavam desde muito tempo, muito antes das formigas e dos ônibus e dos crânios arrebentados.</p><p>Eu permaneci no chão do banheiro durante mais alguns minutos, com a cabeça morna, até que uma histeria se instalou na voz de todos, principalmente daquela mulher de cabelo muito curto, que gritava para o pátio inteiro, perguntando onde eu estava e me acusando de tirar o sangue daquele menino da minha altura que era meu primo e daquela menina com o coque perfeito, que também era minha prima. Percebi aquilo quando apertei entre os dentes a formiga que subia pelo meu cotovelo. A minha cabeça permaneceu morna naquela noite, e também no dia seguinte, quando as pessoas já haviam ido embora e meu primo não sangrava mais. Nos dias que sucederam aquela noite, ninguém mais esperava a mulher que fazia arroz embolotado virar as costas para que pudesse me xingar ou jogar coisas. Havia não só uma displicência com a minha condição carcomida como também um prazer em me punir. Fosse pelo nariz sangrando do meu primo, fosse por simplesmente estar daquele jeito. Foi em um daqueles dias que a mulher que fazia arroz embolotado me disse para ficar dentro do quarto, junto dos jogadores de futebol desbotados, e não sair até que ela mandasse.</p><p>No vai-e-vem das formigas, que subiam pelas cobertas, rodeavam meus pés, rodeavam as pilhas de objetos jogados sobre as prateleiras daquela peça, eu não vi o tempo passar. Elas pareciam mais tranquilas e parecia fazer muito sentido oferecer meus dedos para que elas subissem, rumo ao derretimento da minha saliva. Quando as luzes caíram pela primeira vez dentro daquele quarto, o gosto delas já era doce. Não <em>doce </em>como aquele doce de abóboras desmanchadas que a mulher que fazia arroz embolotado preparava, mas sim <em>doce</em> como a ideia do doce: algo que estabiliza a pulsão de dor que as coisas carregavam em si. Foi com o sabor doce das formigas que aos poucos fui entendendo tudo e mais um pouco, sob o olhar estático dos jogadores de futebol. Àquela altura, elas já caminhavam de maneira mais organizada. Eu conseguia entender como elas iam e voltavam e se apurasse o ouvido, poderia ouvir o que uma cochichava à outra quando se chocavam. Vi que elas subiam pela prateleira velha, penetravam nos sulcos da madeira para saírem da orelha de um dos cartazes na parede do outro lado do quarto, de onde iam para baixo da cama para depois circundar, em zigue-zague, a janela.</p><p>Em cada pedaço desse trajeto eu as colhia. Algumas cediam facilmente, com aquela doçura enferrujada e com uma sensação de quentura na cabeça. Outras fugiam agitadas e eram essas, mais difíceis de pegar e às vezes até mais graúdas, que faziam a minha cabeça coçar e me faziam entender ainda mais. Com aquele gosto que era muito doce ao mesmo tempo que ácido, eu entendia os detalhes, os sons, os espaços, as luzes, as sombras, as pessoas.</p><p>Quando a porta daquela peça foi aberta, meu primo já não sangrava mais, tinha apenas uma tímida mancha roxa no rosto e eu já conseguia identificar no olhar de cada um daqueles que me olhava, exatamente o que eles queriam dizer ou estavam pensando, que eram as coisas que eles sempre pensaram ou estavam sempre querendo dizer durante todos os meus dias sob aquele céu. <em>Céu </em>foi como eu chamei aquela coisa que eu não lembrava o nome de maneira alguma, mas que era longa e cheia de coisas que, pouco a pouco, eu ia lembrando. Como um tecido, agora todo retalhado, sobre o qual eu ia sendo costurado.</p><p>Já elas, as formigas, pareciam sumir aos poucos. E eu comecei a cogitar a possibilidade de estar, de fato, comendo todas elas. Tanto que à medida que iam desaparecendo iam perdendo aquele gosto doce e ficando mais arredias, esparsas no desespero de sua extinção. Quando eu comecei a procurá-las e não vê-las por todos os lados, o seu gosto começou a ficar ácido e a perturbação de suas patinhas começou a me incomodar de tal forma que eu desisti de apenas derretê-las na umidade da minha língua. Passei a pressioná-las entre os dentes, mordiscando-as fatalmente para sentir aquela coceira dentro da cabeça.</p><p>Quando aquele céu de todas as coisas parecia muito nítido, de maneira que eu sentia que poderia tocá-las, revirá-las, vê-las, repeti-las, catalogá-las, eu me senti estranho. Era como reencontrar uma pessoa que há muito tempo eu não via, com o adicional de um potencial questionamento de si próprio. <em>Eu sou assim?</em> Quando eu reconhecia uma pessoa, sentia uma coceira esquisita na boca do estômago acompanhando a coceira dentro da cabeça: era como se eu folheasse a pessoa, conhecendo ela num primeiro momento; num segundo momento, eu estudava o rastro dela naquele céu; num terceiro momento, sentindo cada sensação de forma quase mecânica, eu <em>entendia </em>a pessoa, o que ela significava e como se apresentava naquele céu. Se era nuvens num dia de sol, se era a palidez de gelo da névoa, se era o cinza pesado dos dias chuvosos. Fiz isso por algum tempo, sempre com aquela sensação de que faltava algo, uma unidade, algo como a força que grudava grão de arroz com grão de arroz quando aquela mulher jogava os grãos na panela, e misturava com o óleo, que espirrava em som pela cozinha, sendo abafado pelo mergulhar da água na panela e pela fumaça levemente branca que levantava e enchia o ar. Era daquela mulher, que eu ainda não entendia quem era, que parecia vir a falta de relação entre as coisas e o próprio desagregamento daquela gente, primos e tios, filhos e filhas, que vivia naquela casa e voava naquele meu céu.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*_FqBHjjorkOo9R7ker3a5g.jpeg" /></figure><p>Até que um dia, quando as formigas não perambulavam por mais nada, eu vi a última delas, perdida na distância do seu formigueiro invisível, à procura talvez de um sentido, de uma nuvem naquele céu. Ela surgiu dentro do meu prato de comida. Tinha as patinhas sujas de arroz quando levei o garfo à boca. Era graúda, muito maior que as tantas outras que haviam sumido, de maneira que desfilava com tranquilidade na pastosidade daquele arroz. A encarei por muito tempo, enquanto ela circulava pelo prato, margeando o caldo de feijão, e se enfiando entre os arbustos dos brócolis ainda fumegantes, recém saídos da água quente.</p><p>Eles, que estavam ali mastigando ruidosamente e comentando sobre as coisas que vislumbravam em seus céus particulares ao redor de mim na mesa, não me encaravam. Mesmo que eu lembrasse já quem era cada uma daquelas pessoas, permaneci naquele estado atônito, deliciando a falta de crença que elas nutriam por mim. Eu podia ficar dias e dias e mais alguns dias apenas observando as formigas, já que eles me tratavam como alguém sem pedaços, como alguém não-digno de qualquer outra coisa além do desprezo explícito ou do desprezo disfarçado de pena.</p><p>Ela permanecia ali, perambulando por aquele pequeno continente que era o meu prato de comida. Tinha um tom esquisito, algo como um cinza grafite, aquele cinza fechado dos dias de chuva. Diferente das suas tantas outras irmãs, a formiga caminhou na direção das minhas mãos, muito consciente da minha existência, do meu ser e do meu estar. Havia algo de diferente nela, algo que nada tinha a ver com o seu tamanho ou sua cor. Quando ela alcançou o meu indicador e ali estática ficou, eu sabia que as coisas se aproximavam umas das outras. Senti que estava prestes a entender.</p><p>O gosto dela era tão ácido que por instantes achei que a minha língua estava queimando. Lágrimas brotaram do canto dos olhos. Ele tinha a textura de um grão e me senti mastigando um feijão cru quando meus dentes romperam aquela pequena dureza. Foi como se a minha saliva se solidificasse e tive a sensação de que se baixasse a cabeça com a boca aberta, areia sairia pelos meus lábios. Experimentei, mas antes que qualquer grão de areia pudesse deslizar pelos meus dentes, as coisas se agregaram. As lacunas vazias se preencheram com uma substância grossa, como aquele caldo de feijão, então tudo pareceu limpo e estável, sem nenhuma ranhura, uma parede lisa, como o céu da minha boca, pelo qual eu passava a língua quando ouvi o som dele, aquela máquina ruidosa, cheia de articulações, cheia de gente, que parecia mais viva do que eu.</p><p>O ônibus eu vi com o canto dos olhos e, sob aquele céu, que era cinza grafite, cheio de nuvens de um dia de chuva, eu tive de decidir, em milésimos, se eu daria continuação àquilo. Na época, eu chamava de vida. Percebi que é mais interessante chamar de céu. O veículo veio e eu estava de certa forma tranquilo. Já estava decidido, já era tempo. Sobre a minha cabeça, o semáforo piscava: saía do vermelho e ia para o verde. Então o tempo pareceu parar. Partículas de pó giravam ao meu redor, como uma corda que se arrebenta, pouco a pouco, sob um feixe de sol. Quando o som do ônibus engoliu meus pensamentos, eu fui em frente e o impacto veio de imediato. Ainda assim, consegui dividir a aquela fração de segundo em partes, duas partes tão concretas que eu podia senti-las, de fato, no corpo. Primeiro a rachadura: o lado esquerdo do crânio parcialmente partido em linhas que pareciam uma teia de aranha. <em>Crack!</em> Gosto de pensar na minha cabeça como um pedaço de vidro. Depois, o espatifamento, quando eu fui arremessado para longe, com um braço quebrado e uma perna quase que desconectada. O som reverberou pelo que restava da minha cabeça e era como se mil espelhos quebrassem ao mesmo tempo. O que eu vi, na fatia pequena de segundo que ainda enxerguei, estranhamente acordado depois do impacto, foi aquela infinidade de cacos de vidro minúsculos, que se mexiam sob patinhas, por todos os lados, ao redor do meu corpo inerte.</p><p>Eu ainda tinha a língua no céu da boca quando aquela lágrima escorreu pelo meu olho. De repente eu entendi que não queria lembrar daquilo, não queria entender nada daquilo, que nada ao meu redor era capaz de acionar qualquer pulsão de vida. <em>Vida</em>. No momento em que a sinaleira deixou de ser vermelha e ficou verde, eu entendi que não queria mais a minha. As coisas estavam difíceis naquele céu de incompreensão e hostilidade. Sob ele, o horror parecia tão banal, disfarçado por trás das coisas todas. Só ela, com aquele olhar fervorosamente carinhoso, com aquele arroz todo embolotado, era capaz de fechar a mão em meu rosto e me impedir de aspirar a toxicidade do ar que circulava ali. Eu tentei não pensar nela quando as luzes do semáforo mudaram, quando o som do ônibus chegou no pé dos meus ouvidos. E quando as formigas vieram na minha direção, talvez eu tenha me sentido aliviado por não ter mais ela dentro daquele crânio espatifado. Os seus olhos tristes… eu não queria ver. Há muito, eram o calor e a vivacidade que saía deles que me permitia respirar.</p><p>Quando a noite caiu naquele dia em que entendi tudo, eu deitei na cama do quarto e por horas esperei que elas viessem, caminhando pelos meus membros, circundando os meus cabelos crespos, presas na cera dos meus ouvidos ou no muco do meu nariz. Procurei-as nas meias e nos tênis, nos ralos e nos copos, no chão e no teto. Se foram todas as minhas esperanças de que aquele céu pudesse ser mais bonito de se olhar. Mas eu olhava pra cima e via muitas nuvens de um cinza grafite que me deixava assustado. Veio então, com a luz do dia, a mesma certeza que veio com a luz do semáforo. Lembrei daqueles produtos sob a pia da cozinha, que eles usavam naquela casa para matar as pragas. As baratas, os ratos, as formigas e as gentes que eles não queriam ter por perto. A lata era fria e a sua tampa tinha ferrugem, de maneira que meus dentes se arrepiaram quando ela se abriu, liberando aquele cheiro forte de coisa velha e guardada. Granulados rosas, como balas, enchiam o recipiente. Fechei os olhos e torci para que fossem doces como formigas.</p><p>Tampei a lata quase vazia e a recoloquei no lugar. O sol lambia morno o rosto imóvel dos jogadores de futebol na parede quando deitei na cama, sentindo o formigamento que começava na boca do meu estômago e estrangulava, de pouco em pouco, o fio da minha respiração. Meu tronco pesava tanto que eu senti afundar no colchão. Fechei os olhos quando uma lama quente espirrou dentro de mim. O som que eu fiz eu não ouvi, porque eu só conseguia ouvir a mastigação ruidosa delas quando começaram a mastigar a minha cabeça pelas beiradas.</p><p><em>As ilustrações deste conto foram feitas pelo desenhista Marcelo Casarotto.</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=f1f282a20e48" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/construtor/formigas-f1f282a20e48">Formigas</a> was originally published in <a href="https://medium.com/construtor">Construtor</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[O dia que durou uma vida]]></title>
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            <category><![CDATA[ensino-público]]></category>
            <category><![CDATA[universidade]]></category>
            <category><![CDATA[crônicas]]></category>
            <category><![CDATA[cotas-raciais]]></category>
            <category><![CDATA[jornalismo]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Glauber Cruz]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 13 Feb 2020 20:54:41 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2020-02-14T15:33:57.712Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*Ejc1IcHHq9kFwZ9dsqJSag.jpeg" /><figcaption>foto de Vinícius Guerra</figcaption></figure><p>No dia 27 de janeiro de 2020 eu me formei jornalista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul.</p><p>Foi uma segunda-feira surtada aquela. O dia começou aberto, com um frescor de outono. Porém, à medida que as horas passaram, o calor veio, puxando pelas mãos uma massa de nuvens pesadas e escuras que acabaram por derreter numa chuva de verão que pareceu durar uma eternidade. Naquele dia eu me encharquei duas vezes, e quando saí apressado para me togar, deixei a mãe avisada: se estiver chovendo na hora que tu e o Mano saírem, leva um guarda-chuva. No Uber, comecei o trabalho de aceitar que o álbum de fotos da minha formatura seria recheado de fotos com guarda-chuvas.</p><p>No fim, a chuva parou. Subiu das poças d’água e do asfalto aquele bafo que Porto Alegre adora, aquele calor que esquenta a cara e faz suar as axilas. E depois de muita espera, de quatro anos de curso, de muitas fotos, de “Olho de Tigre” do Djonga, de um discurso como orador e de um violinista que não entendi muito bem porque estava ali, eu me formei.</p><p>Glauber Cruz, um jornalista.</p><p>Aquele 27 de janeiro foi lindo, e eu consigo lembrar de cada recorte de minuto que, junto de outros tantos, formaram aquelas 24h. A definição perfeita e certeira do adjetivo <em>inesquecível.</em></p><p>Mas aquela segunda-feira fresca — chuvosa — abafada não começou nela mesma. Ela começou há muito tempo, quando a década de 90 ainda engatinhava, quando eu mesmo ainda engatinhava. Começou quando éramos minha mãe, Sônia, e eu, numa vida assim, como tantas outras. Uma mulher — que é negra — e um filho. Subtraia a figura de um pai. Neste caso, subtraia a figura de Renato, o homem que também me pôs nesse mundo, mas que não fez muita questão de me ver crescendo nesse mundo. Portanto, no início do 27 de janeiro eram minha mãe e eu: era o empenho dela em passar o dia fora para que eu pudesse existir no mundo; era aquela vontade dela de provar que o mundo estava enganado, e que ela e eu daríamos certo; era o amor que sempre foi presente, cru, genuíno, à maneira dela, à maneira que foi ensinada. Era tudo isso e ela e eu. Éramos nós dois nesse mundo. Primeiro em Alegrete, onde nasci. Depois em Porto Alegre, onde cresci por três anos da minha infância.</p><p>Nas primeiras horas do dia 27 de janeiro, eu e minha mãe subíamos a rua Tocantins, no bairro Agronomia, próximo ao Campus do Vale, para ir para a casa que eu carinhosamente chamava de “casinha”. Naquela época, a rua Tocantins não era asfaltada e eu lembro até hoje do pó que subia ao céu noventista quando os carros passavam por ela. No trajeto entre a Tocantins e o Centro de Porto Alegre, eu conheci a UFRGS. Mais especificamente o prédio da Faculdade de Agronomia, com aqueles arcos amarelos, lindos de tão velhos e misteriosos. Ali, eu comecei a gostar dessa Universidade, que eu nem sabia que era uma Universidade.</p><p>O dia 27 de janeiro seguiu quando minha mãe disse que eu teria um irmão que o mesmo Renato que me pôs nesse mundo ajudaria a colocar no mundo, e que o mesmo Renato que não me acompanhou crescer nesse mundo também não acompanharia. O dia 27 de janeiro era quente e abafado, num meio-dia modorrento — se eu fechar os olhos e ficar em silêncio, eu consigo ouvir o zumbido das cigarras — quando Rafael se materializou nas nossas vidas. Àquela altura, o pó que eu via subir ao céu, agora já do outro século, não era o da rua Tocantins, mas da Rua dos Andradas, a rua que corta um pedaço de Alegrete, onde a minha família, muito antes de mim, de Rafa e do 27 de janeiro, plantou as sementes de seu universo particular.</p><p>A partir dali éramos eu, a mãe e o mano. E novamente a história de muitos: as mãos de uma mulher que teve deixar de lado a própria individualidade para construir um mundo para os dois homens que havia posto no mundo.</p><p>E assim o 27 de janeiro foi por muito tempo. Nós três e as dificuldades financeiras, nós três e o conflitos familiares, nós três e uma unidade profunda, nós três e nós três, dentro daquele espaço tão nosso que parecia caber só nós.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*e6oyCqRckgS3sN7fvg9sig.jpeg" /><figcaption>Nós três e o mundo (foto de Vinícius Guerra)</figcaption></figure><p>Fomos nós três até o momento do dia 27 de janeiro em que nos apartamos. Eu vim pra Porto Alegre, para circular pelos arredores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O mano também veio para Porto Alegre, só que para circular pelos arredores do Esporte Clube São José. E a mãe circulou por Alegrete e por dentro do seu ninho vazio. As coisas mudaram aos poucos. Éramos dois aqui, em pontos diferentes dessa cidade que às vezes parece tão fria e tão hostil. Era a mãe lá, num lugar igualmente frio e igualmente hostil.</p><p>A distância muitas vezes foi agressiva, opressiva, áspera. Havia o peso maciço da saudade e o peso esparso do medo de encarar as coisas sozinho. Nos saímos bem, eu e mano. Ele voltou para Alegrete, eu permaneci por aqui. Morei boa parte do tempo em casas de estudante. Alguns meses na Casa Estudantil Universitária de Porto Alegre (Ceupa) e três anos dividindo o quarto 434, quarto andar, final do corredor à esquerda, da Casa do Estudante Universitário da UFRGS, um lugar corroído pelos cupins e pela ineficácia das políticas de permanência de estudantes de baixa renda na Universidade.</p><p>Foram três anos tomando café, almoçando e jantando nos RUs, três anos ouvindo o som do estacionamento que ficava ao lado, três anos com medo de ficar trancado em um daqueles elevadores — eu sempre preferi subir os quatro andares pelas escadas — três anos subindo até o terraço para ver a cidade, ouvir a noite, conversar com a mãe pelo telefone. Na primeira vez que eu subi ao terraço foi justamente para ligar pra mãe. Eu não disse, mas queria ouvir a voz dela para me sentir minimamente protegido. Eu havia me acomodado há poucas horas naquele quarto que seria meu pequeno universo nos próximos três anos, e estava me sentindo sufocado com a aparência hostil daquele prédio que eu deveria chamar de casa. Ouvi a voz dela, voando pelos ares de lá do outro lado do estado e pousando diretamente no meu ouvido e chorei, sozinho. Odiei a dureza do mundo, odiei a força da desigualdade, odiei todas e quaisquer coisas que fazem o caminho das pessoas pretas, das pessoas pobres, das pessoas pretas e pobres, triplamente mais difícil.</p><p>Por aqueles motivos eu chorei muitas vezes. Algumas vezes no terraço, outras no meu quarto. Muitas vezes sozinho, algumas vezes com amigos. Mas ainda assim eu vejo as paredes daquele lugar, as plantas daquele lugar, as pinturas daquele lugar, as pessoas daquele lugar como algo digno — e muito digno — de um carinho profundo. Foram três anos naquele 27 de janeiro, três anos duros que me ensinaram muitas coisas e me fizeram experimentar muitas coisas. Um espaço de vida, de descaso, de resistência, de sexo, de amor, carinho e amizade. Um espaço que torna possível — de maneira falha, de maneira problematizante, de maneira que deve ser discutida — a permanência de muitas pessoas na Universidade. A CEU é um dos lugares da UFRGS que mantém viva a pluralidade do meio universitário. Justamente por isso ela deve ser olhada por olhos mais atentos e preocupados, deve ser pensada de maneira mais respeitosa. Existem três casas de estudantes na UFRGS, e dentro de cada uma delas existem trajetórias de vida que quebram as narrativas tradicionais — que são na maioria das vezes excludentes e limitadoras — e que tornam o espaço universitário mais popular.</p><p>E muitas dessas trajetórias vivem a Universidade em seu modo máximo. A minha foi uma delas. A UFRGS nunca foi só o lugar para onde eu ia estudar. A Universidade foi, em todos esses anos, o lugar onde eu dormi, onde eu comi, onde eu encontrava aqueles que agreguei à minha vida como amigos e irmãos. A Universidade foi, em todos esses anos, a minha principal fonte de renda, com os benefícios da Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) — um dos principais alvos dos cortes orçamentários do governo federal — e o salário que recebia ao trabalhar como bolsista na UFRGS TV, onde comecei a pavimentar a minha carreira profissional.</p><p>Vivi tanto essa Universidade, tanto os espaços dela, que quando ela se viu ameaçada pela PEC do Teto, do desgraçado Michel Temer, eu não vi outra opção senão estar sob o seu teto, de maneira a impedir que ele caísse sobre mim, sobre meus colegas, sobre aqueles outros tantos que viriam depois de nós. Ocupei a Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação (Fabico) com muitos colegas. Senti junto deles o estresse da pressão daqueles que queriam o desmonte do ensino público. Me esgotei tentando reverter uma medida assassina, que ataca justamente aquilo que é o combustível do motor da mudança da sociedade brasileira, a educação.</p><p>Nós ocupamos, lutamos e saímos derrotados, naquele recorte de 27 de janeiro. Mas com a mesma certeza de Darcy Ribeiro: fracassamos, mas temos o orgulho de não estar do lado de quem nos venceu.</p><p>Mas em alguns momentos do 27 de janeiro tivemos vitórias. Em 2018, a Reitoria foi ocupada por diversos coletivos de estudantes negros e pelo Movimento Balanta. A ocupação visava barrar uma medida do Conselho Universitário (Consun) que atacaria diretamente as cotas raciais. Todos aqueles estudantes e membros do movimento negro que sentiram o frio das paredes altas do prédio da Reitoria deixaram explícito que não seriam mais tolerados desrespeitos com a nossa presença no meio universitário. Ali, eu me senti capaz de mudar o estado das coisas, e tive a certeza de que o caminho que seguimos na direção de uma universidade mais plural, popular e negra, embora árduo e cheio de esbarrões institucionais, é um caminho sem volta. Não somos formigas, somos um formigueiro.</p><p>A UFRGS é um lugar complexo, que mobiliza sentimentos complexos. Eu amo essa Universidade; amo todas as experiências que tive nela, os espaços que passei por meio e em razão dela; amo a formação e a grande maioria dos professores que tive. Mas também sinto raiva: a odeio quando ela apresenta sua face excludente — que ainda existe — a sua face racista — que ainda existe — a sua face misógina — que ainda existe. Sinto raiva com o descaso com quem mora nas casas de estudante, sinto raiva com a relativização das muitas e justas demandas dos estudantes, sinto raiva quando penso o quão violenta ela pode ser e como pode ser um reflexo do Brasil. Violento e desigual.</p><p>Ainda assim, eu defendo a UFRGS. E com toda a certeza do mundo eu defendo a UFRGS. Com certeza eu defendo o ensino público, pois sou um filho do ensino público. Por meio dele eu percebi como é importante nos mobilizarmos para que as narrativas individuais e nacionais se transformem. Foi <strong>em razão dele</strong> que eu vi que é <strong>possível </strong>mudarmos as narrativas desse país. As professoras que tive no colégio e na Universidade, os colegas que eu tive no colégio ena Universidade. Essas pessoas e as próprias imagens invisíveis mas presentes do colégio e da Universidade me ajudaram a ser o que eu sou e, principalmente, o que eu <em>posso</em> ser, o que eu <em>quero</em> ser.</p><p>O Instituto Estadual de Educação Osvaldo Aranha, de prédios antigos, lugar onde eu cresci e comecei a me entender como gente, onde conheci amigos e irmãos que eu vou levar pra vida toda, lugar que não precisa da presença de nenhum milico ignorante para que funcione, mas sim de atenção, de incentivo, de investimento. A Universidade Federal do Rio Grande do Sul, onde eu consolidei minha identidade, onde eu aprendi a dizer quem eu sou e que eu gosto de ser quem eu sou, lugar de gente gigante, que precisa ser pública e gratuita e que será sempre de qualidade se continuar se abrindo para o povo, para o Brasil como ele é. Esses lugares, essas coisas públicas, tão atacadas por quem não entende a potência e não reconhece a importância da educação, são espaços que devemos defender. São espaços únicos que, nesses tempos que a mentira, a burrice e a histeria viraram peças essenciais para o funcionamento das instituições, mais do que nunca precisamos valorizar e <em>ver</em> de fato.</p><p>É pensando nesses espaços que eu rechaço todo e qualquer comentário sobre esforços individuais. Olhando para mim mesmo, posso dizer que embora eu tenha me mobilizado para fazer as coisas que queria fazer, foi com o apoio de muitas pessoas e tendo a percepção da necessidade das coisas públicas e das políticas públicas que eu consegui realizar o sonho de estudar na UFRGS, de me formar em Jornalismo, de acreditar em mim mesmo.</p><p>Naquele 27 de janeiro em que eu assinei, nervoso, o meu nome num diploma de jornalista, eu pensei em tudo isso: em como eu sou o resultado de uma soma de tantas coisas brutas, tantas coisas bonitas, tantas coisas necessárias. Assinando meu nome, junto comigo estavam minha mãe, que espalhou as letras do alfabeto no chão, antes mesmo de eu entrar no colégio, e me apresentou ao mundo das palavras, que seria no futuro a minha razão de ser; assinando meu nome naquele diploma também estava meu irmão, por quem eu sempre segui em frente tendo a noção de que deveria ser uma referência; assinando comigo estavam todos os meus amigos, todos os meus professores, todas as pessoas que direta ou indiretamente ajudaram a tornar aquele momento possível, ajudaram a tornar aquela segunda-feira, 27 de janeiro, um dia inesquecível. Assinando comigo aquele diploma estavam todos os cotistas que vieram antes de mim, todas as pessoas negras que, por décadas, nas fileiras do movimento negro, lutaram pela consolidação das cotas raciais. Assinando comigo estavam todos os meus colegas, todos formandos de melhor Universidade do país.</p><p>No dia 27 de janeiro de 2020 eu me formei jornalista pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Nesse dia eu realizei não só o sonho de me radicar em Porto Alegre, de me formar na federal, de ser jornalista. Também realizei o sonho de mostrar, pra mim mesmo — e quem sabe pro mundo — que um novo mundo é possível. Nesse dia eu tive ainda mais certeza de que seremos nós, cotistas, negros, populares, moradores de casas de estudante, mulheres, gays, lésbicas, trans e tudo mais que, na percepção deles, “não presta”, quem irá escrever uma nova narrativa para o Brasil.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*BgNnTP3M_fZdCbMg4i2J8Q.jpeg" /><figcaption>foto de Vinícius Guerra</figcaption></figure><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=ff3653f2d115" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/construtor/o-dia-que-durou-uma-vida-ff3653f2d115">O dia que durou uma vida</a> was originally published in <a href="https://medium.com/construtor">Construtor</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
        <item>
            <title><![CDATA[Esses Dias Quentes Prestes a Acabar]]></title>
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            <category><![CDATA[literatura]]></category>
            <category><![CDATA[passado]]></category>
            <category><![CDATA[memoria]]></category>
            <category><![CDATA[contos]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Glauber Cruz]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 19 Jul 2019 23:21:12 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2019-07-20T11:00:20.625Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<p><em>Para Juarez</em></p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*s5b2Ts0k7BSMKd5oMbU_xQ.jpeg" /></figure><p><em>O suor.</em></p><p>É a primeira coisa que vem à minha cabeça quando penso naquela tarde de carnaval: o suor. Ele caía das minhas axilas e escorria num zigue-zague malicioso pelo meu tronco, até chegar no cós do meu short. Lá embaixo dele, sob o tecido fino, também era tudo suor. Virilha e testículos, um universo de pentelhos umedecidos. Eu escorria por cada poro do meu corpo, e não sabia dizer se era o calor humano do bloco, ou o bafo que subia dos paralelepípedos ou mesmo aquela sensação que deixava a boca do meu estômago mais ansiosa que o normal, no ritmo do compasso acelerado do meu coração, que promovia todo o fervoroso trabalho das minhas glândulas sudoríparas.</p><p>Provavelmente eram todas e cada uma dessas variáveis que determinavam a minha condição <em>úmida</em>. Mas me atraía muito a última hipótese, pois naqueles dias de carnaval, aquele tremor no estômago e aquele batuque ansioso do meu coração eram coisas boas demais para serem ignoradas. Coisas que meu espírito — armado do seu raio romantizador — adorava manipular com as mãos e colocar no colo das lembranças, como a única coisa capaz de permitir a existência de dias já passados.</p><p>E eles existiam, na terra dos pensamentos debaixo dos meus cabelos crespos, também suados. E assim como eu pensava no meu suor, eu também pensava no rosto dele, perdido no meio da multidão, encontrado por mim no meio da multidão. Havia uma displicência com o mundo no jeito como ele sorria, como se tudo fosse desprovido de qualquer porcentagem de importância. Assim ele é, e assim é o carnaval.</p><p>Daí em diante, as coisas dançam na minha memória no compasso de alguma música ressuscitada da década de 90, e as imagens ficam embaçadas pelo teor alcoólico do seu conteúdo, como se eu estivesse acordando de uma sesta em dia de inverno. O que eu lembro é que instantes depois eu avançava naquele universo de coisas em choque — pessoas, bebidas, músicas e sexualidade — e, reunindo toda a coragem que eu não tinha e que alguns muitos goles de cerveja me faziam acreditar ter, eu me abriguei no raio dos olhos dele e disse:</p><p>“Eu preciso falar contigo.”</p><p>A reação dele não foi de surpresa. Nada parecia surpreender aqueles olhos que oscilavam entre a malícia e o sono.</p><p>“Não agora, depois”, eu alertei em seguida. “Agora eu não tenho condições.”</p><p>Foi quando percebi que realmente não tinha condições, já que a minha língua tropeçava nela mesma, procurando amparo nos meus dentes só pra se esticar novamente, inerte e preguiçosa, encharcada em cerveja barata e quente.</p><p>“Tá bom”, ele disse. E sorriu.</p><p>Na verdade, não sei se ele sorriu.</p><p>Percebi isso quando minha axila escorreu. Não aquele escorrer malicioso do carnaval de meses atrás, mas aquele escorrer desajeitado, tímido e triste de gente parada sob o sol, como se o suor estivesse acordando da hibernação e aprendendo, poro por poro, a escorrer novamente. É, acho que ele não sorriu. Talvez fosse mais um tropeço da minha cabeça naqueles dias quentes que, segundo a previsão do tempo, estavam prestes a acabar.</p><p>“Tá bom”, ele disse e tão logo a sua boca se fechou, todas as coisas ansiosas ficaram cobertas por uma camada de calmaria juvenil. Até aquele momento, estava tudo resolvido. Dei as costas e caminhei para o resto da noite, que eu sinceramente não sei como terminou.</p><p>Sentado na porta da casa da mãe e lembrando daquela barulhenta, suada e alcoólica tarde de carnaval que, embora estivesse na vizinhança dos dias, parecia ter ocorrido há muito tempo, eu senti ainda mais o peso daquela sensação de vazio que se assentava sobre cada pedaço daquele lugar — cidade, pátio, casa — que eu não conseguia mais chamar de meu. Era como se o tempo tivesse sugado tudo, os sons e os cheiros, as palavras e as pessoas. As muitas janelas — espalhadas pelas casas daquele pátio como uma epidemia nunca aplacada — e as portas de madeira emolduradas por batentes dilacerados por cupins viraram mais que recortes naquelas estruturas: viraram potenciais pontos de fuga, através dos quais fugiram, em debandada desesperada, filhos e netos, pais e irmãos, sobrinhos e bisnetos. Agora era tudo silêncio, era tudo passado, tudo distante e cansado de seguir, de forma que a única alternativa que poderia ser vislumbrada no horizonte do futuro era se conformar e permanecer ali, inerte.</p><p>A primeira vez que senti isso, me repreendi. Olhei para os meus pés e vi que eles estavam sujos do pó que se espalhava pelo caminho dos que fogem. Eu era, afinal, um daqueles fugitivos que, pulando uma janela ou correndo por uma porta, correu sem olhar para trás e esqueceu como chamar esse lugar de casa. Portanto, aquela sensação de vazio, de coisas que apenas ecoavam, não existindo de fato, poderia não passar de um arroto arrogante de quem come o passado e expele um presente supostamente superior.</p><p>Mas ali, sentado na porta da casa que eu achava estranho chamar de casa, já que não morava nela há cinco anos e que eu passei a chamar de <em>casa da mãe</em> ou <em>casa da vó</em>, olhando o menino de olhos baixos sentado perto de mim, numa daquela cadeiras de praia da vó que rangiam ao serem abertas, e lembrando de todas as coisas que se acomodavam umas sobre as outras antes e depois daquela tarde de carnaval, eu tive de admitir para mim mesmo que era justamente aquela sensação de distância e de um passado que se fazia presente que me trazia conforto.</p><p>Cada tijolo daquelas paredes, cada retalho de sol sobre o chão da sala, cada azulejo verde-esmeralda do banheiro, cada um dos rostos do time de futebol de várzea que encaram com olhares paralisados a peça gelada do meu avô, cada rodopio dado pelo cheiro de alho frito na cozinha toda amarela trazia uma sensação de paz e de organização. Era como chegar do colégio com treze anos, todo suado, todo fudido, com o joelho ralado e a alma ferida e encontrar a mãe que, com um olhar, me diria tudo sem dizer nada, me pegando pelos ombros, me sentando na mesa e explicando que não havia motivo para muito pavor, pois tudo ficaria bem.</p><p>E naqueles dias as coisas não estavam bem, pois diferentemente dos meus treze anos, a possibilidade de desligar a chave das preocupações era inexistente. Ainda assim, todas aquelas pequenas coisas me faziam acreditar, com uma intensidade sincera, que de fato tudo ficaria bem. Senti uma cumplicidade confiante no olhar do guri sentado na cadeira quando seus olhos se bateram nos meus.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*zs3Mo4HoAf3Q49jB9J24Fg.jpeg" /></figure><p>Fui para o quarto que por anos foi o quarto que dividi com a mãe e com a mana e que naquela manhã de sábado, assim como em todas as outras manhãs de sábados desde que alcançamos a puberdade, era só o quarto da mãe.</p><p>Ela estava no quarto. Havia engordado um pouco desde a última vez que eu a vira, no último feriado de páscoa, quando ela viajou pro lugar cinza e ao mesmo tempo iluminado que agora eu chamava de meu. O sol que entrava pela janela criava uma fina película em torno da sua silhueta. Seus fios de cabelo crespo ganhavam um tom amarelado; seus dedos finos cheios de calos estavam levemente avermelhados nas pontas enquanto dobravam antigas cobertas que cheiravam a amaciante.</p><p>“Pleno junho e esse calor, nunca vi isso. Se eu soubesse nem tinha mandado lavar essas cobertas”, ela reclamou, ficando na ponta dos pés para alcançar a parte superior do guarda-roupa, onde ficavam as cobertas. Sempre achei que ela se movimentava demais, não parando um único momento, olhando sempre para todos os lados, sempre procurando algum objeto para manipular. Pegou um pesado cobertor cinza que existia há anos, feio de um jeito único, quente de um jeito também único.</p><p>“Isso existe ainda?”, eu perguntei.</p><p>“Sim. Tava guardado. Acho que o que mais tem aqui é coberta guardada.”</p><p>“A mana vai dormir aqui comigo?”, perguntei olhando pro colchão no chão ao lado da cama.</p><p>“Vai, nesse aperto.” A resposta era curta mas o tom confirmava o repúdio que ela tinha ao fato de que os quartos que eram meu e da mana quando éramos adolescentes terem virado peças ocupadas pela máquina de lavar roupa e por coisas velhas, assim como a maioria das peças daquela casa. Ela via como uma espécie de ultraje: como voltariam os filhos pródigos se não teriam onde ficar? “Eu pedi pro Maneco me ajudar a limpar algum quartinho, mas ele nunca pode fazer nada. Só enfiou esse colchão aí no chão, eu disse que ia ficar um nojo de apertado, mas ele não ouve nem trovoada!”</p><p>“Mãe, nós vamos ficar só um final de semana.”</p><p>Ela suspirou, largando o cobertor e parando por uns instantes, colocando uma mão no pescoço e outra na cintura, a pose clássica que fazia quando estava pensando. Eu nunca soube dizer o que minha mãe estava pensando, assim como nunca conseguira falar para ela sobre o que <em>eu</em> estava pensando ou sentindo. A parede que se erguia entre nós sempre me deixou muito inquieto. Uma parede alta e lisa demais para poder ser escalada, grossa demais para ser perfurada, nos impossibilitando de dizer coisas mais longas do que um “como tu tá?” e um “estou bem”.</p><p>Uma buzina soou na rua e ela despertou.</p><p>“Será que é tua irmã?” ela perguntou e, sem nem me dar chances de responder, já saiu do quarto.</p><p>Eu não via Ana há duas semanas. Era uma coisa que a mãe não entendia, essa coisa de morar na mesma cidade e não se ver. Podíamos elencar todos os motivos — os horários contrários, os compromissos difíceis de encaixar, o preço do Uber — que ela não entenderia. Não que fosse necessário estarmos na presença física um do outro. Desde o dia em que nos percebemos como irmãos, numa noite de inverno assustadoramente mais gelada que o normal, eu e Ana passamos a andar pelo mundo numa sintonia intensa, carinho e proteção EaD. Eu sabia como ela estava só pelo comprimento dos seus “ãããããã” nos áudios do WhatsApp, assim como ela sabia como eu estava pela ausência dos meus tweets na timeline. Quando nos víamos, conseguíamos entender um ao outro só pelo jeito de mexer no cabelo ou pela forma desviar o olhar dos olhares alheios e também pela leitura dos lábios grossos um do outro, quando precisávamos falar coisas que só nós dois poderíamos saber.</p><p>Na última vez que nos vimos, numa noite barulhenta de karaokê, dias depois da conversa derradeira que eu e ele tivemos, eu fiquei a noite inteira colado nela, os olhos cheios d’água, indecisos entre o desabamento e a firmeza toda vez que ela batia a mão no meu ombro, ou a enrolava nas minhas próprias mãos, ou mandava algum amigo nosso tomar no cu quando insistiam em me puxar para cantar alguma música dos anos 80.</p><p>“Tu quer ir embora? Tu não precisa estar aqui”, ela me disse, com aquela voz baixa que a vida nos ensinou a ter, nos forçando a ser experientes leitores de lábios, pelo menos dos lábios grossos um do outro, herdados daquele que poderíamos chamar de pai.</p><p>“Não, não. Vou ficar mais um pouco pelo menos. Pela Alanis.”</p><p>“Alanis vai entender perfeitamente. Foi tu que levou ela pra casa quando ela passou mal no teu próprio aniversário.”</p><p>Naquele dia eu ri, acima de tudo. E ali minha risada parecia estranha de tão desconhecida, enquanto ressoava na minha cabeça. Era estranho achar estranho o som da minha própria risada.</p><p>“Eu sei. Mas ela tá tão bem, olha lá”, eu apontei com a cabeça.</p><p>Alanis estava do outro lado do pub, dançando daquele jeito esquisito que só as pernas finas e compridas dela sabiam dançar. Rodopiou tanto que tropeçou e quase caiu sobre um casal esparramado sobre um puff, perto do telão.</p><p>“Até o fim da noite ela rala aquela calça. Se prepara pra ouvir a choradeira, ela pagou uns 400 contos naquela porcaria”, disse Ana.</p><p>Mas eu não prestava mais atenção em Alanis ou na sua calça. Eu olhava para o casal, que ignorava todo o barulho ao redor mergulhando em si mesmos e um no outro, falando baixinho, rindo seus risos cúmplices, emoldurados pela felicidade dos primeiros tempos de amor. Não consegui ler o que falavam, tinham os lábios finos demais.</p><p>“Vou no banheiro”, eu anunciei e nem dei tempo de Ana dizer “tudo bem”.</p><p>Atravessei aquela algazarra toda e passei pelo casal. Não havia fila no banheiro e eu só tive tempo de agradecer a isso mentalmente antes de me despejar em lágrimas na pia. Num estalo, a minha cabeça virou aquele <em>looping</em> de dias, horas, minutos e segundos em que o rosto dele estava próximo do meu a ponto de eu poder tocá-lo, momentos cheios de uma despreocupação e de uma preguiça para com todo o resto que parecia até fazer as horas passarem mais devagar. Se alguém me perguntasse eu não saberia dizer em que momento aquilo começou. Se no meio-fio na frente daquele boteco sujo que vendia cerveja barata onde nos encontramos pela primeira vez, ou naquela tarde quente de carnaval, ou mesmo dias depois dela, ali naquele mesmo pub, quando eu disse o que precisava falar. Aquelas coisas todas pareciam rodopiar pelo banheiro, que era tão pequeno que elas esbarravam em si mesmas tão logo que saíam da minha cabeça, me fazendo lembrar perfeitamente das palavras dele:</p><p>“Por que a gente não fez isso antes?”</p><p>Ele tinha um copo de chope meio vazio numa das mãos e meus cabelos na outra. E eu estava ali, jogado sobre ele, e os dois jogados sobre aquele puff, observando os outros em seus <em>happy hour</em>, com as palavras que precisavam ser ditas recém ditas numa caminhada tranquila pela cidade ainda frescas na cabeça. Eu disse, com o total comando da minha língua, que não estava preparado para estar muito longe dele, certeza que surgiu justamente por estar muito longe dele. Nos conhecíamos há quatro meses e estávamos na dúvida do que éramos e do que não éramos. Em algum momento, a falta de respostas para essas dúvidas acabou por nos rachar e, desconfiados de que aquilo tudo não passava de uma superfície de <em>crème brûlée</em>, fácil de quebrar, fácil de digerir, fácil de esquecer, seguimos cada um pro seu lado. Até que naquela tarde de carnaval o suor e a batida nos fizeram lembrar da sintonia que existia quando não pensávamos nas perguntas ou nas respostas.</p><p>Havia uma nostalgia dos primeiros tempos, aqueles logo depois daquela sarjeta, e então dias depois da tarde de carnaval, já não encharcados de suor, jogados sobre o puff, havia junto dessa nostalgia uma certa vontade de tornar tudo aquilo mais concreto. Rimos ao admitir que ainda não tínhamos respostas de fato. Mas nos beijamos para esquecer daquilo, ou pelo menos para adiar aquilo para pensar mais tarde.</p><p>Quando saí do banheiro o casal finalmente se beijou, no exato momento que Alanis começou a cantar “Like a Prayer” no karaokê. E ali eu me vi, por trás dos meus olhos vermelhos, desejando mais uma vez estar perto dele, dividido de forma sincera entre o medo e a vontade de vê-lo ali, naquele lugar tão nosso.</p><p>“Eu vou pra casa”, eu disse pra Ana e ela não fez nada além de assentir silenciosamente e pousar a mão sobre a minha.</p><p>Tinha um calor que só a mão dela tinha. Desconfio que era um resquício do calor da água quente que queimou nossa pele no dia em que nos percebemos como irmãos.</p><p>Ela apertou mais uma vez os meus dedos grossos e perguntou se estava tudo bem. Quando abri os olhos e a vi sob a luz do sol, com seus dentes perfeitamente alinhados, brancos como gesso, e os cachos abertos caindo pelos ombros, tive vontade de perguntar por que as coisas tinham que ser tão difíceis. Acabei apenas sorrindo. Eu estava mais uma vez empenhado — involuntariamente — em praticar o exercício de puxar uma lembrança que puxava outra e mais outra e assim por diante.</p><p>“Tô indo”, eu respondi. “Aqui pelo menos não tem o risco de eu ficar bêbado e ir correr atrás dele.”</p><p>“Não duvide da capacidade da cachaça do Gaúcho.”</p><p>Rimos e nos demos um abraço.</p><p>“Parece que faz meses que eu não te vejo. Tá com o rostinho cansado”, Ana me disse.</p><p>“Sabe o que é isso?”</p><p>“O quê?”</p><p>“Cansaço.”</p><p>Ela sentou ao meu lado, rindo.</p><p>“Aqui estamos, de novo.”, ela disse.</p><p>“Sim. Juntos. Tão juntos que vamos até dividir o quarto”, apontei pro colchão. “Não que isso seja uma novidade”.</p><p>“Obviamente eu vou dormir na cama e tu no chão.”</p><p>“Há chance de escolha?”</p><p>“Não.”</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*4VkRPRB1PSSBBvSz3EnquQ.jpeg" /></figure><p>Ela apertou minhas mãos mais uma vez e tive o vislumbre daqueles dedos compridos dele ao redor dos meus. A noite lá embaixo estava agitada, e nós mesmos estávamos agitados, apesar de quietos.</p><p>“Eu não sei o que tá rolando aqui, sabe?”, ele disse pousando a mão sobre o peito. O terraço estava escuro e lá embaixo a cidade se esparramava iluminada. Pessoas andando de bicicleta, outras esperando o ônibus, algumas outras tantas só caminhando, existindo na noite recém caída. “Eu tenho essa vontade de estar sozinho, de não querer contato com ninguém, de não ver ninguém. Crianças solitárias, adultos solitários.” Ele pensou por uns momentos, olhando para a rua lá embaixo, uma veia pulsante no corpo da cidade. “O que tu sente a respeito disso?”</p><p>Eu não sabia dizer. Havia muitas coisas que eu não sabia dizer quando pensava na gente. Não sabia dizer sobre aquela irritação que tropeçava na boca do estômago quando ele fazia comentários desagradáveis; também não sabia explicar o medo que sentia ao pensar na possibilidade de ouvir aquelas palavras derradeiras da boca dele — e ele sempre parecia estar prestes a dizer aquelas palavras derradeiras; não sabia explicar a ansiedade que sentia por não conseguir imaginar o que ele faria, o que ele pensava e também não conseguia falar sobre aquela vontade de querer ordenar seus movimentos, querer ordenar a sua falta de planejamento, o seu caos particular. Ali, olhando pra ele e tentando divisar os seus traços no escuro com o apoio das luzes que chegavam lá de baixo, me perguntei seriamente se eu o amava de verdade ou se aquilo tudo era uma afobada vontade de proteger alguém.</p><p>“Eu não sei dizer. Eu só queria entender o que eu sou no meio disso tudo. Onde eu estou no meio disso tudo.”, falei.</p><p>“Disso tudo…”</p><p>“Sim, a gente. Sabe, eu te amo de uma forma que eu desconheço, de um jeito que me é estranho, ao mesmo tempo que sei que é <em>meu</em> jeito. Eu não entendo muito bem isso. Não sei se quero entender, talvez eu tenha medo.”</p><p>“Se te dá medo, talvez não seja um coisa boa”</p><p>Olhei nos seus olhos, ou imaginei seus olhos ali no escuro do terraço e, como em outras vezes naquelas semanas depois do chope e do puff, quando a temperatura era amena, dias quentes e noites frescas, embalados por sensações lancinantes e martelares, as palavras pareceram coçar na garganta dele, indecisas, ansiosas, medrosas.</p><p>“A gente precisa ver o que é melhor pra gente”, ele disse por fim.</p><p>“Cê tá tão longe…”, disse Ana me encarando com o canto dos olhos. Tinha recusado o café que a mãe oferecera e me puxado pelo braço até o fundo do pátio para cumprirmos logo o ritual que prometemos fazer quando voltássemos para a aquele lugar que ela também não conseguia chamar de seu: visitar a tapera.</p><p>“Pensando numas coisas aí. Lembrando de outras…”</p><p>“Como sempre. Quieto demais, pensativo demais esse meu irmão.”</p><p>Ela me olhou e riu. Ri junto, pois sabia que ela tinha a audição aguçada o suficiente para ouvir as engrenagens do meu cérebro girando uma ao redor da outra sempre que caía no looping das lembranças.</p><p>Ali, no meio do matagal no fundo do pátio, o ar era mais fresco. A pequena casa de madeira ainda se mantinha em pé com os esforços da saudade e das lembranças. Tinha um aspecto cansado, as paredes enfraquecidas, as janelas sonolentas. O telhado caído de um lado e a tinta descascada — cujo descascado também já se descascava — davam a sensação de que ela respirava fracamente. Ela sempre existiu, aquela casa, desde muito antes dos tempos em que eu e Ana éramos pequenos, quando ainda éramos estranhos um ao outro. Era como uma cicatriz no chão daquele pátio, um rasgo do passado ainda rasgado no presente.</p><p>E tudo ali era passado. Aquele silêncio absoluto e opressivo, aquele matagal plantado pelo tempo que aos poucos engolia os arredores e a própria casa em si. Tudo ali — e não só ali, mas tudo naquela cidade, naquele pátio, naquela família — era de uma solidão sólida, tão palpável que mesmo naquele dia em que um bafo modorrento pairava sobre tudo, podíamos sentir intacto, como há anos, o frescor daquele matagal e daquelas paredes ainda subir pelas canelas e lamber a nossas pernas.</p><p>Naquela casa velha, em algum inverno há muito passado, começara tudo. Era improvável que aquela casa estivesse ainda em pé, ao mesmo tempo que fazia todo sentido. Fora por trás daquelas paredes e sob aquele telhado que o vô e a vó deram início ao que eu chamaria, anos depois, de família. Nunca fora, para mim, uma <em>casa</em> de fato. Não pelo fato de nunca ter visto alguém morando nela e conhecê-la desde sempre como uma companheira inseparável do abandono, mas por vê-la como um mecanismo que articulava presente e passado. Não haviam fotos dos dias em que ela não fora uma tapera — como a mãe a chamava — pois quase não haviam fotos da minha família. Ainda assim, todos conheciam a tapera e a sua história, todos sentiam um apreço por ela e dificilmente alguém que tinha nas veias o sangue que começou a correr ali, dentro dela, poderia se imaginar sem ela. Sem ela, não havia nada. Não havia história, não havia origem, não havia passado, não havia presente.</p><p>Como uma cicatriz que coça em dia de chuva, aquela tapera coçava no fundo de cada um que nascera sobre aquela terra. Não saberia dizer ao certo se na cabeça, ou no peito, ou no meu sexo, ou em todos os lugares. Mas algo ali me pegava com mãos firmes e me revirava por dentro.</p><p>Atrás dela havia uma tipuana que, embora parecesse sempre do mesmo tamanho, crescia terra adentro, levantando tudo pela frente, inclusive a própria tapera. Suas raízes invadiam as peças, empurrando para cima e para os lados as paredes que, mesmo de madeira antiga, pareciam muito sólidas. Era como se meu avô estivesse ali ainda, segurando cada pedaço prestes a ceder com aquelas mãos de dedos finos, herdadas por minha mãe, respingadas em minha irmã.</p><p>Era um homem silencioso o meu avô, e desconfio que tenha vindo dele toda a tradição do silêncio da minha família, reiterada pela minha avó, igualmente sólida, de ombros nunca curvados, de olhos atentos, que ensinava aos filhos e depois aos netos e até para alguns bisnetos, a língua do silêncio que desenvolveu com o homem com o qual ela lançara as sementes da nossa história ao chão.</p><p>A historiografia familiar conta que depois que minha mãe nasceu — a primeira de sete — meu avô alcançara patente mais alta no Exército e, com o soldo, ele e a vó abandonaram a tapera, não indo muito longe, erguendo uma casa alguns metros em frente no mesmo pátio, onde anos depois a vó sentaria para fazer tricô durante o inverno ou para cochilar depois do almoço durante o verão.</p><p>Com o tempo, os filhos foram crescendo e, junto deles, mais casas e mais gentes, que se empilhavam naquele pátio extenso que aos poucos foi perdendo o seu verde de mato para ganhar outras cores: as cores dos tijolos, as cores dos sorrisos de dentes muito brancos e as cores daquelas peles de um escuro reluzente que ficava ressecado nos dias de frio.</p><p>Quando, munido de um prego e dos meus 13 anos de idade, eu risquei meu nome e data na casca daquela árvore junto à casa onde tudo parecia ter nascido, gravando a minha passagem por aquele retalho de mundo, aquele pátio era cheio de vozes e de risadas, mas também de silêncios e lágrimas. Agora, sob o meus dedos, a marca parecia mais grossa e o pátio estava de fato vazio, um universo de esqueletos pouco a pouco seduzidos pelo matagal do tempo, sedução essa sempre interrompida pelas lâminas de tio Maneco, que sob as ordens da vó devolvia tudo ao chão, numa afiada demonstração de esperança e de certeza na crença de que, um dia, todos voltam ao ponto de partida. Mesmo que fosse dele que todos fugiram em debandada.</p><p><em>Voltar…</em></p><p>Naquela tarde em que o mundo caiu pesado sobre tudo, trancando ruas, transbordando bocas de lobo, inundando halls de entrada, encharcando tênis e meias, se instalou no meu peito a certeza de que voltar era preciso. Havia um gosto de saudade em algum ponto da minha língua, mas havia também um outro sabor, ainda mais forte, algo potencialmente agridoce, mas que eu não entendia muito bem do quê nem de onde vinha, mas que eu sabia para onde me levaria.</p><p>A chuva escorria pela janela. Era fim de tarde, embora o tempo parecesse parado, sob a égide de nuvens absurdamente pesadas e furiosas. E ali, sentado dentro do meu quarto, observando aquilo tudo e imaginando se o horror que se instalava lá fora era tão doloroso quanto o horror que se instalava dentro de mim, comecei a chorar, sentindo aquele gosto de saudade, sentindo uma vontade de me realocar na ordem dos dias, no compasso do tempo, na razão do meu ser e do meu estar. Minhas lágrimas eram quentes, assim como aquelas que deslizavam pelo meu rosto sem entender direito o porquê há semanas. Quando as esfreguei, eu lhe vi, ali parado na minha frente. Tinha os olhos miúdos e a boca ensaiava para se tornar grossa e vermelha como carne.</p><p>“Que estranho isso… de sentir falta de si mesmo, não?”</p><p>O menino não respondeu. Talvez ele não soubesse ainda que <em>era</em> aquilo do qual eu sentia falta. Olhei para o teto, um teto branco, frio e triste, como quase tudo naqueles dias.</p><p>Naquela tarde, ele havia sumido, mesmo que na agenda imaginária dos nossos combinados estivesse rabiscado um “encontro com o Nego”. Ele havia soltado a minha mão pois estava no olho de um furacão. Um furacão de dias ruins, que derrubavam tudo o que viam pela frente, deixando apenas os escombros da dor espalhados sobre tudo, inclusive sobre as coisas boas.</p><p>Soterradas, as dúvidas sobre o que eu era na vida dele naquele momento e sobre o que éramos, se seguiríamos adiante ou pararíamos por ali mesmo, emergiram como a dor posterior a uma tragédia.. E ali, sob a vigilância daqueles olhos miúdos que encobriam um silêncio absoluto, aquelas palavras derradeiras coçaram na <em>minha </em>garganta, ricochetearam nos <em>meus </em>dentes e derreteram na saliva sobre a <em>minha </em>língua.</p><p>“A gente precisa ver o que é melhor pra gente”, ele dissera naquela noite, no escuro do terraço.</p><p>Eu soube, enfim, o que era melhor pra gente.</p><p>Me doía em níveis variados a ideia de não darmos certo e de que o melhor pra gente não era <em>a gente</em>, como dois homens juntos, compartilhando as cores e os suores de um carnaval ou as dores e as lágrimas de um furacão. Naquele dia de chuva, eu aceitei (ou entendi) que ele não me fazia totalmente bem, mesmo que cada momento ao seu lado fosse muito mais do que um rastro na linha dos meus dias, mesmo que eu tivesse vontade de ignorar toda a rotina prática que tinha para além da porta do seu quarto e permanecer ali, na sua cama, ao seu lado, enquanto a luz do sol subia e descia. Mesmo com tudo isso, havia algo que não permitia com que nos encontrássemos de verdade. Era esse o nosso nervo exposto, a nossa cicatriz ainda aberta. Uma estranha distância, próxima demais, que martelava o compasso dos nossos dias, que dissipava enquanto fazíamos sexo oral um no outro, mas que pesava como cimento quando estávamos inseridos um no universo do outro.</p><p>“Tu fica tão longe”, ele me disse no dia em que saímos com seus colegas da faculdade. Estávamos na rua, num boteco cheio de gente que era estranha pra mim, distante das minhas fronteiras, desajustadas ao meu tempo. Eu não conseguia achar uma fresta que me permitisse entrar por inteiro nos seus diálogos. Eram todas tão estreitas, todas tão difíceis de passar, que eu me quedava num looping de apenas rir e de vez em quando comentar alguma coisa até cair em silêncio, pensando em outras tantas coisas.</p><p>“Tô cansadinho… e com sono…” eu respondia. Era meu mantra, minha arma de defesa, mesmo que ele não tivesse me atacando. Pensei muito nisso e no que nos fazia tão distantes, apesar de próximos. Pensei nos banhos que a mãe dele dava nele quando era pequeno e pensei nos banhos que a minha mãe me dava quando eu era pequeno; pensei nas brincadeiras que fazíamos distantes, cada um em sua infância; pensei nos pátios pelos quais corremos, pensei nas nossas famílias, pensei nos nossos trajetos. Pensei nisso tudo e mais um pouco e encontrei diferenças (muitas), encontrei semelhanças (poucas) e nenhuma resposta. Não era possível que sensações tão lindas como aquela que senti no dia em que sentamos no meio-fio, ou no dia em que o vi na multidão do carnaval, fosse definida por algo tão simples como a diferença. Naquela chuva, percebi que era possível, que aquilo era apenas uma peça numa estrutura maior, mas uma peça saliente, importante, tornando aquilo sim, possível.</p><p>Um raio caiu, furioso e iluminado, e os olhos miúdos daquele menino de 13 anos ficaram impassíveis, sempre olhando os meus, em seus 25 anos, derretidos em lágrimas, tristes como aquela chuva que caía lá fora. Eu me sentia estranho, distante de mim, mergulhado demais nele, na rotina dele, nas possibilidades com ele. E então, sob a luz do raio, eu vi que aquela sensação agridoce era justamente a vontade de olhar um pouco mais pra mim mesmo, olhos miúdos em olhos miúdos. Tudo pareceu fazer sentido sob a minha ótica de que as coisas precisam fazer sentido. Peguei as palavras derradeiras e as coloquei de volta na boca. Eu sabia o que fazer com elas.</p><p>“Eu tinha medo desse lugar”, disse Ana, no meio da tapera, ignorando o que a mãe dizia (que a casa era só bicho e estava prestes a cair). “Desde sempre… quando a gente brincava de esconde-esconde… quando o Lu e a Maria se enfiavam pelos cantos e a gente ia atrapalhar eles… ela já me dava arrepios”</p><p>“Não sinto isso. Pelo contrário na real”, eu disse, passando as mãos pelas paredes de madeira murchas de umidade. “Eu sempre me senti confortável aqui… estranho. Eu tinha medo era da peça do vô, isso sim.”</p><p>“Ah, mas da peça do vô acho que até ele tinha medo.”</p><p>A “peça do vô” era um cômodo pequeno e gelado, talvez a pedaço mais gelado da casa que ele e a vó construíram depois de deixar a tapera no fundo do pátio. Não pegava sol, tinha uma única janela e estava milimetricamente no coração da casa cheia de peças que eles construíram. Era um universo de troféus antigos de campeonatos de futebol de várzea, documentos importantes, fotos de times de futebol e de cerimônias militares e de prateleiras onde se equilibravam perigosamente dezenas e dezenas de livros, revistas e alguns jornais antigos.</p><p>Mas ela não era só isso, só uma peça, era quase uma instituição dentro daquele espaço.<strong> </strong>Ninguém além do vô e da vó podia entrar naquele recinto pequeno e todo mundo que passava da soleira da porta aprendia que aqueles eram os domínios dele.</p><p>Da mesma forma, todos aprendiam que violar aquela regra totêmica era o que deveria ser obrigatoriamente feito por todo e qualquer ser que tivesse aquele sangue correndo pelas veias. No verão, nas tardes quentes desse lugar, quando o apito do homem que vende picolé ressoava pela tarde quente como uma sinfonia de alegria e alívio, quase uma alucinação no meio do deserto, era na peça do vô que eu e meus primos buscávamos refúgio. Ali o chão era gelado sempre e era bom demais sentir o contato lancinante da pele com ele, ou então o frescor daquelas paredes pintadas toscamente num azul que flertava sem o mínimo de vergonha com o branco. Para mim, era dentro daquela peça que pulsava o coração da nossa família: o pulsar dos silêncios, a manutenção da rigidez das posturas, as falas sérias e inalteradas. Tudo vinha dali, daquele pedaço pequeno de alvenaria antiga, sob um forro descascado. Isso me fazia pensar no vô não como uma figura fria, mas como o próprio frio. Por trás da sua voz grave, da imponência do seu caminhar, da capacidade de dizer tudo só com um olhar ou um gesto, da sua existência gravada em cada pedaço daquela casa e daquele pátio e das pessoas que ali estavam e por ali passaram — mesmo depois de morto — havia o frio. Não a frieza humana e distante, mas sim o frio que assola, que racha os lábios, que dói na garganta, que arde nos pés, mas que aproxima do fogo, que nos esquenta em esfregar de mãos e corpos, que nos traz lembranças e que nos faz sonhar acordados, pensando no passado.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*NTMTDTJssTVqdY6BfV77cQ.jpeg" /></figure><p>Fora ali, em uma das tantas incursões secretas, que conheci a leveza: a leveza das páginas dos livros e a leveza da vida. Entre uma saída e outra do vô e da vó, eu li o primeiro livro da minha vida, quando ainda tropeçava nas palavras e demorava para concatenar um parágrafo com o outro. Ali, pela primeira vez senti o prazer que envolvia o ato de ler. Acho que foi a leitura mais demorada da minha vida, pois eu só podia ler quando o vô não estava ou quando a vó estava distraída. Quando ele saía, eu largava tudo o que estava fazendo e corria para a sua peça, entrando pé por pé e engolia os parágrafos tropeçando nas palavras, recolhendo-as pelo caminho e as pondo de volta no lugar. Meu coração batia e a cada ponto final que eu chegava, mais vontade eu tinha de ler a próxima sílaba, a próxima palavra, o próxima parágrafo e a próxima página. Quando folheei a sua última página, numa tarde de sábado de tempo fechado, fiquei olhando para o ponto final derradeiro, sem saber o que fazer.</p><p>Por fim, decidi primeiramente fechar o livro e devolvê-lo à estante, antes que o vô chegasse. Depois, fui para o meu quarto e em silêncio eu selei a minha relação íntima com as páginas dos livros.</p><p>Lembrar daquilo me fazia lembrar também do medo que eu tinha do vô naquela época. A mãe falava do peso de sua palmada, e meus tios falavam da aspereza de seus tapas. Mas um dia — algum tempo depois de ele falecer, frágil de câncer, um sopro da imponência que tinha e que era, engolido por ele mesmo (o frio) pedindo por calor sob aquele forro antigo — eu tive um sonho que me fez entender tudo. Era uma noite inverno e eu acordei quente. Pus os pés no chão e o tapete de retalhos que cobria o chão do quarto que na época era meu, de Ana e da mãe, massageou meus dedos sutilmente, sopros quentes numa noite fria. Mas não estava frio, de verdade: eu <em>sabia </em>que estava frio lá fora, pelo som de nada que tinha o frio e pelo bafo que o inverno baforava nas janelas. Mas estava quente, tudo quente. E havia também uma luz, como a de uma lareira, tremulando dentro de casa. Mas era estranho, pois ali não havia lareira, havia só aquele fogão a lenha escuro de fuligem, negro como a noite e aquela família, que havia sido posto para sempre no canto da cozinha toda amarela, onde o chão já era côncavo de tanto sustentar o peso da vó e sua cadeira e seu chimarrão e seu tricô e suas saudades e seu amor pelo vô. Ninguém nunca falou do amor de um pelo outro, mas naquela noite eu o vi. Vi logo depois do susto que os ruídos de coisas reviradas me causou. Vi assim que percebi que a luz vinha da peça do vô e tive certeza que vi ao encontrar a vó no meio da peça, dentro de um buraco enorme aberto no grosso piso de madeira, com os dedos longos e as unhas cravadas na terra, de onde ela tirava de tudo, de casacos de lã a brinquedos, de talheres a dentaduras, de terços a tocos de velas, de pedaços de bicicleta a xícaras quebradas, de carinhos a rancores, de lembranças a certezas.</p><p>Ali, eu vi o amor. O amor da vó pelo vô, mergulhada no calor da necessidade de tê-lo de volta e o amor dos dois por aquilo tudo. Aquela casa, aquelas pessoas, aquele universo construído pelos dois. Eu entendi que na verdade não era só frio, mas sim calor, sempre fora calor, sempre seria calor. Não o calor do jeito que as pessoas conhecem ou gostam de conhecer, mas um calor mais intenso, vindo tão de dentro deles que chegava a ser anterior a eles. Vi também que daquele homem sisudo, engomado em vida militar, exalava uma sensibilidade arredia, escondida por trás da necessidade de viver os dias como um homem, como aquele homem que o meio e a terra e o exército queriam que ele fosse. Eram tantos os livros e tantas as histórias naquelas estantes que só a sensibilidade de um leitor assíduo poderia dar conta daquilo. Era impossível, portanto, atrelar a ele somente aquela figura de homem feito de concreto, tão hermeticamente fechado a ponto de impedir uma rachadura e uma flor saindo dela. Tudo fez sentido naquele momento, e continuou fazendo sentido quando eu acordei, encharcado de um suor febril numa noite de um frio absoluto que engolia as paredes sem dó.</p><p>Ali, na tapera, tanto tempo depois, eu não sentia o calor do sonho tampouco o frio da noite sobre a qual ele se estendera, mas ainda pensava no vô com aquela certeza, como se ele tivesse me dito em suas próprias palavras, que era amor que pulsava naquela casa, não só frio, mas também amor.</p><p>“Ô, vamos almoçar logo, a mãe deve estar nos esperando”, disse Ana, num replay preguiçoso dos gritos que a mãe dava nos finais de tarde, quando as luzes no pátio começavam a cair e a noite começava a engolir tudo. Aquele lugar era só mato e bicho.</p><p>Longe da enorme tipuana e do matagal que subia sem nenhum tipo de critério, o dia era abafado. Um abafado gostoso, como se tudo fosse o sol das manhãs de inverno. Aquele bafo fazia o meu corpo se acalmar de forma morna. Naqueles dias febris em tristeza, tensionados por uma sensação de perda total das sensações boas, esses dias quentes, perdidos em um inverno com crise de identidade, recusando a se afirmar como inverno, era mais que gostoso não estar de músculos retesados, fugindo dele nos lugares e nas lembranças e, na fuga, tropeçando em situações hipotéticas construídas na minha cabeça, improváveis de serem inscritas na linha real dos dias.</p><p>Ele ainda girava em torno da minha órbita — ou eu da dele — toda vez que tirava meus pés do chão e me deixava levar pela cabeça. Ainda assim era uma sensação mais calma, não tão exasperada, absurdamente ansiosa e nervosa; era algo mais para o nostálgico, envolto na tristeza calma que envolve as coisas que não podem mais voltar. Uma sensação tão tranquila que, quando o cheiro do carreteiro de charque da mãe exalou da panela posta sobre a mesa, ele também exalou pelo meu quarto azul da cidade “grande”, iluminado pela meia luz da luminária, naquele final de domingo em que estranhamos o corpo um do outro durante o sexo e nos tocamos como dois distantes, como dois estranhos. A pergunta dele ao fim, sarcástica como ele, tornou tudo estranhamente concreto: eu poderia revirar aquelas palavras derradeiras dentro da minha boca como um Halls e, se quisesse, poderia facilmente tirá-las dali, expô-las ao mundo, torná-las reais.</p><p>“E aí, foi bom?”</p><p>Ele sabia que não tinha sido bom. Um sexo esquisito, apressado. Quando eu gozei, só por gozar, um suspiro irrelevante para a natureza — mesmo para minha própria natureza — me senti um personagem de filme pornô, sem antes nem depois, apenas um corpo, apenas a penetração, momentânea, prazerosa — ou não — e então o gozo; uma existência resumida a porra escorrendo pelas coxas, ou pelos dedos. Era contraditório, porém, pois justamente ele me fizera sentir no lado oposto dessa figura. Com ele eu tinha antes e tinha depois e mesmo nos momentos que eu sentia mais dúvida sobre nós ou até mesmo raiva de nós, eu conseguia lembrar da crença dele de que havia importância nos passos que eu dava e que havia uma beleza na forma como eu absorvia o mundo.</p><p>Por isso talvez o deboche emoldurado naquela pergunta tenha me feito suspirar e dizer aquelas palavras, enfim. Cuspi o Halls enquanto ele colocava a cueca, sob a meia luz da luminária.</p><p>“Acho que realmente não estamos fazendo muito bem um para o outro. Nego… tu quer terminar?”</p><p>Ele vestiu a cueca e sentou na cama ao meu lado, olhando para a luminária, como numa piada ruim silenciosa, procurando uma luz. Olhou pra mim, enfim, com aqueles olhos sonolentos, lindos de tão simples.</p><p>“Sim.”</p><p>Ficamos em silêncio por alguns instantes.</p><p>“O que foi isso, afinal?”, eu perguntei.</p><p>“<em>Isso?”</em></p><p>“A gente.”</p><p>Ele deu de ombros.</p><p>“Meio que um delírio coletivo”, respondeu por fim.</p><p>Rimos.</p><p>E no silêncio que se seguiu, interrompido vez ou outra pelo ranger das engrenagens dos nossos pensamentos, eu me senti leve. Há seis meses as coisas entre nós iam e vinham para ir novamente e voltar mais uma vez de uma maneira esquisita, muito intensa, um calor que aquecia e que queimava ao mesmo tempo. Havia algo na nossa cumplicidade que não era amizade mas também não era namoro, pegando o embalo das rotulagens e da inscrição das relações nas redes sociais. Havia algo na nossa cumplicidade que era estranha demais para se entender, gostosa demais para ser algo ruim mas também ácida demais para ser totalmente confortante.</p><p>Naquela noite, quando enfim decidimos terminar, saímos caminhando pela rua à noite, à procura de algo qualquer pra encher a barriga. Encontramos e, envolvidos pelo cheiro do cachorro quente barato, nos abraçamos e prometemos que ainda seríamos <em>algo</em>. Ainda seríamos cúmplices, seja lá qual fosse o crime que estávamos cometendo.</p><p>Aquele foi um bom final de noite. Mal sabia eu que ela — a noite — ria pelas minhas costas, talvez já sabendo dos dias difíceis que viriam logo depois daquele momento em que tudo parecia enfim, encaixado, sintonizado.</p><p>A mãe servia seu carreteiro e minha pressa e a de Ana era tão grande que acabamos queimando o céu da boca. Depois do almoço tudo sucumbiu à preguiça da sesta, e aquele tempo quente, de fazer suar sutilmente as axilas, tornava tudo ainda mais pastoso, como se os minutos derretessem, prolongando as horas e tornando as dores ainda mais pesadas.</p><p>Ainda doía, especialmente quando eu lembrava da mensagem que ele mandou numa noite de temperatura em queda, que antecedeu uma série de dias frios, dizendo que achava estranho sermos <em>algo</em>. O nosso crime, fosse ele qual fosse, não poderia mais ser cometido. Pelo menos não em parceria. Ali a nossa corda se arrebentou, e munido da certeza que nem <em>algo</em> seríamos — já que a sua sentença era categórica: “é melhor a gente parar de se falar” — eu entrei em pane. Foi-se a tranquilidade, veio a agitação.</p><p>Enquanto ecoavam pela cozinha o som dos talheres e dos pratos utilizados no almoço, que eu lavava com os dedos envolvidos por luvas de sabão volumosas como clara em neve, eu podia olhar para cada coisa que eu fizera nos últimos tempos e identificar ali um ponto de dor. Um suspiro, um apertar de olhos muito forte, uma lágrima, acompanhada de outras tantas.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*T5cinIJMQNaoDxmyw5ffRg.jpeg" /></figure><p>Passou a ser rotineiro entrar naquele looping furioso e aparentemente impossível de interromper de olhar para qualquer canto da cidade e lembrar dele; de caminhar por ruas, sair por portas e entrar por outras, sempre assombrado pelo medo e a vontade de enxergá-lo. Não demorou muito — talvez um ou dois dias depois do término — para que eu passasse a procurar seu rosto no meio da multidão, nos lugares que íamos juntos, nos lugares que íamos separados, em todos os lugares.</p><p>Não demorou muito também para que eu me sentisse profundamente triste e sozinho. Não aquele profundamente triste e sozinho que pairava pela minha vida desde sempre, uma nuvem cinza que desde a infância pesava sobre minha cabeça, mas sim uma tristeza e uma solidão dura, crua. Eu secava os talheres quando lembrei daquela festa de rua, antes desses dias quentes, quando a fumaça do quentão se confundia com o vapor que saía quente da boca das pessoas. Naquela noite eu sentia frio nos pés — meias finas em All Star — e olhava para lá e para cá, o pescoço como que uma peça de corda, à procura dele. Naquela noite, todos os cachos pareciam os cachos dele em potencial. E toda a felicidade ao redor, em risos largos e alcoolizados, só serviam para evidenciar que <em>eu </em>não conseguia rir. Não havia nada naquela noite e naqueles dias capaz de me fazer rir de forma genuína, pois tudo era potencialmente vinculado a ele e à ausência dele.</p><p>Os dias eram tão pesados que eu poderia segurá-los nas mãos, de modo que lembrava deles, de cada um deles. E como demoravam a passar aqueles dias, instalados sobre uma estrutura cheia de espaços que eu ocupava com lembranças das mais banais, coisas que nem quando estávamos juntos eu lembrava. O ônibus que ele pegava, o seu antigo apartamento, o seu antigo bar preferido, a sua cerveja favorita, a sua opinião sobre determinada praça, o gosto por determinado artista, a hipótese de mudança no corte do cabelo. Vinham também as possibilidades hipotéticas: a crença num reencontro, em alguma mensagem enviada no escuro da noite, num aperto de mãos, qualquer coisa que fosse.</p><p>Acabou que depois daquela mensagem nós de fato nunca mais nos vimos, tampouco nos falamos. E por mais que eu o procurasse em todos os lugares, por mais que eu lembrasse de todas as nossas coisas e por mais que os pensamentos mais simples me fizessem resvalar numa ribanceira de lembranças, eu não o vi. Aos poucos eu via as minhas vontades se esgotarem. Tudo parecia mecânico demais e eu me sentia vivendo no piloto automático, apenas vendo os dias se empilharem uns sobre os outros e as coisas de ordem prática da vida se atropelando, num engarrafamento de tudo, de horas, de sensações, de lágrimas, de desejos.</p><p>Minha vida parecia febril. E não, não era o corpo, mas sim a vida. Tudo que eu fazia era num estado de anomalia, fora do compasso, doído, pesado. Uma confusão enorme, uma bagunça íntima generalizada, que me impedia de ver além do horizonte do fim do dia. E eram <em>dias</em>, aos quais eu sobrevivia, <em>dias</em> afogados em lembranças e vontades. Um após o outro. Eu poderia contá-los.</p><p>E eu chorava de um jeito banal. Chorava de tão frágil, de tão vulnerável. Por toda e qualquer coisa. Pelas pessoas de mãos dadas no parque; pelo idoso caminhando sozinho no passeio; pela música de versos melancólicos que parecia conversar comigo; pelo sorriso dos outros que teimava em não exalar para mim.</p><p>Dias tristes, aqueles. Dias frios, aqueles. De um frio macabro, que rasgava os lábios com fúria, que queimava os pés em meias finas com igual fúria. Dias em que os lençóis se perdiam na sua dificuldade de fazer calor. A cama parecia tão vazia. E de fato ela estava vazia.</p><p>Naquela noite em que Alanis completou seu 27 anos, embriagada em karaokê, eu voltei para casa sozinho, caminhando pelas ruas escuras, engolido pela vontade de que aquilo acabasse e pela tristeza de ver meus finais de semana enrolados em um novelo de melancolia, de mal estar, de desespero contido — o que o tornava ainda mais desesperado — e de perda — perda das companhias, perda dos dias e principalmente perda do meu tempo, <em>meu tempo</em>, que nunca mais iria voltar, que eu nunca mais iria recuperar, que se esvaía pelas minhas mãos, dia após dia, <em>dia após dia.</em> Foi o tempo que me encheu de desespero e me empurrou para a quadra escura onde meses antes, numa tarde quente de carnaval, eu o vi no meio do bloco.</p><p>E se eu não tivesse ido falar com ele? E se eu permanecesse concentrado apenas no álcool que mergulhava nas minhas veias? E seu eu não tivesse terminado? <em>E se, e se, e se…</em> Era um tudo um grande <em>e se</em> naqueles dias. E naquela noite em que o vapor abria caminho displicentemente pelos meus lábios, sob a noite sem nuvens, enquanto eu encarava parado, no escuro da falta de iluminação pública, aquele retalho do corpo da cidade, outrora tão quente, eu chorei do jeito que eu chorava sempre naqueles dias, mas também de um jeito diferente. Desde que me entendi por gente e dono de mim, do meu corpo e das minhas vontades, eu nunca me sentira tão frágil. E o conforto vindo daquela mão quente sobre meu ombro disputou espaço com o desespero de não ser mais dono de mim, do meu corpo e das minhas vontades. Tudo aquilo me guiava pelos dias, aquela tristeza me empurrava para lá e para cá, sempre cochichando no meu ouvido o quão tolo eu era por acreditar que, em algum momento da vida, eu estivera no comando de alguma coisa na minha vida.</p><p>Transbordei. Alguma coisa me puxou pela canela enquanto outra empurrou minha cabeça. E, cada vez mais fundo naquela tristeza ácida, eu comecei a divisar de um jeito ainda mais potente a vontade e a necessidade de que aquilo tudo acabasse. Eu estava tão triste, que em nenhuma palavra caberia toda a minha tristeza.</p><p>“Quando que isso vai acabar?”, eu me perguntei, enquanto as imagens dele se repetiam na minha cabeça, mais rápidas, mais reais. Aquela mão quente deu tapinhas nas minhas costas, delicadas, cheias de entendimento, cheias do carinho que temos pelo nosso eu mais frágil. Olhei para aquele rosto, que era o meu rosto, só que maduro, sereno, suave, tranquilo, algo distante do meu rosto convulso do presente, lavado em lágrimas e minado pela falta de esperança em dias melhores.</p><p>“Ô meu amor, que tristeza toda é essa?”, eu perguntei pra mim, com uma voz tão tranquila, tão entendida das coisas da vida como ela é.</p><p>“Não sei… eu… eu só queria que isso tudo passasse… sabe… superar as coisas… o que eu preciso fazer pra que isso tudo passe?”</p><p>E, no silêncio da noite e da ausência das batidas do carnaval, eu respondi.</p><p>“Esperar. Tu sabe, o tempo destrói tudo. Mas não só ele. Tu também. <em>Nós </em>também. Destruir e construir. Não esquecer, não. Usar cada pedra, cada cascalho pra construir algo novo, com aquilo que já temos. É assim, não é?”</p><p>Quando cheguei em casa naquela noite e dormi enroscado sob as cobertas, minha cabeça pensou tanto, em todas as coisas e mais algumas, nos olhos dele, no caminho que tomamos — se era o correto, se era o único a se tomar — na vontade de me entender como eu, na necessidade de articular meus dias com coisas boas e não com aquela tristeza que só me levava a abrir mais portas de tristeza. Pensei tanto que em algum momento minha cabeça deu pane e eu simplesmente dormi. Sonhei com ele, com a rua, com a noite na rua e sobre estar sozinho, na rua e no tempo, no espaço-tempo.</p><p>Na esquina silenciosa, no centro daquele lugar onde nasci, numa noite plácida, eu me senti bem. Bem por estar lidando com a tristeza de forma cordial, bem por ter passado aqueles dias tão tristes, bem por não me sentir tão sozinho, bem por estar calor. Um calorzinho de primavera, lindo de tão inofensivo, perdido no inverno.</p><p>“Lembro do meu primeiro porre”, Ana disse, ao meu lado. “Foi bem ali. Tava um frio do caralho”</p><p>“Foi vinho né?”</p><p>“Foi. Bá, foi foda. Lembra que eu fui com a mãe no mercado no outro dia? <em>Podre</em>. Cheguei lá e fui vomitar no banheiro. Até hoje eu sinto pena da criatura que limpou aquilo”</p><p>Rimos.</p><p>“Que saudade disso” eu falei, abrindo os braços e olhando pro céu.</p><p>“A noite?”, Ana perguntou, talvez já sabendo a resposta.</p><p>“Tudo. A noite, o tempo, o calor, a rua. Eu tava precisando disso. Só pra lembrar. Lembrar o que é isso. Lembrar o que eu sou”</p><p>Ana riu aquela gargalhada gordacha, que envolvia a gente num abraço apertado.</p><p>“Tu falou igual um classe média agora. Só falta dizer que vai fazer um intercâmbio pra se encontrar em algum país da Europa”</p><p>“Ah, é tipo isso. Só que com passagem econômica”</p><p>Rimos na noite que só não era vazia porque alguns jovens perambulavam para lá e para cá, engolindo cerveja quente, ou kits com muito gelo e pouca vodca, vidrados em cigarros de maconha barata. Em silêncio voltamos pra casa de braços dados. Ana parecia querer se certificar de que eu não fugiria, como na noite do aniversário de Alanis, em que eu me desviei dela propositalmente para explodir em lágrimas comigo mesmo no silêncio da minha solidão.</p><p>Quando chegamos em casa, não fomos para o quarto. Tiramos os tênis e fomos para o banheiro de azulejos verde-esmeralda, xodó profundo da vó, um surto de luxo naquela casa tão simples apesar de enorme, onde anos antes nos percebemos irmãos. Entramos na banheira de roupa e com as meias fedendo a chulé. Ali ficamos quietos, sentados um de frente pro outro, pensando em tanta coisa, quase numa troca de pensamentos. Uma coisa levou à outra e lembrei daquela noite, também de inverno, em que acordei com o choro de Ana vindo do banheiro. Não era um sonho e estranhamente eu sempre soubera daquilo, mesmo que fosse um sonhador assíduo. A porta do banheiro estava entreaberta e só entrei. Quando senti o piso frio sob meus pés, na mesma hora me arrependi. Naquela época havia entre nós uma raiva mútua, um rancor nada silencioso, barulhento em brigas furiosas por espaço, por objetos, por atenção da mãe, por todos e por nenhum motivo. A mãe sofria. Doía em algum lugar do espírito dela — e isso era visível no seu rosto, na sua expressão de fúria sempre que nós expressávamos a nossa fúria, e os punhos cerrados que ela batia sobre as coxas — o fato de que os dois filhos que ela plantara no mundo não conseguiam ao menos fazer uma sombra juntos. Dois galhos rebeldes de uma árvore frondosa.</p><p>Mas mesmo arrependido, eu segui. Passo após passo, ciente da babaquice que era invadir o espaço de minha irmã, mas embalado por uma necessidade de entender o porquê de ela estar chorando daquele jeito. Ri comigo mesmo ali, junto dela na banheira seca, ao cogitar a hipótese de que talvez eu já soubesse o porquê e por isso mesmo eu seguira. Sentei ao lado do box-banheira e senti o bafo da água, tão quente que parecia ferver. Ela me olhou. Esperei o xingamento ou o susto, mas só recebi o silêncio. Ana estava toda vestida dentro da água quente e os cabelos, que na época começavam a se libertar dos coques opressivos e das assassinas chapas de ferro quente, estavam caídos sobre os ombros. Eu me debrucei ali e fiquei olhando pra ela, sob a meia luz do armário sobre a pia, enquanto ela me olhava, tremendo de vez em quando, os olhos tão vermelhos que por alguns instantes eu achei que a água quente na qual ela estava mergulhada eram as lágrimas que ela jorrara em sua tristeza noturna. Para minha própria surpresa, eu cortei o silêncio.</p><p>“Eu lembro bem da hora que vi ele. Foi ano passado. A gente não tinha professora de geografia, então ficamos à toa na aula. Eu fiquei sentado numa classe, olhando pela janela. Então vi ele. Tava jogando bola no campo, tava na educação física. Ele tinha aquele cabelão cacheado e comprido. Sabe, eu achei ele tão lindo, eu não tive outra opção a não ser aceitar que achava ele lindo. Então, depois de um tempo, eu comecei a gostar dele. E era muito bom gostar dele. Digo, ainda é. Mas… é triste. E quieto. E solitário.”</p><p>Sinto que as palavras só caíram da minha boca. Talvez tenham derretido com o calor da água. E como eles estavam sempre ali, com vontade de sair, mas impedidas de fazê-lo por causa do medo, foi fácil elas escorrerem por entre os dentes e se pendurarem nos meus lábios, naquela época já grossos. Eu tinha 15 anos, Ana, 19 e nunca, desde o momento que aceitei que era um menino que gostava de gostar de meninos, eu falara sobre isso com alguém.</p><p>“Pra quem mais tu falou sobre isso?”, Ana perguntou, dando uma tremida.</p><p>“Ninguém.”</p><p>“Tu gosta desse guri todo esse tempo, e ninguém sabe?”</p><p>Assenti. <em>Falar</em> que eu sentia aquele sentimento tão bonito sozinho, que uma das melhores coisas que havia dentro do meu espírito era uma coisa que só eu poderia saber, de repente pareceu muito difícil.</p><p>Ana só chorou. E eu tive a certeza que ela chorava por ela e por mim, ao mesmo tempo. Balançou os ombros, respirou pesadamente, fungou de um jeito infantil e me olhou com os olhos gelatinosos, inchados de tristeza mas também daquela certeza absoluta que eles sempre tinham.</p><p>“Escuta aqui seu idiota”, ela disse apontando o dedo indicador. “Tu não tá sozinho, tá bom? Tu nunca esteve e tu nunca vai estar, <em>nunca</em>. Ouviu bem? Tu não está sozinho.”</p><p>Cada palavra soou como uma lufada de calor na minha cara. Naquele momento eu só me deixei derreter. Nem senti aquele tremor no nariz ou lábio tremendo. Apenas chorei. E nos meus quinze anos de vida, pela primeira vez eu chorei de carinho. Não estava chorando porque estava com medo de não aprender a tabuada; não estava chorando por me achar feio, por achar que minhas axilas fediam; não estava chorando por achar que todos me odiavam por algum motivo; estava chorando porque o banheiro estava quente, porque estava esparramado no chão de um jeito confortável e porque via ali, naquela mulher que dividia o quarto comigo há 15 anos, um lugar para encontrar amor e também depositar amor. Encharquei o pijama ao entrar na banheira e sentir a água me queimando. E ali ficamos, até as cores do dia começarem a se esgueirar pela basculante, até nossos dedos se dobrarem em rugas, até a água estar morna e salgada. Quando saímos, secamos os cabelos um do outro e trocamos de roupa para dormir até tarde no outro dia, quando acordamos sob um sol quentinho com a mãe nos observando. Era, talvez, o calor dela que tornara aquela água tão quente.</p><p>Eu ri, dentro da banheira seca.</p><p>“Que foi?”</p><p>“Acho que foi ali que eu comecei a ter essa fixação por cabelos cacheados”</p><p>Ana riu.</p><p>“Sim. Mas porra aquele cabelo era lindo, né?”</p><p>“Muito. Engraçado que até hoje eu tenho um carinho muito grande por ele. Mesmo que nunca tenha trocado uma palavra com ele. E tu? Que tu sente pelo Neneco?”</p><p>“Ah, nada. Ainda mais que hoje ele deve ser um hétero top. Passou…”</p><p>“Sim.”</p><p>No silêncio momentâneo pensamos nos dias que se seguiram àquela noite, todos os nossos outros dias, abalados pelos primeiros amores da vida, mas também marcados pelo apagamento natural dos primeiros amores de nossas vidas. Seja pelo meu silêncio, ou pela recusa de Neneco à minha irmã. Ela ouvia o que eu pensava.</p><p>“Se não fosse ele nós não seríamos irmãos, talvez. Não é?”, ela disse.</p><p>“Valeu, Neneco.”</p><p>“Valeu. Neneco… Como tu está? De verdade?”</p><p>“Eu tenho sonhado muito. Visto ele nos meus sonhos, sentindo ele nos meus sonhos e… não sei. Só sei que eu precisava disso. <em>Disso</em>.” Olhei ao redor, olhei para ela e tão logo meus olhos encheram d’água. “Lembrar das coisas, oxigenar meus dias, pensar em tempos melhores. Voltar, pra começar a caminhar de novo.”</p><p>“Tu lembra né… seu idiota, tu não tá sozinho. Tu é importante, e é amado. Tu nunca, nunca está sozinho. Quando as coisas estão difíceis, é fácil de esquecer.”</p><p>Chorávamos tranquilamente. Naqueles dias difíceis, chorar era sinônimo de extremos, de corpo em convulsão, de pensamentos agressivos e imparáveis. Mas não ali, não naquele momento, não com a mana do meu lado, no marco original da nossa irmandade.</p><p>“Eu sei que nessa tua cabecinha aí”, ela disse, batendo o indicador na minha testa, “Tu está se perguntando se as coisas vão sempre estar do mesmo jeito. Se tu nunca vai conseguir se afastar, deixar as coisas para trás… Mas o tempo… ele realmente muda as coisas. Muda as coisas.”</p><p>Nossas mãos se agarraram e tudo não só pareceu tranquilo como de fato estava tranquilo. A noite silenciosa estava virada em calor e conforto e aqueles dias agitados, febris em ansiedade, iam deixando de ecoar, areia no fogo, sopros em um corte. E mesmo as músicas tristes, que pareciam costurar meus rasgos com agulhas embebidas em álcool, pareciam tratá-las de forma mais carinhosa, versos alheios que conversavam comigo e até diziam que as coisas ficariam melhor. O que eu sentia agora não era tanto a sua ausência, mas sim a sua presença: a permanência em mim e no meu corpo. O sentia em meus ossos, como cálcio. Enrubesci comigo mesmo com um pouco de vergonha ao pensar na hipótese de tirar daquele homem a força para seguir. Tão clichê, no fim das contas. Mas tão imediatamente percebi que, de um jeito ou de outro, ele fazia parte do que eu era e do que eu seria dali em diante. Decidi que ele seria uma coisa boa pois, afinal, apesar de tudo, apesar de não entender de forma palpável o que sentia por ele — tão tolo por achar que as coisas que sentimos podem ser palpáveis — ele fora uma coisa boa. Difícil de entender, difícil de sentir, mas boa. Não havíamos dado errado, no fim, mas sim certo por alguns tantos momentos, que eram tão gostosos, suaves e tranquilos que seria injusto taxá-los como momentos de algo que não deu certo. No fim, nem tudo é poesia. Nem tudo é só isso, ou só aquilo. Parece tão simples, mas é tão fácil de esquecer.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*NEpXlftyAnP7n6tlgTuXFg.jpeg" /></figure><p>Quando o outro dia chegou, banhado por um sol quente que não tinha o mínimo interesse de secar a umidade que escorria pelas paredes que fechavam salas, cozinhas, banheiros, quartinhos e taperas, a mãe andava já ansiosa, falando no passado, em sobre como o tempo passa — desde o tempo de um final de semana com os filhos até o tempo de uma vida com e sem filhos. Me colocou a bater a maionese caseira de todo domingo e a mana a descascar as batatas de todo domingo e ali, na sala iluminada, lembramos das manhãs e das noites, das brigas e das pazes, das distâncias e das proximidades, do João Batista que perdera uma perna, da Marilene que ganhou outro par de gêmeos (agora gêmeas, Maria Eva e Eva Maria), da rua que agora é asfaltada, da briga dos primos pelo terreno ao lado, da central de fofocas do outro lado da rua, da nova namorada do tio Maneco, do estranho casamento do Tiago, da morte do tio Cléber, e por aí em diante, num círculo de lembranças no qual uma se agarrava a outra e essa por sua vez em mais duas que vinham embutidas de outra tantas que faziam a casa chorar de tristeza, de nostalgia, de felicidade, de saudade e umidade. E aquele guri cujos lábios ensaiavam tornar-se carnudos nos observava quieto, talvez acompanhado da menina de coque apertado no alto da cabeça e pela mulher alta, de traços suaves mas potentes, furiosos numa delicadeza áspera, linda de um jeito que só ela sabia ser. Os meus dedos estavam cheios de maionese — “a lambuzeira! Miguel não sabe fazer nada sem lambuzeira!” — os da mana cheios de batata — “a Ana deixa metade das batatas nos dedos” — e os da mãe com tudo. Com os fios de nossas vidas, com o cimento daquelas paredes, com o calor das mantas de lã, o gelo dos refrigerantes, os calos dos serviços gerais e o peso da nossa criação. Era lindo ouvi-la falar, mais belo ouvi-la se abrir, coisa que ela nunca fizera e, com o avançar do tempo sobre tudo, decidira fazer.</p><p>Era sobre esses momentos que pairavam a sensação que eu sentira falta: a sensação de entender de onde eu vinha e, por mais burguês safado que pudesse soar, entender quem eu era. Pois Ana tinha razão: quando as coisas estão ruins é fácil de esquecer. Todo o redemoinho de sensações na qual eu fora jogado quando o conheci — seja no meio-fio, seja no carnaval, seja no terraço, seja no quarto, ou em qualquer um dos momentos bons e ruins que vivemos — me soprara para longe daquele guri de cabelo baixinho, cujos lábios ensaiavam para ficarem carnudos, aquele menino que sonhava com tudo e mais um tantinho enquanto olhava para o telhado sobre a cama. Fora ele, afinal, que construíra, pedaço por pedaço, o caminho pelo qual eu caminhava. E que era, enfim, o caminho que eu tanto queria.</p><p>O almoço ficou pronto tarde, como em todo domingo. E como em todo o domingo a mãe reclamara que tinha acordado tarde demais. Eu e Ana desmontamos a mesa de dentro da casa da vó, aquela mesa histórica, sobre a qual dançaram perigosamente tantos bolos de aniversário, tantas pratos vazios depois dos churrascos, tantas cremeirinhas com restos de pudim, tantos e tantos copos com restos de cerveja quente. Colocamos no meio do pátio, sob o sol, sob o tempo que passava e nunca mais voltaria. Chamamos tio Maneco e chamamos a vó, nos servimos da salada, da carne assada no forno mesmo — “Não dá pra pedir pro Maneco assar, a carne sempre fica crua” a mãe dissera — e comemos. Não demorou muito para que as nuvens começassem a salpicar o céu de branco e a vó, na sua sentença sábia de anos de dias quentes como aqueles, se quedou a olhar pra cima.</p><p>“Vai chover em seguida.”</p><p>“Para de olhar pra cima véia, tu vai tontear e vai cair”, disse tio Maneco, gargalhando aquela gargalhada que o vô odiava e que ali eu sabia que ele fingia odiar.</p><p>“Vou cair uma mão nessa tua cara”, rebateu a vó, rápida e certeira.</p><p>E rimos.</p><p>E choveu, afinal. Mas só à noite, e na noite do outro dia ainda, quando Ana já tinha ido embora no seu carro, depois de insistir para que eu fosse junto com ela. Mas eu precisava de mais alguns momentos ali, sobre aquele chão, sob aquele céu e ao redor daquelas paredes. Na segunda-feira acompanhei o ritmo da mãe, da vó e do tio Maneco. Vidas aposentadas de trabalhos, mãos que funcionavam para lá e para cá sem parar um minuto para manter de pé aquele lugar e aquela história.</p><p>Fui à tapera e passei mais uma vez a mão por suas paredes descascadas, uma madeira úmida, quase esponjosa. Peguei um prego e risquei mais fundo a marca no umbu e ainda fiz outra, mais pra baixo, próxima às raízes: <em>essa fase ruim vai passar</em>. Ri de mim mesmo por ser tão futilmente classe média. Fui ao quartinho do vô e deitei no chão, dobrando as pernas agora compridas demais para ficarem esticadas em todo seu comprimento, e sonhei de olhos abertos olhando para o teto e para os livros dele, hoje tão empoeirados, mas marcados pelas impressões digitais do próprio vó e daqueles outros tantos que passaram por ali. Andei pela casa, sentei na sala, passei o dedo na fuligem do fogão a lenha, me olhei no reflexo da antiga televisão de tubo no canto da cozinha toda amarela e por fim sentei na beirada da banheira, os pés em meias, sentindo cócegas com o friozinho que começava a subir das coisas, agora que aqueles dias quentes estavam prestes a acabar.</p><p>A mãe entrou no banheiro. Não pareceu surpresa de me ver ali. Aprendeu com o tempo que aquela peça verde-esmeralda que a vó tanto amava era o meu refúgio e o de Ana. Sentou ao meu lado e não me olhou, mas pousou a mão sobre a minha, sabendo daqueles dias febris de ansiedade que precedem as dolorosas quebras de vínculos. Eu não havia falado muito sobre ele para a mãe, apenas o suficiente. Que estávamos juntos e que eu amava de um jeito especial e que as coisas estavam boas — mesmo que não estivessem totalmente boas. Foi o suficiente para ela sempre perguntar por ele quando ligava e também o suficiente para soltar um suspiro de lamento quando eu contei, com a voz encharcada, que nós não dividíamos mais os nossos dias.</p><p>“Ah, que pena meu filho…”, ela disse, quedando no seu silêncio, mas pensando — e eu sabia que ela estava pensando — sobre como eu estava e se Ana estava me dando a atenção suficiente. “E eu nem conheci ele”, ela disse por fim. E eu ri, chacoalhando as lágrimas, porque aquele tipo de detalhe banalmente importante era algo que a mãe lamentaria para o resto da vida.</p><p>“Sabe, mãe”, eu disse, sentado ao lado dela na ponta da banheira, olhando para meus próprios pés sem conseguir encarar a sua visão úmida logo ali ao meu lado. “Eu tenho estado bem triste. Mas não aquela tristeza de sempre, que nasceu comigo… <em>mais</em> triste. Muito triste… e parece tão bobo quando eu falo, que eu acabo nem falando. Mas é que… eu acho que sempre fui desse jeito né? De chorar demais por coisas que parecem pequenas demais. Bom, no fim eu vi que as coisas não eram <em>tão</em> pequenas assim. Que eu não entendia nada” . Comecei a riscar um círculo imaginário no chão com o meu dedão direito. “Uma coisa me deixou muito pra baixo mas… mas eu tô tentando seguir em frente. Agora que eu sei que isso não é bobagem, e que é da vida a gente chorar por coisas que acontecem. E agora que eu lembro de muitas coisas que vão me ajudar a seguir, eu acredito de verdade que essa fase ruim vai passar. Que as sombras vão ficar mais claras e que eu vou voltar a sorrir de verdade. Do mesmo jeito que tu me fazia sorrir quando a gente ia na praça, ou quando a gente só caminhava na rua.”</p><p>A mãe apertou minha mão com um carinho intenso que eu só soube chorar e despertar daquele diálogo imaginário no qual eu falava tudo para ela. No fim, quando finalmente a olhei nos olhos e nossas lágrimas se encontraram, cada uma escorrendo pelo seu respectivo rosto, percebi que nem precisaria falar mais nada. Não era à toa, afinal, que aquela casa era uma casa de silêncios. As coisas sempre eram ditas de outras formas.</p><p>Ainda não chovia quando eu fui embora, quando a noite se arrastava pelo céu, deixando as nuvens num tom avermelhado de adeus. Estava fresco na frente do pátio, e eu estava na dúvida se era a minha mochila que estava mais leve ou se era eu mesmo.</p><p>Encontrei o guri na frente, voltando do colégio. Ao longe, nas vilas vizinhas, a fumaça da lareira de algum velho friorento subia ao céu. O guri me viu e, me vendo, tive a certeza de que tanto eu quanto a mochila estavam leves.</p><p>“As coisas não vão parecer muito fáceis, às vezes. E de fato elas não vão ser”, eu disse me agachando diante de mim mesmo, olhando naqueles meus olhos que sempre foram miúdos. “Mas tu tem sempre que lembrar que tu não está sozinho. E que tu é amado. E que tu importa. Parece bobo né? Mas não é. Nos tempos difíceis é fácil de esquecer. É fácil ver tudo como uma só coisa. Uma só coisa… ruim. Às vezes, o amor que a gente sente vai nos machucar. E tu vai se questionar se as coisas que tu sente são mesmo reais. Mas tu precisa lembrar, tu <em>sempre</em> precisa lembrar que cada pedaço de sentimento vai te formar e cada decisão tomada com esses sentimentos vai te formar também”. Toquei seu rosto, que não tinha uma única lágrima, apenas um fascínio discreto, um brilho triste e sonhador. “ O tempo… ele muda as coisas. E ajusta tudo. E se não ajustar… bom, a gente precisa aprender a aprender a lidar com um relógio estragado.”</p><p>Rimos. Baixinho. Para que ninguém ouvisse. Naquela hora, a mãe e a vó tomavam chimarrão na beira do fogão a lenha assistindo novela, mas seus ouvidos eram atentos. O abracei. Ele levantou e foi embora, com aquela mochila que parecia tão pesada. Mas só parecia, porque ela era leve, assim como ele. Leve e bonito. Ele saiu caminhando e ainda olhou umas duas vezes pra trás com aquele rosto que era o meu, só que diferente, mais velho, decidido. Não me abanou. Eu achei que estava sonhando, mas olhei o céu e senti o frescor do fim da tarde, quando o frio começava a se espichar pra se enrolar sobre as pessoas. Eu não estava sonhando. Tive a certeza quando a mãe espiou pela janela e mandou eu sair da aragem que começava a cair, dizendo que tinha pão feito em casa que não era feito na nossa casa pro café e perguntando porquê eu e a mana não havíamos voltado juntos do colégio. Fui correndo. A única coisa que não fazia muito sentido era aquilo que escorria aos montes pelo meu sovaco, como se fosse verão. O suor.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=aa77001c0cb1" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/construtor/esses-dias-quentes-prestes-a-acabar-aa77001c0cb1">Esses Dias Quentes Prestes a Acabar</a> was originally published in <a href="https://medium.com/construtor">Construtor</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[A distopia nossa de cada dia]]></title>
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            <category><![CDATA[rio-de-janeiro]]></category>
            <category><![CDATA[racismo]]></category>
            <category><![CDATA[marielle-franco]]></category>
            <category><![CDATA[intervenção-militar]]></category>
            <category><![CDATA[crônicas]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Glauber Cruz]]></dc:creator>
            <pubDate>Thu, 15 Mar 2018 17:05:52 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2018-03-15T20:53:54.685Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*mJWfvZE6iVGhDDHrKyvZ-Q.jpeg" /><figcaption>Marielle Franco</figcaption></figure><p><em>Nove tiros. Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove.</em></p><p>Nove tiros e duas existências que se vão, que se esvaem. Duas vidas mortas. Cenas de uma distopia, a pior das distopias, aquela que é real. Rotineira, corriqueira, banal. A distopia nossa de cada dia. A realidade nossa de cada dia.</p><p><em>Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove.</em></p><p>O Brasil não é um roteiro simples. Portanto, a nossa distopia não é uma ameaça zumbi, ou uma epidemia global ou uma invasão alienígena. A nossa distopia é uma guerra violenta e silenciosa que se desdobra longe dos olhos da grande maioria da população. Seja porque de fato está longe, realocada nas zonas periféricas fora do alcance do olhar dos centros urbanos, seja porque as pessoas realmente não querem enxergar<em>. </em>Na distopia tupiniquim, o sangue rola à solta, como num Tarantino. Mas na nossa distopia não é a cara do Hitler que é esfacelada, não é o peito de um fazendeiro racista que é perfurado. Não, não são os poderosos. É o rosto, e o peito e a alma daqueles que sempre foram esfacelados e perfurados e açoitados que são atingidos. Na distopia nossa de cada dia, os corpos negros e pobres, as vozes que gritam e não se deixam silenciar, lutam contra ameaças que são muito mais próximas que alienígenas, muito mais aterrorizantes que um zumbi.</p><p><em>Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove.</em></p><p><em>O que aconteceu com esse país? Onde viemos parar?</em></p><p>Como assim, o que aconteceu? Aconteceu o de sempre. E quem disse que saímos de um lugar para chegar aqui, na nossa distopia rotineira? Ora, estamos aqui, no mesmo lugar de sempre, cravados em uma distopia que mata quem fala, que mata quem se posiciona, que mata quem luta, que mata quem é pobre, que mata quem é preto.</p><p><em>Shhhhhhhhhhhh. Não fale alto, não fale nada!</em></p><p>Um dia desses ouvi um áudio no WhatsApp, dizendo para que as pessoas tomassem cuidado pois agora estamos vivendo um estado de exceção. Bem aventurados aqueles que em algum momento da vida tiveram o prazer de degustar um pleno estado de direito! Nas nossas vielas não existe estado de direito, apenas o estado distópico de sempre, que não é de exceção porque aquilo é o de sempre. Abençoados aqueles que não degustaram o gosto da morte do outro lado da rua durante a infância! Abençoados aqueles que não tiveram um amigo ou um pai ou uma mãe ou um irmão arrancados da vida pela violência daquele que é o inimigo. Que não é um alienígena, que não é um zumbi, que não é nada que extrapole os limites das fantasias que empalidecem inocentemente diante da dureza e da barbárie das distopias rotineiras.</p><p><em>Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis. Sete. Oito. Nove.</em></p><p>Nove tiros arrancaram a vida de Marielle. Na distopia brasileira, negros e negras são pisoteados por um Estado cujas falanges do indicador coçam no gatilho sempre pronto para eliminar. Estado de exceção? Que nada. O estado de sempre, o extermínio de sempre. Nove tiros mataram Marielle, a mulher, a negra, a favelada, a filha, a mãe, a amiga, a socióloga, a feminista, a vereadora, porque ela ousou não se calar. Porque ela ousou lutar pelos direitos dos seus. Negros, mulheres, favelados, assassinados.</p><p><em>Shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh não fala alto, não fala nada!</em></p><p><em>Ah mas eu falo. Falo alto e falo tudo!</em></p><p>E ela falou. Falou e gritou. Falou, gritou e agiu. Criticava a polícia, fiscalizava a intervenção militar no Rio e deixava bem claro que ela não é solução, que na verdade é desculpa pra milico matar gente pobre e preta da favela. Apontou o dedo para a cara desses monstros-gestores terrivelmente reais que desistiram do uso de qualquer maquiagem. Não se escondem mais os reitores, generais, deputados, policiais e presidentes. Meninos mimados que regem a nação numa distopia que estraçalha tudo o que está abaixo de seus pés calçados por coturnos de cano alto ou sapatos importados.</p><p>Ontem nos estraçalharam mais uma vez. Nove pedaços arrancados de dentro de nós. Quando morre um de nós, morremos todos, pouco a pouco. E no meio da dor, no meio de todo esse horror real, ficamos a nos perguntar a mesma pergunta que Marielle fez há alguns dias em uma rede social: quantos mais vão precisar morrer para que essa guerra acabe?</p><p><em>Quantos?</em></p><p>Marielle, presente.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=86ecc4ac265e" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/construtor/a-distopia-nossa-de-cada-dia-86ecc4ac265e">A distopia nossa de cada dia</a> was originally published in <a href="https://medium.com/construtor">Construtor</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Novembro (iii)]]></title>
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            <category><![CDATA[racismo]]></category>
            <category><![CDATA[crônicas]]></category>
            <category><![CDATA[negritude]]></category>
            <category><![CDATA[novembro-negro]]></category>
            <category><![CDATA[consciência-negra]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Glauber Cruz]]></dc:creator>
            <pubDate>Fri, 01 Dec 2017 20:19:17 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-12-02T21:51:48.346Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h4>Primeiro a <a href="https://medium.com/construtor/novembro-i-20a05abdca69">construção (i)</a>, depois o <a href="https://medium.com/construtor/novembro-ii-277bd9155ac6">despedaçamento (ii)</a> e por fim a revolução.</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*ghELmAe3_y9cAXlMlKSXhw.jpeg" /><figcaption>cena do clipe da música “A Carne” de Elza Soares</figcaption></figure><blockquote><strong>Por mais que você corra irmão<em><br> </em>Pra sua guerra vão nem se lixar<em><br> </em>Esse é o x da questão<em><br> </em>Já viu eles chorar pela cor do orixá?<em><br> </em>E os camburão o que são?<em><br> </em>Negreiros a retraficar<em><br> </em>Favela ainda é senzala Jão<em><br> </em>Bomba relógio prestes a estourar</strong></blockquote><p><strong><em>Negro.</em></strong></p><p>A palavra caiu pesada sobre mim, no exato momento em que acordei. A minha primeira certeza da vida, a minha primeira certeza do dia. <strong><em>Negro.</em></strong> A palavra me despedaçou em liberdade. Mil pedaços pretos ao meu redor. Ressignificados. Reinventados. Rexistentes. <strong><em>Negro</em></strong>. A palavra me envolveu quente como um abraço ancestral, potente como o bater de um tambor, necessária como o quebrar de correntes. A inspiramos assim, simples. Cinco letras, duas sílabas. A expiramos assim, gigante. <strong><em>Negro.</em> </strong>A brava carga de lanceiros nas nossas guerras diárias.</p><p>Para nós negros, lutar não é uma escolha. Não é uma opção que fizemos, não é um caminho que traçamos por livre e espontânea vontade. Para o negro, a luta é inerente ao corpo, tão natural quanto respirar. Um carimbo no nosso peito preto recém-nascido. Já naquele momento, o sangue que nos aquece, a pele que nos envolve e o ventre do qual saímos gritam: <strong><em>lute!</em></strong></p><p>E lutamos. Afinal, como William Waack deve saber do alto da sua sabedoria sobre negritude, lutar é coisa de preto. Encaramos esse verbo de forma íntima, já que ele faz parte de nós em todos os tempos verbais e históricos. Pretérito, presente e futuro. Lutamos. A ideia de lutar para resistir nos perpassando de muitas maneiras. Um abrir de olhos, por exemplo. Tão banal e difícil de relacionar ao sentido potente da palavra “luta” mas que acaba perdendo a palidez de sua simplicidade quando encaramos os números do Atlas da Violência de 2017, que diz que os indivíduos com mais chances de serem vítimas de homicídio são negros. A cada 100 corpos mortos, 70 são negros. A cada 100 vidas finalizadas e violentadas, 70 são negras. Trinta pares de olhos que se abrem toda manhã indo na contracorrente das estatísticas forjadas pela desigualdade.</p><p>Movemos então nossos corpos pretos para a rua. Aqui a luta não é banal, pelo menos não quando se depara com o choque da Brigada Militar. Lutamos embalados pela indignação de vermos um corpo negro morto apenas por ser negro. Chutamos bombas de gás lacrimogênio embalados pela raiva de vermos um corpo negro arrastado displicentemente apenas por ser negro. Seguimos, sob olhares tortos, embalados pela indignação de vermos um corpo negro preso apenas por ser negro. Rafael foi libertado, mas de quantos outros Rafael o Brasil não ouve falar? De quantos outros Rafael o Brasil não quer falar?</p><blockquote><strong>Aí<br>O tempero do mar foi lágrima de preto<br>Papo reto, como esqueletos, de outro dialeto<br>Só desafeto, vida de inseto, imundo<br>Indenização? Fama de vagabundo<br>Nação sem teto, Angola, Keto, Congo, Soweto<br>A cor de Eto’o, maioria nos gueto<br>Monstro sequestro, capta três, rapta<br>Violência se adapta, um dia ela volta pro cêis<br>Tipo campos de concentração, prantos em vão<br>Quis vida digna, estigma, indignação<br>O trabalho liberta, ou não<br>Com essa frase quase que os nazi, varre os judeu? Extinção<br>Depressão no convés</strong></blockquote><p>E lutar, essa coisa tão visceral e tão inerente à nós, nos impulsiona, nos dá uma sensação de urgência, uma ansiedade para fazer com que as coisas sejam diferentes. Que as crianças negras não tenham que ouvir que são macacas e que tem o cabelo de palha. Que os adolescentes negros não tenham que primeiro passar por um processo doloroso de ódio de si mesmo para só depois passar a gostar de si. Que o jovem negro não seja morto, pela polícia, ou pelo tráfico, ou por uma sociedade que vomita sobre consciência humana e democracia racial. A luta nos impulsiona, nos deixa com sangue nos olhos. Nasce no fundo do peito aquela vontade feroz de abalar cada uma das estruturas violenta e historicamente impostas por um Estado criminoso. Nos despedaçamos para depois despedaçar o país racista no qual fomos gerados.</p><p>Ocupamos os espaços que nos foram relegados, chutamos a porta da Reitoria Grande em todos os cantos do Brasil. Os racistas enlouqueceram — todos eles, o declaradamente racistas e os enrustidamente racistas. Bradaram sobre desigualdade, sobre como estaríamos sendo “privilegiados”, sobre como os seus espaços de excelência estariam ameaçados. Preocupações tolas, desculpas que não conseguiam mascarar o seu racismo. Cru e puro. Picharam paredes nos mandando de volta para as cozinhas dos restaurantes universitários. Os ensurdecemos com o som dos tambores ecoando em suas salas de aulas tão alvas, tão donas de uma sabedoria única. Única e racista.</p><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*GPe7GcJDB0D20_39z7n0aQ.jpeg" /><figcaption>UFRGS Negra. Celebração de 20 de novembro reuniu estudantes, professores e servidores técnicos negros da universidade em uma foto. (foto de Ramon Moser -DEDS/UFRGS)</figcaption></figure><p>Lutar faz com que tenhamos a percepção de quem e o que somos na história desse país parido pela violência e pela exploração. A carne (negra) estilhaçada de nossos ancestrais mergulhou na terra e se enraizou. Mergulhou tão fundo, enraizou tão fundo, que não há como pensar na formação do Brasil sem pensar no povo negro. Não existe Brasil sem o povo negro. Queremos a história de nossos ancestrais, que é também a nossa história, nos livros de história, ao lado do capítulo dedicado às imigrações alemã e italiana. Queremos falar sobre a importância do povo negro não só em novembro. Nossa luta não é limitada por um espaço de trinta dias, nossa luta respinga, antes de 1º de novembro, depois de 30 de novembro.</p><blockquote><strong>Há quanto tempo nóis se fode e tem que rir depois<br>Pique Jack-Ass, mistério tipo Lago Ness, sério és<br>Tema da faculdade em que não pode por os pés<br>Vocês sabem, eu sei<br>Que até bin laden é made in usa<br>Tempo doido onde a KKK, veste Obey (é quente memo)<br>Pode olhar num falei?</strong></blockquote><p>Lutar nos inspira, especialmente quando olhamos com olhar de reverência para as mulheres que nos pariram e que nos criaram. Donas de uma sabedoria só delas, de quem carregou (e ainda carrega) nas costas o peso do racismo e do machismo. Mulheres que amam, embora não tenham sido ensinadas a mostrar (ou pior, tenham sido ensinadas de que não era necessário mostrar) e que sobrevivem aquecendo a sobrevivência de seus filhos e netos e bisnetos e além.</p><p>E lutar também nos faz sentir vontade de não precisar lutar mais, de degustar o sabor de um país e de um mundo menos desigual e racialmente violento. A luta faz parte de nós, mas imaginem que fantástico seria se tivéssemos o direito de nascer sem ter que obrigatoriamente ter que lutar para ter o mínimo de respeito, de direito, de dignidade. É na construção de um mundo assim que a nossa luta se baseia, e é na construção de um mundo assim que a luta daqueles que não são negros precisa se basear também.</p><p>O Brasil precisa discutir as suas relações raciais. E essa discussão não deve ser do jeito que é feita hoje, feita pelos negros, para os negros. O racismo não é um problema do negro, é um problema que nos é externo e que nos afeta. O branco brasileiro precisa se desligar da ideia tola de que vivemos em um país racialmente democrático, que as pessoas tem as mesmas oportunidades, os mesmo acessos. O branco brasileiro precisa deixar de lado a certeza de que não é racista, certeza que o deixa em uma posição cômoda e vazia de “estou fazendo minha parte”, que o impede de entrar de fato na discussão e desse jeito mudar o estado das coisas. Não basta, meus queridos amigos brancos, <em>dizer </em>que não é racista. É preciso <em>mostrar</em> que se <em>quer</em> exterminar o racismo.</p><p>A branquitude precisa parar de relativizar expressões que corroboram o racismo só “porquê são expressões”. A língua é viva, a palavra é dotada de uma carga simbólica muito potente para não ser levada a sério. Portanto (só para citar um exemplo) a tua garrafa de cerveja gelada não é a canela de um pedreiro; a tua garrafa de cerveja gelada é apenas uma garrafa de cerveja gelada. Não é a canela de um pedreiro, que é negro, e que fica suja de poeira. Essa canela suja de poeira é o corpo que emoldura uma existência, concretiza uma vida, é um território. Caso as pessoas não saibam, o Brasil passou por um processo de escravidão que durou trezentos anos. Quase trezentos anos onde os negros não tinham direito sobre o próprio corpo. A escravidão acabou e no momento em que se usa o corpo negro como expressão, nem a plena existência livre do escárnio, da objetificação e da relativização o negro e seu corpo têm. No momento em que se ataca o meu corpo, mesmo numa expressão “banal”, se reafirma o racismo, o mesmo racismo que há pouco mais de um século desprovia o negro escravizado do direito básico ao seu corpo.</p><blockquote><strong>Aí<br>Nessa equação, chata, policia mata? Plow!<br>Médico salva? Não! Por que? Cor de ladrão<br>Desacato invenção, maldosa intenção<br>Cabulosa inversão, jornal distorção<br>Meu sangue na mão dos radical cristão<br>Transcendental questão, não choca opinião<br>Silêncio e cara no chão, conhece?<br>Perseguição se esquece? Tanta agressão enlouquece<br>Vence o Datena, com luto e audiência<br>Cura baixa escolaridade com auto de resistência<br>Pois na era cyber, ceis vai lê</strong></blockquote><p>Repense. Repense de verdade, não apenas porque é <em>cool</em> ser da tribo dos desconstruídos, mas porque é necessário. Repense o seu <em>“não curto negros”</em> homem branco gay; repense o seu <em>“mulata boa pra sexo”</em> homem branco hétero; repense o <em>“não sou tuas nega”</em> mulher branca. Façam todos vocês um profundo trabalho espiritual antes de sair de casa para evitar tremer toda vez que um homem negro cruzar seu caminho. Façam um esforço para não ir na direção do primeiro negro que surgir na frente de vocês dentro de uma loja, achando que ele é funcionário (por mais incrível que possa parecer pra vocês, um negro dentro de uma livraria pode ser sim um negro comprando livros). Façam um esforço para esquecer a ideia de falar com uma mulher negra na defensiva, já que todas as mulheres negras adoram um barraco. Tentem (pelo menos tentem) não passar a mão na cabeça do amiguinho que faz piada racista. Tente também não ser o amiguinho que faz a piada racista, se bater aquela vontade descontrolável de fazer “aquela piadinha inofensiva, que não agride ninguém” pegue a piada e enfie ela em algum lugar bem distante dos ouvidos alheios, sussurre para si mesmo e veja o quão estúpida ela é. E o quão racista você pode ser.</p><p>Queiram de verdade mudar as coisas. Queiram entender o sistema carcerário brasileiro, queiram entender que ele é falido e que só pavimenta a desigualdade e que financia o genocídio da juventude que é pobre e negra. Queiram entender que a saúde da população negra precisa de um olhar diferente, especialmente psíquico. Queiram entender que não são vocês que decidem o que é e o que não é racismo e quando uma pessoa negra pode ou não ficar ofendida — essa decisão simplesmente não cabe a vocês. Queiram entender que a falácia da consciência humana é uma falácia burra. Que consciência humana que pode ter um país absurdamente desigual como o Brasil? Que consciência humana pode ter um país que é estruturalmente racista?</p><p>Queiram entender, esse é o segredo. Como os liberais políticos brancos adoram sugerir, é só questão de querer. Se não quiserem nos ouvir, tudo bem. Procure o amigo branco mais próximo que entende, ele vai lhe explicar. Não concordo, mas até imagino o quão difícil é para uma pessoa branca entender o que uma pessoa negra passa e sente, especialmente quando é falado por uma pessoa negra. Taís Araújo quem o diga.</p><blockquote><strong>Os livro que roubou nosso passado igual alzheimer, e vai ver<br>Que eu faço igual Burkina Faso<br>Nóis quer ser dono do circo<br>Cansamos da vida de palhaço<br>É tipo Moisés e os hebreus, pés no breu<br>Onde o inimigo é quem decide quando ofendeu (cê é loco meu)<br>No veneno igual água e sódio<br>Vai vendo sem custódio<br>Aguarde cenas do próximo episódio<br>Cês diz que nosso pau é grande<br>Espera até ver nosso ódio</strong></blockquote><p>Não há outra forma de exterminar o racismo senão eliminarmos o racista enrustido que vive em nossas entrelinhas. Não há outra forma de viver em um país minimamente justo se não eliminarmos o racismo que existe nas entrelinhas do seu cotidiano, das suas relações, da sua história. E não há outra forma de chegarmos nessa realidade de justiça e igualdade racial se não for pela luta. Lutando, sopramos um vento sobre o calor dos uniformes que nos invisibilizam, com salários precários e atrasados, vistos como <em>“eles”</em>, mergulhados em limpeza e segurança — alheios. Lutando, gritamos que não vamos aceitar a morte de nossos irmãos, nossos filhos, nossas mães, nossas irmãs. As coisas precisam mudar, vocês precisam parar de nos matar, de nos invisibilizar, de nos apagar. <strong><em>Vocês vão parar.</em></strong></p><p>Lutando, começamos as nossas pequenas revoluções, tão íntimas, tão coletivas. Focos de incêndio na periferia povoada na sua grande maioria por peles e vidas e histórias e dores pretas. No dicionário, o verbete da palavra re.vo.lu.ção diz: “<em>transformação radical, profunda e completa de uma estrutura política, econômica e social”</em>. Se a revolução não for preta, eu não sei de que cor ela será.</p><p>Seguimos. Construídos, despedaçados, revolucionários.</p><p><strong><em>Negros.</em></strong></p><blockquote><strong>Por mais que você corra irmão<br>Pra sua guerra vão nem se lixar<br>Esse é o x da questão<br>Já viu eles chorar pela cor do orixá?<br>E os camburão o que são?<br>Negreiros a retraficar<br>Favela ainda é senzala Jão<br>Bomba relógio prestes a estourar</strong></blockquote><p><em>Letra da música “Boa Esperança” de Emicida</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=f320eceed5b9" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/construtor/novembro-iii-f320eceed5b9">Novembro (iii)</a> was originally published in <a href="https://medium.com/construtor">Construtor</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Novembro (ii)]]></title>
            <link>https://medium.com/construtor/novembro-ii-277bd9155ac6?source=rss----bcf2c9cff651---4</link>
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            <category><![CDATA[negritude]]></category>
            <category><![CDATA[racismo]]></category>
            <category><![CDATA[novembro-negro]]></category>
            <category><![CDATA[crônicas]]></category>
            <category><![CDATA[racismo-institucional]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Glauber Cruz]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 25 Nov 2017 23:28:05 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-12-02T15:38:55.156Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<h4>Primeiro a <a href="https://medium.com/construtor/novembro-i-20a05abdca69">construção (i)</a>, depois o despedaçamento.</h4><figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*o8Oukyz8xV9fCminj0HRzA.jpeg" /><figcaption>cena do clipe da música “Black Man in a White World” de Michael Kiwanuka</figcaption></figure><blockquote><strong>I’ve been low, I’ve been high<br> I’ve been told all my life<br> I’ve got nothing left to pray<br> I’ve got nothing left to say<br> I’m a black man in a white world</strong></blockquote><p><strong><em>Negro.</em></strong></p><p><strong><em>Na forma de uma picareta, a palavra rachou o menino em pedaços pequenos e cada vez menores. Despedaçado. Não sentiu medo. Ali, aos pedaços, o menino se sentia um pouco mais livre, dono de si, do seu próprio significado. Por muito tempo esteve preso a um significado que lhe foi inculcado; preso dentro de si mesmo, dentro de sua própria pele. Despedaçado, ele se viu mergulhado em sua própria vontade, na sua necessidade de ser e estar no mundo do jeito que era.</em></strong></p><p><strong><em>Negro.</em></strong></p><p>Assim começa a história de Gabriel, uma preguiçosa tradução do Glauber da vida real para a literatura que protagoniza um romance que há um bom tempo eu venho pensando em escrever e que trata desse processo de realmente se despedaçar, repensar a si mesmo, rompendo com os discursos de um imaginário preconceituoso que tem por objetivo fazer com que nos anulemos . A nossa invisibilidade financiada por nós mesmos, reafirmando as artimanhas sorrateiras do racismo à brasileira.</p><p>O processo que eu apelidei de despedaçamento é algo que nos desperta de um doloroso e tóxico processo de formação<strong>.</strong> É nesse momento, que normalmente sucede os anos de tensionamentos nos espaços pelos quais mais circulamos durante a adolescência — a escola, a casa dos amigos, a nossa própria casa — , em que temos um estalo e começamos a nos questionar sobre tudo o que ouvimos e aprendemos sobre ser negro. É um processo que começa silencioso, na forma de ideias que se aproximam sorrateiras nas entrelinhas das conversas e reflexões e na forma de pessoas que verbalizam algo que sempre queremos falar e gritar, mas que muitas vezes ao menos temos noção de que queremos fazê-lo.</p><blockquote><strong>I’m in love but I’m still sad<br> I’ve found peace but I’m not glad<br> All my nights and all my days<br> I’ve been trying the wrong way<br> I’m a black man in a white world</strong></blockquote><p>Não é, obviamente, um processo fácil. Imagine ouvir uma música ao longo de anos, a mesma melodia e a mesma letra soando sempre da mesma forma nos ouvidos. A <em>Música Um</em>. O ouvido se acostuma com a <em>Música Um</em>, de modo que ela se adere ao nosso corpo, à nossa mente e se perpetua exatamente daquela forma. A conhecemos de trás pra frente, de cor e salteado. Agora imagine que um dia a música toca diferente e ela vira a <em>Música Dois</em>: a melodia não tem mais o mesmo ritmo, a letra foi suprimida, ela dura menos, soa melhor nos ouvidos. Aquilo que conhecemos tão bem de repente muda, a melodia que nossa cabeça já antecipa acaba por não vir, o ritmo ao qual já estamos acostumados acaba por se atropelar, o estranhamento domina. E até que passemos a ouvir a <em>Música Dois</em> sem o mínimo desse estranhamento, até que passemos a gostar dela, entender ela, é um árduo e longo processo de reeducação. Se despedaçar é isso, ouvir uma nova música e se despir de todas as ideias e estereótipos que constroem sobre nós. É não ouvir a música que sempre ouvimos, aquela que dói nos ouvidos e na pele, mas sim uma música que impulsiona nos tirando do lugar que nos colocaram na sociedade.</p><blockquote><strong>I feel like I’ve been here before<br> I feel that knocking on my door<br> I feel like I’ve been here before<br> I feel that knocking on my door<br> And I’ve lost everything I had<br> And I’m not angry and I’m not mad<br> I’m a black man in a white world</strong></blockquote><p>Quando nos despedaçamos, entramos em contato direto com a certeza de ser negro, da qual muitas vezes fugimos para evitar os desprazeres da realidade áspera de um país nascido da dor e da violência contra o povo negro. Estar aos pedaços é se ver envolto por estereótipos, discursos, piadas e ações embebidas por uma violência potencializada pelo tempo, pela relativização e pela naturalidade; mas não só isso, também é se ver disposto a apagar tudo isso, pelo menos dentro de si. É pegar a picareta e destruir cada um desses conceitos, um por um, pedaço por pedaço. <em>Meu cabelo é “ruim”. </em><strong><em>CRECK</em></strong><em>! Eu sou inferior. </em><strong><em>CRECK</em></strong><em>! Eu não posso. </em><strong><em>CRECK</em></strong><em>! Eu não consigo. </em><strong><em>CRECK</em></strong><em>! </em><strong><em>CRECK</em></strong><em>! </em><strong><em>CRECK</em></strong><em>!</em></p><p>Ali, nas nossas próprias estruturas destroçadas, percebemos que o problema não habita em nós. A distorção não se encontra em nosso reflexo. Não é a nossa existência que é errada. O problema, a distorção e o erro na verdade são externos, habitam o corpo dos racistas, sistematicamente construídos para fazer com que o negro, desde muito pequeno, olhe para baixo para se enxergar e que esqueça que não existe a história desse país sem seus ancestrais.</p><blockquote><strong>I’m a black man in a white world<br>(I don’t mind who I am)<br>I’m a black man in a white world<br>(I don’t mind who you are)</strong></blockquote><p>Aos pedaços, nadamos contra a maré dos discursos, piadas, comentários, gestos e tudo aquilo que nos coloca tanto em um lugar quanto em um não-lugar, ambos muito bem definidos. Quando olhamos para trás, nos vemos inconformados com todas as coisas distorcidas que aprendemos sobre nós mesmos e começamos então a ressignificar tudo o que foi dito que significamos. Batemos o pé dizemos que não: não somos isso ou aquilo que querem que sejamos. Peguemos como exemplo o trecho do meu romance ainda não iniciado em que Gabriel decide comprar quiche de bacon e suco de laranja no Zaffari. No momento em que ele pisa no mercado entra em ação o Segurança, coadjuvante de luxo na rotina de jovens negros, na sua missão de resguardar todo o patrimônio do local e (algo que provavelmente não esteja explícito em seu contrato mas que ele segue com muito rigor) vigiar todo jovem negro que ali entra. Gabriel, despedaçado e cansado da institucionalização do homem negro como uma ameaça em potencial (esteja do outro lado da rua, no fundo ônibus, parado em uma esquina ou dentro de um mercado) ao se aceitar, se afirmar e de fato tornar-se negro no sentido mais profundo da palavra, ele diz (mesmo sem dizer, mesmo sem gritar, mesmo que apenas para si mesmo) que não vai aceitar que o reduzam a um imaginário construído sobre muita violência, desigualdade, relativização e ignorância.</p><p>O filme <em>“Moonlight — Sob a luz do luar” </em>tem uma cena linda em que Juan, personagem interpretado por Mahershala Ali, diz para o pequeno Chiron: <em>“Chega o momento em que você precisa decidir quem você é. Ninguém pode tomar essa decisão por você.” </em>Despedaçados, decidimos quem somos e privamos uma sociedade racista de tomar essa decisão por nós. Batemos o pé e dizemos que somos o que queremos ser. Gritamos para nós mesmos e para todo o mundo (quer queiram ouvir ou não) que nossas vidas importam e que não seremos algo reduzido a uma concepção rasa e ignorante da nossa existência.</p><p>Despedaçados, aprendemos a nos amar, já que não fazemos o tipo de ninguém. Aprendemos a cuidar de nós mesmos, deixando de lado a mutilação psíquica a qual somos expostos durante a infância e a adolescência. Aprendemos que nosso cabelo não é ruim, que nossos traços não são grosseiros, que nossa beleza não é exótica, que somos negros, não morenos. Preenchemos um vazio sistematicamente aumentado por uma sociedade hipócrita na qual ninguém é racista, mas quase todos bufam entediados quando alguém propõe discutir raça. Gabriel, cuja história ainda nem comecei a escrever, ainda tenta colar em si a peça da autoestima. É complicado, é uma peça difícil de encaixar em si, pois é muita pequena, visto que ela recém foi criada, depois de todo o tempo que o menino passou ouvindo que ele era feio, que seu cabelo era ruim, que sua boca era grande, que sua presença era uma ameaça, que sua existência era menos importante por vir da periferia. De picareta na mão, Gabriel respira fundo, tendo em si a certeza de que despedaçar-se, rachar-se, desconstruir-se é um mais ato de resistência negra, semente de uma nova existência.</p><p><strong><em>Rexistência.</em></strong></p><blockquote><strong>I’m a black man in a white world<br>(I’m not wrong, I’m not wrong)<br>I’m a black man in a white world<br>(Oh it’s alright, it’s alright)<br>I’m a black man in a white world<br>(Oh it’s alright)</strong></blockquote><p><em>Letra da música “Black Man in a White World” de Michael Kiwanuka</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=277bd9155ac6" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/construtor/novembro-ii-277bd9155ac6">Novembro (ii)</a> was originally published in <a href="https://medium.com/construtor">Construtor</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
        </item>
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            <title><![CDATA[Novembro (i)]]></title>
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            <category><![CDATA[infância]]></category>
            <category><![CDATA[racismo]]></category>
            <category><![CDATA[consciência-negra]]></category>
            <category><![CDATA[crônicas]]></category>
            <category><![CDATA[negritude]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Glauber Cruz]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 11 Nov 2017 00:23:17 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-11-11T00:31:09.097Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*KLHxmENVbF8MQ1Zjwjl2eQ.jpeg" /></figure><blockquote><strong>Ain’t got no home, ain’t got no shoes</strong></blockquote><blockquote><strong>Ain’t got no money, ain’t got no class</strong></blockquote><blockquote><strong>Ain’t got no skirts, ain’t got no sweater</strong></blockquote><blockquote><strong>Ain’t got no perfume, ain’t got no love</strong></blockquote><blockquote><strong>Ain’t got no faith</strong></blockquote><p><strong><em>Negro.</em></strong></p><p>Essa foi a primeira certeza que perpassou a minha vida. Antes de saber que eu era gay (muito cedo), antes de saber que não gostava de meu pai (também muito cedo) eu já sabia que era negro. Minha mãe sempre me falou, mesmo sem falar. O meio no qual nasci sempre me falou, mesmo sem falar. Os professores, os amigos e a rua sempre me falaram, mesmo sem falar.</p><p>Em 24 anos de vida, nunca uma boca branca me chamou de macaco. Nenhuma mão branca interrompeu o meu caminhar em nenhum espaço. A minha relação com o racismo sempre se pautou daquela forma sorrateira e disfarçada. Aquele olhar que vai do alto da minha testa até a ponta dos meus pés; aquele discreto torcer de pescoço, seguido automaticamente de uma preocupação irrefreável com bolsas e mochilas; aquele atravessar de rua pra garantir. <em>Vai que né…</em></p><p>Cresci cercado por isso. Esse silêncio que fala tanto e às vezes até mais que um grito. Nascemos assim. Frutos de ventres parideiros, “mais resistentes”, portanto não tão dignos de maiores cuidados. Crescemos assim, entre silêncios, gestos, palavras e olhares embebidos numa violência profunda. Enraizada. Crescemos assim, violentados. Essa é a nossa pedra fundamental.</p><p>Quem não tem a pele negra não sabe o quão difícil é ser criança.</p><p>Dói. Dói muito. Não dói tanto quanto uma chicotada que arranca pele e carne num estalo só. Tampouco é tão agoniante quanto ser jogado numa tumba no meio do mar, navegando no horror rumo a um horror ainda maior (trezentos anos de horror). Não é uma dor física, portanto para muitos não é digna de maiores preocupações. Ainda assim dói. Ainda assim nos tira do eixo. E se você não tem um alicerce resistente, uma estrutura firme que pelo menos tente lhe colocar de volta no eixo, seguimos por um único caminho viável, ouvindo no fundo de nossos ouvidos o eco de vidas que, mesmo há muito assassinadas, continuam definindo o nosso hoje.</p><p>O problema é que são poucos os que possuem essa estrutura, esse alicerce. Pelo menos nesses meus curtos anos de vida eu conheci muito poucos que tinham as duas coisas: a pele preta e uma sólida estrutura familiar. Parece que em algum momento da história alguém assinou um documento que devemos escolher ou um ou outro. Deve ser coisa da Princesa Isabel.</p><blockquote><strong>Ain’t got no culture, ain’t got no mother</strong></blockquote><blockquote><strong>Ain’t got no father, ain’t got no brother</strong></blockquote><blockquote><strong>Ain’t got no children, ain’t got no aunts</strong></blockquote><blockquote><strong>Ain’t got no uncles, ain’t got no love</strong></blockquote><blockquote><strong>Ain’t got no mind</strong></blockquote><p>Estrutura familiar, na minha pouco madura concepção, dentre tantos aspectos, se baseia principalmente em dois: sólidas condições financeiras e emocionais. Bom, dinheiro sempre nos foi negado. Uma vez que o subemprego mal remunerado nos foi definido como opção primária (e muitas vezes única), construir uma base financeiramente concreta sempre foi difícil. Foi difícil com os histéricos generais militares, foi difícil com Sarney, com Collor, com FHC, foi um pouco menos difícil com Lula e Dilma e voltou a ser penoso com Michel Fora Temer. Mas sempre foi assim: difícil. Pensar em dinheiro pra mim sempre foi doloroso porquê eu sempre via (e ainda vejo) ele como a forma de ter o mínimo. Como podemos ter o mínimo se quando aos meios de obter esse mínimo também são assim, mínimos? Não lembro de nenhuma ocasião em que qualquer evento que fugisse da banalidade do dia-a-dia em minha casa não fosse carregado de uma preocupação extrema de <em>como vamos fazer isso?</em> Festas no colégio, lanches com os amigos, viagens escolares. Nada disso foi, na minha infância, tranquilo.</p><p>E se sobreviver até o fim do mês já é uma batalha, imagina construir uma base sólida de amor, carinho e ternura.</p><p><em>Amor? Carinho? Ternura?</em></p><p>Minha mãe nunca me disse <em>“eu te amo”</em>. Eu sei, assim como sei que o Brasil é um país racista e assim como sei que sou negro, que minha mãe me ama. Eu nunca disse <em>“eu te amo”</em> para minha mãe, ou para meu irmão, mesmo tendo a certeza de que o sentimento que tenho pelo dois é a única coisa que seja inabalável em minha vida. Óbvio que esse meu estranhamento na ausência do falar acusa a obsessão que temos na verbalização das coisas, na necessidade de submeter nossos sentimentos a holofotes intimamente públicos. A questão é que a nossa raça determina de uma forma bem rígida quem consegue e quem não consegue fazer isso. A questão é que nem minha mãe, nem eu, nem meu irmão, nem meus avós fomos ensinados a dizer que amamos. Não fomos ensinados a ver a importância dos sentimentos que nutrimos, o quanto eles falam sobre nós e para nós. Penso no dia em que falei para minha que eu era um homem que sentia afeto por outros homens. Penso em como foi difícil falar, falar de amor, falar de sentimentos. Penso também na conversa que nunca tivemos depois daquele dia. Sobre os meus sentimentos, sobre os sentimentos dela.</p><p>Parece uma coisa completamente descompensada de se falar na sociedade de romances brancos da literatura, do cinema e da televisão na qual vivemos. Mas é real. Cru e real. E é também uma questão de tempo. De falta de tempo. Não temos tempo de demonstrar afeto, de pensar em afetividade. Afinal, nós precisamos correr contra o tempo. Precisamos correr contra tudo e contra todos o tempo todo para chegar ao fim do dia. Temos que enfrentar o Estado, o patrão, a patroa, o dono do armazém que vende fiado, a polícia. Minha mãe nunca me olhou e disse <em>“eu te amo”</em> porque trabalha em dois empregos e quando chega em casa senta cansada pensando em como ela vai fazer para juntar dinheiro para enfim terminar o banheiro que há dezessete anos ela começou e ainda não conseguiu terminar; ou quanto vai mandar para o filho que estuda fora passar o final de semana uma vez que também precisam ela mesma e o outro filho passar o final de semana; ou como vai fazer para, um dia, talvez, viajar e descansar. Coisa que ela nunca fez depois que eu acordei para o mundo, há mais de vinte anos atrás.</p><blockquote><strong>Then what have I got?</strong></blockquote><blockquote><strong>Why am I alive anyway?</strong></blockquote><blockquote><strong>Yeah, what have I got</strong></blockquote><blockquote><strong>Nobody can take away</strong></blockquote><p>Eu suspiro aliviado quando penso que há, sim, algumas famílias negras que conseguiram essa estrutura, financeira e emocional. Mas meu corpo fica retesado quando penso que a exceção não faz a regra. E sem essa estrutura, somos jogados em uma sociedade maliciosamente racista, que com uma mão lhe dá tapinhas amigos nas costas enquanto que com a outra lhe extermina com um tiro no crânio ao som de um coro estúpido que exalta um imaginário democrático-colorido-animado-e-receptivo Brasil.</p><p>Sem estrutura e afogados em uma sociedade tóxica, nos odiamos. O direito de uma infância plena é anulado pelo ódio que criamos por nós mesmos. Penso em mim e penso também na criatura que criei dentro de mim. Uma criatura que pouco a pouco foi me mutilando. Arranca o cabelo. Arranca o nariz. Arranca a boca. <em>Tira isso de mim! Eu não quero isso em mim!</em> As minhas primeiras incursões no Photoshop se basearam na busca da ferramenta que diminuía as coisas. <em>Quero diminuir a minha boca</em>. Somos educados a nos odiar. Não somos incentivados a exterminar essa criatura que cresce dentro de nossos pequenos corpos pretos de criança. Nem eu, nem minha mãe, nem minha vó, nem meu avô. Não aprendemos. Não ensinamos. Não aprendemos a ensinar. E ela vai crescendo, essa criatura que não nos destroi apenas fisicamente, mas também internamente, sussurrando que não podemos, que não conseguiremos por sermos o que somos. <strong><em>Negros.</em></strong></p><p>E é tudo parte de um plano muito bem bolado por um racismo que é estrutural e estruturante. Os destrua. Física e mentalmente, mãe após mãe, filho após filho, geração após geração. Liquide essas crianças que são pretas, sementes de adultos também pretos. Aqui, na miscigenada e feliz terra brasilis, quando se trata de negros, a palavra de ordem é exterminar. Não importa como.</p><p><em>Ex-ter-mi-ne.</em></p><blockquote><strong>I got my heart, I got my soul</strong></blockquote><blockquote><strong>I got my back, I got my sex</strong></blockquote><blockquote><strong>I got my arms, I got my hands</strong></blockquote><blockquote><strong>I got my fingers, got my legs</strong></blockquote><blockquote><strong>I got my feet, I got my toes</strong></blockquote><blockquote><strong>I got my liver, got my blood</strong></blockquote><p>Em 24 anos de vida, nunca uma boca branca me chamou de macaco. Mas eu cresci mutilando a mim mesmo, aprendendo que por ser negro eu era menor. Aprendendo na rua, aprendendo na escola, aprendendo na minha vila, aprendendo na minha casa. O diabo se acomoda nos detalhes.</p><p>Cresci entre olhares silenciosos que diziam tudo, principalmente que eu deveria fazer um esforço dobrado, triplicado, quadruplicado e além para fazer o mesmo que as outras crianças. <strong><em>Brancas.</em></strong></p><p>Cresci assim, sem me ver em lugar nenhum. Na década de 1990 o Lázaro Ramos ainda não era da Globo. Autoestima arruinada, me sentindo deslocado e incapaz para tudo, eu fui seguindo num processo que é lento ao mesmo tempo que é rápido. Nossa infância parece um sopro. Um sopro que dói. Nesse processo tive contato com ideias, pessoas, conversas, debates. E nessa passabilidade por espaços e discursos diferentes, que rompiam com uma estrutura que por tanto séculos aprisionou a mim, a minha mãe, aos meus avós, aos avós de meus avós. Comecei a ressignificar a palavra que sempre conheci. A palavra que me marcava e me definia. Que me marca e me define.</p><p><strong><em>Negro.</em></strong></p><blockquote><strong>I’ve got the life</strong></blockquote><blockquote><strong>And I’m gonna keep it</strong></blockquote><blockquote><strong>I’ve got the life</strong></blockquote><blockquote><strong>And nobody’s gonna take it away</strong></blockquote><blockquote><strong>I’ve got the life</strong></blockquote><p><em>Trechos da música “Ain’t Got No/I Got Life” de Nina Simone</em></p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=20a05abdca69" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/construtor/novembro-i-20a05abdca69">Novembro (i)</a> was originally published in <a href="https://medium.com/construtor">Construtor</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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            <title><![CDATA[Um dragão na minha infância]]></title>
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            <category><![CDATA[12-de-outubro]]></category>
            <category><![CDATA[infância]]></category>
            <category><![CDATA[porto-alegre]]></category>
            <category><![CDATA[crônicas]]></category>
            <dc:creator><![CDATA[Glauber Cruz]]></dc:creator>
            <pubDate>Sat, 21 Oct 2017 16:58:19 GMT</pubDate>
            <atom:updated>2017-10-23T13:54:24.135Z</atom:updated>
            <content:encoded><![CDATA[<figure><img alt="" src="https://cdn-images-1.medium.com/max/1024/1*k8lk167LvJwzfNeDayNjbQ.jpeg" /><figcaption>foto de Mãe</figcaption></figure><p>Eu vejo um dragão.</p><p>Ele olha de volta com seus olhos de bronze, cheios de um vazio frio, com os dentes arreganhados numa fúria petrificada desde muito antes de mim. Eu, dentro de calças largas com joelheiras pretas, não consigo encará-lo no fundo de sua fúria. O enxergo de forma periférica, enquanto meu olhar anda em linha reta na direção de minha mãe. Lembranças de um dia de sol, há muito passado.</p><p>Da minha infância eu não lembro muito, apenas as linhas gerais. Lembro que foi a época em que conheci a solidão presente em seu vazio — talvez mais presente e mais vazia na minha vida de criança. Lembro do uniforme vermelho da minha pré-escola, lembro do borrão de uma figura paterna hoje já apagada e lembro de minha mãe. Lembro do seu rosto mais magro e do seu calor que já naquela época era muito confortante. As poucas fotos que tenho daquela época que eu era mais baixinho não me ajudam muito a escavar meu passado. Vejo balões, poses, sorrisos ensaiados, bolos envolvidos por merengue e encimados por velas coloridas que me situam no tempo. Mas só. Elas me dizem muito ao mesmo tempo que me dizem nada.</p><p>Nesse fluxo de esquecimento, uma foto nada contra a maré. O registro de um passeio na Porto Alegre dos anos 1990, no qual eu talvez já guardasse no fundo do peito o amor pela rua e por andar na rua, e que terminou com a ideia da mãe de gravar o meu encontro com o ilustre jornalista Júlio de Castilhos, na Praça da Matriz. Naquela época eu não sabia o que era o positivismo, mas sabia muito bem o que era o medo causado pelo dragão que encarava Júlio e eu.</p><p>Na verdade, todo aquele conjunto de figuras de olhos escuros e vagos do monumento a Júlio de Castilhos me dava medo. Mas para eles eu dava as costas, o que eu não podia fazer para o dragão. Ele estava ali, na minha frente, entre a mãe e eu, me encarando daquele jeito medonho. Como que sabendo que, no futuro, aquela foto me incentivaria a pensar nos dragões de minha existência, a mãe insistiu para que eu posasse para a foto e, vendo que já naquela época eu não era dado ao perfil de herói valente que enfrenta os medos sem pestanejar, pediu para o Moço de Óculos Escuros que passava por ali no momento ficar próximo de mim. A sua missão era simples: se o dragão alçasse voo na minha direção, ele deveria dar um jeito de manter intacta a minha integridade de criança vestida em calças largas com joelheiras pretas.</p><p>Foi um trabalho fácil para ele no fim das contas, já que o dragão de bronze não voou. Apenas quedou na sua ira faminta à qual fora condenado quando construído<strong>.</strong> A mãe fez o registro (levemente desfocado) e alguns muitos anos depois eu olho a foto e penso que até os medos de infância pouco memorizada eram melhores. No mundo de medos adultos que permeiam a vida que vem depois dos vinte anos, os dentes arreganhados do dragão da Praça da Matriz parecem formar um esquisito e sincero sorriso de amigo que reencontra outro amigo. Suas asas parecem braços abertos em um abraço de conforto e sua cauda sei lá o que parece, só sei que é algo encaracoladamente mais suave que a cauda dos dragões de hoje. Os dragões do cotidiano.</p><p>Pense no futuro, ganhe dinheiro, seja produtivo, seja eficiente — não apenas eficiente, mas muito eficiente. Não tenha apenas um único talento — seja multifacetado, isso é muito importante: <strong><em>multifacetado</em></strong><em> </em>em negrito e itálico . Seja bonito, se vista bem, tenha uma boa alimentação — salada, coma salada, não esqueça da salada pelo amor de qualquer deus. Seja popular, todos devem te amar, abrace a todos, conheça a todos, seja feliz para todos. Não se esqueça de ser promissor, estar na chefia aos 27 anos é um ótimo começo. Ignore, ignore as bobagens, ignore as pessoas que não te rendem algo, pense alto, voe! Seja o orgulho da família, o primeiro a isso, ou mesmo o primeiro a aquilo; esteja encaixado em um quebra-cabeça com um número sem fim de peças, tão grande que cause inveja. Seja jovem, sempre jovem, cada vez mais jovem e empreendedor é claro. Se você for jovem e empreendedor nada vai te parar, você vai cuspir fogo nos problemas, você não vai temer o dragão, você vai ser o dragão!</p><p>Mas não o dragão do Júlio, um outro dragão, esse parido pelo mundo pós vinte anos, furioso e insensível como ele. Quando paro e penso que não me encaixo nesse mundo, que sou, como Vitor Ramil canta, viajante de um caminho extinto, e que ao menos tenho a mãe ou um Moço de Óculos Escuros imediatamente próximos para me resgatar dos apuros, eu saio para caminhar. A rua me conforta e não raro eu vou na direção da Praça da Matriz, onde me sento perto do dragão que há tanto tempo eu conheci. É quase como rever um amigo. Ali sentado encaro os dragões da infância para esquecer os dragões do presente e do futuro.</p><img src="https://medium.com/_/stat?event=post.clientViewed&referrerSource=full_rss&postId=538aacb6df67" width="1" height="1" alt=""><hr><p><a href="https://medium.com/construtor/um-drag%C3%A3o-na-minha-inf%C3%A2ncia-538aacb6df67">Um dragão na minha infância</a> was originally published in <a href="https://medium.com/construtor">Construtor</a> on Medium, where people are continuing the conversation by highlighting and responding to this story.</p>]]></content:encoded>
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